{"id":30138,"date":"2017-12-01T15:37:42","date_gmt":"2017-12-01T15:37:42","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=30138"},"modified":"2017-12-01T15:55:54","modified_gmt":"2017-12-01T15:55:54","slug":"imprensa-personagem-politico-ainda-mais-complexo-em-2017","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=30138","title":{"rendered":"Imprensa: personagem pol\u00edtico ainda mais complexo em 2017"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto: M\u00f4nica Mour\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Dizer que os jornalistas n\u00e3o devem mentir, inventar, distorcer, caluniar, etc, \u00e9 como afirmar que as pessoas devem ser honestas. O problema, aqui, \u00e9 ultrapassar o \u00f3bvio, obter um consenso sobre o conceito de honestidade. Quanto ao jornalismo, a dificuldade seria conseguir um acordo sobre o que \u00e9 a verdade, quais s\u00e3o os fatos que merecem ser relatados e sob que \u00e2ngulo pol\u00edtico, ideol\u00f3gico e filos\u00f3fico<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Genro Filho, 2012, p. 147). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A provoca\u00e7\u00e3o do professor Adelmo Genro Filho, que faleceu pouco depois de ter publicado sua teoria marxista sobre o jornalismo (no livro O Segredo da Pir\u00e2mide), coloca-nos na posi\u00e7\u00e3o de criticar a ideia de manipula\u00e7\u00e3o feita pela imprensa. Afinal, defender que algo foi manipulado significa afirmar que seria poss\u00edvel \u2013 desde que dotados de t\u00e9cnicas adequadas e justas inten\u00e7\u00f5es \u2013 que os jornalistas relatassem a verdade. Ora, n\u00e3o \u00e9 preciso cair nas armadilhas p\u00f3s-modernas do relativismo para compreender que n\u00e3o existe uma \u00fanica verdade sobre um mesmo fato. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma outra linha de pensamento, ainda sob a \u00f3tica da \u201cmanipula\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 que s\u00e3o os interesses de classe em jogo que levam a imprensa a cobrir os acontecimentos de uma maneira, e n\u00e3o de outra. Mas a\u00ed tamb\u00e9m existe uma armadilha. Como lembra Genro Filho, ao se analisar tudo pela \u00f3tica da luta de classes, visto que a imprensa \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o burguesa, seu posicionamento seria sempre de defesa dos valores burgueses. Por\u00e9m, segundo ele mesmo, primeiro, isso n\u00e3o faz da imprensa uma arma exclusiva da burguesia. Em segundo lugar, e o mais importante para nossa an\u00e1lise, ainda que o ve\u00edculo seja burgu\u00eas, nem todos os seus funcion\u00e1rios-jornalistas o s\u00e3o; a ideologia n\u00e3o funciona como uma correia de transmiss\u00e3o autom\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 a partir desses pressupostos que buscamos compreender a cobertura midi\u00e1tica sobre o que consideramos os temas mais candentes de 2017: os posicionamentos a favor e contra Temer; a cobertura das manifesta\u00e7\u00f5es e das reformas trabalhista e previdenci\u00e1ria; a abordagem da imprensa sobre Lula e o PT; e a incorpora\u00e7\u00e3o de pautas de grupos minorit\u00e1rios de forma positiva. Nosso principal alvo de an\u00e1lise \u00e9 a TV Globo, pela for\u00e7a pol\u00edtica e lideran\u00e7a cultural que exerce h\u00e1 anos no pa\u00eds, mas outras emissoras e ve\u00edculos impressos tamb\u00e9m s\u00e3o inclu\u00eddos no texto. <\/span><\/p>\n<p><b>Que imprensa \u00e9 essa?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Primeiramente, n\u00e3o custa reparar no sujo falando do mal lavado. <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/futebol-nas-maos-da-globo-propina-nao-e-unico-problema\"><span style=\"font-weight: 400;\">Globo no Fifagate<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, acusada de pagar propina para conseguir a transmiss\u00e3o dos jogos; SBT, alinhado a Temer, passa propaganda das reformas e retransmite sinal da TV governamental NBR; Record, n\u00e3o \u00e9 de hoje, financia-se com dinheiro da Igreja Universal; e a Band ocupa, com seu Brasil Urgente, o segundo lugar no <\/span><a href=\"http:\/\/www.midiasemviolacoes.com.br\"><span style=\"font-weight: 400;\">ranking de viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. \u00c9 desse tipo de empresas privadas (nesse caso, concession\u00e1rias de um servi\u00e7o p\u00fablico) que estamos falando aqui. Em sua maioria, junto com os impressos, s\u00e3o ligadas a <\/span><a href=\"https:\/\/brazil.mom-rsf.org\/br\/proprietarios\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">grandes grupos empresariais cujos donos tamb\u00e9m atuam em outros setores<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, como o educacional, financeiro, imobili\u00e1rio, agropecu\u00e1rio, de energia, de transportes, de infraestrutura e de sa\u00fade, segundo detalhou a pesquisa \u201cQuem controla a m\u00eddia no Brasil?\u201d. <\/span><\/p>\n<p><b>Globo #ForaTemer<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cSaem os militares, entram os presidentes civis, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente a mesma. Quer dizer, a Globo n\u00e3o tem uma voca\u00e7\u00e3o necessariamente militarista ou ditatorial. Mas ela tem uma voca\u00e7\u00e3o governista: onde tem governo est\u00e1 a Rede Globo\u201d. A frase \u00e9 do jornalista Gabriel Priolli e foi dita em 1993, para o document\u00e1rio da BBC inglesa \u201cMuito al\u00e9m do Cidad\u00e3o Kane\u201d \u2013 verdadeiro \u201cbest seller proibido\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 mais de 20 anos, justamente no per\u00edodo da transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u2013 lenta, gradual e segura para os setores conservadores e as elites \u2013, seria inimagin\u00e1vel ver a Globo na posi\u00e7\u00e3o atual: defendendo a sa\u00edda do presidente ileg\u00edtimo sem sucesso. E o que surpreende \u00e9 n\u00e3o ter conseguido e se mantido, assim, na \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d ao governo federal. Mas, contraditoriamente, n\u00e3o \u00e0 sua agenda pol\u00edtico-econ\u00f4mica. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 maio desse ano, a cobertura anti-Dilma e pr\u00f3-impeachment desembocava no \u00f3bvio, que era a defesa da legitimidade e da pol\u00edtica do governo Temer. Naquele m\u00eas, as den\u00fancias dos donos da JBS contra Michel Temer desnudaram de forma indisfar\u00e7\u00e1vel o que para os opositores do golpe j\u00e1 estava evidente: a reputa\u00e7\u00e3o do vice decorativo n\u00e3o era ilibada, j\u00e1 que eleestava mergulhado em corrup\u00e7\u00e3o. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquele 17 de maio, William Bonner titubeou e chamou Temer de \u201cex-presidente\u201d na escalada do Jornal Nacional, corrigindo-se em seguida. Renata Vasconcelos encerrou a edi\u00e7\u00e3o anunciando que o Jornal da Globo traria mais informa\u00e7\u00f5es sobre a \u201cnot\u00edcia bomb\u00e1stica\u201d que Lauro Jardim havia publicado em sua coluna no site d\u2019O Globo algumas horas antes do JN. A bomba foi a grava\u00e7\u00e3o feita por Joesley Batista em uma conversa com Temer sobre a \u201cmesada\u201d paga pelo sil\u00eancio de Eduardo Cunha, que inclu\u00eda a resposta do presidente: \u201cTem que manter isso a\u00ed\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O JN exibiu o \u00e1udio, confirmou as informa\u00e7\u00f5es contidas nele com investigadores da Lava Jato e repercutiu a rea\u00e7\u00e3o dos parlamentares e do pr\u00f3prio presidente no Pal\u00e1cio do Planalto. Naquela noite, o Jornal Nacional terminou mais cedo. Era quarta-feira, dia de futebol. Mas bem que vinha a calhar um tempinho a mais para afinar o posicionamento da emissora, que parecia realmente pega de surpresa com o furo jornal\u00edstico do colunista da mesma organiza\u00e7\u00e3o. Mais tarde, no anunciado Jornal da Globo, William Waack decretou: \u201cO assunto no qual o governo est\u00e1 condenado a se concentrar \u00e9 um s\u00f3: a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir da\u00ed, o jogo virou. No dia seguinte, a cobertura jornal\u00edstica da Globo assumiu um car\u00e1ter escancaradamente antigoverno. Os gritos de #ForaTemer que invadiam os <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">links<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> ao vivo em quase toda situa\u00e7\u00e3o com um aglomerado de pessoas, antes abafados e censurados, viraram alvo de coment\u00e1rios nas mat\u00e9rias, inclusive durante o festival Rock in Rio. At\u00e9 num seriado sobre o per\u00edodo da independ\u00eancia do Brasil de Portugal, o Filhos de P\u00e1tria, de Bruno Mazzeo, apareceu um \u201cFora, Pedro\u201d (e tamb\u00e9m uma frase t\u00edpica dos golpistas: \u201cPrimeiro a gente tira o Pedro, depois a gente v\u00ea\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As articula\u00e7\u00f5es pela sa\u00edda de Temer n\u00e3o ficaram \u201capenas\u201d na cobertura jornal\u00edstica do maior grupo de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Segundo noticiado pela Folha de S. Paulo, no domingo seguinte \u00e0 \u201cnot\u00edcia bomb\u00e1stica\u201d o vice-presidente de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo, recebeu em sua resid\u00eancia, em Bras\u00edlia, a visita de Rodrigo Maia, presidente da C\u00e2mara e primeiro lugar na linha sucess\u00f3ria caso se efetivasse a queda de Michel Temer. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No dia seguinte, seria lida a relatoria sobre a den\u00fancia contra Temer na Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a da C\u00e2mara (CCJ), cujo relator,<\/span><a href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/politica\/relator-apresenta-parecer-favoravel-para-denuncia-contra-temer\"><span style=\"font-weight: 400;\"> Sergio Zveiter (PMDB-RJ)<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, tem o Grupo Globo como cliente de servi\u00e7os jur\u00eddicos h\u00e1 mais de 40 anos. No Congresso, Zveiter, tamb\u00e9m considerado pr\u00f3ximo a Maia, chega a receber a alcunha de \u201cadvogado da Globo\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo o jornalista Daniel Fons\u00eaca, <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/para-derrubar-temer-globo-vai-alem-do-jornalismo\"><span style=\"font-weight: 400;\">a atividade de bastidores n\u00e3o \u00e9 novidade na hist\u00f3ria da Globo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">: \u201cEntre os anos 1990 e o come\u00e7o dos 2000, um alto executivo da Globo chegou a ser apelidado em Bras\u00edlia de \u2018Senador Evandro\u2019. Era Evandro Guimar\u00e3es, que ocupava na \u00e9poca exatamente o mesmo cargo que hoje ocupa Paulo Tonet, dono da casa no Lago Sul\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se apenas a editorializa\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias j\u00e1 s\u00e3o uma mostra de que a imprensa n\u00e3o exerce apenas o papel de media\u00e7\u00e3o, mas sim de ator pol\u00edtico ativo no cen\u00e1rio brasileiro, as movimenta\u00e7\u00f5es extrajornal\u00edsticas evidenciam ainda mais esse car\u00e1ter. Talvez ent\u00e3o a frase de Priolli no in\u00edcio desse texto siga fazendo sentido: a Globo tentou (e atuou para) manter-se alinhada ao governo. Frustrada essa expectativa, por\u00e9m, seguiu com o vi\u00e9s #ForaTemer, mas desde que mantida a agenda neoliberal de perda de direitos e enfraquecimento dos servi\u00e7os p\u00fablicos. <\/span><\/p>\n<p><b>Globo seguiu na oposi\u00e7\u00e3o em raia pr\u00f3pria<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar do esfor\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o sobre a nova linha editorial da Globo, uma pergunta permanecia no ar: por que a gigante seguiu isolada na oposi\u00e7\u00e3o ao governo? Para entender melhor esse cen\u00e1rio, o Intervozes acompanhou a cobertura feita pela chamada grande m\u00eddia da vota\u00e7\u00e3o realizada no dia 2 de agosto na C\u00e2mara dos Deputados sobre o acatamento ou n\u00e3o das den\u00fancias contra Temer feitas pela Procuradoria Geral da Rep\u00fablica, em <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/globo-ataca-mas-midia-segue-dividida-sobre-futuro-de-temer\"><span style=\"font-weight: 400;\">an\u00e1lise feita por Bia Barbosa e Camila Nobrega<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquele dia, a Globo suspendeu o Jornal Nacional e a novela For\u00e7a do Querer para transmitir ao vivo a vota\u00e7\u00e3o no Congresso, por quatro horas ininterruptas. A an\u00e1lise ficou por conta do Jornal das Dez, da Globonews. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO governo trabalhou pesado, atendendo no atacado e no varejo, ao longo do dia, os pedidos de seus aliados. At\u00e9 a \u00faltima hora e durante a sess\u00e3o, o Presidente trabalhou pessoalmente para barrar a investiga\u00e7\u00e3o\u201d, anunciou a \u00e2ncora Renata LoPrete. Para a comentarista Cristiana Lobo, foi uma vit\u00f3ria \u201cmagra\u201d. O tom era de den\u00fancia da compra de votos e de fracasso pol\u00edtico, apesar da vota\u00e7\u00e3o vitoriosa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa tamb\u00e9m foi a linha defendida no editorial do impresso\u00a0O Globo\u00a0de 2 de agosto, assim como nas manchetes <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">online<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> do jornal ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o: \u201cCom 263 votos, C\u00e2mara ignora provas e barra den\u00fancia contra Temer\u201d; \u201cCom sorriso no rosto, Temer diz que resultado n\u00e3o \u00e9 vit\u00f3ria pessoal\u201d, \u201cDeputado preso em regime semiaberto vota a favor de presidente\u201d, \u201cInternautas promovem vomita\u00e7o em rede social de Michel Temer\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais discreta, a Folha de S. Paulo publicou em sua capa no dia seguinte \u00e0 vota\u00e7\u00e3o: \u201cTemer usa m\u00e1quina, demonstra for\u00e7a e barra den\u00fancia\u201d. Dentro do jornal, afirmou: \u201cBalc\u00e3o de neg\u00f3cios com o recurso p\u00fablico garante vit\u00f3ria governista\u201d,\u00a0e trouxe\u00a0duas p\u00e1ginas centrais sob o t\u00edtulo\u00a0\u201cPlacar da Den\u00fancia\u201d,\u00a0com fotos, nomes\u00a0e partidos\u00a0dos deputados\u00a0e como cada um votou.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entre os ve\u00edculos que seguiram outra linha, est\u00e3o a Band e o Estado de S. Paulo. \u00a0O\u00a0Jornal da Noite, da Bandnews,\u00a0destacou: \u201cMercado financeiro e empres\u00e1rios defendem continuidade de Michel Temer na Presid\u00eancia\u201d. Em seguida, uma longa reportagem ouviu\u00a0empres\u00e1rios de diversos setores que afirmaram ser positiva a perman\u00eancia de Temer para a continuidade das reformas e para a economia. Encerrada a vota\u00e7\u00e3o,\u00a0o destaque do Estad\u00e3o foi o pronunciamento do\u00a0Presidente: \u201cAp\u00f3s barrar den\u00fancia, Temer diz que \u00e9 urgente p\u00f4r o pa\u00eds nos trilhos\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais recentemente, o Estad\u00e3o se mostrou panflet\u00e1rio na defesa do governo Temer. No dia 4 de agosto, em editorial intitulado \u201cVit\u00f3ria da responsabilidade\u201d, o jornal declarou que \u201cafastar o presidente da Rep\u00fablica do exerc\u00edcio do cargo seria uma evidente irresponsabilidade, e a C\u00e2mara dos Deputados, no cumprimento de suas atribui\u00e7\u00f5es constitucionais, rejeitou com acerto tal imprud\u00eancia\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dialogando indiretamente com a posi\u00e7\u00e3o da Globo, para o Estado de S. Paulo, no mesmo editorial acima, defendia que \u201cao contr\u00e1rio do que alguns afirmam, o presidente Michel Temer sai fortalecido do epis\u00f3dio, mostrando, uma vez mais, sua capacidade de articula\u00e7\u00e3o com o Congresso\u201d. <\/span><\/p>\n<p><b>Com ou sem Temer, imprensa defende perda de direitos <\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cCabe agora a Michel Temer, com a m\u00e1xima urg\u00eancia, reorganizar o seu governo, estabelecendo as condi\u00e7\u00f5es para o prosseguimento das reformas, em especial, a reforma da Previd\u00eancia. H\u00e1 muito a fazer e nenhum tempo a perder\u201d. Era o que dizia o Estado de S. Paulo, em mais um trecho do editorial de 4 de agosto. O tom de que as reformas s\u00e3o positivas e necess\u00e1rias ao crescimento econ\u00f4mico tem sido geral na imprensa \u2013 inclusive nos ve\u00edculos do Grupo Globo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Com-ou-sem-Temer-imprensa-defende-perda-de-direitos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-30140\" src=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Com-ou-sem-Temer-imprensa-defende-perda-de-direitos-1024x576.jpg\" alt=\"Com ou sem Temer, imprensa defende perda de direitos\" width=\"1012\" height=\"569\" srcset=\"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Com-ou-sem-Temer-imprensa-defende-perda-de-direitos-1024x576.jpg 1024w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Com-ou-sem-Temer-imprensa-defende-perda-de-direitos-300x169.jpg 300w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Com-ou-sem-Temer-imprensa-defende-perda-de-direitos-320x180.jpg 320w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Com-ou-sem-Temer-imprensa-defende-perda-de-direitos-1000x562.jpg 1000w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Com-ou-sem-Temer-imprensa-defende-perda-de-direitos-500x281.jpg 500w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Com-ou-sem-Temer-imprensa-defende-perda-de-direitos.jpg 1366w\" sizes=\"(max-width: 1012px) 100vw, 1012px\" \/><\/a>Na edi\u00e7\u00e3o de 12 de agosto, o Jornal Nacional anunciou que \u201cum estudo concluiu que a reforma trabalhista, aprovada em 2017, vai criar 1,5 milh\u00e3o de empregos e estimular o crescimento do pa\u00eds nos pr\u00f3ximos quatro anos\u201d. Depois de mostrar uma vendedora de loja de roupas satisfeita por poder dividirsuas f\u00e9rias em tr\u00eas vezes, a mat\u00e9ria revela que o \u201cestudo\u201d (como de praxe no jornalismo, utilizado de maneira pouco