{"id":18160,"date":"2007-04-11T15:20:23","date_gmt":"2007-04-11T15:20:23","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18160"},"modified":"2007-04-11T15:20:23","modified_gmt":"2007-04-11T15:20:23","slug":"fiscais-da-baixaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18160","title":{"rendered":"Fiscais da baixaria"},"content":{"rendered":"<p><em>Encarregados de fazer a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa, estudantes, cin&eacute;filos e at&eacute; m&atilde;es nem de longe lembram os censores da ditadura.<\/em><\/p>\n<p>&Eacute; um bicho-de-sete-cabe&ccedil;as. Os cortes e proibi&ccedil;&otilde;es que marcaram a censura no regime militar, em nome do &ldquo;combate &agrave; subvers&atilde;o e &agrave; imoralidade&rdquo;, est&atilde;o extintos h&aacute; quase duas d&eacute;cadas. Hoje, todos podem ver a &iacute;ntegra de qualquer filme ou&nbsp; programa de tev&ecirc;. Mas os abusos realizados durante a ditadura foram t&atilde;o delet&eacute;rios que a sociedade ainda olha com desconfian&ccedil;a o trabalho de quem, por obriga&ccedil;&atilde;o profissional, classifica a produ&ccedil;&atilde;o audiovisual brasileira. A atividade &eacute; meramente indicativa e at&eacute; mesmo as crian&ccedil;as ganharam o direito de ver filmes recomendados para maiores, desde que tenham autoriza&ccedil;&atilde;o dos pais. Ainda assim, o estigma do autoritarismo paira sobre a cabe&ccedil;a dos classificadores.<\/p>\n<p>Cin&eacute;filo convicto, Lucas Brasil, de 19 anos, aparentemente encontrou o emprego dos sonhos. H&aacute; dois meses ele integra a equipe de classifica&ccedil;&atilde;o indicativa do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. Apesar do magro sal&aacute;rio de estagi&aacute;rio (390 reais), o estudante de ci&ecirc;ncias sociais diverte-se ao assistir a dezenas de filmes e seriados todo m&ecirc;s, sem precisar interferir nas obras. A tarefa consiste em analisar a recorr&ecirc;ncia de cenas de viol&ecirc;ncia e sexo para definir os hor&aacute;rios em que os programas podem aparecer na tev&ecirc; e indicar a faixa de idade recomendada para os filmes dos cinemas. Mo&iacute;dos de inveja, os amigos n&atilde;o perdoam. &ldquo;Dizem que eu sou um censor, mas &eacute; brincadeira. N&atilde;o d&aacute; para levar a s&eacute;rio esses coment&aacute;rios.&rdquo;<\/p>\n<p>Nem todas as acusa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o galhofas amistosas. Descontentes com as novas regras propostas pelo minist&eacute;rio na portaria 264, de 9 de fevereiro de 2007, as empresas de radiodifus&atilde;o n&atilde;o hesitam em qualificar esse trabalho como uma forma mascarada de censura. No foco da disputa, a obrigatoriedade de respeitar o per&iacute;odo entre 6 e 23 horas como um hor&aacute;rio de &ldquo;prote&ccedil;&atilde;o &agrave; crian&ccedil;a e ao adolescente&rdquo;.<\/p>\n<p>Adeptas de uma auto-regula&ccedil;&atilde;o que nunca existiu, as emissoras de tev&ecirc; torcem o nariz para os analistas do Departamento de Justi&ccedil;a, Classifica&ccedil;&atilde;o, T&iacute;tulos e Qualifica&ccedil;&atilde;o, entre eles o jovem Lucas. Mesmo depois de uma inf&acirc;ncia diante da tev&ecirc;, a acompanhar as aventuras de Capit&atilde;o Planeta e He-Man, o universit&aacute;rio pode ser confundido como uma vers&atilde;o atualizada dos censores da ditadura, como sugerem as propagandas da ind&uacute;stria audiovisual.<\/p>\n<p>&ldquo;Essa compara&ccedil;&atilde;o sempre serviu de pretexto para evitar o debate&rdquo;, contesta Jos&eacute; Eduardo Rom&atilde;o, diretor do Departamento de Classifica&ccedil;&atilde;o. Em defesa da medida, ele lembra que as principais democracias do mundo imp&otilde;em restri&ccedil;&otilde;es aos conte&uacute;dos violentos e pornogr&aacute;ficos em faixas de hor&aacute;rio espec&iacute;ficas. A coordenadora da equipe de analistas, Celva Reis, engrossa o coro: &ldquo;A censura &eacute; marcada por proibi&ccedil;&otilde;es e cortes que mutilam as obras. Hoje, ningu&eacute;m impede a exibi&ccedil;&atilde;o de nada. S&oacute; n&atilde;o podemos permitir sexo expl&iacute;cito &agrave;s 2 da tarde&rdquo;.