{"id":18052,"date":"2007-02-15T13:26:27","date_gmt":"2007-02-15T13:26:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18052"},"modified":"2007-02-15T13:26:27","modified_gmt":"2007-02-15T13:26:27","slug":"emissoras-de-tv-e-taxas-sobre-o-mercado-sustentam-audiovisual-frances","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18052","title":{"rendered":"Emissoras de TV e taxas sobre o mercado sustentam audiovisual franc\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>Um amplo mecanismo de apoio estatal, vinculado &agrave; intensa participa&ccedil;&atilde;o das emissoras de TV e de taxa&ccedil;&otilde;es sobre a pr&oacute;pria atividade, explica a vitalidade do setor audiovisual franc&ecirc;s. A Fran&ccedil;a &eacute; o maior produtor em n&uacute;mero de filmes de longa-metragem da Europa e o s&eacute;timo pa&iacute;s do mundo neste quesito &#8211; perde, nesta ordem, para &Iacute;ndia, China\/Hong-Kong,<br \/>Filipinas, Estados Unidos, Jap&atilde;o e Tail&acirc;ndia.<\/p>\n<p>A Fran&ccedil;a &eacute; pioneira na quest&atilde;o da prote&ccedil;&atilde;o do estado &agrave; atividade. As primeiras discuss&otilde;es sobre o assunto come&ccedil;aram j&aacute; nos anos 30, tomando corpo imediatamente ap&oacute;s a Segunda Guerra, durante o governo de Charles De Gaulle, que criou, em 1946, o Centro Nacional de Cinematografia (CNC), institui&ccedil;&atilde;o sem similares no mundo que persiste at&eacute; hoje como o<br \/>pilar central da ind&uacute;stria audiovisual francesa. Inicialmente concebido para a regulamenta&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, o CNC evoluiu, nos anos 50, para um &oacute;rg&atilde;o cuja miss&atilde;o &eacute; desenvolver toda a pol&iacute;tica industrial do setor.<\/p>\n<p>J&aacute; em 1948, foi instaurado um mecanismo que constitui a base do sistema hoje vigente: uma taxa sobre a venda de ingressos que reverte para um fundo voltado ao apoio &agrave; produ&ccedil;&atilde;o. No ano seguinte, foi criado um fundo para difus&atilde;o internacional das obras cinematogr&aacute;ficas do pa&iacute;s, base da distribuidora Unifrance. Em 1959, o sistema ganhou um mecanismo autom&aacute;tico de apoio estatal ao desenvolvimento da ind&uacute;stria. Nos anos 60, a dimens&atilde;o cultural da atividade ganhou corpo, com incentivos &agrave;s primeiras obras e aportes para a preserva&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio. A concorr&ecirc;ncia da televis&atilde;o gerou um princ&iacute;pio de crise no setor nos anos 70, levando os franceses a perceber que, sem a parceria das emissoras de<br \/>TV, a atividade cinematogr&aacute;fica poderia naufragar. A quest&atilde;o foi resolvida nos anos 80, durante o governo de Fran&ccedil;ois Mitterand, quando as emissoras passaram a ser obrigadas a investir na produ&ccedil;&atilde;o de filmes, al&eacute;m de terem seu faturamento taxado em benef&iacute;cio do desenvolvimento do setor.<\/p>\n<p>Em 1999, o sistema foi aprimorado pela redefini&ccedil;&atilde;o do conceito de &quot;produtor delegado&quot;, &uacute;nica figura jur&iacute;dica pass&iacute;vel de ter acesso aos apoios financeiros. Essa figura passou a ser, obrigatoriamente, uma companhia produtora &#8211; antes, podia ser tamb&eacute;m uma pessoa f&iacute;sica -, numa forma de garantir o desenvolvimento do lado empresarial da atividade.