{"id":18131,"date":"2007-04-04T18:16:08","date_gmt":"2007-04-04T18:16:08","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18131"},"modified":"2007-04-04T18:16:08","modified_gmt":"2007-04-04T18:16:08","slug":"algumas-reflexoes-sobre-a-crise-de-carta-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18131","title":{"rendered":"Algumas reflex\u00f5es sobre a crise de Carta Maior"},"content":{"rendered":"<p>Apesar de tr&ecirc;s d&eacute;cadas nos separarem do &uacute;ltimo ciclo de imprensa alternativa no Brasil e no mundo, quando circularam jornais importantes como Movimento, Opini&atilde;o, Coojornal e Pasquim, as principais raz&otilde;es da crise de Carta Maior lembram as que levaram ao desaparecimento de quase todos aqueles jornais: esgotamento do projeto pol&iacute;tico e dificuldades de gerenciamento de uma aventura alternativa num ambiente capitalista. S&atilde;o raz&otilde;es portanto recorrentes, inerentes &agrave; natureza do alternativo. <\/p>\n<p>O alternativo &eacute; diferente n&atilde;o s&oacute; nas suas id&eacute;ias contra-corrente, tamb&eacute;m na sua organiza&ccedil;&atilde;o,em que predominam o voluntarismo e a coopera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o monet&aacute;ria, e no envolvimento emotivo dos seus jornalistas. No alternativo, jornalistas e intelectuais n&atilde;o s&atilde;o pagos para defender id&eacute;ias dos outros, s&atilde;o mal pagos para dizer exatamente o que pensam. No alternativo, a noticia n&atilde;o &eacute; mercadoria: &eacute; valor de uso e n&atilde;o de troca. N&atilde;o h&aacute; nada mais anticapitalista do que isso, ainda que o alternativo tenha que pagar alguns sal&aacute;rios e alugu&eacute;is, usar alguma publicidade. <\/p>\n<p>&Eacute; esse o referencial dos problemas gerenciais da Carta Maior. N&atilde;o se trata de um desafio gerencial comum, mas de como encontrar solu&ccedil;&otilde;es n&atilde;o capitalistas num ambiente totalmente capitalista. Outro complicador &eacute; a natureza intrinsecamente gratuita do acesso a ve&iacute;culos da internet. Isso &eacute; bom para a democracia, bom para o ser humano. Enfim, uma tecnologia que j&aacute; nasce como valor de uso e n&atilde;o para ser valor de troca. Mas, por isso mesmo, at&eacute; hoje n&atilde;o se resolveu o problema da sustenta&ccedil;&atilde;o financeira dos ve&iacute;culos de internet, exceto atrav&eacute;s de parcerias com empresas capitalistas e fortes: provedores, vendedores de produtos, ou associa&ccedil;&atilde;o com jornais e revistas de assinatura paga. <\/p>\n<p>Pergunto aos nossos leitores mais jovens e mais afeitos as novas tecnologias: Se Carta Maior tem vinte e oito mil acessos por dia, em m&eacute;dia, n&atilde;o seria poss&iacute;vel criar uma ferramenta pela qual os leitores que o quisessem depositariam numa conta de Carta Maior, o valor de um cafezinho? Se apenas um em cada dez transferirem esse valor, a receita seria de R$ 4.000,00 por dia, ou cerca de R$ 100 mil por m&ecirc;s, o suficiente para sustentar uma reda&ccedil;&atilde;o enxuta e o suporte f&iacute;sico do site. Essa &eacute; a melhor solu&ccedil;&atilde;o porque instituiria o verdadeiro financiamento p&uacute;blico de um site. <\/p>\n<p>Carta Maior j&aacute; esteve na vanguarda de algumas solu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas, entre as quais a divulga&ccedil;&atilde;o pela internet de debates televisionados ao vivo. Tamb&eacute;m criou o que os marqueteiros chamariam de &#39;nicho de mercado&#39;, ao fazer as coberturas mais amplas de todos os F&oacute;rum Sociais Mundiais, tornando-se uma refer&ecirc;ncia internacional sobre os f&oacute;runs. <\/p>\n<p>A solu&ccedil;&atilde;o gerencial de Carta Maior pode ser minimalista, limitando-se a ao papel de espa&ccedil;o de debates de temas importantes da atualidade, com apenas um editor, acionando um grupo de colaboradores estrategicamente situados no espa&ccedil;o do pensamento critico, ou mais ambiciosa, tentando incorporar todos os recursos das novas tecnologias, criando produtos e subprodutos diversos, que seriam bancados tanto de modo n&atilde;o capitalista por entidades sem fins lucrativos e governos, como pela venda comercial. Temo que o momento para a solu&ccedil;&atilde;o mais ambiciosa j&aacute; tenha passado. At&eacute; mesmo porque ela exigiria folga de recursos, capital para ser investido por um bom tempo, antes de obter pelo menos um empate entre entradas e sa&iacute;das. <\/p>\n<p>Seja