<\/p>\n<p>Ecos da ditadura? N&atilde;o &eacute; bem assim. Se uma obra fosse considerada imoral ou subversiva pelos militares, ela poderia ser embargada, ou vinha com uma lista de cortes para a &ldquo;adequa&ccedil;&atilde;o&rdquo; do conte&uacute;do. &ldquo;Os produtores de cinema mobilizavam equipes em Bras&iacute;lia para tentar aprovar cenas proibidas&rdquo;, conta o cineasta Eduardo Escorel, um dos principais montadores do Cinema Novo, parceiro de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade.<\/p>\n<p>De acordo com a historiadora carioca Beatriz Kushnir, autora do livro C&atilde;es de Guarda: jornalistas e censores, os servi&ccedil;os de informa&ccedil;&otilde;es das For&ccedil;as Armadas passaram a orientar o trabalho da censura a partir de 1968, com o AI-5. &ldquo;A sociedade tem a imagem de que os censores eram parvos, bilontras. Mas eles tinham normas claras sobre o que poderia ou n&atilde;o passar.&rdquo; O jornalista S&eacute;rgio Augusto, que trabalhava para os jornais alternativos Pasquim e Opini&atilde;o &agrave; &eacute;poca, confirma a tese. &ldquo;A censura encaminhava uma lista de assuntos proibidos para a reda&ccedil;&atilde;o. &Agrave;s vezes, descobr&iacute;amos coisas que nem sab&iacute;amos. E, obviamente, n&atilde;o pod&iacute;amos dizer nada.&rdquo;<\/p>\n<p>Durante 37 anos, Coriolano Fagundes trabalhou na Divis&atilde;o de Censura de Divers&otilde;es P&uacute;blicas da Pol&iacute;cia Federal. &ldquo;A imprensa coloca-se como baluarte da liberdade de express&atilde;o, mas os primeiros dez censores de Bras&iacute;lia eram jornalistas. Todos estavam interessados no sal&aacute;rio dobrado que o governo pagava para quem estivesse disposto a ir para a capital federal.&rdquo; Antes do golpe de 1964, os censores n&atilde;o participavam de cursos de capacita&ccedil;&atilde;o. Uma vez no poder, os militares passaram a investir na forma&ccedil;&atilde;o dos funcion&aacute;rios. Al&eacute;m de conhecer t&eacute;cnicas de cinema e teatro, os analistas participavam de cursos obrigat&oacute;rios sobre marxismo, seguran&ccedil;a nacional e lei de imprensa.<\/p>\n<p>&ldquo;Os chefes da censura passaram a ser militares e o trabalho ganhou uma acep&ccedil;&atilde;o de repress&atilde;o pol&iacute;tica&rdquo;, diz Fagundes. Sem arrependimentos, o ex-censor define-se como um liberal. &ldquo;Eu poderia pedir demiss&atilde;o, mas preferi me ajustar da melhor maneira poss&iacute;vel, at&eacute; para abrandar a f&uacute;ria da censura.&rdquo; N&atilde;o &eacute; o que parece ao analisar um documento de 1985, no qual ele solicita 38 cortes para liberar o filme Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, na tev&ecirc;.<\/p>\n<p>Respons&aacute;vel pelo projeto Mem&oacute;ria da Censura no Cinema Brasileiro (1964-1988), que organiza e divulga arquivos da &eacute;poca na internet, a atriz e pesquisadora Leonor Souza Pinto diz que o caso &eacute; representativo. &ldquo;Com a abertura pol&iacute;tica, os filmes passaram a ser liberados com menos dificuldade para as salas de cinema, mas sofrem severa censura na televis&atilde;o.&rdquo;<\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 encerrou de vez a carreira de Coriolano Fagundes, hoje pastor evang&eacute;lico. No lugar da Divis&atilde;o de Censura, criou-se o Departamento de Classifica&ccedil;&atilde;o, para analisar os conte&uacute;dos audiovisuais nos termos propostos pelo Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente, de 1990. Nada de cortes e interdi&ccedil;&otilde;es. O trabalho resume-se a informar &agrave; sociedade sobre a presen&ccedil;a de conte&uacute;dos violentos ou pornogr&aacute;ficos e recomendar as obras para a faixa de idade mais adequada. <\/p>\n<p>Recomendar. N&atilde;o proibir. Desde julho de 2006, uma lei autoriza crian&ccedil;as