<\/p>\n<p>O mercado de salas do pa&iacute;s &eacute; um dos mais pr&oacute;speros do mundo. Com 60 milh&otilde;es de habitantes, a Fran&ccedil;a teve 166 milh&otilde;es de espectadores nos cinemas em 2000, com arrecada&ccedil;&atilde;o total de cerca de US$ 823 milh&otilde;es. Os 145 filmes franceses exibidos no ano (produzidos a um custo m&eacute;dio de US$ 4,3 milh&otilde;es), abocanharam US$ 235 milh&otilde;es, ou 28,5% do mercado. O campe&atilde;o de bilheteria do ano foi um filme franc&ecirc;s &#8211; &quot;Taxi 2&quot;, de G&eacute;rard Krawczyk, fez 10,2 milh&otilde;es de espectadores (o segundo maior p&uacute;blico para filmes nacionais na d&eacute;cada, s&oacute; perdendo para &quot;Les visiteurs&quot;, de Jean-Marie Poir&eacute;, que, em 1993, levou 13,8 milh&otilde;es de pessoas &agrave;s salas de cinema do pa&iacute;s) &#8211; e dois outros ocuparam as dez primeiras posi&ccedil;&otilde;es do ranking. No ano anterior, a Fran&ccedil;a tamb&eacute;m ocupou o topo da bilheteria, com os 8,9 milh&otilde;es de espectadores que assistiram a &quot;Ast&eacute;rix &amp; Ob&eacute;lix contre C&eacute;sar&quot;, de Claude Zidi, e teve um share ainda maior (32,4%).<\/p>\n<p>Somadas as arrecada&ccedil;&otilde;es em exibi&ccedil;&otilde;es no exterior (os filmes franceses s&oacute; perdem, no mercado europeu, para o cinema dos Estados Unidos, embora tenham uma participa&ccedil;&atilde;o relativamente pequena no resto do mundo) e as vendas para os mercados de TV e v&iacute;deo, pode-se dizer que a atividade cinematogr&aacute;fica no pa&iacute;s &eacute;, em geral, lucrativa. Estima-se que um em cada cinco filmes franceses d&ecirc; lucro, uma boa m&eacute;dia para uma atividade conhecida pelo seu alto risco.<\/p>\n<p>Em 2000, foram gastos US$ 740 milh&otilde;es na produ&ccedil;&atilde;o de longas-metragens na Fran&ccedil;a. A origem desses recursos ajuda a compreender o funcionamento do sistema audiovisual do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>As produtoras francesas entraram com 31,9% desse montante (cerca de US$ 236 milh&otilde;es). Muitos desses recursos s&atilde;o provenientes de cr&eacute;ditos banc&aacute;rios. A Fran&ccedil;a conta com um interessante facilitador para a busca desses cr&eacute;ditos, o IFCIC (Instituto de Financiamento do Cinema e das Ind&uacute;strias Culturais), criado em 1983 para fazer a ponte entre o CNC e o<br \/>sistema banc&aacute;rio. O instituto avaliza at&eacute; 50% das opera&ccedil;&otilde;es de empr&eacute;stimo para o setor. Como s&oacute; desembolsa recursos quando todos os outros meios de quitar um determinado empr&eacute;stimo est&atilde;o esgotados, tem uma capacidade de aval de at&eacute; 30 vezes o valor dispon&iacute;vel em seu fundo de garantia. O IFCIC, na verdade, &eacute; uma empresa de cr&eacute;dito estabelecida de acordo com as normas banc&aacute;rias. Entre seus acionistas, est&atilde;o o pr&oacute;prio Estado e diversos bancos franceses.<\/p>\n<p>Outra parte dos recursos para a produ&ccedil;&atilde;o de longas vem de mecanismos alheios ao sistema de apoio estatal: 5,5% (cerca de US$ 41 milh&otilde;es) s&atilde;o recursos colocados por empresas distribuidoras do pa&iacute;s e 6,5% (US$ 48 milh&otilde;es) s&atilde;o aportes de produtores estrangeiros, a co-produ&ccedil;&atilde;o internacional &eacute; comum entre pa&iacute;ses europeus, sendo que, dos quatro principais parceiros estrangeiros da Fran&ccedil;a na produ&ccedil;&atilde;o de longas, tr&ecirc;s s&atilde;o da Europa (It&aacute;lia, B&eacute;lgica e Alemanha) e o outro &eacute; o Canad&aacute;.