qual for a solu&ccedil;&atilde;o, coloca-se a segunda quest&atilde;o: qual o projeto pol&iacute;tico de Carta Maior? E teria esse projeto se esgotado? Na d&eacute;cada de 70, todos os jornais alternativos, mesmo os humor&iacute;sticos ou existenciais, combatiam ferozmente a ditadura, e quase todos os de natureza estritamente pol&iacute;tica eram constitu&iacute;dos por uma alian&ccedil;a de ativistas de v&aacute;rios partidos ou correntespol&iacute;ticas clandestinos, mais alguns jornalistas e intelectuais. O esgotamento aconteceu de uma hora para a outra, em 1981, quando a anistia pol&iacute;tica abriu espa&ccedil;o para que cada corrente pol&iacute;tica tivesse seu pr&oacute;prio jornal, fundasse seu pr&oacute;prio partido. O que unia as equipes, o combate &agrave; ditadura, tinha acabado. Agora vinha o que os separaria para sempre: as propostas para o futuro do Brasil. Cada grupo tinha a sua receita. Cada grupo precisava acentuar as diferen&ccedil;as para consolidar sua identidade no novo ambiente de democracia e disputa aberta de votos e de militantes. A imprensa alternativa havia esgotado o seu papel. <\/p>\n<p>Estaria acontecendo o mesmo conosco? Creio que apenas em parte: ao fundar Carta Maior, Joaquim Palhares aglutinou jornalistas e intelectuais de convic&ccedil;&otilde;es socialistas interessados em mudar o Brasil, atrav&eacute;s da primeira elei&ccedil;&atilde;o de um l&iacute;der oper&aacute;riopara a presid&ecirc;ncia e de tudo o que vem junto com isso. Quase ao mesmo tempo, no bojo do mesmo movimento, fomos praticamente co-fundadores do F&oacute;rum Social Mundial, e tivemos papel proeminente na sua cobertura e em tudo o que tamb&eacute;m se segue, aglutinamos jovens mais motivados pelas causas ambientais e outras causas nobres, com a dos direitos humanos. <\/p>\n<p>Com a elei&ccedil;&atilde;o de Lula e de tantos outros l&iacute;deres populares na Am&eacute;rica Latina, em especial a de Evo Morales na Bol&iacute;via, levando pela primeira vez um &iacute;ndio &agrave; presid&ecirc;ncia, viramos, por assim dizer, quase-governo. E n&atilde;o s&oacute; no Brasil, mas num &acirc;mbito regional. Ainda n&atilde;o mudamos o Brasil ou a Am&eacute;rica Latina, mas colocamos um dique ao avan&ccedil;o do neoliberalismo. Se somos quase governo, temos que lutar por mudan&ccedil;as a partir de uma outra &oacute;tica, a da co-responsabilidade e da aceita&ccedil;&atilde;o de compromissos nem sempre f&aacute;ceis deengolir, mas que s&atilde;o inerentes &aacute; pr&aacute;tica da pol&iacute;tica. <\/p>\n<p>O novo quadro exige um grande amadurecimento e uma postura que n&oacute;s, oposicionistas por constru&ccedil;&atilde;o e h&aacute;bito, temos dificuldade em adotar. Mesmo porque a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; quase &uacute;nica: trata-se de continuar perseguindo a utopia emuma situa&ccedil;&atilde;o nada ut&oacute;pica, na qual nossos amigos e companheiros, inclusive nosso companheiro Lula, s&atilde;o governo. Trata-se de entender a import&acirc;ncia transcendental do governo Lula no Brasil e na Am&eacute;rica Latina, sem cair no mero governismo ou na solu&ccedil;&atilde;o f&aacute;cil de alinhamento com uma das tend&ecirc;ncias do PT ou um dos grupos de articula&ccedil;&atilde;o de poder no governo. Tamb&eacute;m n&atilde;o se trata da complacente &#39;cr&iacute;tica construtiva&#39;, e sim da cr&iacute;tica que entenda a dimens&atilde;o hist&oacute;rica deste governo e por isso mesmo seja ainda mais profunda e muito mais respons&aacute;vel. <\/p>\n<p>Com a chegada ao governo das novas lideran&ccedil;as latino-americanas, a come&ccedil;ar por Lula, tamb&eacute;m se esvaziou em parte a id&eacute;ia central do F&oacute;rum Social Mundial de fazer pol&iacute;tica apenas nas organiza&ccedil;&otilde;es de base, n&atilde;o governamentais e nos movimentos sociais, relegando partidos pol&iacute;ticos e programas pol&iacute;tico-ideol&oacute;gicosestruturados a segundo plano. <\/p>\n<p>Essa supera&ccedil;&atilde;o aparece com clareza na agenda ambientalista, muitas vezes autocentrada, que a partir de uma &oacute;tica basista, combate, por exemplo, o projeto S&atilde;o Francisco, o mais importante projeto ambientalista do governo Lula, que, ao contr&aacute;rio de esquecer um rio secularmente devastado, assumiu a promessa de sua recupera&ccedil;&atilde;o e em sintonia com pol&iacute;ticas regionais de desenvolvimento. O mesmo equ&iacute;voco se d&aacute;, em