ou nada cr\u00edtica, como se pesquisas fossem isentas) havia sido feito pelo banco Ita\u00fa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A cobertura do Jornal Nacional sobre a vota\u00e7\u00e3o da reforma trabalhista no Senado, no dia 11 de julho, evidenciava o posicionamento pr\u00f3-reforma. A abertura do programa dedicou quase 6 minutos abordando a ocupa\u00e7\u00e3o da mesa diretora pelas senadoras contr\u00e1rias \u00e0 vota\u00e7\u00e3o e apenas 37 segundos para explicar o conte\u00fado do projeto aprovado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O tom do JN foi de que o protesto das senadoras foi algo violento e, durante toda a mat\u00e9ria, apenas opini\u00f5es dos senadores pr\u00f3-reforma foram exibidas. \u201cA atitude das senadoras foi condenada por colegas de diversos partidos\u201d, anunciou a rep\u00f3rter, transmitindo a ideia de que foi ampla a suprapartid\u00e1ria a cr\u00edtica \u00e0s parlamentares. A mat\u00e9ria trouxe falas de C\u00e1ssio Cunha Lima (PSDB-PB), Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), Crist\u00f3vam Buarque (PPS-DF) e Eun\u00edcio Oliveira (presidente da Casa), que tacharam a atitude das senadoras de \u201cato de for\u00e7a\u201d, \u201cdesrespeito total\u201d e \u201cgesto antidemocr\u00e1tico\u201d, de acordo com os tr\u00eas primeiros. Segundo Eun\u00edcio Oliveira, \u201cnem a ditadura militar ousou ocupar mesa do\u00a0<\/span><a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/congresso-nacional\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Congresso<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Nacional\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 os poucos segundos dedicados a explicar o texto votado no Senado, trouxeram uma perspectiva favor\u00e1vel \u00e0 sua aprova\u00e7\u00e3o. \u201cA reforma trabalhista d\u00e1 for\u00e7a de lei a acordos entre trabalhadores e patr\u00f5es, respeitando os direitos assegurados pela Constitui\u00e7\u00e3o, como FGTS e 13\u00ba; permite que f\u00e9rias possam ser divididas em at\u00e9 tr\u00eas per\u00edodos; acaba com a obrigatoriedade da contribui\u00e7\u00e3o sindical, equivalente a um dia de sal\u00e1rio do trabalhador; permite que intervalo de almo\u00e7o possa ser reduzido para 30 minutos, diminuindo a jornada mediante negocia\u00e7\u00e3o coletiva; e inclui a jornada intermitente, o trabalho em dias alternados ou por algumas horas, como o de trabalhadores de bares ou eventos\u201d. Nenhuma palavra de cr\u00edtica \u00e0s reformas, nenhuma palavra das senadoras \u201cantidemocr\u00e1ticas\u201d, nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre o fechamento de todas as entradas do plen\u00e1rio pelo senador Eun\u00edcio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dois dias depois, em 13 de julho, William Waack associou a reforma trabalhista a uma atualiza\u00e7\u00e3o de uma lei que seria retr\u00f3grada: \u201cAt\u00e9 agora essa rela\u00e7\u00e3o [entre empregados e empregadores] foi submetida a uma legisla\u00e7\u00e3o com mais de 70 anos de idade\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Jornal da Globo seguiu com mat\u00e9ria da rep\u00f3rter Renata Ribeiro, que explicou as mudan\u00e7as. Segundo ela, a reforma vai permitir contratos de trabalho mais flex\u00edveis e direitos assegurados \u2013 como FGTS, 13\u00ba sal\u00e1rio, licen\u00e7a-maternidade e f\u00e9rias proporcionais ao tempo de trabalho \u2013 ser\u00e3o mantidos. A rep\u00f3rter disse ainda que acordos entre trabalhadores e empresas ir\u00e3o prevalecer e anunciou o fim da contribui\u00e7\u00e3o sindical. Afirmando que as mudan\u00e7as foram bem recebidas, Renata ouviu dois especialistas: ambos favor\u00e1veis \u00e0 reforma. Para eles, assim como havia sugerido Waack, nossa lei trabalhista at\u00e9 ent\u00e3o em vigor seria atrasada e tornaria o pa\u00eds pouco competitivo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A defesa das reformas estava presente tamb\u00e9m meses antes, quando havia uma unanimidade pr\u00f3-Temer na imprensa hegem\u00f4nica. Em <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/protestos-contra-a-reforma-da-previdencia-o-que-voce-nao-viu-na-tv\"><span style=\"font-weight: 400;\">artigo do Intervozes no blog da CartaCapital<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, foram analisados o Jornal Nacional, o Jornal da Globo, o Jornal da Band, o Jornal da Record e o Rep\u00f3rter Brasil, da TV Brasil do dia 13 de mar\u00e7o. Neste dia, mais de 125 cidades registraram manifesta\u00e7\u00f5es e paralisa\u00e7\u00f5es contra as reformas trabalhista e da previd\u00eancia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00danico canal da comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica analisado, o Rep\u00f3rter Brasil aparentemente havia sofrido censura: o v\u00eddeo com gritos de \u201cFora, Temer!\u201d n\u00e3o foi ao ar no site do jornal. Nos demais telejornais noturnos, \u201co tom das mat\u00e9rias foi muito mais o impacto das paralisa\u00e7\u00f5es \u2013 sobretudo dos trabalhadores das redes de transporte \u2013 do que os atos em si.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Flashes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0r\u00e1pidos dos protestos, nenhum n\u00famero sobre o total de participantes e, principalmente, nenhuma entrevista com os organizadores das manifesta\u00e7\u00f5es foram a maneira escolhida pela m\u00eddia de censurar o motivo que levou milhares de brasileiros e brasileiras \u00e0s ruas\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Temer ainda vivia sua lua-de-mel com a imprensa, quando estourou a primeira greve geral no pa\u00eds, no dia 28 de abril desse ano. O tom da cobertura foi o mesmo da nota do presidente ileg\u00edtimo e da entrevista com o ministro da Justi\u00e7a Osmar Serraglio: a ordem era n\u00e3o falar em \u201cgreve geral\u201d, mas sim em \u201cdia de protestos\u201d e, no m\u00e1ximo, \u201cparalisa\u00e7\u00f5es\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Informa\u00e7\u00f5es de bastidores d\u00e3o conta de que essa foi tamb\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o das chefias de reda\u00e7\u00e3o em diferentes ve\u00edculos. A confus\u00e3o proposital entre \u201cgreve geral\u201d e \u201cdia de protestos\u201d, feita por quase toda a imprensa, foi crucial para o tom negativo da cobertura. Ora, o sucesso de uma greve \u00e9, visualmente, quase o contr\u00e1rio do de um dia de protestos: ruas vazias, ao inv\u00e9s de cheias. Embora tamb\u00e9m houvesse manifesta\u00e7\u00f5es marcadas para aquele dia, n\u00e3o mencionar a greve prejudica gravemente o entendimento daquele 28 de abril. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cSegundo a BandNews, o que houve no Rio de Janeiro \u2018n\u00e3o foi uma greve. [&#8230;] Foi um dia de muitos problemas, de muito caos para as pessoas que seguiam para o trabalho, que queriam tocar a vida\u2019. No Jornal Hoje, da Globo, foram ao ar 40 minutos de mat\u00e9rias sobre a greve sem que a palavra fosse usada. Falou-se em \u2018paralisa\u00e7\u00e3o de 24 horas chamada pelos sindicatos\u2019 [como se sindicatos fossem entes apartados da popula\u00e7\u00e3o]. Na Record, nada da express\u00e3o \u2018greve geral\u2019. O tom da cobertura deu \u00eanfase para as depreda\u00e7\u00f5es e nenhuma explica\u00e7\u00e3o das motiva\u00e7\u00f5es do movimento\u201d, <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/temer-mandou-a-imprensa-obedeceu-cobertura-nao-fala-ou-foca-na-greve\"><span style=\"font-weight: 400;\">conforme an\u00e1lise publicada no dia seguinte \u00e0 greve<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como de praxe, a cobertura silenciou manifestantes, mostrou especialmente atos \u201cviolentos\u201d cometidos por eles (mas n\u00e3o contra eles) e focou nos transtornos no tr\u00e2nsito e nos servi\u00e7os, como se pode perceber a partir de algumas manchetes do dia 29: \u201cProtesto de centrais afeta transportes e tem viol\u00eancia\u201d (O Globo), \u201cGreve afeta transporte e com\u00e9rcio e termina com atos de vandalismo\u201d (O Estado de S. Paulo), \u201cGreve afeta transporte e termina em vandalismo\u201d (Correio Braziliense), \u201cGreve atinge transportes e escolas em dia de confronto\u201d (Folha de S. Paulo). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(Na tev\u00ea, uma importante exce\u00e7\u00e3o foi o Jornal Nacional. Ele foi o \u00fanico telejornal a\u00a0falar acerca do conte\u00fado das reformas trabalhista e da previd\u00eancia e ouviu diferentes fontes sobre o tema (incluindo Paulinho da For\u00e7a Sindical, o presidente da CUT Wagner Freitas e o ministro da Justi\u00e7a Osmar Serraglio). Na GloboNews, uma mudan\u00e7a na linguagem: ela colocou rep\u00f3rteres no ch\u00e3o, sofrendo com o g\u00e1s lacrimog\u00eaneo como os manifestantes. Uma grande diferen\u00e7a na cobertura anteriormente feita com o distanciamento proporcionado pelo \u201cglobocop\u201d.)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nada de novo sob o sol. <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/midia-vandaliza-cobertura-de-ato-e-legitima-uso-de-exercito-por-temer\"><span style=\"font-weight: 400;\">Como j\u00e1 havia sido analisado<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, os motivos dos protestos do dia 24 de maio tamb\u00e9m n\u00e3o foram publicados. Ao inv\u00e9s de ouvir as raz\u00f5es que levaram mais de 100 mil pessoas \u00e0s ruas naquele dia, a imprensa focou nas chamas e na depreda\u00e7\u00e3o de parte da Esplanada dos Minist\u00e9rios. Era a desculpa perfeita para criminalizar todo o movimento social, as cidad\u00e3s e cidad\u00e3os contr\u00e1rios \u00e0 perda de direitos levada a cabo pelo governo Temer. O ataque \u00e0 Esplanada funcionou tamb\u00e9m para que a m\u00eddia justificasse a a\u00e7\u00e3o violenta das For\u00e7as Armadas. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Embora uma ressalva no in\u00edcio deste artigo lembre que a luta de classes n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica chave interpretativa para o entendimento da imprensa, isso n\u00e3o significa que ela n\u00e3o \u00e9 uma fundamental \u00f3tica de an\u00e1lise. Em casos de acirramento dessa luta, como s\u00e3o os de reformas que interferem diretamente nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, o car\u00e1ter burgu\u00eas da imprensa fica ainda mais evidente. E, como dizia Gramsci, em 1916, \u201cpara o jornal burgu\u00eas os oper\u00e1rios nunca t\u00eam raz\u00e3o. H\u00e1 manifesta\u00e7\u00e3o? Os manifestantes, apenas porque s\u00e3o oper\u00e1rios, s\u00e3o sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>Lula e PT sob ataque<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na j\u00e1 famosa \u201cpolariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d na qual o Brasil se viu imerso especialmente desde a vit\u00f3ria apertada de Dilma Rousseff nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, o posicionamento antipetista da imprensa hegem\u00f4nica \u00e9 evidente. Embora os governos Lula e Dilma n\u00e3o tenham feito frente \u00e0s demandas dos movimentos sociais por uma comunica\u00e7\u00e3o mais democr\u00e1tica (entre outras pautas hist\u00f3ricas da esquerda), a rela\u00e7\u00e3o entre governos petistas e m\u00eddia n\u00e3o se constituiu numa oposi\u00e7\u00e3o acirrada \u2013 mas tamb\u00e9m esteve longe de ser um mar de rosas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Identificados como \u201cesquerda\u201d ou \u201ccomunistas\u201d em tempos de debates acalorados nas redes sociais, os petistas foram aceitos pela grande imprensa. Mas apenas aceitos, sem grande entusiasmo. Desde que sua for\u00e7a pol\u00edtica mostrou-se mais fr\u00e1gil, n\u00e3o houve titubeio em atuar ativamente pela derrubada da presidenta reeleita em 2014. Mesmo depois da queda, sobram casos que evidenciam a tomada de posi\u00e7\u00e3o antiPT e, especialmente, antiLula. Comentaremos alguns que consideramos emblem\u00e1ticos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-30145\" src=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-300x199.jpg\" alt=\"Lula