{"id":17952,"date":"2007-01-17T14:50:09","date_gmt":"2007-01-17T14:50:09","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=17952"},"modified":"2007-01-17T14:50:09","modified_gmt":"2007-01-17T14:50:09","slug":"tv-publica-nao-deve-fazer-entretenimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=17952","title":{"rendered":"TV p\u00fablica n\u00e3o deve fazer entretenimento"},"content":{"rendered":"<p><!--StartFragment --><\/p>\n<dl style=\"margin: 0pt 0pt 15px; font-size: xx-small; color: #000000; line-height: 130%\">\n<dt>Este artigo resulta da transcri&ccedil;&atilde;o de uma palestra realizada no Encontro da ABEPEC (Associa&ccedil;&atilde;o das Emissoras P&uacute;blicas, Educativas e Culturais) em Belo Horizonte, em 31 de agosto de 2006. Agrade&ccedil;o a Andr&eacute; Deak que cuidou da primeira edi&ccedil;&atilde;o do que agora &eacute; publicado. Alo&iacute;sio Milani pesquisou a evolu&ccedil;&atilde;o do significado da palavra &quot;entretenimento&quot; em Antenor Nascentes e Luiz Gonzaga Godoi Trigo; &eacute; dele praticamente todo o quarto par&aacute;grafo deste artigo. Rodrigo Savazoni e Ana Paula Cardoso contribu&iacute;ram na revis&atilde;o cr&iacute;tica.&nbsp; <br \/>[Texto reproduzido do Caderno de Debates que traz um diagn&oacute;stico da televis&atilde;o p&uacute;blica no Brasil, preparado pelos organizadores do I F&oacute;rum Nacional de TVs P&uacute;blicas, a ser realizado em fevereiro de 2007. T&iacute;tulo original &quot;A TV P&uacute;blica n&atilde;o faz, n&atilde;o deveria dizer que faz e, pensando bem, deveria declarar abertamente que n&atilde;o faz entretenimento&quot;. A &iacute;ntegra do Caderno de Debates est&aacute; dispon&iacute;vel aqui, em formato PDF].<\/dt>\n<\/dl>\n<p>*** <\/p>\n<p>Seria melhor para a TV p&uacute;blica se ela tivesse cuidado antes de prometer, como &agrave;s vezes promete, entretenimento para a plat&eacute;ia. Anunciando esse g&ecirc;nero de atrativo, ela se confunde &ndash; ainda mais &ndash; com a televis&atilde;o comercial. Nubla sua pr&oacute;pria identidade. O entretenimento, esse pujante ramo do com&eacute;rcio, n&atilde;o tem nada a ver com a comunica&ccedil;&atilde;o de car&aacute;ter p&uacute;blico.<\/p>\n<p>Distinguir uma coisa da outra, em tons mais expl&iacute;citos, ajudaria a iluminar a raz&atilde;o que leva a democracia a precisar da comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-comercial. Essa raz&atilde;o repousa na diferen&ccedil;a, n&atilde;o na semelhan&ccedil;a: a democracia precisa da comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-comercial, em r&aacute;dio e televis&atilde;o, exatamente para t&ecirc;-la como um contrapeso em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia privada. Os dirigentes das TVs p&uacute;blicas n&atilde;o acordaram para a urg&ecirc;ncia do tema. Com isso, a TV p&uacute;blica demora a acordar para a sua raz&atilde;o de ser.<\/p>\n<p>As emissoras comerciais e as p&uacute;blicas deveriam funcionar como os dois pratos da balan&ccedil;a, e essa balan&ccedil;a &eacute; o espa&ccedil;o p&uacute;blico democr&aacute;tico.<\/p>\n<p>As primeiras se organizam com base em demandas do mercado, que atuam por v&aacute;rios caminhos e se refletem, por exemplo, na prefer&ecirc;ncia dos anunciantes em patrocinar um tipo de programa e n&atilde;o outro &ndash; o que vai interferir no pr&oacute;prio formato das grades de programa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; bom deixar registrado que as demandas do mercado s&atilde;o leg&iacute;timas e vitais na democracia, elas n&atilde;o s&atilde;o o sat&atilde; encarnado, como se diz. Elas s&oacute; n&atilde;o podem ser as &uacute;nicas a definir o conjunto da comunica&ccedil;&atilde;o social. A&iacute; &eacute; que entra o papel das emissoras p&uacute;blicas. Estas n&atilde;o deveriam atrelar-se ao mercado, embora algumas, hoje, tenham desenvolvido, competindo indevidamente com as comerciais, uma depend&ecirc;ncia preocupante em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; receita publicit&aacute;ria. Em alternativa a isso, deveriam diferenciar-se, recusando-se a competir no mercado e buscando dar visibilidade &agrave;s express&otilde;es francamente minorit&aacute;rias da cultura e do debate p&uacute;blico, que n&atilde;o t&ecirc;m aptid&atilde;o para se tornar &quot;campe&atilde;s de audi&ecirc;ncia&quot; e n&atilde;o t&ecirc;m vez nas comerciais.