{"id":17928,"date":"2006-12-15T17:14:14","date_gmt":"2006-12-15T17:14:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=17928"},"modified":"2006-12-15T17:14:14","modified_gmt":"2006-12-15T17:14:14","slug":"midia-e-o-cenario-de-representacao-da-estetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=17928","title":{"rendered":"M\u00eddia e o cen\u00e1rio de representa\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"art_texto\">A morte prematura da jovem modelo Ana Carolina Reston trouxe de volta a discuss&atilde;o sobre como se constroem os padr&otilde;es est&eacute;ticos dominantes em nossa sociedade. O tema &eacute; complexo. Passado, no entanto, o momento de explora&ccedil;&atilde;o m&oacute;rbida que acontecimentos como esse acabam por provocar &ndash; tr&ecirc;s das quatro principais revistas semanais de informa&ccedil;&atilde;o deram capa sobre o assunto na mesma semana &ndash;, creio oportuno retomar o conceito de Cen&aacute;rio de Representa&ccedil;&atilde;o (CR), desenvolvido por mim h&aacute; mais de 10 anos, e cuja aplica&ccedil;&atilde;o talvez ajude a avan&ccedil;ar no entendimento da constru&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da imagem do que &eacute; feio e do que &eacute; bonito. <\/p>\n<p>Se os padr&otilde;es est&eacute;ticos s&atilde;o hist&oacute;ricos, isto &eacute;, variam ao longo do tempo, quais os fatores que provocam sua mudan&ccedil;a? Quais os interesses que se movem de acordo com a defini&ccedil;&atilde;o desses padr&otilde;es? Por que a obsess&atilde;o pela magreza se d&aacute; no contexto de um sistema industrial &ndash; que comercializa a dieta, a malha&ccedil;&atilde;o (<em>fitness<\/em>), a cirurgia pl&aacute;stica, a &quot;moda&quot;, al&eacute;m de uma infinidade de &quot;produtos de beleza&quot; &ndash; e se expressa nas formas dominantes de produ&ccedil;&atilde;o cultural da m&iacute;dia? De que forma a pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o da identidade &ndash; feminina e\/ou masculina &ndash; est&aacute; relacionada &agrave; defini&ccedil;&atilde;o desses padr&otilde;es?<\/p>\n<p>O conceito de CR surgiu da necessidade de compreender as representa&ccedil;&otilde;es da realidade na m&iacute;dia, em suas diferentes dimens&otilde;es &ndash; pol&iacute;tica, ra&ccedil;as, g&ecirc;neros, gera&ccedil;&otilde;es, est&eacute;tica etc. &ndash; assim como de compreender a crescente import&acirc;ncia que a m&iacute;dia adquiriu na constru&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria realidade no mundo contempor&acirc;neo.<\/p>\n<p>O CR pode ser inclu&iacute;do dentro de uma ampla tradi&ccedil;&atilde;o de estudos nas ci&ecirc;ncias humanas identificada por diferentes conceitos dentro dos mais diversos contextos te&oacute;ricos: vontade geral, opini&atilde;o p&uacute;blica, representa&ccedil;&atilde;o coletiva, representa&ccedil;&otilde;es sociais, ideologia, imagin&aacute;rio social, mito, inconsciente pol&iacute;tico, cultura pol&iacute;tica, consenso, centro din&acirc;mico da cultura e hegemonia, dentre outros. Entre esses, o de hegemonia &eacute; o que melhor fundamenta a id&eacute;ia de CR.<\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p>Significados e valores<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Raymond Williams descreveu a hegemonia como &quot;um conjunto de pr&aacute;ticas e expectativas&quot;, &quot;um sistema vivido de significados e valores&quot;, &quot;um complexo realizado de experi&ecirc;ncias, rela&ccedil;&otilde;es e atividades, com press&otilde;es e limites espec&iacute;ficos e mut&aacute;veis&quot;. Al&eacute;m disso, &eacute; &quot;sempre um processo&quot; e &eacute; &quot;no seu sentido mais forte, uma cultura&quot;. <\/p>\n<p>Se entendermos o substantivo &quot;cen&aacute;rio&quot; como significando o espa&ccedil;o, o lugar onde ocorre algum fato, a a&ccedil;&atilde;o ou parte da a&ccedil;&atilde;o de uma pr&aacute;tica qualquer, &eacute; poss&iacute;vel afirmar que a hegemonia &ndash; para efeito de an&aacute;lise &ndash; pode ser decomposta em v&aacute;rios &quot;cen&aacute;rios&quot; espec&iacute;ficos que incorporam, naturalmente, todas as suas caracter&iacute;sticas. Necessariamente integradas na articula&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nica, as diferentes dimens&otilde;es do &quot;conjunto de pr&aacute;ticas e expectativas sobre a totalidade da vida&quot; constituem-se em cen&aacute;rios\/espa&ccedil;os pr&oacute;prios, com significados e valores espec&iacute;ficos, que tamb&eacute;m se interpenetram e se superp&otilde;em.