{"id":18113,"date":"2007-04-02T19:06:30","date_gmt":"2007-04-02T19:06:30","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18113"},"modified":"2007-04-02T19:06:30","modified_gmt":"2007-04-02T19:06:30","slug":"licoes-provisorias-de-um-debate-em-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18113","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias de um debate em aberto"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"art_texto\">&Eacute; pedag&oacute;gica a pol&ecirc;mica deflagrada desde que o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es entregou ao presidente da Rep&uacute;blica, na segunda-feira (12\/3), um estudo sobre a viabilidade de uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o digital &ndash; e dela os interessados nos rumos das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil devem tirar suas li&ccedil;&otilde;es.<\/span><span class=\"art_texto\"> <\/p>\n<p>A largada para a controv&eacute;rsia foi dada pelo Estado de S.Paulo em manchete de primeira p&aacute;gina logo no dia seguinte (13\/3). Na mat&eacute;ria, assinada por Gerusa Marques, aparece pela primeira vez o que se tornaria objeto de manifesta&ccedil;&otilde;es variadas dos atores interessados no tema. A jornalista dizia que o &quot;anteprojeto&quot; apresentado pelo ministro era &quot;uma esp&eacute;cie de emissora de TV do Executivo para divulgar as a&ccedil;&otilde;es do governo federal&quot;. <\/p>\n<p>Foi o suficiente. Sem que o pr&oacute;prio &quot;anteprojeto&quot; jamais viesse a p&uacute;blico, abriu-se um debate revelador que certamente confirma muito do que j&aacute; se sabe e levanta suspeitas sobre o que n&atilde;o se sabe. Quais as li&ccedil;&otilde;es que podemos tirar dele?<\/p>\n<p>Primeiro, fica mais uma vez claro que n&atilde;o h&aacute; coordena&ccedil;&atilde;o para as a&ccedil;&otilde;es de pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&otilde;es no governo Lula. &Eacute; sabido que iniciativas sobre o setor t&ecirc;m sido patrocinadas pela Casa Civil, pelo gabinete pessoal do presidente, pela Secretaria Geral, pelo Minist&eacute;rio da Cultura e pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; de surpreender, portanto, que o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es tenha solenemente ignorado o esfor&ccedil;o que h&aacute; meses vem sendo feito em conjunto pela Casa Civil, pelo Minist&eacute;rio da Cultura, pela TVE e pela Radiobr&aacute;s &ndash; esta, formalmente ligada &agrave; Secretaria Geral &ndash; para constru&ccedil;&atilde;o do I F&oacute;rum Nacional de TVs P&uacute;blicas. Esse esfor&ccedil;o conta com a participa&ccedil;&atilde;o das associa&ccedil;&otilde;es representativas das TVs educativas, legislativas, comunit&aacute;rias e universit&aacute;rias, al&eacute;m de representantes da sociedade civil. <\/p>\n<p>O ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, com a ajuda da grande m&iacute;dia, estabeleceu de imediato uma confus&atilde;o sem&acirc;ntica e conceitual entre TV p&uacute;blica e TV estatal, objeto central das discuss&otilde;es preparativas do F&oacute;rum. Como se sabe, o artigo 223 da Constitui&ccedil;&atilde;o determina a &quot;complementaridade dos sistemas privado, p&uacute;blico e estatal&quot;, mas este artigo &ndash; como quase todos os outros &ndash; do cap&iacute;tulo da Comunica&ccedil;&atilde;o Social nunca foi regulamentado. <\/p>\n<p>A quem interessa essa confus&atilde;o sem&acirc;ntica e conceitual?<\/p>\n<p><strong>Quase unaminidade<\/strong><\/p>\n<p>Segundo, na maioria das interven&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas sobre a quest&atilde;o, reaparece de forma n&iacute;tida o preconceito anti-Estado onipresente entre os atores que t&ecirc;m conduzido o debate sobre as comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s. Nega-se, in limine, ao Estado o direito de propor qualquer iniciativa no setor de comunica&ccedil;&otilde;es como se estiv&eacute;ssemos num regime ditatorial e n&atilde;o viv&ecirc;ssemos num Estado de Direito. <\/p>\n<p>Ignora-se que em democracias liberais como a nossa houve uma privatiza&ccedil;&atilde;o da censura, que &eacute; exercida rotineiramente com maior intensidade, direta ou indiretamente, pelo interesse privado. E ignora-se tamb&eacute;m a norma constitucional que determina, sim, a exist&ecirc;ncia complementar de tr&ecirc;s sistemas de radiodifus&atilde;o, dentre eles um estatal e um p&uacute;blico. <\/p>\n<p>N&atilde;o seria leg&iacute;timo e democr&aacute;tico que o Estado &ndash; sob este governo ou qualquer outro &ndash; incentive a cria&ccedil;&atilde;o de uma rede p&uacute;blica digital de radiodifus&atilde;o que alcance 100% do territ&oacute;rio nacional e ofere&ccedil;a uma comunica&ccedil;&atilde;o alternativa de qualidade &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, como, ali&aacute;s, existe e funciona em outras democracias como a nossa? Por que se deseja afastar o Estado do setor de comunica&ccedil;&otilde;es? Quem de fato se sente amea&ccedil;ado e por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>E terceiro, o ponto mais intrigante. O ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es tem reiteradamente defendido posi&ccedil;&otilde;es e implementado pol&iacute;ticas coincidentes com os interesses da Abert (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o), historicamente ligada &agrave;s Organiza&ccedil;&otilde;es