<\/p>\n<p>Exercendo fun&ccedil;&otilde;es complementares &ndash; n&atilde;o opostas &ndash;, as emissoras p&uacute;blicas e as emissoras comerciais, cada uma em seu campo, fortalecem a sa&uacute;de da democracia. Se elas se igualam, se perseguem as mesmas fun&ccedil;&otilde;es e oferecem conte&uacute;dos an&aacute;logos, ora, se for assim, a sociedade n&atilde;o precisa de TV p&uacute;blica.<\/p>\n<p><strong>O entretenimento e seus sentidos<\/strong><\/p>\n<p>O significado do termo &quot;entretenimento&quot; &eacute; chave para que essa distin&ccedil;&atilde;o se fa&ccedil;a com a profundidade necess&aacute;ria. Ele n&atilde;o &eacute; um substantivo desprovido de carga ideol&oacute;gica, ainda que pare&ccedil;a uma palavra neutra. Ele surgiu tardiamente. O dicion&aacute;rio etimol&oacute;gico de Antenor Nascentes, de 1932, diz que a palavra vem do espanhol, &quot;entretenimiento&quot;, cujos primeiros registros datam do s&eacute;culo XVI. O verbo entreter, originado do latim, intertenere (&quot;inter&quot; quer dizer &quot;entre&quot;; &quot;tenere&quot; quer dizer &quot;ter&quot;), significa deter, distrair, enganar. No senso comum, &quot;entretenimento&quot; &eacute; entendido, at&eacute; hoje, como aquilo que ocorre no tempo do lazer &ndash; que n&atilde;o pertence ao tempo do trabalho &ndash;, nas horas vagas, no passatempo, no intervalo entre duas atividades ditas s&eacute;rias. <\/p>\n<p>Luiz Gonzaga Godoi Trigo, em Entretenimento: uma cr&iacute;tica aberta (S&atilde;o Paulo: Senac, 2003), conta que, antes, os significados de divertimento e de passatempo atrelavam-se ao conceito de pecado, ou a um tipo de atividade que era permitida apenas &agrave; elite. A partir do s&eacute;culo XIX, a palavra entretenimento ganhou um v&iacute;nculo com o consumo popular &ndash; de forma pejorativa, foi associado a algo de import&acirc;ncia menor e at&eacute; desprez&iacute;vel &ndash; em oposi&ccedil;&atilde;o ao erudito, &agrave; arte elevada, &agrave; cultura da elite.<\/p>\n<p>A isso, devo acrescentar agora o que julgo ser a significa&ccedil;&atilde;o atual do termo, atual e mais pesada, mais fixa, que n&atilde;o tem sido levada em conta. A partir da segunda metade do s&eacute;culo XX, ele deixou de designar o, digamos assim, estado mental produzido no sujeito que se ocupa da desocupa&ccedil;&atilde;o, deixou de se referir a um atributo de atra&ccedil;&otilde;es especializadas em distrair a audi&ecirc;ncia e virou o nome de uma ind&uacute;stria diferenciada. Mais do que uma ind&uacute;stria, um neg&oacute;cio global. Com o advento dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, a palavra, sempre que enunciada, traz consigo esse sentido material: o de neg&oacute;cio. Assim como a pr&oacute;pria palavra ind&uacute;stria &ndash; que antes nomeava apenas uma habilidade humana &ndash; mudou inteiramente de sentido com a revolu&ccedil;&atilde;o industrial, a palavra entretenimento foi revolvida por um processo de ressignifica&ccedil;&atilde;o definitivo a partir da ind&uacute;stria do entretenimento. Ao afirmar que faz entretenimento, ainda que marginalmente, uma emissora de televis&atilde;o se declara pertencente a essa ind&uacute;stria e a esse neg&oacute;cio. Quando uma TV p&uacute;blica diz que faz entretenimento, afirma que pertence a um campo &ndash; industrial e econ&ocirc;mico &ndash; ao qual n&atilde;o tem voca&ccedil;&atilde;o nem destina&ccedil;&atilde;o de pertencer. N&atilde;o se trata de um santo nome, mas essa palavra