{"id":18130,"date":"2007-04-04T17:58:15","date_gmt":"2007-04-04T17:58:15","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18130"},"modified":"2007-04-04T17:58:15","modified_gmt":"2007-04-04T17:58:15","slug":"e-por-falar-em-televisao-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18130","title":{"rendered":"E por falar em televis\u00e3o p\u00fablica&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Para alguma coisa h&aacute; de ter servido a decis&atilde;o do governo de criar uma rede nacional de televis&atilde;o p&uacute;blica. Ela trouxe &agrave; tona a confus&atilde;o sem&acirc;ntica entre o p&uacute;blico e o estatal. Mas acima disso lembrou que est&aacute; na hora de se discutir o que &eacute; &ndash; e o que poderia ser &ndash; uma televis&atilde;o p&uacute;blica no Brasil.<\/p>\n<p>Parte da imprensa explorou convenientemente a confus&atilde;o demonstrada pelo presidente Lula durante a posse dos novos ministros, na quinta-feira (29\/3). Para o presidente&#8230;<\/p>\n<p>&quot;&#8230;o que n&oacute;s queremos &eacute; dar oportunidade para um jovem que queira aprender portugu&ecirc;s possa ter aula de portugu&ecirc;s &agrave;s 9h da manh&atilde;, &agrave;s 11h. Que as pessoas possam assistir a uma pe&ccedil;a de teatro pela televis&atilde;o a uma hora da tarde, ao meio-dia. Que a gente possa ensinar espanhol, ler ingl&ecirc;s, que a gente possa ensinar matem&aacute;tica&quot;.<\/p>\n<p>Este ins&oacute;lito samba do crioulo doido n&atilde;o demonstra apenas que o presidente da Rep&uacute;blica n&atilde;o est&aacute; bem informado sobre o que venha a ser uma televis&atilde;o p&uacute;blica. Lembra tamb&eacute;m, e sobretudo, que muitos dos conceitos tentados pelo presidente permeiam o que se entende e se pratica hoje dentro das pr&oacute;prias televis&otilde;es p&uacute;blicas. O presidente poderia se informar melhor, mas &eacute; metal&uacute;rgico de forma&ccedil;&atilde;o. A televis&atilde;o que ele est&aacute; assistindo &eacute; que deveria ser diferente.<\/p>\n<p><strong>Propaganda expl&iacute;cita<\/strong><\/p>\n<p>A m&aacute; not&iacute;cia &eacute; que quando se fala em televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o se est&aacute; pensando nem em p&uacute;blico nem em televis&atilde;o. Tem-se a impress&atilde;o que televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; mais ou menos isso que passa pela cabe&ccedil;a do presidente: uma inst&acirc;ncia para substituir professores e para ficar &agrave; margem da pr&oacute;pria pr&aacute;tica da televis&atilde;o.<\/p>\n<p>E, no entanto, uma televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; t&atilde;o melhor quanto mais ela possa servir &agrave; pr&oacute;pria televis&atilde;o. A boa televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; a que p&otilde;e no ar aulas de matem&aacute;tica ou sonolentos discursos sobre o nada. &Eacute; a que se compromete radicalmente com a pr&oacute;pria express&atilde;o televisiva. A boa televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; uma escola e muito menos o aprendiz amador da televis&atilde;o privada. &Eacute; o espa&ccedil;o para o desenvolvimento de formatos e linguagens comprometidos com o futuro da pr&oacute;pria televis&atilde;o e que devem estar anos &agrave; frente do que a televis&atilde;o comercial seja capaz de praticar.<\/p>\n<p>Televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; o espa&ccedil;o da inven&ccedil;&atilde;o, da experimenta&ccedil;&atilde;o, do di&aacute;logo com a diversidade criativa, que se manifesta por meio do di&aacute;logo com a produ&ccedil;&atilde;o independente, com as muitas cabe&ccedil;as que est&atilde;o dispostas a pensar televis&atilde;o como um meio aut&ocirc;nomo, &aacute;gil e relevante &ndash; n&atilde;o como uma reparti&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica eletr&ocirc;nica.<\/p>\n<p>A melhor televis&atilde;o p&uacute;blica que se pode imaginar &eacute; a que lan&ccedil;a o seu olhar sobre o novo, o inseguro, o que ainda n&atilde;o foi tentado mas poderia ser. A que tem a coragem e a energia de se lan&ccedil;ar como um ve&iacute;culo capaz de come&ccedil;ar a aprimorar a sociedade aprimorando a pr&oacute;pria maneira de fazer televis&atilde;o.