{"id":30189,"date":"2018-10-30T21:56:09","date_gmt":"2018-10-30T21:56:09","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=30189"},"modified":"2018-10-30T21:56:09","modified_gmt":"2018-10-30T21:56:09","slug":"e-tempo-dos-defensores-de-direitos-trabalharem-em-rede","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=30189","title":{"rendered":"\u00c9 tempo dos defensores de direitos trabalharem em rede"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Eduardo Amorim*<\/em><\/p>\n<p>O mais tr\u00e1gico dos resultados precisa trazer aprendizados para quem sofre a derrota. A vit\u00f3ria de Bolsonaro, a forma\u00e7\u00e3o de uma ampla bancada de extrema direita no Congresso Nacional e a ascens\u00e3o de pol\u00edticos extremamente conservadores em estados como o Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Minas Gerais ainda vai come\u00e7ar a ser assimilada pelos defensores dos direitos humanos no Brasil.<\/p>\n<p>Sem se deixar levar pelo discurso f\u00e1cil de que fomos vencidos pelas redes sociais, um ponto que precisa ser consensual \u00e9 que o debate do Direito \u00e0 Comunica\u00e7\u00e3o ter\u00e1 de ser realizado com muito mais prioridade no pr\u00f3ximo per\u00edodo. A ampla alian\u00e7a democr\u00e1tica que se formou em torno das candidaturas de Fernando Haddad e Manuela D`\u00c1vila n\u00e3o conseguiu romper uma narrativa que focou em grupos espec\u00edficos do eleitorado e obteve assim a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros mostram que como em elei\u00e7\u00f5es passadas um grande percentual de brasileiros preferiu se abster e houve um crescimento bastante relevante do n\u00famero de votos nulos, que vinham desde 2002 ficando nos 4% e no segundo turno de 2018 chegou a 7,44%. Somados com 2,15% de absten\u00e7\u00f5es e 21,25% de absten\u00e7\u00f5es, 42 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o conseguiram escolher entre as propostas de Haddad e Bolsonaro.<\/p>\n<p>J\u00e1 antes do segundo turno, o futuro presidente tentava se despregar da imagem de defensor da viol\u00eancia contra grupos vulnerabilizados. N\u00e3o foi diferente ap\u00f3s sua vit\u00f3ria. \u201cComo defensor da liberdade vou guiar um governo que defenda e proteja os direitos do cidad\u00e3o, que cumpre seus deveres e respeita as leis. Elas s\u00e3o para todos, porque assim ser\u00e1 o nosso governo, constitucional e democr\u00e1tico\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>No entanto, a narrativa n\u00e3o condiz com momentos chave como a morte da vereadora Marielle Franco, que sensibilizou a popula\u00e7\u00e3o brasileira e ganhou do ent\u00e3o candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica um sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n<p>No dia da elei\u00e7\u00e3o do primeiro turno, o assassinato do mestre de capoeira Moa do Katend\u00ea tamb\u00e9m teve uma repercuss\u00e3o bastante grande. Perguntado pela imprensa sobre o crime cometido por um defensor da sua candidatura, Bolsonaro disse que n\u00e3o tinha como se responsabilizar por todos os seus eleitores e garantiu que a viol\u00eancia vinha \u201cdo outro lado\u201d, lembrando a facada que sofreu na v\u00e9spera do 7 de setembro.<\/p>\n<p>Ao continuar dando vaz\u00e3o a uma narrativa de embate, Bolsonaro abriu espa\u00e7o para o que se seguiu durante a campanha e pelo menos em quatro casos a viol\u00eancia chegou ao extremo da morte. Al\u00e9m de Moa do Katend\u00ea, pelo menos outras quatro pessoas morreram tamb\u00e9m em crimes atribu\u00eddos a eleitores do candidato do PSL.<\/p>\n<p>Charlione Lessa Albuquerque, jovem de 23 anos, foi atingido por disparos \u00e0 bala enquanto participava de uma carreata a favor de Fernando Haddad em Pacajus, no Cear\u00e1, na v\u00e9spera do segundo turno. No Largo do Arouche, a travesti Priscila foi assassinada e testemunha <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/10\/24\/transexuais-sao-assassinadas-sob-gritos-de-bolsonaro-presidente\/\" target=\"_blank\">relatou ao Brasil de Fato<\/a> ter ouvido grupos de que \u201ccom Bolsonaro, a ca\u00e7a aos veados vai ser legalizada\u201d.