Globo e poderosa representante dos radiodifusores privados. Esse alinhamento ficou novamente claro agora. Por qu&ecirc;? A Abert, sem se envolver na pol&ecirc;mica conceitual entre o p&uacute;blico e o estatal, apoiou o &quot;anteprojeto&quot; de &quot;uma esp&eacute;cie de emissora de TV do Executivo para divulgar as a&ccedil;&otilde;es do governo federal&quot;, rejeitado pela (quase) unanimidade da grande m&iacute;dia como autorit&aacute;rio, desnecess&aacute;rio, chavista e oneroso. Uma rede p&uacute;blica de TV digital n&atilde;o contraria os interesses dos radiodifusores privados? Como entender essa posi&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p><strong>Explica&ccedil;&atilde;o coerente<\/strong><\/p>\n<p>H&aacute; duas possibilidades. A primeira aponta para uma ousada jogada pol&iacute;tica de conquista da opini&atilde;o p&uacute;blica. Antecipando a avalanche de manifesta&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias que inequivocamente surgiria na grande m&iacute;dia, o &quot;apoio&quot; da Abert esconderia, na verdade, uma estrat&eacute;gia &quot;invertida&quot; de pressionar o governo a abandonar a id&eacute;ia de uma Rede P&uacute;blica de Televis&atilde;o. <\/p>\n<p>A outra possibilidade, mais prov&aacute;vel, &eacute; que, de fato, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e a Abert desejam a cria&ccedil;&atilde;o de uma rede nacional digitalizada de televis&atilde;o. Estatal ou p&uacute;blica? N&atilde;o importa. E por qu&ecirc;? A rede digital, constru&iacute;da com recursos p&uacute;blicos, seria de uso compartilhado com os radiodifusores privados que se desonerariam, portanto, do investimento de sua constru&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o seria a primeira vez na hist&oacute;ria das comunica&ccedil;&otilde;es brasileiras que tal fato aconteceria. Foi exatamente assim na constru&ccedil;&atilde;o da rede nacional de microondas (a antiga Embratel) durante o regime militar [devo a Cristiano Aguiar haver me chamado a aten&ccedil;&atilde;o para este ponto].<\/p>\n<p>Ser creditada a uma falsa &quot;teoria da conspira&ccedil;&atilde;o&quot; ser&aacute; a cr&iacute;tica mais f&aacute;cil &agrave;s duas possibilidades acima aventadas. Todavia, ainda n&atilde;o se encontrou uma explica&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel e coerente para a posi&ccedil;&atilde;o assumida publicamente pela principal representante dos radiodifusores privados.<\/p>\n<p><strong>O interesse que prevalece<\/strong><\/p>\n<p>Quando escrevo, anuncia-se a indica&ccedil;&atilde;o do jornalista Franklin Martins para assumir as fun&ccedil;&otilde;es de ministro do governo Lula, respons&aacute;vel pelo que &eacute; a Secretaria de Imprensa e porta-voz, a Secom (hoje vinculada &agrave; Secretaria Geral) e ainda cuidar da implanta&ccedil;&atilde;o da Rede P&uacute;blica de Televis&atilde;o. Sobre o assunto, disse ele em entrevista &agrave; Folha de S.Paulo (24\/3): &quot;O governo n&atilde;o pretende criar uma TV do governo, estatal. Mas estimular, fazer crescer e dar forma a uma rede p&uacute;blica de TV&quot; [<a href=\"http:\/\/observatorio.ultimosegundo.ig.com.br\/blogs.asp?id=%7B247E33E4-9925-41D2-9BE1-3159A5CC34C1%7D&amp;id_blog=3\" onclick=\"NovaJanela(this.href);return false;\">ver aqui<\/a> a entrevista completa].<\/p>\n<p>A serem confirmadas a indica&ccedil;&atilde;o e a abrang&ecirc;ncia do novo minist&eacute;rio, &eacute; de se esperar que exista de fato uma coordena&ccedil;&atilde;o efetiva para a cria&ccedil;&atilde;o da Rede P&uacute;blica de Televis&atilde;o. &Eacute; indispens&aacute;vel, ent&atilde;o, que o governo confirme a realiza&ccedil;&atilde;o do I F&oacute;rum Nacional de TVs P&uacute;blicas e que promova um amplo debate sobre o tema nos mais diferentes segmentos da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Como tudo mais na formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&otilde;es, tamb&eacute;m na constru&ccedil;&atilde;o de uma Rede de TV P&uacute;blica h&aacute; enormes interesses envolvidos e os atores est&atilde;o &quot;movendo suas pedras&quot;. A quest&atilde;o, mais uma vez, &eacute; saber se o interesse p&uacute;blico vai prevalecer. Que se tirem as devidas li&ccedil;&otilde;es do atual debate.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 20px\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido.png\" alt=\"Active Image\" width=\"20\" height=\"16\" \/><\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&Eacute; pedag&oacute;gica a pol&ecirc;mica deflagrada desde que o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es entregou ao presidente da Rep&uacute;blica, na segunda-feira (12\/3), um estudo sobre a viabilidade de uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o digital &ndash; e dela os interessados nos rumos das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil devem tirar suas li&ccedil;&otilde;es. A largada para a controv&eacute;rsia foi dada pelo Estado &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18113\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Li\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias de um debate em aberto<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18113"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18113"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18113\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}