{"id":18156,"date":"2007-04-11T11:46:31","date_gmt":"2007-04-11T11:46:31","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18156"},"modified":"2007-04-11T11:46:31","modified_gmt":"2007-04-11T11:46:31","slug":"a-sociedade-sem-direito-a-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18156","title":{"rendered":"A sociedade sem direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span>A cria&ccedil;&atilde;o do escrit&oacute;rio brasileiro da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental de direitos humanos Article 19, ocorrida em 30 de mar&ccedil;o, em S&atilde;o Paulo, produz oportunidade interessante para uma reflex&atilde;o da nossa imprensa e da sociedade sobre a montanha dos documentos e estat&iacute;sticas oficiais que ficam longe do alcance da opini&atilde;o p&uacute;blica e nos quais nem mesmo jornalistas t&ecirc;m facilidade para colocar os olhos. Os registros sobre a guerrilha do Araguaia e outros epis&oacute;dios do regime militar s&atilde;o apenas uma parte dessa hist&oacute;ria. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A Article 19, criada em Londres em 1987 e com atua&ccedil;&atilde;o em mais de 30 pa&iacute;ses, dedica-se a promover e proteger a liberdade de express&atilde;o e a liberdade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, com &ecirc;nfase especial na luta pelo acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o oficial e privada de interesse p&uacute;blico. O nome da ONG &eacute; uma refer&ecirc;ncia ao Artigo 19 da Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos do Homem, da ONU: <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><em>&quot;Todo indiv&iacute;duo tem direito &agrave; liberdade de opini&atilde;o e de express&atilde;o; esse direito inclui a liberdade de ter opini&otilde;es sem sofrer interfer&ecirc;ncia e de procurar receber e divulgar informa&ccedil;&otilde;es e id&eacute;ias por qualquer meio de comunica&ccedil;&atilde;o, sem limite de fronteiras&quot;. <br \/><\/em><br \/><\/span><span><strong>Casos de desintelig&ecirc;ncia<\/strong><\/span><span>&nbsp;<br \/><\/span><span>O encontro que celebrou o in&iacute;cio de sua atua&ccedil;&atilde;o no Brasil, marcado pela divulga&ccedil;&atilde;o de estudos sobre o estado da informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, revela que nossa jovem democracia tem crescido com s&eacute;rias defici&ecirc;ncias no que se refere a esse direito fundamental. Desde documentos importantes sobre fatos essenciais para o conhecimento da nossa hist&oacute;ria recente, at&eacute; detalhes corriqueiros de riscos ambientais em projetos de obras de infra-estrutura, omite-se de tudo sob a prote&ccedil;&atilde;o da ignor&acirc;ncia a respeito das leis. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O sistema penitenci&aacute;rio e o setor de seguran&ccedil;a p&uacute;blica s&atilde;o verdadeiras caixas-pretas em praticamente todos os estados brasileiros. Quase tudo o que se publica sobre esses temas precisa ser revisado, o que pode estar produzindo um amontoado de nulidades estat&iacute;sticas e, a partir da&iacute;, uma corrente de equ&iacute;vocos que certamente ir&atilde;o desaguar em pol&iacute;ticas p&uacute;blicas inadequadas. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>At&eacute; mesmo estudiosos vinculados a centros de excel&ecirc;ncia em pesquisa, como o Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados da USP, t&ecirc;m dificuldades para obter informa&ccedil;&atilde;o de qualidade. No caso dos estudos sobre a viol&ecirc;ncia, por exemplo, utiliza-se com freq&uuml;&ecirc;ncia exagerada a t&eacute;cnica de proje&ccedil;&otilde;es, dada a inexist&ecirc;ncia ou impossibilidade de se levantar dados em comunidades onde os &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos est&atilde;o ausentes &ndash; ou onde simplesmente os funcion&aacute;rios respons&aacute;veis pela coleta de dados n&atilde;o d&atilde;o a menor import&acirc;ncia &agrave; acuidade dos registros. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Quanto por cento dos estupros ou dos furtos acabam alimentando as estat&iacute;sticas oficiais? No Rio de Janeiro, os policiais militares respons&aacute;veis por cabines de atendimento a turistas desestimulam a presta&ccedil;&atilde;o de queixas, quando n&atilde;o h&aacute; morte ou danos f&iacute;sicos &agrave;s v&iacute;timas, porque n&atilde;o querem que seus postos fiquem visados pelos superiores hier&aacute;rquicos em fun&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero elevado de ocorr&ecirc;ncias. A rigor, ningu&eacute;m sabe quantas pessoas s&atilde;o furtadas ou assaltadas no Rio, ou nos bairros menos assistidos de S&atilde;o Paulo. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Da mesma forma, muitos casos de desintelig&ecirc;ncia, geralmente atendidos pelo Centro de Opera&ccedil;&otilde;es da Pol&iacute;cia Militar (Copom) no estado de S&atilde;o Paulo, s&atilde;o eventualmente &quot;resolvidos&quot; por cabos ou sargentos, sem que isso resulte em documenta&ccedil;&atilde;o oficial. H&aacute; estudos indicando que certa propor&ccedil;&atilde;o desses conflitos pode evoluir para casos mais graves, como agress&otilde;es dom&eacute;sticas ou at&eacute; assassinatos. Um cidad&atilde;o desempregado, que se envolve num conflito familiar, poderia ter sido encaminhado a tratamento contra depress&atilde;o antes que seu quadro evolu&iacute;sse para aqueles casos graves que acabam na TV.<\/span><span><strong>&nbsp;<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span><strong>Brios da imprensa<\/strong><\/span><span>&nbsp;<br \/><\/span><span>Mesmo quando existem, nem sempre os dados est&atilde;o dispon&iacute;veis para consulta. Embora haja uma legisla&ccedil;&atilde;o garantindo o acesso a informa&ccedil;&otilde;es de interesse p&uacute;blico, a burocracia e a m&aacute; vontade de servidores costumam se apresentar como barreiras intranspon&iacute;veis. No caso de documentos classificados como sigilosos, a situa&ccedil;&atilde;o se tornou ainda mais complicada a partir de 2002, com o decreto 4.553, assinado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quatro dias antes de deixar o governo, permitindo que alguns documentos sejam classificados como indispon&iacute;veis por at&eacute; 50 anos, renov&aacute;veis indefinidamente &ndash; o que, na pr&aacute;tica, criou o conceito do sigilo eterno. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;S&atilde;o considerados originariamente sigilosos, e ser&atilde;o como tal classificados, dados ou informa&ccedil;&otilde;es cujo conhecimento irrestrito ou divulga&ccedil;&atilde;o possa acarretar qualquer risco &agrave; seguran&ccedil;a da sociedade e do Estado, bem como aqueles necess&aacute;rios ao resguardo da inviolabilidade da intimidade da vida privada, da honra e da imagem das pessoas&quot;, diz o par&aacute;grafo 2&ordm; do decreto. Os dados s&atilde;o classificados como &quot;reservado&quot;, &quot;confidencial&quot;, &quot;secreto&quot; e &ndash; este o caso a discutir &ndash; &quot;ultra-secreto&quot;. Estes documentos poder&atilde;o ficar sob o manto do sigilo para sempre. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O decreto 4.553 define, na pr&aacute;tica, que o Estado brasileiro considera a sociedade brasileira indefinidamente imatura para conhecer certos detalhes de sua hist&oacute;ria. Ele se encaixa perfeitamente no modelo que impera em praticamente todas as inst&acirc;ncias do poder p&uacute;blico, o que explica, por exemplo, como um cidad&atilde;o &eacute; obrigado a pagar as contas de servi&ccedil;os essenciais sem ter o direito de saber o que exatamente est&aacute; pagando. <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Do guich&ecirc; da prefeitura de uma cidade interiorana aos ultra-secretos arquivos do Estado, a aus&ecirc;ncia do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o tem no decreto 4.553\/2002 um verdadeiro monumento. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Em nome da real liberdade de informa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o seria hora de a imprensa brasileira ter um pouquinho de brio e exigir a elimina&ccedil;&atilde;o ou adequa&ccedil;&atilde;o desse estrume autorit&aacute;rio de uma vez por todas?<\/span><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 24px\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido.png\" alt=\"Active Image\" width=\"24\" height=\"21\" \/><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cria&ccedil;&atilde;o do escrit&oacute;rio brasileiro da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental de direitos humanos Article 19, ocorrida em 30 de mar&ccedil;o, em S&atilde;o Paulo, produz oportunidade interessante para uma reflex&atilde;o da nossa imprensa e da sociedade sobre a montanha dos documentos e estat&iacute;sticas oficiais que ficam longe do alcance da opini&atilde;o p&uacute;blica e nos quais nem mesmo jornalistas &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18156\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">A sociedade sem direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18156"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18156"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18156\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}