{"id":17982,"date":"2007-01-24T17:58:52","date_gmt":"2007-01-24T17:58:52","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=17982"},"modified":"2007-01-24T17:58:52","modified_gmt":"2007-01-24T17:58:52","slug":"propriedade-intelectual-prejudica-os-mais-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=17982","title":{"rendered":"Propriedade Intelectual prejudica os mais pobres"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">Entrevistamos para esta edi&ccedil;&atilde;o Pedro Paranagu&aacute;, advogado atuante na &aacute;rea da propriedade intelectual, membro do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas (FGV) e que acompanha como pesquisador e militante as disputas no interior da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI)<\/p>\n<p align=\"left\"><strong><u>Prometheus:<\/u><\/strong> Os &uacute;ltimos anos foram marcados por um recrudescimento na l&oacute;gica da propriedade intelectual. Quais os principais instrumentos internacionais deste processo?<\/p>\n<p align=\"left\"><strong><u>Pedro Paranagu&aacute;:<\/u><\/strong> Nunca na hist&oacute;ria da humanidade foi preciso haver incentivo por meio de concess&atilde;o de monop&oacute;lios jur&iacute;dicos limitados no tempo para que houvesse expans&atilde;o das artes, da ci&ecirc;ncia e da cultura. Os grandes fil&oacute;sofos da antig&uuml;idade n&atilde;o tinham suas id&eacute;ias protegidas por direitos autorais e nem por isso deixou-se de haver grande evolu&ccedil;&atilde;o intelectual. Na &aacute;rea industrial, Thomas Jefferson dizia no in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX, que pa&iacute;ses que n&atilde;o ofereciam prote&ccedil;&atilde;o por patentes eram t&atilde;o frut&iacute;feros quanto os que davam prote&ccedil;&atilde;o. Mais recentemente, economistas do calibre de F. Machlup, E. Penrose, P. David e J. Stiglitz, questionam o funcionamento do sistema de propriedade intelectual como um todo. Quer nos parecer que pa&iacute;ses hoje ricos tentam imp&ocirc;r uma prote&ccedil;&atilde;o maximalista ao restante do mundo. Ocorre, todavia, que tais pa&iacute;ses somente tiveram a oportunidade de enriquecer e se desenvolver justamente porque h&aacute; alguns anos atr&aacute;s, quando n&atilde;o eram desenvolvidos, n&atilde;o ofereciam prote&ccedil;&atilde;o a cria&ccedil;&otilde;es e a inventos industriais. A Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) foi criada em 1967 para &quot;proteger&quot; direitos de propriedade intelectual. Foi concebida por advogados que tinham como clientes empresas interessadas em tal prote&ccedil;&atilde;o. Poucos anos mais tarde, em 1974, a OMPI passa a ser uma das ag&ecirc;ncias especializadas da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) e, portanto, n&atilde;o deveria mais apenas &quot;proteger&quot; a propriedade intelectual, mas sim &quot;promover a criatividade e a atividade inventiva&quot; de modo a promover o desenvolvimento. Assim, a OMPI n&atilde;o mais tinha a propriedade intelectual como fim em si mesma; mas sim como um meio para se atingir o desenvolvimento. Como a maioria dos pa&iacute;ses membros da OMPI &eacute; de pa&iacute;ses em desenvolvimento, os pa&iacute;ses ricos estavam em minoria. Uma grande jogada desses &uacute;ltimos foi vincular propriedade intelectual ao com&eacute;rcio, o que ocorreu a partir da cria&ccedil;&atilde;o da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio (OMC) em 1995. Com a crescente necessidade de todos os pa&iacute;ses fazerem parte do com&eacute;rcio global, quando da ades&atilde;o dos mesmos &agrave; OMC, por tabela levam junto o Acordo TRIPS, sobre propriedade intelectual, que prev&ecirc; os patamares m&iacute;nimos de prote&ccedil;&atilde;o &agrave; propriedade intelectual, bem como &#8211; e talvez aqui esteja a grande sacada dos pa&iacute;ses dominantes &#8211; san&ccedil;&otilde;es por descumprimento das regras. Ou seja, caso algum pa&iacute;s n&atilde;o cumpra com o previsto em TRIPS, pode ser acionado perante a OMC e