jamais poder&aacute; ser invocada em v&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o obstante, ainda vemos, em conversas entre os dirigentes das TVs p&uacute;blicas, o emprego do termo entretenimento como se ele se referisse a um adere&ccedil;o no repert&oacute;rio variado, como se a palavra pudesse conferir uma leveza inocente que ajudaria a tornar mais palat&aacute;vel, mais agrad&aacute;vel, menos chata, a programa&ccedil;&atilde;o de suas emissoras. &Eacute; como se dissessem, mais ou menos, o seguinte: &quot;No nosso card&aacute;pio a gente tem cultura, informa&ccedil;&atilde;o, educa&ccedil;&atilde;o, conhecimento e tamb&eacute;m, como ningu&eacute;m &eacute; de ferro, um pouco de entretenimento para ado&ccedil;ar a vida&quot;.<\/p>\n<p>H&aacute; quem chegue a arriscar, algumas vezes, a suposi&ccedil;&atilde;o de que poderia haver um entretenimento de bom gosto, um &quot;entretenimento de alta cultura&quot;, aquele que conteria a frui&ccedil;&atilde;o da obra de arte, o gozo do esp&iacute;rito, a frui&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica mais refinada, que descortinaria o desconhecido para nos levar a descobrir mais sobre n&oacute;s mesmos. Ter&iacute;amos, sup&otilde;em os entusiastas da divers&atilde;o educativa, entretenimentos populares &ndash; esses de mau gosto, que &quot;a gente n&atilde;o faz&quot; (o que chega a ser ofensivo em rela&ccedil;&atilde;o ao adjetivo popular, como se o popular tivesse passado a designar o que &eacute; de gosto duvidoso) &ndash; e entretenimentos cultos. Claro: a subdivis&atilde;o do entretenimento entre o &quot;popular&quot; (de mau gosto) e o &quot;culto&quot; (de bom gosto) &eacute; somente um pequeno disparate.<\/p>\n<p>Supersti&ccedil;&otilde;es teor&eacute;ticas &agrave; parte, o quadro &eacute; distinto. Com a industrializa&ccedil;&atilde;o dos bens culturais e a transforma&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria cultural num grande neg&oacute;cio, os atributos da obra mais ou menos art&iacute;stica e os aspectos de seu v&iacute;nculo com o espectador s&atilde;o barateados e nivelados por baixo; passam a apelar muito mais para a repeti&ccedil;&atilde;o de sensa&ccedil;&otilde;es, para o refor&ccedil;o da ilus&atilde;o de familiaridade, para a recrea&ccedil;&atilde;o, para o est&iacute;mulo de emo&ccedil;&otilde;es conhecidas &ndash; nada a ver com descortinar o desconhecido ou o estranho. N&atilde;o que a arte seja imposs&iacute;vel na ind&uacute;stria do entretenimento; ela apenas n&atilde;o &eacute; a regra.<\/p>\n<p>N&atilde;o que n&atilde;o haja cultura na ind&uacute;stria do entretenimento; ela &eacute; apenas a cultura de uma ind&uacute;stria, n&atilde;o a cultura em todos as suas formas. Tomar o entretenimento como o todo da cultura ou como o detentor das m&uacute;ltiplas ramifica&ccedil;&otilde;es da arte, ou mesmo de seu n&uacute;cleo, &eacute; um reducionismo imperdo&aacute;vel para os administradores da televis&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p><strong>A arte de vender os olhos da plat&eacute;ia<\/strong><\/p>\n<p>Para se ter uma id&eacute;ia da envergadura do neg&oacute;cio do entretenimento, vejamos o modo como ele engoliu um campo antes aut&ocirc;nomo, o jornal&iacute;stico. Isso mesmo: o entretenimento subjugou o jornalismo. Este, h&aacute; 50 anos, um pouco mais, um pouco menos, era um neg&oacute;cio independente, organizado em empresas independentes. Atualmente, a f&oacute;rmula da empresa jornal&iacute;stica independente tornou-se minorit&aacute;ria no mundo das comunica&ccedil;&otilde;es. Nos grandes conglomerados da m&iacute;dia, que se proclamam como players do neg&oacute;cio do entertainment, o jornalismo se v&ecirc; cada vez mais restrito &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de mero departamento dentro das empresas que, al&eacute;m de muitos outros produtos, oferecem atra&ccedil;&otilde;es que podem ser chamadas de jornal&iacute;sticas. O campo aut&ocirc;nomo do jornalismo &eacute; envolvido por um corpo que lhe &eacute; maior e que o subjuga, lan&ccedil;ando desafios imensos para a sua qualidade e a sua independ&ecirc;ncia. Lembremos que, hoje, um s&oacute; conglomerado do neg&oacute;cio do entretenimento &eacute; capaz de faturar por ano 40 bilh&otilde;es de d&oacute;lares, mais do que o PIB de alguns dos pa&iacute;ses da Am&eacute;rica do Sul.