{"id":17925,"date":"2006-12-15T16:30:48","date_gmt":"2006-12-15T16:30:48","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=17925"},"modified":"2006-12-15T16:30:48","modified_gmt":"2006-12-15T16:30:48","slug":"pesquisador-discute-novo-marco-regulatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=17925","title":{"rendered":"Pesquisador discute novo marco regulat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p>O C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (CBT), legisla&ccedil;&atilde;o que rege o r&aacute;dio e a televis&atilde;o no Brasil, data de 1962, quando a pr&oacute;pria televis&atilde;o em preto e branco ainda era uma novidade para boa parte da popula&ccedil;&atilde;o brasileira.&nbsp;A TV a cabo tem uma lei pr&oacute;pria, e as demais modalidades de televis&atilde;o por assinatura &ndash; o MMDS (micro-ondas) e o DTH (televis&atilde;o por sat&eacute;lite) &ndash; n&atilde;o tiveram sua regulamenta&ccedil;&atilde;o por meio de discuss&atilde;o p&uacute;blica, com aprova&ccedil;&atilde;o de lei ordin&aacute;ria no Congresso Nacional. Foram reguladas por portarias e t&ecirc;m crit&eacute;rios diferentes da TV a cabo em diferentes quest&otilde;es; entre elas, a participa&ccedil;&atilde;o de capital estrangeiro nas empresas de TV por assinatura.&nbsp;Por outro lado, os chamados servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es est&atilde;o submetidos &agrave; Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es e &agrave; Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel), desde a distin&ccedil;&atilde;o criada entre comunica&ccedil;&atilde;o e telecomunica&ccedil;&otilde;es, produzida pela Emenda Constitucional no 5, de 1995. At&eacute; ent&atilde;o eram regidos pelo mesmo C&oacute;digo de 1962.<\/p>\n<p>Esses movimentos contradit&oacute;rios e casu&iacute;stas v&ecirc;m tornando a nossa legisla&ccedil;&atilde;o uma verdadeira &quot;colcha de retalhos&quot;, incapaz, tamb&eacute;m, de balizar as novas atividades que surgem e o entrela&ccedil;amento de diferentes servi&ccedil;os, frutos do advento da tecnologia digital e da chamada converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica.<\/p>\n<p>Os debates em torno da TV digital trazem a tona novamente a necessidade de reformular a legisla&ccedil;&atilde;o criando um novo marco regulat&oacute;rio, unificando, a partir de princ&iacute;pios comuns, a contradit&oacute;ria legisla&ccedil;&atilde;o brasileira no campo da comunica&ccedil;&atilde;o.&nbsp;Para discutir a necessidade de cria&ccedil;&atilde;o de uma nova legisla&ccedil;&atilde;o para o setor de comunica&ccedil;&atilde;o, o Boletim Prometheus entrevistou nesta edi&ccedil;&atilde;o o professor Murilo Ramos, coordenador do Laborat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas em Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB).<\/p>\n<p><strong>Prometheus<\/strong> &#8211; Qual a import&acirc;ncia dessas redefini&ccedil;&otilde;es no momento atual e que riscos corremos caso elas n&atilde;o aconte&ccedil;am?<br \/><strong>Murilo Ramos<\/strong> &#8211; Os debates da TV digital, na realidade, esconderam durante quase todo o atual governo o debate que o deveria preceder, sobre um novo ambiente normativo &#8211; pol&iacute;tico, regulamentar e regulat&oacute;rio &ndash; para a comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica brasileira. S&oacute; quando aquelas for&ccedil;as n&atilde;o empresariais, comumente conhecidas como da &#39;sociedade civil&#39; &ndash; destaco duas, hoje as mais importantes: o F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o e o Coletivo Intervozes &ndash; deram-se conta de que o projeto, essencialmente t&eacute;cnico, ressalto, do Sistema Brasileiro de Televis&atilde;o Digital (SBTVD) seria desconsiderado pelo governo, &eacute; que elas retomaram a tese fundamental do novo marco normativo.&nbsp;O que temo &eacute; que talvez tenha sido tarde demais, e que a decis&atilde;o t&eacute;cnica, qualquer que seja, aconte&ccedil;a ainda este ano, tornando ainda mais fragmentada e dispersa, e casu&iacute;stica, a atual legisla&ccedil;&atilde;o para a comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica.<\/p>\n<p><strong>Prometheus<\/strong> &#8211; Que princ&iacute;pios devem nortear uma Lei Geral das Comunica&ccedil;&otilde;es?