<\/p>\n<p>As emissoras de TV s&atilde;o parte fundamental do sistema. Em 2000, investiram cerca de US$ 231 milh&otilde;es (31,2% do total gasto com longas) em pr&eacute;-compras de projetos e mais US$ 67 milh&otilde;es (9%) em co-produ&ccedil;&otilde;es, num total de US$ 298 milh&otilde;es. S&atilde;o, assim, diretamente respons&aacute;veis pelo financiamento de mais de 40% dos recursos gastos em longas-metragens no pa&iacute;s. Indiretamente, a conta sobe ainda mais, pois cerca de 70% do or&ccedil;amento do CNC vem de taxa&ccedil;&otilde;es sobre o faturamento publicit&aacute;rio das emissoras. O sistema criado busca a simbiose entre os dois segmentos: as<br \/>emissoras participam nos lucros dos filmes, ganham audi&ecirc;ncia com a exibi&ccedil;&atilde;o dos mesmos (filmes franceses s&atilde;o comuns na grade de programa&ccedil;&atilde;o) e ainda s&atilde;o beneficiadas pelo COSIP (Fundo de Apoio &agrave; Ind&uacute;stria de Programas) que, gerido pelo CNC, financia diretamente a realiza&ccedil;&atilde;o de telefilmes, document&aacute;rios, anima&ccedil;&otilde;es, programas de TV e videoclipes. O Canal + &eacute;, de longe, o mais importante parceiro do cinema: em 2000, participou de 115 filmes, investindo US$ 134 milh&otilde;es. Em seguida, v&ecirc;m os canais estatais TF1 (20 filmes, US$ 33 milh&otilde;es), France 2 (33 filmes, US$ 22 milh&otilde;es), France 3 (16 filmes, US$ 12 milh&otilde;es), Arte (22 filmes, US$ 6,5 milh&otilde;es) e M6 (9 filmes, US$ 5,2 milh&otilde;es), al&eacute;m do canal por sat&eacute;lite TPS (19 filmes, US$ 16 milh&otilde;es). Claro, h&aacute; filmes que contam com a participa&ccedil;&atilde;o de mais de uma emissora.<\/p>\n<p>O capital privado tamb&eacute;m participa ativamente do financiamento &agrave; atividade, atrav&eacute;s dos SOFICAs (Companhias de Financiamento para a Ind&uacute;stria de Filme e TV), fundos de investimento criados em 1985. Esses fundos s&atilde;o carteiras de filmes (onde, obrigatoriamente, um m&iacute;nimo de 35% dos projetos deve ser de produtores independentes) cujas a&ccedil;&otilde;es podem ser compradas por pessoas f&iacute;sicas ou jur&iacute;dicas. Os investidores que mantiverem a posse das a&ccedil;&otilde;es por um per&iacute;odo m&iacute;nimo de oito anos passam a gozar de benef&iacute;cios fiscais; al&eacute;m disso, participam dos lucros dos filmes da carteira. Em 2000, 5,7% dos recursos gastos para a produ&ccedil;&atilde;o de longas veio dos SOFICAs, num total de aproximadamente US$ 42 milh&otilde;es. <\/p>\n<p>O sistema n&atilde;o estaria completo sem o apoio estatal direto &agrave; atividade, todo operacionalizado a partir do Centro Nacional de Cinematografia. O or&ccedil;amento do CNC em 2000 foi de cerca de US$ 342 milh&otilde;es. O dinheiro veme taxas sobre o faturamento das emissoras, a venda de ingressos em salas de cinema e os neg&oacute;cios do mercado de homevideo; de subven&ccedil;&otilde;es do estado; dos resultados comerciais dos projetos em que o &oacute;rg&atilde;o participa; de taxas para a emiss&atilde;o de certificados de obra cinematogr&aacute;fica (sem os quais os filmes n&atilde;o podem ser exibidos no pa&iacute;s), entre outras fontes.