<\/p>\n<p>O caso do Centro de S\u00e3o Paulo, infelizmente, n\u00e3o \u00e9 isolado. Dois dias depois desse assassinato, Laysa Fortuna foi morta pelo mesmo motivo absurdo em Aracaju. No dia 21 de outubro, Kharoline foi assassinada em Santo Andr\u00e9, na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo. Os LGBT come\u00e7am a se organizar para enfrentar a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Os cinco casos de assassinatos s\u00e3o os mais brutais destas elei\u00e7\u00f5es. Mas a Abraji (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo) <a href=\"http:\/\/abraji.org.br\/noticias\/brasil-jornalistas-enfrentam-intimidacao-durante-campanha-eleitoral\" target=\"_blank\">documentou 141 casos<\/a> de amea\u00e7as e viol\u00eancia somente contra jornalistas que cobriam as elei\u00e7\u00f5es. A maioria deles \u00e9 atribu\u00edda a partid\u00e1rios de Bolsonaro.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Bolsonaro, evidentemente houve comemora\u00e7\u00e3o em diversas cidades. Em Rodelas, no Sert\u00e3o da Bahia, o grupo de eleitores do candidato do PSL fez quest\u00e3o de invadir a Aldeia Tux\u00e1 e provocar a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Apesar de ter tido apenas 27,31% dos votos dos baianos, os eleitores do PSL se empoderaram com a vit\u00f3ria do seu candidato e se sentem no direito de provocar em territ\u00f3rio majoritariamente petista.<\/p>\n<p>O caso que relato por ter ido at\u00e9 o Sert\u00e3o da Bahia para acompanhar o voto da minha esposa baiana pode parecer banal. Por\u00e9m, pode explicar um outro trecho da fala de Jair Bolsonaro: \u201cNosso governo vai quebrar paradigmas: vamos confiar nas pessoas. Vamos desburocratizar, simplificar e permitir que o cidad\u00e3o, o empreendedor, tenha mais liberdade para criar e construir e seu futuro. Vamos &#8220;desamarrar&#8221; o Brasil\u201d.<\/p>\n<p>O discurso do empreendedorismo pode vir a ser uma arma contra direitos como os conquistados por ind\u00edgenas e quilombolas, que em \u00e1reas remotas do Brasil como o Sert\u00e3o nordestino v\u00eam lutando com suas vidas pelas terras demarcadas. Na beira do Rio S\u00e3o Francisco, a fronteira agr\u00edcola da fruticultura irrigada \u00e9 um ponto chave, mas a defesa dos direitos dessas popula\u00e7\u00f5es precisa ser feita em todo o Brasil, assim como o de diversas outras comunidades urbanas e rurais.<\/p>\n<p>Se eu puder dizer alguma coisa para os ind\u00edgenas que se sentiram amea\u00e7ados ser\u00e1 no sentido de pedir para que resistam e fortale\u00e7am sua organiza\u00e7\u00e3o em redes. A elei\u00e7\u00e3o trouxe pouqu\u00edssimas novidades positivas, mas na minha \u00f3tima a melhor not\u00edcia em meio ao caos foi o do fortalecimento da rede feminista no Brasil.<\/p>\n<p>Mesmo criticado at\u00e9 mesmo dentro da esquerda, o movimento feminista conseguiu levar tamb\u00e9m para a pol\u00edtica eleitoral ainda no primeiro turno um grande manifesto em torno do #EleN\u00e3o. Silenciado pela imprensa, assim como as den\u00fancias do Caixa 2 de Bolsonaro, mas que poderia ter tido no primeiro turno o mesmo resultado que teria a den\u00fancia do crime relacionado ao envio de mensagens por WhatsApp na semana passada.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o em redes \u00e9 fundamental, mas depende tamb\u00e9m da luta para criar um ambiente democr\u00e1tico de comunica\u00e7\u00e3o. Por isso, acredito que a organiza\u00e7\u00e3o dos movimentos que atuam em articula\u00e7\u00f5es em defesa do Direito \u00e0 Comunica\u00e7\u00e3o deve estar articulada com todos esses movimentos, para que consigamos resistir e ampliar as lutas.<\/p>\n<p><em>*Eduardo Amorim \u00e9 jornalista, membro do Intervozes, Doutorando em Comunica\u00e7\u00e3o no Ppgcom-Ufpe e vice-presidente da Comiss\u00e3o de \u00c9tica do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eduardo Amorim* O mais tr\u00e1gico dos resultados precisa trazer aprendizados para quem sofre a derrota. 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