<\/p>\n<p>E qual a caracter&iacute;stica fundamental desses &quot;cen&aacute;rios&quot;? Se a hegemonia &eacute; &quot;um sistema vivido de significados e valores (&#8230;), um senso da realidade&quot;, podemos afirmar que ela se constitui e se realiza no espa&ccedil;o onde o sentido da vida e das coisas &eacute; constru&iacute;do, isto &eacute;, no espa&ccedil;o das representa&ccedil;&otilde;es. Desta forma, podemos tamb&eacute;m afirmar que esses &quot;cen&aacute;rios&quot; s&atilde;o, de fato, &quot;cen&aacute;rios de representa&ccedil;&atilde;o&quot;. <\/p>\n<p>Representa&ccedil;&atilde;o pode referir-se a exist&ecirc;ncia de uma realidade externa aos meios atrav&eacute;s dos quais ela &eacute; representada (realidade refletida, mim&eacute;tica) ou pode tamb&eacute;m referir-se &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o desta mesma realidade. Este &uacute;ltimo &eacute; o sentido que nos interessa. Nele a hegemonia &eacute; um &quot;sistema vivido &ndash; constitu&iacute;do e constituidor &ndash; de significados e valores que (&#8230;) parecem confirmar-se reciprocamente&quot; e a representa&ccedil;&atilde;o significa n&atilde;o s&oacute; representar a realidade, mas tamb&eacute;m constitu&iacute;-la.<\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p>Press&atilde;o difusa<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Os CR s&atilde;o o espa&ccedil;o espec&iacute;fico das diferentes representa&ccedil;&otilde;es da realidade, constitu&iacute;do e constituidor, lugar e objeto da articula&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nica total. Como a hegemonia, os CR n&atilde;o podem nunca ser singulares, estar&atilde;o sempre acompanhados de um contra-CR ou de um CR alternativo. Mas o mais importante &eacute; que os CR s&atilde;o constitu&iacute;dos em processos de longo prazo, <em>na<\/em> m&iacute;dia e <em>pela<\/em> m&iacute;dia (sobretudo <em>na<\/em> e <em>pela<\/em> televis&atilde;o).<\/p>\n<p>&Eacute; nesses CR que s&atilde;o constru&iacute;das publicamente as significa&ccedil;&otilde;es relativas &agrave; pol&iacute;tica (direita\/esquerda, conservador\/progressista etc.), aos g&ecirc;neros (masculino\/feminino), &agrave;s ra&ccedil;as (branco\/negro\/amarelo), &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es (novo\/velho) e tamb&eacute;m &agrave; est&eacute;tica (feio\/bonito). Temos, ent&atilde;o, dentre outros, um Cen&aacute;rio de Representa&ccedil;&atilde;o da Est&eacute;tica, CR-E.<\/p>\n<p>Um estudo das representa&ccedil;&otilde;es do feio e do bonito nos diversos conte&uacute;dos da m&iacute;dia &ndash; entretenimento, not&iacute;cias, publicidade &ndash; ajudaria a identificar o CR-E dominante e, certamente, conduziria a uma compreens&atilde;o maior dos processos que fazem prevalecer no nosso tempo um modelo de beleza cuja busca &ndash; no limite &ndash; pode conduzir &agrave; pr&oacute;pria morte. <\/p>\n<p>E mais. Ajudaria a compreender que trag&eacute;dias como a da modelo Ana Carolina Reston, com todas as suas contradi&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o se explicam apenas pelo desvio individual de comportamento, mas tamb&eacute;m pelo exerc&iacute;cio permanente da enorme press&atilde;o difusa levada a efeito por uma estrutura simb&oacute;lica com poder de san&ccedil;&atilde;o social, criada e sustentada <em>na<\/em> e <em>pela<\/em> m&iacute;dia.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M&iacute;dia e o cen&aacute;rio de representa&ccedil;&atilde;o da est&eacute;tica <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[57],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17928"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17928"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17928\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}