e PT sob ataque\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-300x199.jpg 300w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-320x212.jpg 320w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-500x331.jpg 500w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Conforme publicado na <\/span><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/intervozes\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">p\u00e1gina do Intervozes no Facebook<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, no dia 10 de maio, a m\u00eddia brasileira dedicou-se o dia todo a um \u00fanico fato: o depoimento do ex-presidente Lula ao juiz S\u00e9rgio Moro, em mais uma fase crucial da opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Ao longo do dia, enquanto o pa\u00eds buscava informa\u00e7\u00f5es sobre os rumos do depoimento, a GloboNews enfatizou repetidamente a narrativa de \u201cconfronto\u201d, \u201cduelo\u201d, no estilo FlaxFlu: \u201cO embate est\u00e1 marcado para essa tarde\u201d; \u201celes ficar\u00e3o frente a frente pela primeira vez hoje\u201d, \u201cluta de novela\u201d foram algumas das chamadas feitas durante a programa\u00e7\u00e3o do canal fechado do Grupo Globo. O clima j\u00e1 havia sido antecipado pelas revistas Isto\u00c9 e Veja.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao longo do dia, concomitante \u00e0 narrativa pr\u00e9-luta, os telejornais da GloboNews foram aos poucos respondendo a essa pergunta. Um dos comentaristas analisou num matutino \u201cO PT quer transformar esse depoimento em fato pol\u00edtico. Pelo Lula, ele daria esse depoimento num palanque\u201d. At\u00e9 \u00e0s 14h, hor\u00e1rio de in\u00edcio do depoimento, nenhuma imagem mostrava os manifestantes que, solid\u00e1rios a Lula, se deslocaram em caravanas at\u00e9 Curitiba. A tentativa de esconder e justificar o injustific\u00e1vel foi escancarada quando a cobertura mostrou repetidas vezes o grande aparato policial montado para o depoimento, na frente na sede da Justi\u00e7a Federal, sem, sobretudo, justificar o porqu\u00ea desse esquema de seguran\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando j\u00e1 n\u00e3o dava mais para evitar, a poucos minutos de ter in\u00edcio o \u201cduelo\u201d, uma entrada ao vivo de 2 minutos (num total de 1 hora de telejornal) mostrou um pequeno grupo de pessoas pr\u00f3 Lava Jato num bate-boca com um \u201cmilitante petista\u201d. A narrativa era: o partid\u00e1rio de Lula tinha ido ali provocar e procurar encrenca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 noite, a mesma GloboNews respondeu de forma definitiva ao questionamento que lan\u00e7amos acima. No Em Pauta, veiculado \u00e0s 20h, montou-se um verdadeiro tribunal para julgar o depoimento de Lula. Quatro comentaristas revezaram-se numa esp\u00e9cie de \u201cj\u00fari popular midi\u00e1tico\u201d que ocorreu a despeito do tr\u00e2mite e das prerrogativas exclusivas do Judici\u00e1rio. Trechos do depoimento de Lula foram transmitidos, comentados e, mais que isso, confrontados. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Jornal Nacional e o Jornal da Globo tiveram tons bem mais contidos que a TV por assinatura. Mostraram longos trechos dos depoimentos sem coment\u00e1rios \u201cjulgadores\u201d como os da Gnews. Na abertura do Jornal Nacional, a \u00e2ncora justificou o fato de aquela edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguir dar um panorama geral do que tinha sido o depoimento de Lula pelo pouco tempo que tiveram para a montagem do jornal: \u201cTivemos s\u00f3 40 minutos para editar todo o depoimento\u201d, disse a certa altura enquanto se comprometia com uma cobertura mais apurada ao longo da programa\u00e7\u00e3o da emissora no dia seguinte. A essa chamada, seguiu-se uma que enfocava a queda da infla\u00e7\u00e3o, a \u201ctaxa alcan\u00e7a o patamar mais baixo em dez anos\u201d, pauta favor\u00e1vel ao governo Temer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A edi\u00e7\u00e3o dos dois jornais noturnos da Globo se ateve \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de alguns trechos do depoimento, sobretudo aqueles que tematizavam o triplex do Guaruj\u00e1 e seguiram a linha de invisibilizar ou diminuir a manifesta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-Lula. O JN mostrou imagem do momento da dispers\u00e3o dos manifestantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro caso emblem\u00e1tico aconteceu meses depois. Quem passava pelas bancas de revista no dia 5 de setembro e via o jornal O Globo exposto \u00e0 venda teve um mau entendimento dos fatos envolvendo corrup\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. A manchete de capa trazia em letras garrafais: \u201cJanot denuncia Lula, Dilma e mais seis por organiza\u00e7\u00e3o criminosa\u201d. Abaixo dela, uma fotografia das malas contendo os 51 milh\u00f5es de reais descobertos pela Pol\u00edcia Federal num apartamento do ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB). O texto referente a essa foto, por\u00e9m, estava \u00e0 direita dela, em tamanho menor, com bem menos destaque. A rela\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea feita pelo olhar ligava a <\/span><a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/noticia\/301629-1\"><span style=\"font-weight: 400;\">manchete com den\u00fancias<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> contra o PT \u00e0 fotografia das malas de dinheiro de Geddel. Certamente, os editores e diagramadores do jornal O Globo sabem disso. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30142\" src=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-2.jpg\" alt=\"Lula e PT sob ataque 2\" width=\"514\" height=\"361\" srcset=\"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-2.jpg 514w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-2-300x211.jpg 300w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-2-320x225.jpg 320w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Lula-e-PT-sob-ataque-2-500x351.