<\/p>\n<p>Qualquer empreendimento capitalista tem por finalidade o lucro, nenhuma novidade quanto a isso. O entretenimento tamb&eacute;m. Mas ele vende o que, exatamente? A sua mercadoria &eacute; algo que muitos, at&eacute; hoje, t&ecirc;m enorme dificuldade para admitir. A sua mercadoria n&atilde;o &eacute; uma telenovela, ou um DVD, ou um programa de audit&oacute;rio. O cora&ccedil;&atilde;o do neg&oacute;cio do entretenimento no campo dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social e, em particular, no campo da televis&atilde;o, que &eacute; o que nos interessa dramaticamente, se resume a vender&#8230; o seu pr&oacute;prio p&uacute;blico. Basta ver a televis&atilde;o comercial aberta. Sua mercadoria n&atilde;o s&atilde;o as atra&ccedil;&otilde;es que ela faz crer que s&atilde;o suas mercadorias, mas os olhos para os quais essas supostas mercadorias se anunciam atraentes. Ela comercializa o olhar de quem a v&ecirc;, o que, em boa parte, &eacute; verdadeiro tamb&eacute;m para os canais pagos. De vender o seu p&uacute;blico para o anunciante vivem as televis&otilde;es comerciais, ou, pelo menos, vivem as melhores, as que n&atilde;o usam dinheiro sujo na opera&ccedil;&atilde;o. A sua estrutura&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica se dirige &agrave; capta&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico, &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico e &agrave; venda do p&uacute;blico. &Eacute; isso o que tem valor em seu modelo de neg&oacute;cio. O entretenimento, nos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o, resume-se ao of&iacute;cio de captar o olhar social para vend&ecirc;-lo, de acordo com a quantidade e com a suposta qualidade da plat&eacute;ia da qual ele se origina.<\/p>\n<p>Por ora, vai a&iacute; uma pergunta: vender sua audi&ecirc;ncia &eacute; &ndash; ou deve ser &ndash; o cora&ccedil;&atilde;o da raz&atilde;o de ser da televis&atilde;o p&uacute;blica? <\/p>\n<p><strong>O mito da &quot;natureza&quot; da televis&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Existem, eu sei, aqueles resignados que olham para o alto e giram levemente a cabe&ccedil;a, em sinal de enfado, para lan&ccedil;ar o argumento que pensam imbat&iacute;vel: &quot;N&atilde;o adianta, o entretenimento &eacute; da natureza da televis&atilde;o&quot;. N&atilde;o &eacute; verdade, de jeito nenhum. Chamo a aten&ccedil;&atilde;o para essa crendice que se instalou assim sem mais nem menos e que, para a televis&atilde;o p&uacute;blica, &eacute; mortal. Fala-se que televis&atilde;o &eacute;, por natureza, entretenimento. &Eacute; muito comum darmos de cara com esse dogma. A TV Cultura andou fazendo uns grandes cursos de cultura que nada t&ecirc;m das receitas da ind&uacute;stria do entretenimento. S&atilde;o experi&ecirc;ncias fabulosas. Estaria ent&atilde;o a TV Cultura atentando contra a natureza da televis&atilde;o? Seria isso? Claro que n&atilde;o. A televis&atilde;o n&atilde;o &eacute; um dado da natureza; &eacute; uma produ&ccedil;&atilde;o da cultura, da hist&oacute;ria, das rela&ccedil;&otilde;es sociais, da tecnologia, do g&ecirc;nio humano e da democracia. O seu sentido e o seu uso s&atilde;o determinados na plan&iacute;cie da cultura &ndash; ou no mar profundo da cultura, como queiram. A televis&atilde;o n&atilde;o tem uma &quot;natureza&quot; que escape &agrave; cultura.