ficar sujeito a san&ccedil;&otilde;es e embagos comerciais por parte do pa&iacute;s detentor de direitos de propriedade intelectual. Mas n&atilde;o bastassem tais patamares m&iacute;nimos previstos em TRIPS, pa&iacute;ses como os Estados Unidos vem exercendo press&atilde;o por meio de tratados bilaterais: &eacute; muito mais f&aacute;cil pressionar um &uacute;nico pa&iacute;s pobre (ou mesmo rico!) por vez, do que tentar imp&ocirc;r algo a v&aacute;rios pa&iacute;ses ao mesmo tempo. E tal estrat&eacute;gia tem surtido efeito: temos tratados bilaterais, todos prevendo patamares mais elevados de prote&ccedil;&atilde;o do que o estabelecido no TRIPS, j&aacute; fechados entre os EUA e Jord&acirc;nia, Austr&aacute;lia, Cingapura, Chile e Marrocos, entre outros. Outra forma de press&atilde;o pol&iacute;tica que n&atilde;o pode ser negligenciada s&atilde;o os relat&oacute;rios do Departamento de Com&eacute;rcio dos EUA, a famosa &quot;priority watch list&quot;, que enumera pa&iacute;ses que est&atilde;o na lista negra daquele governo, que entende n&atilde;o ter seus direitos de propriedade intelectual devidamente protegidos. No recente relat&oacute;rio anual, de final de abril de 2006, o Brasil &eacute; posto no grau m&aacute;ximo de alerta: quem sabe alguma coisa &agrave; ver com a iniciativa brasileira na OMPI, para equilibrar o debate?<\/p>\n<p align=\"left\"><strong><u>Prometheus:<\/u><\/strong> Como isso pode afetar os pa&iacute;ses mais pobres?<\/p>\n<p align=\"left\"><strong><u>Pedro Paranagu&aacute;:<\/u><\/strong> Essa pol&iacute;tica maximalista afeta n&atilde;o apenas pa&iacute;ses pobres, mas tamb&eacute;m pa&iacute;ses ricos. Relat&oacute;rio de 2005 da Business Software Alliance (BSA), que representa, dentre outras, a Microsoft, relata que empresas do grupo t&ecirc;m sofrido com o sistema de patentes, que vem sendo utilizado de forma a fazer reserva de mercado, ao inv&eacute;s de promover a inova&ccedil;&atilde;o. Patentes s&atilde;o tidas como instrumentos de press&atilde;o e amea&ccedil;a, ao inv&eacute;s de serem efetivamente exploradas. O que se gasta com lit&iacute;gio poderia ser gasto com pesquisa e desenvolvimento. Mas pa&iacute;ses pobres sofrem ainda mais, uma vez que royalties pelo uso de propriedade intelectual s&atilde;o enviados aos pa&iacute;ses ricos aos milh&otilde;es de d&oacute;lares, o que cria um grande d&eacute;ficit na balan&ccedil;a comercial daqueles. No caso de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, educa&ccedil;&atilde;o, medicamentos e conhecimento em geral, pa&iacute;ses pobres sentem o grande impacto. Pre&ccedil;os de livros s&atilde;o exorbitantes, assim como ocorre com pre&ccedil;os de medicamentos patenteados ou de software propriet&aacute;rio. Da&iacute; uma das grandes vantagens de utilizarmos gen&eacute;ricos (que s&atilde;o exatamente iguais aos produtos patenteados) e softwares livres. No final das contas, por abuso de interesses privados em contrapartida a interesses p&uacute;blicos, o direito de exclusividade de explora&ccedil;&atilde;o do produto industrial ou da cria&ccedil;&atilde;o intelectual acaba significando n&atilde;o apenas uma exclusividade, mas sim, uma exclus&atilde;o dos demais, que ficam &agrave; margem, sem acesso a conhecimento.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong><u>Prometheus:<\/u><\/strong> No campo da cultura e da comunica&ccedil;&atilde;o, quais os maiores preju&iacute;zos que podem surgir para a livre express&atilde;o e a cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica?<\/p>\n<p align=\"left\"><strong><u>Pedro Paranagu&aacute;:<\/u><\/strong> Hoje, caso algu&eacute;m escreva algo, automaticamente est&aacute; protegido por direitos autorais &#8211; desde que original. N&atilde;o h&aacute; necessidade de registro. E os direitos s&atilde;o reservados na sua integralidade. Agora pergunto: protegidos de quem? Parece que somos um bando de b&aacute;rbaros que, sedentos por cultura e informa&ccedil;&atilde;o, quebramos tudo o que encontramos pela frente de modo que as cria&ccedil;&otilde;es do intelecto t&ecirc;m de ser protegidas e mantidas &agrave; dist&acirc;ncia de n&oacute;s. No Brasil, caso um livro esteja fora de cat&aacute;logo, ou seja, n&atilde;o esteja &agrave; venda e, portanto, a editora n&atilde;o recebe qualquer remunera&ccedil;&atilde;o, mesmo assim ningu&eacute;m poder&aacute; fotocopi&aacute;-lo. E como fica a fun&ccedil;&atilde;o social da propriedade, garantida por nossa Constitui&ccedil;&atilde;o? Na Alemanha n&atilde;o &eacute; assim, caso o livro esteja fora de cat&aacute;logo por 2 anos, pode-se fotocopi&aacute;-lo na &iacute;ntegra. Ou seja, o Brasil n&atilde;o implementou todas as flexibilidades previstas em tratados internacionais. Ser&aacute; a press&atilde;o da &quot;priority watch list&quot;? Por exemplo, o Creative Commons, forma de licenciamento de obras, criado pelo professor Lawrence Lessig, da Universidade de Stanford, e que &eacute; representado no Brasil pelo <a href=\"http:\/\/www.direitorio.fgv.br\/cts\" target=\"_blank\">Centro de Tecnologia e Sociedade<\/a> (CTS) da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, &eacute; baseado nos direitos autorais, mas ao inv&eacute;s de &quot;todos os direitos reservados&quot;, &eacute; um instrumento de &quot;alguns direitos reservados&quot;, o que promove a dissemina&ccedil;&atilde;o do conhecimento, atrav&eacute;s de um maior equil&iacute;brio entre o interesse p&uacute;blico e o privado.<\/p>\n<p align=\"left\"><u><strong>Prometheus:<\/strong><\/u> O que &eacute; a Agenda para o Desenvolvimento e como ela pode contribuir para reverter este cen&aacute;rio?<\/p>\n<p align=\"left\"><strong><u>Pedro Paranagu&aacute;:<\/u><\/strong> A Agenda para o Desenvolvimento &eacute; uma iniciativa de 15 pa&iacute;ses em desenvolvimento, liderados por Brasil e Argentina, no &acirc;mbito da OMPI, para promover a flexibiliza&ccedil;&atilde;o no debate sobre propriedade intelectual de forma a trazer equil&iacute;brio entre o interesse p&uacute;blico e o privado. A Agenda foi apresentada no final de 2004 e vem sendo discutida de forma calorosa desde ent&atilde;o, na OMPI, em Genebra. Agora no final de 2006 ocorrer&aacute; a Assembl&eacute;ia Geral da OMPI, momento no qual a Agenda ter&aacute; seu poder de revers&atilde;o do cen&aacute;rio testado. Do ponto de vista de &ecirc;xito de suas v&aacute;rias propostas, tendo a ser relativamente c&eacute;tico, ou melhor, realista: a press&atilde;o de grandes corpora&ccedil;&otilde;es, organizadas h&aacute; d&eacute;cadas, com grande capital e com seus fortes lobbies, tem jogado um balde de &aacute;gua fria nas discuss&otilde;es. Mas uma coisa &eacute; certa: apesar do pouco preparo da maioria dos representantes de governos do hemisf&eacute;rio sul, est&aacute; se formando, ainda que timidamente, uma coaliz&atilde;o de aliados incluindo a academia, organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais (ONGs) representantes de consumidores e do interesse p&uacute;blico, e mesmo de governos do hemisf&eacute;rio sul. E nesse sentido a Agenda para o Desenvolvimento tem tido um papel crucial.<\/p>\n<p align=\"left\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevistamos para esta edi&ccedil;&atilde;o Pedro Paranagu&aacute;, advogado atuante na &aacute;rea da propriedade intelectual, membro do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas (FGV) e que acompanha como pesquisador e militante as disputas no interior da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) Prometheus: Os &uacute;ltimos &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=17982\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Propriedade Intelectual prejudica os mais pobres<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[55],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17982"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17982"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17982\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}