{"id":18167,"date":"2007-04-11T17:06:09","date_gmt":"2007-04-11T17:06:09","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18167"},"modified":"2007-04-11T17:06:09","modified_gmt":"2007-04-11T17:06:09","slug":"a-forma-gloriosa-da-noticia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18167","title":{"rendered":"A forma gloriosa da not\u00edcia"},"content":{"rendered":"<p>N&atilde;o &eacute; raro perguntar-se, entre os observadores que avaliam as novas tecnologias e sistemas informativos usados nas reda&ccedil;&otilde;es dos jornais, que mudan&ccedil;a estaria reservada para a velha forma de relato do acontecimento denominada &quot;not&iacute;cia&quot;. <\/p>\n<p>Como bem se sabe h&aacute; mais de 200 anos, essa forma, razoavelmente simples, guarda a &quot;ess&ecirc;ncia&quot; da atividade jornal&iacute;stica porque, como uma esp&eacute;cie de retrato &quot;tr&ecirc;s por quatro&quot; do acontecimento, ela acena com a bandeira de uma pequena verdade real-hist&oacute;rica, garantida pela presun&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica da objetividade. De fato, em sua pr&aacute;tica profissional e mesmo em seus eventuais posicionamentos doutrin&aacute;rios, os jornalistas costumam apoiar-se na presun&ccedil;&atilde;o de que expressam a verdade do cotidiano ou da vida social imediata.<\/p>\n<p>&quot;Verdade&quot; &eacute; ent&atilde;o entendida do modo mais familiar ao senso comum, que &eacute; a no&ccedil;&atilde;o da correspond&ecirc;ncia do enunciado aos fatos do mundo: &quot;S &eacute; verdadeiro se S corresponde a um fato&quot;. Assim, a not&iacute;cia &quot;o homem mordeu cachorro&quot; &eacute; verdadeira se um homem efetivamente mordeu um cachorro. Os l&oacute;gicos e os fil&oacute;sofos da linguagem n&atilde;o se cansam de demonstrar que a no&ccedil;&atilde;o correspondentista n&atilde;o funciona em muitos casos.<\/p>\n<p><strong>Aprofundamento da informa&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Mas a partir deles pr&oacute;prios &eacute; poss&iacute;vel salvar para o jornalismo uma defini&ccedil;&atilde;o de verdade, desde que vinculada ao humano: &quot;[as teorias desses l&oacute;gicos] t&ecirc;m o m&eacute;rito de relacionar o conceito de verdade aos interesses humanos, como linguagem, cren&ccedil;a, pensamento e a&ccedil;&atilde;o intencional, e essas conex&otilde;es &eacute; que tornam a verdade a chave de como a mente apreende o mundo&quot;, diz o scholar norte-americano Donald Davidson, uma verdadeira celebridade entre os pesquisadores da filosofia anal&iacute;tica. <\/p>\n<p>A credibilidade junto ao p&uacute;blico leitor comum sustenta o conhecimento jornal&iacute;stico, n&atilde;o com a garantia da verdade l&oacute;gica, e sim com a cau&ccedil;&atilde;o da veracidade, entendida como um apego ou uma inclina&ccedil;&atilde;o para a verdade consensualmente estabelecida em torno do fato. O aprofundamento das verdades costuma ser atribu&iacute;do de prefer&ecirc;ncia ao conhecimento sistem&aacute;tico, que &eacute; o tipo de saber produzido pela ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O conhecimento jornal&iacute;stico n&atilde;o &eacute; sistem&aacute;tico, claro. Mas um conhecimento dessa ordem, mesmo sem conex&otilde;es l&oacute;gicas de conceitos e express&otilde;es, pode comportar graus diferentes de aprofundamento de um fato, a exemplo do jornalismo. &Eacute; que s&atilde;o v&aacute;rios os n&iacute;veis de significa&ccedil;&atilde;o poss&iacute;veis de um fato: a escolha do n&iacute;vel superficial ou do profundo depende do sistema de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento a ele pertinente. <\/p>\n<p>Ainda na primeira metade do s&eacute;culo passado, o jornalista e soci&oacute;logo norte-americano Robert Ezra Park, membro da Escola de Chicago, divisava dois tipos de conhecimento na not&iacute;cia, a saber, acquaintance with (&quot;familiaridade com&quot;) e knowledge about (&quot;saber sobre&quot;), distinguindo um do outro pelo maior grau de profundidade: o segundo &eacute; mais sistem&aacute;tico ou anal&iacute;tico, enquanto o primeiro &eacute; n&atilde;o-sistem&aacute;tico, fragment&aacute;rio e comunitariamente partilhado em maior extens&atilde;o. <\/p>\n<p>Pois bem, hoje s&atilde;o v&aacute;rios os que se aventuram a fazer progn&oacute;sticos sobre o futuro da forma noticiosa, apostando na id&eacute;ia do &quot;saber sobre&quot;, isto &eacute;, no aprofundamento da informa&ccedil;&atilde;o rumo &agrave; complexidade do fato.<\/p>\n<p><strong>Verdade consensual<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o raro, por&eacute;m, a simplicidade da not&iacute;cia ainda oferece hoje boas li&ccedil;&otilde;es de jornalismo. Um exemplo recente &eacute; o notici&aacute;rio dos grandes jornais cariocas e paulistas sobre a recep&ccedil;&atilde;o calorosa dada por pol&iacute;ticos de todos os partidos ao senador Fernando Collor em seu retorno triunfal &agrave;s hostes parlamentares. Com exce&ccedil;&atilde;o do senador Pedro Simon, que reavivou na tribuna do Senado a mem&oacute;ria das circunst&acirc;ncias da cassa&ccedil;&atilde;o de Collor, todo o resto pautou-se pela &quot;lavagem&quot; do passado. Lava-se dinheiro, por que n&atilde;o Hist&oacute;ria?<\/p>\n<p>A atitude da imprensa pareceu-nos correta. Registrou o discurso do ex-presidente com todas suas denega&ccedil;&otilde;es dos fatos e suas alega&ccedil;&otilde;es de inoc&ecirc;ncia. Deu conta igualmente de todas as efus&otilde;es ao redor do rec&eacute;m-chegado ao Senado. E, de sua parte, em vez de opini&otilde;es ou coment&aacute;rios, limitou-se a editar uma retranca em que rememorava a verdade publicamente consensual dos fatos passados. Sem aprofundamento sistem&aacute;tico, sem opini&otilde;es, a forma noticiosa que reapresentava o hist&oacute;rico do senador foi bastante, em sua simplicidade &quot;cortante&quot;, para fazer pensar sobre a realidade penosa da pol&iacute;tica. <\/p>\n<p>Um ponto glorioso para a velha objetividade da not&iacute;cia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 22px\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido.png\" alt=\"Active Image\" width=\"22\" height=\"21\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o &eacute; raro perguntar-se, entre os observadores que avaliam as novas tecnologias e sistemas informativos usados nas reda&ccedil;&otilde;es dos jornais, que mudan&ccedil;a estaria reservada para a velha forma de relato do acontecimento denominada &quot;not&iacute;cia&quot;. 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