{"id":18178,"date":"2007-04-13T15:48:46","date_gmt":"2007-04-13T15:48:46","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18178"},"modified":"2007-04-13T15:48:46","modified_gmt":"2007-04-13T15:48:46","slug":"jornalistas-sofrem-perseguicoes-na-tv-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18178","title":{"rendered":"Jornalistas sofrem persegui\u00e7\u00f5es na TV Globo"},"content":{"rendered":"<p><span>Avenida das Na&ccedil;&otilde;es Unidas 13.301. Este &eacute; o endere&ccedil;o do novo distrito empresarial da Marginal Pinheiros, onde se encontra o Hotel Grand Hyatt S&atilde;o Paulo, um dos mais luxuosos da cidade. Se voc&ecirc; quiser dormir ali, ter&aacute; que desembolsar no m&iacute;nimo 600 reais. Por noite. Em compensa&ccedil;&atilde;o, dormir&aacute; ao lado de &quot;importantes centros empresariais, comerciais e financeiros, al&eacute;m dos Shoppings Morumbi, Market Place e D&amp;D&quot;, como informa a p&aacute;gina oficial do hotel na internet. H&aacute; outras vantagens. Por exemplo, n&atilde;o &eacute; preciso se hospedar na su&iacute;te diplom&aacute;tica (R$ 1.600,00 por noite) para desfrutar dos magn&iacute;ficos travesseiros &quot;king-size e edredons de pena de ganso, n&atilde;o al&eacute;rgicos&quot; ou da &quot;roupa de cama 100% algod&atilde;o eg&iacute;pcio&quot;. Eles est&atilde;o em todos os apartamentos. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Foi no Grand Hyatt que Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da TV Globo, decidiu se reunir em meados de mar&ccedil;o com editores do Jornal Nacional. O encontro-almo&ccedil;o foi realizado no Restaurante japon&ecirc;s Kinu, onde o pre&ccedil;o do rod&iacute;zio por pessoa fica em R$ 60,00. Seu folheto afirma que o &quot;restaurante Kinu oferece um ambiente em que predominam as cores e formas do oriente. Essa atmosfera de modernidade faz um contraponto com a cozinha de Yasuo Asai, chef japon&ecirc;s que procura reproduzir em suas cria&ccedil;&otilde;es a autenticidade da culin&aacute;ria japonesa tradicional. No Kinu, o sabor do Jap&atilde;o est&aacute; presente nos sushis e sashimis, nos pratos quentes e tamb&eacute;m no menu de sobremesas, todas sugest&otilde;es acompanhadas de uma carta de saqu&ecirc;s &uacute;nica no pa&iacute;s&quot;. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Entre um sushi e outro, Kamel deixou claro que seu objetivo era desanuviar o clima. Sempre de maneira muito polida, afirmou que a TV Globo &eacute; uma empresa democr&aacute;tica, pluralista e que nunca iria fazer jogo partid&aacute;rio. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O editor de economia do Jornal Nacional em SP, Marco Aur&eacute;lio Mello, estava presente. Ele havia sido um dos jornalistas a se recusar a assinar o abaixo-assinado preparado por Kamel com o objetivo de negar que a Globo havia tentado influenciar o resultado das elei&ccedil;&otilde;es. O jornalista, assim como outros que estiveram presentes &agrave; reuni&atilde;o, entendeu a atitude de Kamel como uma proposta de tr&eacute;gua. O diretor da Globo chegou a colocar seu endere&ccedil;o eletr&ocirc;nico &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o da equipe e incentivou que escrevessem sempre que tivessem alguma reclama&ccedil;&atilde;o. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>No dia 23 de mar&ccedil;o, Marco Aur&eacute;lio tomou um susto. O chefe de jornalismo em S&atilde;o Paulo, Luiz Cl&aacute;udio Latg&eacute;, avisou que ele estava demitido. Latg&eacute; teria dito que ap&oacute;s uma avalia&ccedil;&atilde;o interna de seu trabalho, concluiu-se que seu perfil n&atilde;o era mais compat&iacute;vel com a empresa. Funcion&aacute;rio da casa h&aacute; 12 anos, Marco Aur&eacute;lio Mello foi editor do Jornal Nacional durante quatro anos e do Jornal da Globo por outros tr&ecirc;s. Era ele quem ajudava a pautar Franklin Martins, que ficava em Bras&iacute;lia. <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>De acordo com um jornalista da TV Globo, que preferiu n&atilde;o se identificar, antes do primeiro turno das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais, Marco Aur&eacute;lio havia comentado que tinha recebido a orienta&ccedil;&atilde;o de que deveria &quot;pegar leve&quot; com os indicadores econ&ocirc;micos que pudessem ser interpretados como pr&oacute;-governo. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Estado de choque<br \/><\/strong><\/span><span>No dia seguinte &agrave; demiss&atilde;o, 24 de mar&ccedil;o, Marco Aur&eacute;lio foi internado &agrave;s pressas no Hospital Santa Casa de Vinhedo. Segundo um parente, ele estava em &quot;estado de choque devido &agrave; crueldade da demiss&atilde;o&quot;. Para piorar a situa&ccedil;&atilde;o, sua esposa estava gr&aacute;vida de nove meses e teria o beb&ecirc; em breve. Marco teve alta no mesmo dia, com a recomenda&ccedil;&atilde;o de manter repouso absoluto, sem se exaltar e sem se submeter a qualquer condi&ccedil;&atilde;o de estresse durante dez dias. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Na segunda-feira, dia 26 de mar&ccedil;o, escrevi um correio eletr&ocirc;nico para o chefe de jornalismo da TV Globo em S&atilde;o Paulo com as seguintes perguntas: &eacute; verdade que o jornalista Marco Aur&eacute;lio Mello foi demitido por &quot;n&atilde;o se adequar ao perfil da empresa&quot;? Se for verdade, qual seria o perfil da empresa? E se n&atilde;o for verdade, por qual motivo ele foi demitido? &Eacute; verdade que o Aur&eacute;lio era um dos jornalistas que n&atilde;o havia concordado em assinar o abaixo-assinado em defesa da cobertura das elei&ccedil;&otilde;es? &Eacute; verdade que h&aacute; um clima de medo entre alguns jornalistas da TV Globo em S&atilde;o Paulo? <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Primeiro, recebi uma resposta autom&aacute;tica: &quot;Estarei fora a partir deste s&aacute;bado, 24, e at&eacute; a pr&oacute;xima sexta-feira, 30, num curso da Funda&ccedil;&atilde;o Dom Cabral, em Belo Horizonte. Neste per&iacute;odo, a Cris Piasentini responde pela Reda&ccedil;&atilde;o&quot;. Em seguida, recebi uma liga&ccedil;&atilde;o da Central Globo de Comunica&ccedil;&atilde;o. Uma mo&ccedil;a muito gentil perguntou se eu havia solicitado informa&ccedil;&otilde;es sobre o Marco Aur&eacute;lio e eu repeti as perguntas. Ela disse que a &uacute;nica informa&ccedil;&atilde;o que foi passada a ela &eacute; que o jornalista foi demitido devido a mudan&ccedil;as operacionais e remanejamento interno da equipe. Insisti um pouco e ela acabou dizendo que a demiss&atilde;o teria acontecido porque a empresa abriu novas vagas. Eu disse que era estranho, porque se a empresa estava contratando, n&atilde;o deveria haver raz&atilde;o para demiss&otilde;es. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Cerca de uma hora depois, Luiz Cl&aacute;udio Latg&eacute; respondeu genericamente &agrave;s perguntas que eu havia enviado pelo correio eletr&ocirc;nico: &quot;O clima &eacute; &oacute;timo na Reda&ccedil;&atilde;o. O Aur&eacute;lio n&atilde;o foi o &uacute;nico a n&atilde;o assinar o documento. Outros n&atilde;o assinaram e continuam trabalhando normalmente e contamos com eles. Na reda&ccedil;&atilde;o, o clima &eacute; positivo, diante dos novos desafios propostos a v&aacute;rios profissionais a quem, por seus m&eacute;ritos, foram confiadas novas miss&otilde;es na Reda&ccedil;&atilde;o&quot;. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A vers&atilde;o de Latg&eacute; &eacute; contestada por mais de um funcion&aacute;rio da TV Globo de S&atilde;o Paulo. Estes insistem que h&aacute; um clima de medo na Reda&ccedil;&atilde;o, sobretudo entre aqueles que se recusaram a assinar o abaixo-assinado em defesa da empresa. H&aacute; quem fale em &quot;ca&ccedil;a &agrave;s bruxas&quot;. No mesmo dia em que Marco Aur&eacute;lio era internado, seu pai, tamb&eacute;m jornalista, divulgou uma carta de solidariedade em seu blogue: &quot;Um jornalista n&atilde;o pode se sujeitar a coa&ccedil;&atilde;o de assinar manifesto pol&iacute;tico, com o qual n&atilde;o concorda, ainda que perca sua vida. Da&iacute; a minha grande d&uacute;vida, nenhum emprego por mais valioso que seja, por mais amor que a ele se tenha, como voc&ecirc; tinha, pode ser mais valioso que a pr&oacute;pria vida, principal direito inalien&aacute;vel da pessoa humana. Parab&eacute;ns pela sua atitude&quot;. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Contextualizando<br \/><\/strong><\/span><span>Tudo come&ccedil;ou no dia 29 de setembro do ano passado. Na antev&eacute;spera das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais, um Boeing da Gol caiu e matou 154 pessoas. Foi o maior acidente da hist&oacute;ria da avia&ccedil;&atilde;o brasileira. Entretanto, o Jornal Nacional n&atilde;o divulgou a not&iacute;cia e reservou a maior parte de seu notici&aacute;rio &agrave; cobertura eleitoral, sendo 8 minutos para as not&iacute;cias sobre o ent&atilde;o famoso Dossi&ecirc;. O sentido das reportagens era claro: prejudicar a imagem do PT e favorecer a candidatura do PSDB. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A revista CartaCapital (18\/10\/2006), em reportagem assinada por Raimundo Pereira Rodrigues, registrou com detalhes a manobra do Jornal Nacional. Raimundo conta que a TV Globo foi beneficiada pelo delegado da Pol&iacute;cia Federal Edmilson Bruno, que preparou uma c&oacute;pia exclusiva do CD que continha as fotos do dinheiro que seria usado para comprar o Dossi&ecirc; e negociou a exibi&ccedil;&atilde;o do material no principal telejornal da Globo. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Ali Kamel escreveu uma resposta, publicada como mat&eacute;ria paga em CartaCapital e divulgada pelo Observat&oacute;rio da Imprensa. Outros ve&iacute;culos eletr&ocirc;nicos cobriram amplamente a quest&atilde;o e entre 358 coment&aacute;rios de internautas, apenas 21 defendiam Kamel enquanto 337 o criticavam. N&atilde;o satisfeito, o diretor-executivo de jornalismo da TV Globo fez circular um abaixo-assinado em defesa da cobertura da emissora entre os jornalistas da casa. Alguns se recusaram a assinar e outros solicitaram que seus nomes fossem retirados, ap&oacute;s perceberem o uso pol&iacute;tico que poderia ser feito do documento. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Fontes dentro da emissora revelam que no dia em que o abaixo-assinado circulou na reda&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Paulo, Marco Aur&eacute;lio tomou a iniciativa de ligar para o chefe de reda&ccedil;&atilde;o, Mariano Boni, pedindo que o nome dele e de outros colegas fossem retirados. Boni, ao sair da sala, teria desabafado diante de um grupo de funcion&aacute;rios: &quot;Quem n&atilde;o estiver contente que pegue o bon&eacute; e v&aacute; para a TV Record&quot;. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>No dia 19 de dezembro do ano passado, Rodrigo Vianna, rep&oacute;rter especial da TV Globo durante doze anos, foi o primeiro a receber a not&iacute;cia de que n&atilde;o teria seu contrato renovado. Em uma carta enviada aos colegas, Rodrigo afirmou que o clima estava insuport&aacute;vel. E denunciou que &quot;Nunca, nem na ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um jornalismo t&atilde;o centralizado, a tal ponto que os rep&oacute;rteres trabalham mais como bonecos de ventr&iacute;loquos, especialmente na cobertura pol&iacute;tica!