<\/p>\n<p>Acontece que a gente lida mal com essa hist&oacute;ria de natureza das coisas. Fala-se muito, por exemplo, que &quot;o voyeurismo &eacute; natural do ser humano&quot; (uso aspas aqui porque s&oacute; mesmo entre aspas eu posso escrever uma coisa dessas). O voyeurismo n&atilde;o &eacute; &quot;natural do ser humano&quot;; &eacute; natural, ou melhor, &eacute; pr&oacute;prio de uma certa idade da cultura em que o olhar assume um determinado papel na configura&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre os sujeitos e na configura&ccedil;&atilde;o das significa&ccedil;&otilde;es. O olhar pela fechadura, como recurso da vida er&oacute;tica voyeurista, n&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno da natureza. Esse gesto sup&otilde;e, sem piada, a exist&ecirc;ncia da fechadura, n&atilde;o como canal &oacute;tico entre dois ambientes, mas como um marco divisor entre a esfera &iacute;ntima e a outra esfera, que lhe &eacute; exterior. O voyeurismo s&oacute; tem sentido onde essa divis&atilde;o se instala dessa forma &ndash; e tamb&eacute;m s&oacute; tem sentido numa civiliza&ccedil;&atilde;o em que a imagem adquiriu o estatuto que adquiriu.<\/p>\n<p>A televis&atilde;o, ali&aacute;s, tem entre n&oacute;s o estatuto de janela para o mundo, capaz de descortinar os fatos como eles s&atilde;o, como se os v&iacute;ssemos de perto com os nossos pr&oacute;prios olhos, porque vivemos numa civiliza&ccedil;&atilde;o em que a imagem se tornou crit&eacute;rio da verdade. A televis&atilde;o desfruta dessa impostura que esconde o artif&iacute;cio para dar a ver a suposta realidade. A televis&atilde;o &eacute; o que &eacute; porque somos uma sociedade em que o voyeurismo virou o que virou. Mas n&atilde;o &eacute; razo&aacute;vel supor que o voyeurismo funcione do mesmo modo numa tribo caiap&oacute;, em que garotas e garotos andam nus, ou onde, se houvesse fechaduras, a cena de um lado e de outro da fechadura seria equivalentes ou mesmo iguais.<\/p>\n<p>O voyeurismo n&atilde;o &eacute; natural no humano assim como o entretenimento n&atilde;o &eacute; natural nesse aparelho de imagem eletr&ocirc;nica que as pessoas t&ecirc;m em casa. Vejamos o teatro, o cinema, os livros, o r&aacute;dio: a quantos fins, a quantos objetivos tudo isso n&atilde;o serviu? S&oacute; ao entretenimento? N&atilde;o &eacute; da natureza da televis&atilde;o o entretenimento &ndash; este &eacute; que &eacute; da natureza de um certo mercado da cultura, mas n&atilde;o da natureza das v&aacute;lvulas, dos eletrodos, do controle remoto, da internet, de nada disso.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que, uma vez absorvida pelo entretenimento, a televis&atilde;o se torna propulsora e disseminadora do espet&aacute;culo como um modo de produ&ccedil;&atilde;o. No pr&oacute;prio telejornalismo das emissoras comerciais &eacute; assim. N&atilde;o por acaso, uma das cr&iacute;ticas que com mais freq&uuml;&ecirc;ncia se fazem ao pr&oacute;prio jornalismo &eacute; que ele tem buscado mais entreter que informar. A cobertura telejornal&iacute;stica de epis&oacute;dios como o massacre de Eldorado do Caraj&aacute;s, a morte de Ayrton Senna ou mesmo o 11 de Setembro denota uma propens&atilde;o acentuada &agrave; finalidade de chocar, de emocionar, de projetar o que h&aacute; de sensacional no fato em detrimento do sentido do pr&oacute;prio fato. O telejornalismo se abastece do showbusiness, em sua dimens&atilde;o est&eacute;tica, pois foi engolido por essa ind&uacute;stria que lhe &eacute; superior. <\/p>\n<p>A televis&atilde;o talvez seja um dos motores mais ativos da ind&uacute;stria do entretenimento, tendendo a sujeitar tudo o mais &agrave; espetaculariza&ccedil;&atilde;o com finalidade de vender &ndash; vender sobretudo o olhar do p&uacute;blico &ndash;, mas a sua natureza cultural n&atilde;o se reduz a isso. Ela pode, sim, prestar-se a outros fins. Pode, principalmente, prestar-se a olhar criticamente o cen&aacute;rio erguido pela televis&atilde;o comercial. Ao declarar que n&atilde;o faz entretenimento e que n&atilde;o tem compromisso com o entretenimento, a televis&atilde;o p&uacute;blica, s&oacute; nisso, j&aacute; acende uma pequena lanterna para sinalizar que a cultura, o conhecimento e a comunica&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m f&ocirc;lego para alcan&ccedil;ar outras altitudes.