<br \/>S&atilde;o aplicados em v&aacute;rios n&iacute;veis: apoio a projetos de curtas, document&aacute;rios, programas de TV, v&iacute;deo e multim&iacute;dia; desenvolvimento de roteiros; avan&ccedil;os para op&ccedil;&atilde;o de compra de direitos e custos de equipe em fase de prepara&ccedil;&atilde;o de filmes; subs&iacute;dios para o uso de novas tecnologias na produ&ccedil;&atilde;o de filmes e para a composi&ccedil;&atilde;o de trilhas sonoras originais;<br \/>pr&ecirc;mios; apoios para distribui&ccedil;&atilde;o, difus&atilde;o em mercados externos, renova&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de salas, aquisi&ccedil;&atilde;o e moderniza&ccedil;&atilde;o de equipamentos por empresas de infra-estrutura; ensino, pesquisa e preserva&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio. S&atilde;o, principalmente, aplicados diretamente na produ&ccedil;&atilde;o de longas, em forma de apoio autom&aacute;tico (foram US$ 49 milh&otilde;es<br \/>investidos nessa modalidade em 2000 &#8211; 6,6% do total investido em longas no pa&iacute;s) ou seletivo (US$ 27 milh&otilde;es em 2000, ou 3,6% do total). O apoio autom&aacute;tico tem seu valor calculado com base nos resultados comerciais de um &quot;projeto de refer&ecirc;ncia&quot; (normalmente, o filme anterior da produtora) no box office, na TV e no mercado de v&iacute;deo. A empresa pleiteante tem direito a uma porcentagem do valor resultante que varia conforme o n&uacute;mero de pontos conseguido pelo projeto num sistema de pontua&ccedil;&atilde;o que leva em conta aspectos t&eacute;cnicos, art&iacute;sticos e financeiros (com pelo menos 80 pontos, num total de 100, j&aacute; leva 100% dos recursos a que tem direito, que n&atilde;o podem exceder, entretanto, 50% do or&ccedil;amento total do<br \/>filme). A soma &eacute; depositada numa conta em nome da produtora, administrada pelo CNC e o produtor tem um prazo m&aacute;ximo de cinco anos para investi-la em um novo filme. Se o filme for inteiramente ou quase inteiramente falado em franc&ecirc;s, a soma &eacute; acrescida de mais 25%. Al&eacute;m disso, cresce mais 1% para cada dia de filmagem em est&uacute;dio realizada no<br \/>pa&iacute;s (at&eacute; um determinado limite). O apoio autom&aacute;tico &eacute; dado a fundo perdido. Mas o produtor pode ter de devolver todos ou parte dos recursos se esses n&atilde;o forem devidamente aplicados segundo aprecia&ccedil;&atilde;o da Dire&ccedil;&atilde;o Geral do CNC.<\/p>\n<p>O apoio seletivo funciona como um empr&eacute;stimo, tendo de ser reembolsado, no todo ou em parte, conforme o caso. Pode ser pedido antes do in&iacute;cio das filmagens ou ap&oacute;s a conclus&atilde;o do filme. Nesse caso, o produtor precisa ter em m&atilde;os um contrato de distribui&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>V&aacute;rios mecanismos de apoios regionais completam a gama de op&ccedil;&otilde;es de recursos p&uacute;blicos para a produ&ccedil;&atilde;o de um filme.<\/p>\n<p>&nbsp;* Paulo Boccato &eacute; presidente do CBC &#8211; Congresso Brasileiro de Cinema&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amplo mecanismo de apoio estatal, vinculado &agrave; intensa participa&ccedil;&atilde;o das emissoras de TV e de taxa&ccedil;&otilde;es sobre a pr&oacute;pria atividade, explica a vitalidade do setor audiovisual franc&ecirc;s. 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