&quot;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Sobre a cobertura das elei&ccedil;&otilde;es, ele confirmou a manipula&ccedil;&atilde;o dos chefes. &quot;Interven&ccedil;&atilde;o minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, &agrave; dist&acirc;ncia, por um personagem quase m&iacute;tico que paira sobre a Reda&ccedil;&atilde;o: &quot;o fulano (e voc&ecirc;s sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto&quot;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Luiz Cl&aacute;udio Latg&eacute; veio a p&uacute;blico responder a carta de Rodrigo. Em seu texto, ele tenta desqualificar o jornalista. Latg&eacute; escreve: &quot;Lamento que [Rodrigo] tenha perdido o equil&iacute;brio e tentado transformar um assunto funcional interno numa quest&atilde;o pol&iacute;tica, que jamais existiu. A confus&atilde;o de id&eacute;ias que o Rodrigo Vianna expressa deve ter raz&otilde;es pessoais e compromissos que n&atilde;o nos cabe julgar. Pe&ccedil;o desculpas aos colegas pelos ataques e ofensas por ele dirigidos&quot;. Em entrevista exclusiva ao Fazendo Media, Rodrigo conta que foi obrigado a pular a catraca eletr&ocirc;nica para poder sair da empresa. &quot;Parece coisa de senhor de engenho&quot;. Al&eacute;m disso, o ex-rep&oacute;rter da Globo conta dois epis&oacute;dios em que reportagens suas foram censuradas. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>No mesmo per&iacute;odo, o comentarista Franklin Martins foi afastado da TV Globo. Durante o per&iacute;odo eleitoral, o jornalista demonstrou equil&iacute;brio em seus coment&aacute;rios e se recusou a repetir o coro da maioria dos comentaristas, na linha &quot;o PT inventou a corrup&ccedil;&atilde;o no Brasil&quot;. Antes de sair de f&eacute;rias, Franklin fora avisado que estava tudo bem, que ele poderia ir tranq&uuml;ilo. Havia a preocupa&ccedil;&atilde;o com dois textos publicados contra ele por Diogo Mainardi, na revista Veja. Quando Franklin voltou, recebeu a not&iacute;cia de que seu contrato n&atilde;o seria renovado. Em entrevista &agrave; Caros Amigos, ele descreveu o momento da seguinte maneira: <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;&Oacute;, Franklin, n&oacute;s fizemos uma pesquisa qualitativa muito grande, v&aacute;rios grupos aqui, todos os jornais, todos os telejornais, todos os &acirc;ncoras, os comentaristas e tivemos uma surpresa: a sua imagem diante do telespectador &eacute; fraca&quot;. Eu olhei: &quot;Como &eacute; que &eacute;?&quot; &quot;&Eacute;, sua imagem &eacute; fraca.&quot; [&#8230;] me estenderam um papelzinho que tinha uma foto minha e cinco t&oacute;picos do que a qualitativa tinha dito a meu respeito. A primeira era assim: &quot;Alguns entrevistados n&atilde;o souberam dizer quem era&quot;. A outra dizia: &quot;Fala sobre as coisas da pol&iacute;tica, as coisas de Bras&iacute;lia&quot;. Terceiro: &quot;D&aacute; menos opini&atilde;o e mais informa&ccedil;&atilde;o&quot; &#8211; o que considero um extraordin&aacute;rio reconhecimento do que eu quero fazer como profissional. Quarto: &quot;Faz coment&aacute;rios muito equilibrados&quot; &#8211; a mesma coisa. E eu digo: &quot;Bom, e a&iacute;?&quot; &quot;E a&iacute; n&oacute;s pensamos melhor, eu pensei melhor, e decidi n&atilde;o renovar o seu contrato.&quot; Eu digo: &quot;Espera a&iacute;, conta outra!&quot; &quot;N&atilde;o, n&atilde;o, &eacute; isso.&quot; &quot;&Oacute;, fulano (pede que n&atilde;o coloquemos o nome), eu sa&iacute; de f&eacute;rias voc&ecirc; dizendo que minha posi&ccedil;&atilde;o &eacute; consolidada; agora voc&ecirc; diz que saiu numa pesquisa uma coisa assim, todo mundo vai achar evidentemente que tem alguma coisa a ver com o Diogo Mainardi. Tem alguma coisa a ver com isso?&quot; &quot;Eu sou perempt&oacute;rio, n&atilde;o tem nada a ver com isso.&quot; &quot;Mas todo mundo vai achar que tem, e a&iacute;?&quot; &quot;N&atilde;o, n&atilde;o.