<\/p>\n<p><strong>&Agrave; parte uma bandeira &eacute;tica, s&atilde;o quatro as bandeiras est&eacute;ticas para a TV p&uacute;blica<\/strong><\/p>\n<p>Algu&eacute;m j&aacute; disse que &quot;divertir-se &eacute; estar de acordo&quot;. Nada contra o divertimento, por certo, mas h&aacute; que se prestar aten&ccedil;&atilde;o nessa modalidade de divertimento que requer a anu&ecirc;ncia do p&uacute;blico em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; autoridade que lhe presenteia com a oferta de divers&atilde;o. H&aacute;, no fundo dos passatempos oferecidos pela ind&uacute;stria, um qu&ecirc; de &quot;sim, senhor&quot;. Qual o papel reservado &agrave; televis&atilde;o p&uacute;blica diante disso? Ela quer as pessoas de acordo? De acordo com o qu&ecirc;? Com quem? A verdade &eacute; que a melhor voca&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o p&uacute;blica caminha na dire&ccedil;&atilde;o oposta, ela se afasta do entretenimento. Desse afastamento vir&aacute; seu poder de atra&ccedil;&atilde;o e sua capacidade de surpreender e fascinar.<\/p>\n<p>H&aacute; uma bandeira &eacute;tica que a televis&atilde;o p&uacute;blica do Brasil precisa empunhar agora: a bandeira da independ&ecirc;ncia frente aos governos e frente ao mercado. Ela n&atilde;o pode se sujeitar ao papel subalterno de promover governadores, ministros ou presidentes da Rep&uacute;blica. Da mesma maneira, n&atilde;o pode ser uma caixa de resson&acirc;ncia das demandas de mercado, dos interesses dos anunciantes, do jogo da publicidade. O seu caminho, o da independ&ecirc;ncia, vai para longe disso. Mas aqui, neste texto, eu gostaria de falar n&atilde;o de bandeiras &eacute;ticas, e, sim, de bandeiras est&eacute;ticas. Essa dimens&atilde;o, a est&eacute;tica, talvez seja ainda mais grave e &eacute; igualmente urgente.<\/p>\n<p>Proponho quatro bandeiras est&eacute;ticas para a televis&atilde;o p&uacute;blica:<\/p>\n<p><strong>1. Almejar o invis&iacute;vel<\/strong><\/p>\n<p>O sujeito s&oacute; v&ecirc; o objeto ao qual sabe dar nome. No olhar, s&oacute; ganha visibilidade o que tem lugar na linguagem. N&atilde;o vou aqui me ocupar dessas determina&ccedil;&otilde;es que podem ser entendidas como leis do olhar, embora ainda n&atilde;o sejam conhecidas. <\/p>\n<p>Passarei por elas rapidamente. Passarei por isso apenas para dizer que o objetivo permanente da televis&atilde;o p&uacute;blica deve ser o de furar o pano da visibilidade, que embrulha como um inv&oacute;lucro o que chamamos de realidade. Trata-se de uma bandeira que traz consigo o dever da experimenta&ccedil;&atilde;o de linguagem. <\/p>\n<p>Almejar o invis&iacute;vel significa n&atilde;o compactuar com a ilus&atilde;o essencial do entretenimento, que &eacute; a de apoiar no vis&iacute;vel o crit&eacute;rio da verdade. O vis&iacute;vel n&atilde;o &eacute; nem cont&eacute;m o crit&eacute;rio da verdade. O vis&iacute;vel &eacute; algo que nos fala aos sentidos, mas o conhecimento, a raz&atilde;o, o entendimento, a express&atilde;o das id&eacute;ias, necessariamente, s&oacute; podem ser concebidas como um processo que se estende al&eacute;m das fronteiras do vis&iacute;vel. Almejar o invis&iacute;vel &eacute; investigar o sentido de fen&ocirc;menos que por algum motivo n&atilde;o se manifestaram.<\/p>\n<p>A televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o deve se ocupar de figuras, de cenas, de imagens, mas fundamentalmente de id&eacute;ias em curso. Para almejar o invis&iacute;vel &eacute; preciso sair da postura de ser bajulador de plat&eacute;ias, que &eacute; uma das atitudes definidoras da ind&uacute;stria do entretenimento. Ela n&atilde;o bancar a sedutora barata de audi&ecirc;ncias como que diz &quot;dou aquilo que voc&ecirc; quer, dou aquilo que voc&ecirc; deseja&quot;, o que &eacute; apenas uma forma de mentira. Donde partimos para a segunda bandeira.