<\/p>\n<p>Por isso, uma televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o pode existir sem absoluta liberdade de cria&ccedil;&atilde;o e de pensamento. Mais uma vez Lula demonstra n&atilde;o estar informado sobre o assunto quando diz que a televis&atilde;o p&uacute;blica &quot;n&atilde;o &eacute; para pichar&quot;. Se estivesse melhor assessorado teria dito o contr&aacute;rio: &quot;Quero uma televis&atilde;o que seja capaz de pichar&quot;. A televis&atilde;o, se &eacute; p&uacute;blica, &eacute; a que mais deve ter a liberdade para o que o presidente chama de &quot;pichar&quot;. Se essa restri&ccedil;&atilde;o lhe for imposta, ela deixa de ser p&uacute;blica. Mesmo sem fazer propaganda expl&iacute;cita de atos do governo, &eacute; a&iacute; que ela come&ccedil;a a se transformar em estatal. <\/p>\n<p><strong>Modelo piorado<\/strong><\/p>\n<p>O governo tem algumas televis&otilde;es diretamente estatais (duas s&oacute; na Radiobras), outras que s&atilde;o ditas p&uacute;blicas, mas est&atilde;o sob seu controle absoluto. Ningu&eacute;m pode impedir que crie outras estatais, mesmo que se tornem redundantes e gastem &agrave;-toa o dinheiro do contribuinte. O peculiar &eacute; que essa pol&ecirc;mica surge na esteira do an&uacute;ncio, primeiro pelo ministro H&eacute;lio Costa, da Comunica&ccedil;&otilde;es, depois pelo pr&oacute;prio presidente da Rep&uacute;blica, da decis&atilde;o do governo de criar uma rede de televis&atilde;o p&uacute;blica que tem toda a cara de estatal. Na tentativa de sustentar que o que pretende criar &eacute; uma televis&atilde;o p&uacute;blica, o governo esbarra na explicita&ccedil;&atilde;o de uma vis&atilde;o no m&iacute;nimo antiquada do que seja tal coisa.<\/p>\n<p>Confus&otilde;es de conceito como as demonstradas por Lula &ndash; e por praticamente todos os outros integrantes do primeiro escal&atilde;o do governo que tem falado sobre a mat&eacute;ria, como os ministros H&eacute;lio Costa e Luiz Dulci &ndash; ressaltam a oportunidade de se tentar aprimorar as redes de televis&atilde;o p&uacute;blica no pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Sempre que isso acontece, chove explica&ccedil;&otilde;es sobre os principais modelos de televis&atilde;o p&uacute;blica existentes no mundo. O da BBC, imbat&iacute;vel, mas financiado por uma alta taxa cobrada ao usu&aacute;rio, o que &eacute; impratic&aacute;vel no Brasil. O da PBS, mais fact&iacute;vel, fundamentado em contribui&ccedil;&otilde;es espont&acirc;neas do p&uacute;blico e das empresas. <\/p>\n<p>O ministro Dulci se referiu ainda &agrave; RAI. N&atilde;o deve ter o h&aacute;bito de assistir &agrave; rede italiana. Se tivesse, compreenderia que est&aacute; citando um SBT piorado, porque tem o mesmo ide&aacute;rio est&eacute;tico da rede paulista e falta-lhe na tela um g&ecirc;nio como Silvio Santos. Aparecem tamb&eacute;m cita&ccedil;&otilde;es ao modelo da TV Cultura, que no Brasil &eacute; o que melhor reproduz as condi&ccedil;&otilde;es para a pr&aacute;tica de uma televis&atilde;o p&uacute;blica consistente. <\/p>\n<p><strong>Servi&ccedil;o relevante<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; absurdo pensar na forma&ccedil;&atilde;o de uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o a partir do que j&aacute; existe no pa&iacute;s. Mas isso passa pela disposi&ccedil;&atilde;o de se uniformizar a absurda teia que se foi formando desde que a primeira televis&atilde;o universit&aacute;ria apareceu no Brasil, j&aacute; bem tarde, em 1968, no ano da implanta&ccedil;&atilde;o do AI-5. O governo pode ter um papel importante nessa transforma&ccedil;&atilde;o. Na verdade, s&oacute; o governo pode bancar essa transforma&ccedil;&atilde;o. Se isso acontecesse, Lula passaria &agrave; hist&oacute;ria como um her&oacute;i, no cap&iacute;tulo da televis&atilde;o p&uacute;blica. <\/p>\n<p>Esse cap&iacute;tulo n&atilde;o vai falar bem do presidente a partir da cria&ccedil;&atilde;o de uma mega-TV estatal. Mais uma vez, a coisa se coloca em termos pol&iacute;ticos. Se a id&eacute;ia defendida pelo governo for mesmo a de uma TV estatal (que parece estar sendo camuflada em televis&atilde;o p&uacute;blica a partir da vis&atilde;o constrangedora apresentada pelo presidente e seus ministros), ent&atilde;o o governo ter&aacute; nos seus &uacute;ltimo dois anos e meio uma grande rede para divulgar os seus atos, eventualmente ajudar o PT em 2010, mas essencialmente n&atilde;o ser vista por ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Mas se o governo estiver disposto a fortalecer a televis&atilde;o p&uacute;blica existente e transform&aacute;-la de fato no relevante servi&ccedil;o p&uacute;blico que hoje ela n&atilde;o &eacute;, ent&atilde;o ter&aacute; que ter a grandeza de ser limitado na sua gest&atilde;o, acostumar-se &agrave; id&eacute;ia de ser &quot;pichado&quot;, trocar aulas de matem&aacute;tica pelo exerc&iacute;cio de uma televis&atilde;o grandiosa. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; de todo uma m&aacute; id&eacute;ia. J&aacute; que o governo decidiu falar em televis&atilde;o p&uacute;blica, por que n&atilde;o tentar constru&iacute;-la? <\/p>\n<p>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 21px\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido.png\" alt=\"Active Image\" width=\"21\" height=\"18\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para alguma coisa h&aacute; de ter servido a decis&atilde;o do governo de criar uma rede nacional de televis&atilde;o p&uacute;blica. Ela trouxe &agrave; tona a confus&atilde;o sem&acirc;ntica entre o p&uacute;blico e o estatal. 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