&quot; A&iacute; eu olhei: &quot;Ent&atilde;o n&atilde;o h&aacute; o que discutir, mas &eacute; o seguinte: tenho o Fatos e Vers&otilde;es pra gravar amanh&atilde;, como &eacute; que faz?&quot; &quot;N&atilde;o, voc&ecirc; n&atilde;o precisa gravar mais nada na TV Globo.&quot; &quot;Est&aacute; vendo, &eacute; alguma coisa diferente de a minha imagem estar fraca, porque, se minha imagem estivesse fraca, talvez voc&ecirc; tivesse dito: &#39;Voc&ecirc; n&atilde;o quer ficar na Globo News, fazer alguma coisa?&#39; N&atilde;o, alguma coisa aconteceu que eu n&atilde;o sei o que &eacute; e voc&ecirc; n&atilde;o quer me dizer, e acho que devia me dizer.&quot; &quot;N&atilde;o, n&atilde;o.&quot; &quot;Ent&atilde;o est&aacute; bom&quot;. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Outro que n&atilde;o ratificou a posi&ccedil;&atilde;o da emissora foi o rep&oacute;rter Carlos Dornelles, que pediu para n&atilde;o cobrir pol&iacute;tica em 2006 porque j&aacute; havia entrado em conflito com Ali Kamel, de acordo com funcion&aacute;rios da empresa. Em outubro, Dornelles concedeu uma entrevista no Rio Grande do Sul afirmando que &quot;os bar&otilde;es da imprensa deveriam ser investigados&quot;. Em virtude de sua afirma&ccedil;&atilde;o, ele teria sido chamado por Latg&eacute; para se explicar. Como n&atilde;o recuou, foi deslocado para o Globo Rural. Outro rep&oacute;rter teria dito para Latg&eacute;, na frente de outras pessoas, que a cobertura da Globo estava vergonhosa. Foi colocado na &quot;geladeira&quot;. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A emissora vem adotando basicamente duas t&aacute;ticas para remover de seus quadros os jornalistas que n&atilde;o concordam com sua linha editorial. Uma &eacute; a desqualifica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica via terceiros, seguida de uma justificativa do tipo &quot;sua imagem n&atilde;o est&aacute; boa junto ao p&uacute;blico&quot;. A segunda t&aacute;tica &eacute; garantir ao demission&aacute;rio que est&aacute; tudo bem, que ele n&atilde;o ser&aacute; demitido. A pessoa se tranq&uuml;iliza, continua a produzir normalmente e se sente segura para mostrar sua maneira de pensar &#8211; o que certamente ser&aacute; observado pelos chefes. Ap&oacute;s esse relaxamento, quando a not&iacute;cia chega, a pessoa fica sem rea&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o consegue articular uma defesa. N&atilde;o &eacute; raro que entre em estado de choque e, conforme sua estrutura psicol&oacute;gica, pode cair em depress&atilde;o. S&atilde;o rar&iacute;ssimas as atitudes como a de Rodrigo Vianna, que conseguiu colocar o pensamento em ordem e divulgar uma carta revelando as manipula&ccedil;&otilde;es na cobertura eleitoral da TV Globo. Sua defesa, articulada, causou grande desgaste &agrave; imagem da emissora. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Assim como em 1982, durante as elei&ccedil;&otilde;es para o governo do RJ, e em 1989, para a presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, a Rede Globo usou sua for&ccedil;a pol&iacute;tica para influenciar o resultado de um processo eleitoral. O que na &eacute;poca foi denunciado por observadores externos, agora se confirma a partir da entrevista com Rodrigo Vianna, al&eacute;m de depoimentos de funcion&aacute;rios assustados e demiss&otilde;es de jornalistas que manifestaram sua discord&acirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; linha adotada pela Globo na cobertura eleitoral. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>As demiss&otilde;es podem at&eacute; ser discutidas a partir do car&aacute;ter privado da empresa. Mas este n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico. A Globo n&atilde;o &eacute; apenas uma empresa privada. &Eacute; uma empresa privada que opera uma concess&atilde;o p&uacute;blica e, como tal, deve estar subordinada ao controle p&uacute;blico. Al&eacute;m disso, a informa&ccedil;&atilde;o &eacute; um bem p&uacute;blico e n&atilde;o pode sofrer clivagens de mercado ou ideol&oacute;gicas. Sobre as rela&ccedil;&otilde;es trabalhistas, cabe aos &oacute;rg&atilde;os competentes &#8211; Minist&eacute;rio P&uacute;blico, Minist&eacute;rio do Trabalho, Justi&ccedil;a do Trabalho &#8211; verificar esses contratos de Pessoa Jur&iacute;dica cada vez mais utilizados pelas emissoras privadas para fugir dos encargos trabalhistas. O poder p&uacute;blico deve coibir e multar as empresas que fazem uso deste recurso, o que acaba mantendo os funcion&aacute;rios sob tens&atilde;o a cada renova&ccedil;&atilde;o de contrato. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A quest&atilde;o trabalhista da TV Globo esbarra no problema central da televis&atilde;o aberta brasileira. Trata-se da exist&ecirc;ncia de um oligop&oacute;lio composto por seis grupos privados que controlam todo o conte&uacute;do produzido e distribu&iacute;do num pa&iacute;s com 190 milh&otilde;es de pessoas. Al&eacute;m de contrariar o artigo 220 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, &eacute; sabido que nenhum setor concentrado desta forma pode oferecer uma quantidade satisfat&oacute;ria de empregos ou estabilidade para os funcion&aacute;rios. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>H&aacute; tamb&eacute;m um outro aspecto a ser levado em considera&ccedil;&atilde;o, que diz respeito ao car&aacute;ter do setor. As empresas de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o como as ind&uacute;strias de autom&oacute;vel, ferro, carv&atilde;o ou petr&oacute;leo. Al&eacute;m de produzirem bens tang&iacute;veis, que podem ser comercializados (novelas, filmes, esportes, carnaval, etc.), esses artigos possuem um capital subjetivo poderos&iacute;ssimo. T&atilde;o poderoso que conferem a seus detentores a responsabilidade por transmitir formas de sentir, pensar e viver a cada indiv&iacute;duo e, conseq&uuml;entemente, lhes garante o poder de interferir em toda a sociedade. Assim, tanto &eacute; poss&iacute;vel legitimar editorialmente genoc&iacute;dios quanto erradicar o analfabetismo. S&oacute; depende do uso que se faz dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e, em especial, da televis&atilde;o. <\/span><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Como disse Eug&ecirc;nio Bucci, no livro Brasil em tempo de TV, p&aacute;gina 17: &quot;O que temos hoje no Brasil, na era da globaliza&ccedil;&atilde;o, &eacute; ainda o produto daquele velho projeto autorit&aacute;rio: a gente brasileira, condenada &agrave; desigualdade, com a pior distribui&ccedil;&atilde;o de renda do mundo, &eacute; o pa&iacute;s que vibra unido na integra&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria: na Copa do Mundo, no final da novela, na morte do &iacute;dolo do automobilismo, na &#39;festa c&iacute;vica&#39; das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais. N&atilde;o por acaso, todos esses momentos de confraterniza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o espet&aacute;culos de TV&quot;. <\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><span>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 23 de mar\u00e7o, Marco Aur\u00e9lio tomou um susto. O chefe de jornalismo em S\u00e3o Paulo, Luiz Cl\u00e1udio Latg\u00e9, avisou que ele estava demitido. Latg\u00e9 teria dito que ap\u00f3s uma avalia\u00e7\u00e3o de seu trabalho, concluiu-se que seu perfil n\u00e3o era mais compat\u00edvel com a empresa.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[130],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18178"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18178"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18178\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}