e adolescentes a assistirem, com autoriza&ccedil;&atilde;o dos pais, filmes indicados para maiores no cinema. Na tev&ecirc;, o controle &eacute; feito por meio das faixas de exibi&ccedil;&atilde;o. &ldquo;A id&eacute;ia &eacute; passar os conte&uacute;dos impr&oacute;prios para um hor&aacute;rio mais avan&ccedil;ado, quando os trabalhadores voltaram para casa. S&oacute; assim o direito dos pais &agrave; decis&atilde;o pode ser plenamente exercido&rdquo;, diz Ot&aacute;vio Mendonza, 21 anos, rec&eacute;m-formado em Audiovisual pela Universidade de Bras&iacute;lia, um dos 30 classificadores do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>A analista Marina da Costa Sotero, de 27 anos, afasta a acusa&ccedil;&atilde;o de censura: &ldquo;N&atilde;o h&aacute; persegui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica ou dirigismo cultural. O problema &eacute; que desconhecem o nosso trabalho&rdquo;. A analista explica que n&atilde;o basta ter uma ou duas cenas de viol&ecirc;ncia para a obra n&atilde;o ter classifica&ccedil;&atilde;o livre. &ldquo;Levamos em considera&ccedil;&atilde;o a grada&ccedil;&atilde;o e o contexto das cenas.&rdquo; Tamb&eacute;m pode acontecer de uma obra receber classifica&ccedil;&atilde;o mais branda que a sugerida pelos pr&oacute;prios produtores. <\/p>\n<p>No lugar de militares e burocratas de carreira, jovens analistas, na faixa dos vinte e poucos anos. S&atilde;o estudantes ou profissionais de carreiras diversas, como pedagogia, direito, jornalismo, hist&oacute;ria. &ldquo;Para evitar uma an&aacute;lise enviesada, todos os processos passam nas m&atilde;os de pelo menos dois funcion&aacute;rios, de diferentes forma&ccedil;&otilde;es&rdquo;, antecipa-se Celva Reis.<\/p>\n<p>Ainda assim, pesa o fato de quase todos os analistas serem brasilienses. &ldquo;Queremos expandir o n&uacute;mero de classificadores volunt&aacute;rios pelo Pa&iacute;s. Dessa forma, poderemos contemplar melhor as especificidades regionais&rdquo;, explica Tarcizio Ildefonso, coordenador do grupo. Atualmente, h&aacute; cerca de 70 colaboradores em Bras&iacute;lia e 30 em Belo Horizonte (MG). Eles avaliam os pedidos de reconsidera&ccedil;&atilde;o e atribuem o selo de Especialmente Recomendados para Crian&ccedil;as e Adolescentes. <\/p>\n<p>Os volunt&aacute;rios costumam ter v&iacute;nculos com organiza&ccedil;&otilde;es de direitos humanos e prote&ccedil;&atilde;o &agrave; crian&ccedil;a. Outros se inscrevem por conta pr&oacute;pria no site do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, como Cristina Carvalho, pedagoga da rede p&uacute;blica de ensino do Distrito Federal. M&atilde;e de um garoto de 10 anos, ela participou da an&aacute;lise de dois programas infantis recentemente e se diz preocupada com a baixaria na televis&atilde;o. &ldquo;Procuro oferecer livros e outras atividades para entreter meu filho e imponho restri&ccedil;&otilde;es &agrave; tev&ecirc; a partir das 19 horas&rdquo;.&nbsp; Em alguns casos, precisa fazer concess&otilde;es. &ldquo;N&atilde;o gostaria que ele assistisse Malha&ccedil;&atilde;o (da Globo). Tive de concordar, desde que estivesse ao meu lado.&rdquo; &Eacute; a contrapartida necess&aacute;ria para evitar a pecha de censora dentro do lar. <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 26px\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_normal.png\" alt=\"Active Image\" width=\"26\" height=\"23\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encarregados de fazer a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa, estudantes, cin&eacute;filos e at&eacute; m&atilde;es nem de longe lembram os censores da ditadura. &Eacute; um bicho-de-sete-cabe&ccedil;as. Os cortes e proibi&ccedil;&otilde;es que marcaram a censura no regime militar, em nome do &ldquo;combate &agrave; subvers&atilde;o e &agrave; imoralidade&rdquo;, est&atilde;o extintos h&aacute; quase duas d&eacute;cadas. 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