<\/p>\n<p><strong>2. Desmontar a oferta do gozo pr&eacute;-fabricado<\/strong><\/p>\n<p>A televis&atilde;o p&uacute;blica deve problematizar o ciclo do gozo do olhar, a oferta de gozo da ind&uacute;stria de entretenimento. O monitor fala aos sentidos de seu fiel &quot;fique a&iacute; que eu lhe proporcionarei deleite sem fim&quot;, de tal forma que at&eacute; mesmo &ndash; ou principalmente &ndash; as propagandas s&atilde;o pe&ccedil;as centrais de entretenimento: a publicidade, mais que mercadorias distantes, oferece o gozo pr&oacute;ximo, o mundo al&eacute;m dos limites, o prazer do consumo subjetivo que se antecipa ao ato social, material, de consumir. Desmontar essa oferta de gozo &eacute; oferecer o diferente, &eacute; deixar de reiterar, de insistir na reincid&ecirc;ncia de doses maiores das mesmas sensa&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p><strong>3. Buscar o conte&uacute;do que n&atilde;o cabe na TV comercial<\/strong><\/p>\n<p>Uma sociedade democr&aacute;tica precisa dos dois pratos da balan&ccedil;a, a televis&atilde;o comercial e a televis&atilde;o p&uacute;blica. O que a televis&atilde;o comercial faz a televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o deve pretender fazer; o que a televis&atilde;o p&uacute;blica faz, se estiver centrada em sua miss&atilde;o, a comercial n&atilde;o consegue fazer. Essa bandeira prega a diferencia&ccedil;&atilde;o que mal come&ccedil;ou. &Eacute; preciso identificar onde est&aacute; a forma de comunica&ccedil;&atilde;o que a televis&atilde;o comercial n&atilde;o pode fazer, porque &eacute; justamente a&iacute;, nesse ponto escuro, invis&iacute;vel, que est&aacute; o pequeno farol da TV p&uacute;blica.<\/p>\n<p>Os conte&uacute;dos que n&atilde;o caberiam na TV comercial n&atilde;o s&atilde;o necessariamente os conte&uacute;dos chatos, embora a palavra &quot;chato&quot; n&atilde;o seja, na televis&atilde;o p&uacute;blica, o mesmo adjetivo nocivo que &eacute; na televis&atilde;o comercial. A televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o deveria temer a chatice como um abismo. A chatice &eacute; um tabu do entretenimento, mas n&atilde;o &eacute; exatamente uma barreira do pensamento. <\/p>\n<p>&Eacute; preciso na televis&atilde;o p&uacute;blica temer a engabela&ccedil;&atilde;o, a tapea&ccedil;&atilde;o, a demagogia, o desservi&ccedil;o, o sensacionalismo. O seu v&iacute;cio n&atilde;o est&aacute; na chatice, estritamente: est&aacute; em outro lugar. A chatice &eacute; o v&iacute;cio da televis&atilde;o comercial, a peste de que ela foge obstinadamente, de tal modo que todos os canais parecem iguais. O primeiro dever da televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; ser diferente disso. A experimenta&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica, um dever que ela tem, n&atilde;o pode conviver com o medo da chatice ou com o imperativo de agradar &agrave;s maiorias m&eacute;dias o tempo todo.<\/p>\n<p>Claro que a televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o vai primar pelo enfadonho &ndash; o que hoje acontece, por sinal, justamente porque ela insiste em copiar, de modo rebaixado, os modelos privados dominantes. Claro que ela n&atilde;o vai se esfor&ccedil;ar em buscar a chatice &ndash; ao contr&aacute;rio, ela vai correr o risco necess&aacute;rio para ser inteiramente distinta.