<br \/><strong>Murilo Ramos<\/strong> &#8211; Prefiro, por ora, circunscrever essa lei ao que denomino Comunica&ccedil;&atilde;o Social Eletr&ocirc;nica, que compreende essencialmente o r&aacute;dio, a televis&atilde;o e as m&iacute;dias digitais correlatas que t&ecirc;m na internet o seu meio-s&iacute;ntese. Para mim, s&atilde;o tr&ecirc;s os princ&iacute;pios fundamentais que deveriam nortear essa lei. O primeiro &eacute; reconhecer a centralidade da id&eacute;ia de p&uacute;blico para a estrutura&ccedil;&atilde;o de qualquer sistema de comunica&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tico. Isso significa em nosso caso duas estrat&eacute;gias b&aacute;sicas de pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&atilde;o. Uma &eacute; garantir que em nosso sistema comercial possa existir um sub-sistema p&uacute;blico de r&aacute;dio e televis&atilde;o de alta qualidade program&aacute;tica e t&eacute;cnica, e com fontes de financiamento pr&oacute;prias e asseguradas. Penso em algo como o Public Broadcasting Service (PBS) e National Public Radio (NPR), existentes nos Estados Unidos. Este &eacute; um sub-sistema que pode e deve nascer das estruturas de uma Radiobr&aacute;s e de uma Televis&atilde;o Educativa &quot;desgovernamentalizadas&quot; e transformadas em entes de Estado sob amplo controle p&uacute;blico. A outra estrat&eacute;gia &eacute; fazer com que toda concess&atilde;o ou permiss&atilde;o dada para a explora&ccedil;&atilde;o de um servi&ccedil;o de comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica seja de fato outorga de servi&ccedil;o p&uacute;blico, e n&atilde;o, como hoje, licen&ccedil;as frouxas, que tornam o uso das radiofreq&uuml;&ecirc;ncias (ao contr&aacute;rio, inclusive, do que ocorre com as telecomunica&ccedil;&otilde;es) uma atividade quase que eminentemente privada. O p&uacute;blico, na comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica que utiliza um bem coletivo escasso, como &eacute; o caso do r&aacute;dio e da televis&atilde;o, tem que se sobrepor ao privado. E mesmo os servi&ccedil;os de comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica que sejam objeto de outorgas de autoriza&ccedil;&atilde;o deveriam estar submetidos a contratos com claras obriga&ccedil;&otilde;es de presta&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o nos termos estabelecidos pela Constitui&ccedil;&atilde;o Federal. Um segundo princ&iacute;pio &eacute; o da regula&ccedil;&atilde;o aut&ocirc;noma. O segmento da comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica conhecido como radiodifus&atilde;o, ou r&aacute;dio e televis&atilde;o abertos &ndash; prestes a passar por uma transi&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica digital que mudar&aacute; substantivamente sua estrutura de programa&ccedil;&atilde;o e rela&ccedil;&atilde;o com a sociedade &ndash; &eacute; hoje o mais irregulado da economia brasileira. Sua lei b&aacute;sica, a Lei 4.117 &eacute; de 1962 e j&aacute; est&aacute; toda desfigurada. Seu &oacute;rg&atilde;o regulador &eacute; o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, que, na maioria das vezes, serve de escrit&oacute;rio em Bras&iacute;lia para atender os interesses do empresariado, e n&atilde;o do Estado e da sociedade. N&atilde;o &eacute; mais poss&iacute;vel pensar a comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica sem um aparato de regula&ccedil;&atilde;o aut&ocirc;nomo e eficaz amplamente permeado pela sociedade. Um terceiro princ&iacute;pio &eacute; o do aproveitamento da transi&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica digital para aumentar a diversidade dos atores &ndash; estatais, p&uacute;blicos e privados &ndash; capazes de prover a sociedade com as mais variadas programa&ccedil;&otilde;es informativas, culturais e de entretenimento. O mercado de comunica&ccedil;&atilde;o social n&atilde;o pode ser reservado para o oligop&oacute;lio, quase monop&oacute;lio, que hoje o domina, e que deseja manter essa domina&ccedil;&atilde;o sob um farisaico discurso nacionalista e protecionista. &Eacute; por isso que um novo ambiente normativo &ndash; com suas pol&iacute;ticas, leis, regulamentos e entes reguladores &ndash; precisa preceder a transi&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica digital. Por meio dele podemos introduzir, acredito, novos atores na produ&ccedil;&atilde;o, empacotamento e distribui&ccedil;&atilde;o de programa&ccedil;&otilde;es audiovisuais, estabelecendo limites ao controle de empresas, horizontal e verticalmente &ndash; criando condi&ccedil;&otilde;es para ampliar a produ&ccedil;&atilde;o audiovisual nacional. O que n&atilde;o podemos &eacute; perder esse momento da chamada converg&ecirc;ncia digital para manter um paradigma ultrapassado, em particular no mercado da televis&atilde;o aberta. Nesse mercado, quem se quer fazer hoje de Davi &eacute; tamb&eacute;m Golias. Todos, ali&aacute;s, empresas de televis&atilde;o e de telecomunica&ccedil;&otilde;es, s&atilde;o Golias. Os Davis est&atilde;o na sociedade receptora, quase sempre passiva do que lhe &eacute; vendido. O importante &eacute; que o interesse p&uacute;blico, pela via do Estado, se imponha sobre os interesses do privado. E isto s&oacute; se consegue, em um Estado de Direito, pelo recurso da lei.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Prometheus<\/strong> &#8211; Os radiodifusores v&ecirc;m tentando reduzir o debate em torno da TV digital a uma disputa entre eles, representantes do &quot;bem&quot; e da produ&ccedil;&atilde;o nacional, contra o &quot;mal&quot; e a invas&atilde;o estrangeira, promovida pelas empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Sabemos que essa defini&ccedil;&atilde;o al&eacute;m de reducionista &eacute; casu&iacute;sta. Basta citar o envolvimento hist&oacute;rico da&nbsp; Globo com a abertura irrestrita das telecomunica&ccedil;&otilde;es ao capital estrangeiro e a sua alian&ccedil;a atual com a News Corp. e a Telmex, que v&ecirc;m escancarando as redes de comunica&ccedil;&atilde;o via sat&eacute;lite e de TV cabo ao dom&iacute;nio de corpora&ccedil;&otilde;es globais. <br \/><strong>Murilo Ramos<\/strong> &#8211; A pergunta cont&eacute;m boa parte da resposta, com a qual concordo na ess&ecirc;ncia e &agrave; qual tentei me remeter quando usei, h&aacute; pouco, a met&aacute;fora, espero que adequada, do embate entre David e Golias.<\/p>\n<p><strong>Prometheus<\/strong> &#8211; &nbsp;Como uma futura Lei Geral deve definir a participa&ccedil;&atilde;o de capital estrangeiro no mercado brasileiro?<br \/><strong>Murilo Ramos<\/strong> &#8211; Apesar do modo atropelado como aconteceu a mudan&ccedil;a do artigo 222 da Constitui&ccedil;&atilde;o, que permitiu a entrada de pessoas jur&iacute;dicas, inclusive estrangeiras (estas com no m&aacute;ximo 30% do capital votante das empresas jornal&iacute;sticas e de radio e televis&atilde;o abertos), creio que esse &eacute; um patamar razo&aacute;vel a partir do qual se pode fazer a discuss&atilde;o sobre como o capital estrangeiro pode contribuir para a diversidade na comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica brasileira. Pa&iacute;s algum do mundo, mesmo na Europa unificada, descuida da sua l&iacute;ngua e da sua cultura quando se trata de regulamentar e regular imprensa, cinema, r&aacute;dio e televis&atilde;o por qualquer meio de transmiss&atilde;o. Os mecanismos variam, mas restri&ccedil;&otilde;es existem. Essa tem que ser tamb&eacute;m nossa atitude.<\/p>\n<p><strong>Prometheus<\/strong> &#8211; Durante o governo Fernando Henrique a formula&ccedil;&atilde;o de uma Lei Geral n&atilde;o passou de anteprojeto e amea&ccedil;as. Estamos na reta final do governo Lula e como saldo nessa mat&eacute;ria tivemos poucos avan&ccedil;os e muitos recuos, al&eacute;m de ministros que passaram pela pasta das Comunica&ccedil;&otilde;es sem grande interesse pelo assunto. Voc&ecirc; acredita que o governo apresente nessa reta final alguma proposta de Lei Geral?<br \/><strong>Murilo Ramos<\/strong> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o acredito. E lamento profundamente.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A centralidade do p\u00fablico deve prevalecer em qualquer sistema democr\u00e1tico<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[55],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17925"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17925"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17925\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}