alguns casos, no combate ambiental &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de usinas hidrel&eacute;tricas. &Eacute; como se estiv&eacute;ssemos na mais ferrenha oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; ditadura militar e n&atilde;o f&ocirc;ssemos co-respons&aacute;veis pela elei&ccedil;&atilde;o de Lula, muito menos, respons&aacute;veis pelo suprimento de energia, e pela cria&ccedil;&atilde;o de empregos. Ao mesmo tempo, o ambientalismo brasileiro est&aacute; demorando demais em entender a urg&ecirc;ncia e a prioridade do combate ao efeito estufa. Quase n&atilde;ose interessam, por exemplo, pela implementa&ccedil;&atilde;o no Brasil do protocolo de Quioto. Carta Maior precisa rediscutir sua postura e suas prioridades na agenda ambientalista e dos movimentos sociais. Se n&atilde;o devemos ser mera correia transportadora do governo que ajudamos a eleger, tamb&eacute;m n&atilde;o devemos ser de ongues, sindicatos e movimentos sociais. <\/p>\n<p>E o que o governo tem a ver com a crise de Carta Maior? Se ajudamos e eleger esse governo, como de fato ajudamos, qual deveria ser a postura do governo frente ao risco de fechamento de Carta Maior? A m&aacute;quina do governo tamb&eacute;m precisa entender o novo momento. Esgotou-se o tipo de apoio que davam a projetos alternativos, obtido sempre a f&oacute;rceps, irregular, quase como um favor. &Eacute; mais do que hora de criar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de apoio &agrave; imprensa experimental, alternativa, regional e cultural, para que esses apoios sejam de car&aacute;teruniversal, e de interesse p&uacute;blico . A iniciativa do presidente de propor a rede p&uacute;blica de r&aacute;dio e TV mostra que &eacute; poss&iacute;vel implantar no segundo mandato algumas propostas que j&aacute; haviam sido elaboradas no primeiro, mas ficaram engavetadas por falta de vontade pol&iacute;tica ou pelo atropelo da crise. <\/p>\n<p>Entre essas propostas est&aacute; a do vale-jornal, que daria a todo cidad&atilde;o sem recursos suficientes um vale para receber o jornal de sua prefer&ecirc;ncia. Essa proposta j&aacute; estava em grau avan&ccedil;ado de elabora&ccedil;&atilde;o. Numa primeira fase, receberiam o vale jornal cidad&atilde;os j&aacute; cadastrados em programas sociais, por exemplo, estudantes inscritos no programa Prouni. Os jornais tamb&eacute;m entrariam no programa segundo alguns crit&eacute;rios, como o de acrescentar uma p&aacute;gina de notici&aacute;rio em linguagem mais acess&iacute;vel e empregar mais um jornalista na sua reda&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Outra proposta que o governo deveria retomar era a do programa de apoio &agrave; consolida&ccedil;&atilde;o de ve&iacute;culos sem fins prioritariamente lucrativos, que selecionaria anualmente dez ve&iacute;culos impressos, dez r&aacute;dios comunit&aacute;rias e dez sites de internet, desde que com mais de um ano de exist&ecirc;ncia e capazes de justificar a necessidade de apoio de consolida&ccedil;&atilde;o. Seus projetos seriam selecionados por um comit&ecirc; t&eacute;cnico independente. Se a Secom e as empresas estatais alocassem a esses programas e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas apenas 3% de suas verbas publicit&aacute;rias, j&aacute; se daria um grande salto na qualidade na m&iacute;dia brasileira. <\/p>\n<p>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 24px\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido.png\" alt=\"Active Image\" width=\"24\" height=\"19\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de tr&ecirc;s d&eacute;cadas nos separarem do &uacute;ltimo ciclo de imprensa alternativa no Brasil e no mundo, quando circularam jornais importantes como Movimento, Opini&atilde;o, Coojornal e Pasquim, as principais raz&otilde;es da crise de Carta Maior lembram as que levaram ao desaparecimento de quase todos aqueles jornais: esgotamento do projeto pol&iacute;tico e dificuldades de gerenciamento de &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18131\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Algumas reflex\u00f5es sobre a crise de Carta Maior<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[144],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18131"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18131"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18131\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}