<\/p>\n<p><strong>4. Emancipar em lugar de vender<\/strong><\/p>\n<p>A TV p&uacute;blica n&atilde;o pode sucumbir ao impulso de se desejar desejada. Sua voca&ccedil;&atilde;o &eacute; problematizar essa modalidade primitiva de sedu&ccedil;&atilde;o &ndash; ou de mendic&acirc;ncia afetiva. Ela quer, sim, desmontar esse jogo sem sa&iacute;da e desmascarar as armadilhas. A proposta de comunica&ccedil;&atilde;o que ela faz &eacute; uma proposta mais incerta, mais ingrata, menos demag&oacute;gica, mais provocativa &ndash; indispens&aacute;vel para a diversifica&ccedil;&atilde;o de linguagens. Ou ser&aacute; assim ou ela n&atilde;o conseguir&aacute; deixar de ser linha auxiliar da ind&uacute;stria do entretenimento, &agrave;s vezes at&eacute; lhe fornecendo produtos para a comercializa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o quer p&uacute;blico cativo como quer a televis&atilde;o comercial. Ela n&atilde;o funcionar&aacute; como cativeiro, mas como emancipadora e incubadora. O sentido da televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; tornar o sujeito suficientemente aut&ocirc;nomo para, no limite, poder prescindir da televis&atilde;o. O sentido da televis&atilde;o comercial &eacute; aprisionar o sujeito na sua forma retangular. O pesadelo que atormenta a televis&atilde;o comercial &eacute; aquele de, um dia, as pessoas n&atilde;o precisem mais dela. A realiza&ccedil;&atilde;o da TV p&uacute;blica &eacute; o contr&aacute;rio &ndash; &eacute; a emancipa&ccedil;&atilde;o. Ela se realiza como o melhor professor se realiza quando seu pupilo al&ccedil;a v&ocirc;o pr&oacute;prio &ndash; e parte. Com essa proposta de pacto emancipador, ela atrair&aacute; mais gente, pois saber&aacute; corresponder a uma necessidade que se encontra em aberto, que a televis&atilde;o comercial n&atilde;o consegue atender. Ao n&atilde;o querer prender a sua audi&ecirc;ncia, adotando outra atitude diante dela, a televis&atilde;o p&uacute;blica ter&aacute;, seguramente, mais audi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A televis&atilde;o comercial pode at&eacute; ser educativa, se encontrar caminhos para isso. A televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o que precisa produzir gente emancipada, liberta, cr&iacute;tica &ndash; e pode at&eacute; se tornar um sucesso, se for radical no seu compromisso de emancipar. O neg&oacute;cio da televis&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; entretenimento e, indo mais longe, n&atilde;o &eacute; sequer televis&atilde;o: &eacute; cultura, &eacute; informa&ccedil;&atilde;o, &eacute; liberdade. Para a televis&atilde;o comercial, o meio &eacute; um fim. Para a p&uacute;blica, o meio &eacute; uma possibilidade em aberto.<\/p>\n<p><strong>S&oacute; assim o p&uacute;blico vir&aacute;<\/strong><\/p>\n<p>Voltando ao p&acirc;nico dos administradores da TV p&uacute;blica: essas bandeiras trar&atilde;o p&uacute;blico para ela? Seguramente. Ali&aacute;s, a falta de p&uacute;blico n&atilde;o deveria assust&aacute;-los, pois tem sido a sua rotina. Para a TV p&uacute;blica, s&oacute; um caminho &eacute; poss&iacute;vel: n&atilde;o competir com a televis&atilde;o privada. Fora disso, ela at&eacute; poder&aacute; prestar bons servi&ccedil;os para a ind&uacute;stria do entretenimento, mas n&atilde;o ter&aacute; valor nenhum para a democracia, para a cultura e para os olhos que se abrem diante dela. Mais que tudo, n&atilde;o ter&aacute; valor para si mesma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo resulta da transcri&ccedil;&atilde;o de uma palestra realizada no Encontro da ABEPEC (Associa&ccedil;&atilde;o das Emissoras P&uacute;blicas, Educativas e Culturais) em Belo Horizonte, em 31 de agosto de 2006. Agrade&ccedil;o a Andr&eacute; Deak que cuidou da primeira edi&ccedil;&atilde;o do que agora &eacute; publicado. Alo&iacute;sio Milani pesquisou a evolu&ccedil;&atilde;o do significado da palavra &quot;entretenimento&quot; em Antenor &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=17952\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">TV p\u00fablica n\u00e3o deve fazer entretenimento<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[60],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17952"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17952\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}