{"id":18157,"date":"2007-04-11T11:57:04","date_gmt":"2007-04-11T11:57:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18157"},"modified":"2007-04-11T11:57:04","modified_gmt":"2007-04-11T11:57:04","slug":"tv-publica-em-nome-da-utopia-da-excelencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18157","title":{"rendered":"TV P\u00fablica: em nome da utopia da excel\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><span><em>Reproduzido de O Globo, 9\/4\/2007; t&iacute;tulo original &quot;Erro de origem&quot;; intert&iacute;tulo do Observat&oacute;rio da Imprensa.<\/em><\/span><span>&nbsp;<\/span><span>*&nbsp;<\/span>&nbsp;<\/p>\n<p><span>A pol&ecirc;mica gerada pela decis&atilde;o do governo de criar uma rede nacional de televis&atilde;o &quot;p&uacute;blica&quot; j&aacute; teve o m&eacute;rito de abrir os olhos da sociedade para a quest&atilde;o sem&acirc;ntica, mas tem a possibilidade de ir bem al&eacute;m. Distinguir o que seja estatal e o que seja p&uacute;blico &eacute; b&aacute;sico para que se procure entender o que o governo est&aacute; pretendendo.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>J&aacute; o ide&aacute;rio da rede, apresentado pelo presidente Lula durante a posse de novos ministros na quinta-feira (29\/3), n&atilde;o &eacute; animador. Diz o presidente: &quot;O que n&oacute;s queremos &eacute; dar oportunidade para que um jovem que queira aprender portugu&ecirc;s possa ter aula de portugu&ecirc;s &agrave;s 9h da manh&atilde;, &agrave;s 11h. Que as pessoas possam assistir a uma pe&ccedil;a de teatro pela televis&atilde;o a uma hora da tarde, ao meio-dia. Que a gente possa ensinar espanhol, ler ingl&ecirc;s, que a gente possa ensinar matem&aacute;tica.&quot; Como programador de televis&atilde;o, Lula &eacute; visivelmente um bom metal&uacute;rgico. O que h&aacute; de verdadeiramente not&aacute;vel na quest&atilde;o, entretanto, n&atilde;o &eacute; o estabelecimento das diferen&ccedil;as entre uma TV estatal e uma TV p&uacute;blica.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Televis&atilde;o estatal sabe-se o que &eacute;: um simples meio de difus&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es do governo. A confus&atilde;o aparece quando se conceitua o que seja televis&atilde;o p&uacute;blica.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Televis&atilde;o p&uacute;blica emana da sociedade e deve servir a ela. Mas n&atilde;o &eacute; uma escola, assim como n&atilde;o &eacute; qualquer outro servi&ccedil;o p&uacute;blico essencial, como hospital ou meio de transporte. Televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute;, antes de tudo, televis&atilde;o. E tem obriga&ccedil;&atilde;o de se comportar como tal. A boa televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; a que substitui professores ou reproduz concertos.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; a que revela as potencialidades e a grandeza do ve&iacute;culo em n&iacute;veis que n&atilde;o podem ser explorados pela TV comercial. &Eacute; a que se volta para a riqueza da express&atilde;o televisiva. A que dialoga com a diversidade da produ&ccedil;&atilde;o audiovisual, manifesta pela produ&ccedil;&atilde;o independente. A que n&atilde;o reproduz pobremente os modelos existentes, mas cultiva linguagens e formatos que estejam &agrave; frente do seu tempo.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Desatar os n&oacute;s<\/strong><\/span><span>&nbsp;<br \/><\/span><span>A boa televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; a que lan&ccedil;a o olhar sobre o novo. Sobre a experimenta&ccedil;&atilde;o, a inven&ccedil;&atilde;o, o laborat&oacute;rio de id&eacute;ias. Televis&atilde;o p&uacute;blica de verdade &eacute; a que garante a sua liberdade de analisar os fatos e vigiar as institui&ccedil;&otilde;es, porque &eacute; isso o que ela &eacute;: p&uacute;blica.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O presidente sustenta que televis&atilde;o p&uacute;blica &quot;&eacute; para apresentar a informa&ccedil;&atilde;o como ela &eacute;, sem pintar de cor-de-rosa. Mas sem pichar&quot;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; nessa sutileza que mora o perigo. A televis&atilde;o p&uacute;blica deixa de ser p&uacute;blica se estiver sujeita a esse prosaico tipo de restri&ccedil;&atilde;o.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Uma televis&atilde;o p&uacute;blica que cumpra de fato o seu compromisso com a sociedade &eacute; perfeitamente poss&iacute;vel. Ela pode ser criada a partir do que j&aacute; existe, e nem &eacute; necess&aacute;rio o lamento pelas utopias, como a do modelo da BBC, onde a televis&atilde;o &eacute; financiada por uma taxa cobrada ao usu&aacute;rio, ou da PBS, onde o p&uacute;blico e as empresas fazem contribui&ccedil;&otilde;es espont&acirc;neas.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O Brasil tem uma audi&ecirc;ncia televisiva fiel. Ela merece uma televis&atilde;o p&uacute;blica que seja capaz de complementar o que a televis&atilde;o privada lhe tem a oferecer. Uma televis&atilde;o que possa de fato figurar entre as mais criativas e instigantes do planeta.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O governo pode montar quantas televis&otilde;es estatais quiser (tem duas na Radiobr&aacute;s e controla indiretamente muitas outras). Mas j&aacute; que come&ccedil;ou a falar de televis&atilde;o p&uacute;blica, poderia fazer hist&oacute;ria se aproveitasse a terminologia que est&aacute; erroneamente usando e desenvolvesse o projeto de uma grande televis&atilde;o p&uacute;blica.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Teria que desatar os v&aacute;rios n&oacute;s criados ao longo dos anos pelo apetite pol&iacute;tico e mostrar desprendimento para criar o modelo e lhe garantir uma gest&atilde;o independente.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Mas estaria resgatando a utopia de uma televis&atilde;o n&atilde;o-comercial verdadeiramente voltada para a sociedade.<\/span><\/p>\n<p><span><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 26px\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_normal.png\" alt=\"Active Image\" width=\"26\" height=\"21\" \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzido de O Globo, 9\/4\/2007; t&iacute;tulo original &quot;Erro de origem&quot;; intert&iacute;tulo do Observat&oacute;rio da Imprensa.&nbsp;*&nbsp;&nbsp; A pol&ecirc;mica gerada pela decis&atilde;o do governo de criar uma rede nacional de televis&atilde;o &quot;p&uacute;blica&quot; j&aacute; teve o m&eacute;rito de abrir os olhos da sociedade para a quest&atilde;o sem&acirc;ntica, mas tem a possibilidade de ir bem al&eacute;m. 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