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 514px) 100vw, 514px\" \/><\/a>O foco do notici\u00e1rio em Lula tamb\u00e9m serviu para tirar a aten\u00e7\u00e3o das reformas: em 12 de julho, dia posterior \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da reforma trabalhista no Senado, o Jornal Nacional dedicou 29 minutos e 40 segundos de sua edi\u00e7\u00e3o a mat\u00e9rias sobre a condena\u00e7\u00e3o do ex-presidente pelo juiz S\u00e9rgio Moro. Desse total, 15 minutos e 26 segundos foi a dura\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria que trazia apenas os argumentos utilizados por Moro. Na abertura, William Bonner decretou: \u201c\u00c9 a primeira vez na hist\u00f3ria que um ex-presidente da Rep\u00fablica \u00e9 condenado por um crime comum no Brasil\u201d. Outro v\u00eddeo, de 1 minuto e 57 segundos, citou as senten\u00e7as de cada um dos condenados: Lula, L\u00e9o Pinheiro (ex-presidente da OAS), Agenor Franklin Magalh\u00e3es Medeiros (executivo da OAS). Em 3 minutos e 6 segundos, foi explicado o tr\u00e2mite da condena\u00e7\u00e3o: e s\u00f3 ent\u00e3o o telespectador ficou sabendo que ela foi feita em primeira inst\u00e2ncia e ainda cabia apela\u00e7\u00e3o por parte da defesa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m dessas, foram ao ar, naquela noite, mais tr\u00eas mat\u00e9rias sobre a condena\u00e7\u00e3o de Lula. Uma delas, com 3 minutos e 17 segundos, tratou da repercuss\u00e3o no Congresso de maneira equilibrada (apenas 7 segundos a mais para os defensores do ex-presidente). Outra, com 4 minutos e meio, ouviu exclusivamente apoiadores de Lula: seu advogado de defesa, Cristiano Zanin Martins; o vice-presidente do PT, M\u00e1rcio Macedo; o presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos, Wagner Santana. Tamb\u00e9m foi citada uma nota do Partido dos Trabalhadores. Em 1 minuto e 24 segundos, os apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos informaram que Lula ainda \u00e9 r\u00e9u em mais quatro a\u00e7\u00f5es penais. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A disparidade de espa\u00e7o dado para os argumentos condenat\u00f3rios e os de defesa do ex-presidente evidenciam: no tribunal midi\u00e1tico, a senten\u00e7a j\u00e1 foi dada. <\/span><\/p>\n<p><b>De olho em 2018<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A artilharia contra Lula se mant\u00e9m pesada e assim deve prosseguir, com o objetivo de inviabilizar sua candidatura nas elei\u00e7\u00f5es do ano que vem. Parte da estrat\u00e9gia \u00e9 fortalecer outros nomes de presidenci\u00e1veis. \u00c9 isso que foi feito no dia 23 de novembro, pelo escancaradamente pr\u00f3-Temer Estad\u00e3o. \u201cAprova\u00e7\u00e3o a Huck dispara e atinge 60%, mostra pesquisa\u201d foi a manchete de capa da edi\u00e7\u00e3o daquela quinta-feira. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/De-olho-em-2018.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-30143\" src=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/De-olho-em-2018-173x300.png\" alt=\"De olho em 2018\" width=\"173\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/De-olho-em-2018-173x300.png 173w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/De-olho-em-2018-320x554.png 320w, http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/De-olho-em-2018.png 472w\" sizes=\"(max-width: 173px) 100vw, 173px\" \/><\/a>Com o t\u00edtulo \u201cAprova\u00e7\u00e3o a Huck cresce 17 pontos, afirma Ipsos\u201d, e o subt\u00edtulo \u201cConforme o Bar\u00f4metro Pol\u00edtico Estad\u00e3o-Ipsos, apresentador \u00e9 a personalidade com a melhor avalia\u00e7\u00e3o entre os 23 nomes relacionados pelo instituto aos entrevistados\u201d, o jornal deu a entender algo diferente do que est\u00e1 escrito na mat\u00e9ria assinada por Daniel Bramatti. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apenas no terceiro par\u00e1grafo, a mat\u00e9ria explica os dados: \u201cA\u00a0<\/span><a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/infograficos\/politica,barometro-politico-estadao-ipsos,820218\"><span style=\"font-weight: 400;\">pesquisa Ipsos<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0n\u00e3o \u00e9 de inten\u00e7\u00e3o de voto. O que os pesquisadores dizem aos entrevistados \u00e9 o seguinte: \u2018Agora vou ler o nome de alguns pol\u00edticos e gostaria de saber se o (a) senhor (a) aprova ou desaprova a maneira como eles v\u00eam atuando no Pa\u00eds\u2019\u201d. No par\u00e1grafo seguinte, uma fala de Danilo Cersosimo, diretor do Ipsos, joga \u00e1gua fria no entusiasmo pr\u00f3-Huck que inicia o texto: \u201cSe a elei\u00e7\u00e3o fosse hoje, ele teria um desempenho razo\u00e1vel, mas n\u00e3o esse cacife todo\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, antes de chegar at\u00e9 esse ponto do texto, o leitor desavisado j\u00e1 construiu uma imagem vitoriosa da candidatura de Huck. E, provavelmente, esqueceu-se de que o pr\u00f3prio Estad\u00e3o havia noticiado, no dia 19 de setembro, que \u201cLula lidera inten\u00e7\u00f5es de voto em todos os cen\u00e1rios, diz pesquisa da CNT\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No dia 24 de novembro, o blog Direto da Fonte, do Estad\u00e3o, afirmou que \u201cHuck pode anunciar hoje estar fora da elei\u00e7\u00e3o presidencial\u201d. No dia 27, o pr\u00f3prio Huck publicou artigo na Folha de S. Paulo negando que ser\u00e1 candidato. O jornalismo declarat\u00f3rio, sem base em informa\u00e7\u00f5es seguras, aposta num futuro \u201ctalvez\u201d e parece demonstrar que o jogo pol\u00edtico est\u00e1 mesmo entrela\u00e7ado \u00e0 imprensa. E que, ao contr\u00e1rio do que a m\u00eddia conservadora tem buscado convencer o p\u00fablico, as <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">fake news<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> est\u00e3o longe de ser um problema exclusivo da internet e das redes sociais. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m no dia 24, a Folha de S. Paulo publicou mat\u00e9ria sobre o perigo representado pela poss\u00edvel elei\u00e7\u00e3o de Lula: \u201cA eventual vit\u00f3ria do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva poderia derrubar a Bolsa dos atuais 74 mil pontos para abaixo de 55 mil pontos e deixar o d\u00f3lar acima de R$ 4,10, indica pesquisa realizada pela XP Investimentos. O levantamento, feito entre os \u00faltimos dias 21 e 23, ouviu 211 investidores institucionais, como gestores de recursos, economistas e consultorias\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O medo do desastre econ\u00f4mico d\u00e1 o tom da constru\u00e7\u00e3o da ideia de que a candidatura de Lula representa uma amea\u00e7a para o pa\u00eds. Como se investidores representassem os principais interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira. <\/span><\/p>\n<p><b>#GloboLixo: ataque conservador e quest\u00f5es estruturais<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Brasil n\u00e3o \u00e9 mesmo para iniciantes. Depois de colocar no ar, no dia 8 de outubro, uma mat\u00e9ria do Fant\u00e1stico sobre brincadeiras e brinquedos sem distin\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">hashtag <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">#GloboLixo chegou aos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">trending topics <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">do Twitter. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/novos-ares-na-programacao-da-globo-como-mudar-sem-mexer-no-essencial\"><span style=\"font-weight: 400;\">j\u00e1 havia sido analisado<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> por Pedro Ekman, a Globo fez mudan\u00e7as na sua programa\u00e7\u00e3o que deram a ela ares mais progressistas, especialmente no entretenimento: em programas de humor (como o novo Zorra Total), de audit\u00f3rio (o Amor e Sexo pautou o feminismo em janeiro desse ano) e na dramaturgia (como a j\u00e1 citada s\u00e9rie Filhos da P\u00e1tria, com suas men\u00e7\u00f5es a quest\u00f5es pol\u00edticas atuais, e a novela For\u00e7a do Querer, com dois personagens transg\u00eaneros, sendo um tamb\u00e9m interpretado por um homem trans). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por\u00e9m, acreditamos que essa seja tanto uma estrat\u00e9gia para a emissora se manter com sua posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica quanto fruto de brechas e tens\u00f5es entre as for\u00e7as conservadoras e progressistas que atuam por dentro da empresa, que obviamente n\u00e3o \u00e9 monol\u00edtica. No primeiro caso, vale lembrar que a Globo, diferente das demais emissoras de televis\u00e3o, sempre procurou se posicionar como uma vanguarda cultural. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Faz isso, por\u00e9m, sem abrir m\u00e3o das pautas pol\u00edtico-econ\u00f4micas neoliberais. Encara a f\u00faria reacion\u00e1ria contr\u00e1ria \u00e0 &#8211; muitas aspas nessa hora &#8211; \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, mas segue defendendo a perda de direitos trabalhistas e as privatiza\u00e7\u00f5es, por exemplo. O que coloca inclusive limites \u00e0 sua postura \u201cfeminista\u201d (mais aspas), por n\u00e3o fazer o recorte de g\u00eanero ao pautar a reforma trabalhista sem mencionar o quanto ela prejudicar\u00e1 especialmente as mulheres. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Progressista no entretenimento, conservadora no jornalismo, a platinada mant\u00e9m sua lideran\u00e7a, mas segue de olho nas necessidades de inova\u00e7\u00e3o num mercado televisivo cada vez menos atraente para a juventude. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso lembrar que problemas estruturais como o racismo e o machismo seguem fortes n\u00e3o s\u00f3 na Globo, mas em outras emissoras da TV aberta. Recentemente, o apresentador William Waack foi flagrado proferindo uma fala racista, o que \u00e9 <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/muito-alem-do-cidadao-waack-o-racismo-estrutural-na-midia-brasileira\"><span style=\"font-weight: 400;\">apenas a ponta do iceberg da subrepresenta\u00e7\u00e3o de negras e negros<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> nas telas. A <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/representacao-de-lgbts-na-midia-entre-o-silencio-e-o-estereotipo\"><span style=\"font-weight: 400;\">popula\u00e7\u00e3o LGBT ainda \u00e9 alvo de invisibilidade e estere\u00f3tipos<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, e as mulheres sofrem <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/bbb-2017-e-globo-atuacao-exemplar-ou-reposicionamento-da-emissora\"><span style=\"font-weight: 400;\">viol\u00eancia ao vivo em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">reality shows<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que seguem escalando <\/span><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/bbb-e-a-fazenda-midia-enalte-agressores-de-mulheres\"><span style=\"font-weight: 400;\">homens agressores<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><\/p>\n<p><b>Estrat\u00e9gias e armadilhas narrativas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No jogo desigual de ideias, em que as grandes empresas privadas de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o as donas da bola, s\u00e3o recorrentes algumas estrat\u00e9gias para divulgar not\u00edcias do \u00e2ngulo pol\u00edtico, ideol\u00f3gico e filos\u00f3fico de interesse dessas empresas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pesquisas, n\u00fameros e dados estat\u00edsticos s\u00e3o comumente usados sem nenhum qu\u00ea de desconfian\u00e7a, como se fossem verdades exatas. Muitas vezes tamb\u00e9m os respons\u00e1veis pelas pesquisas n\u00e3o aparecem com destaque nas mat\u00e9rias, e saber se as conclus\u00f5es publicadas como fatos foram extra\u00eddas de institutos ligados ao capital financeiro ou \u00e0 pr\u00f3pria imprensa faz toda a diferen\u00e7a. Esse foi o caso das mat\u00e9rias sobre a candidatura de Luciano Huck (que, ainda pior, confundiu aprova\u00e7\u00e3o da imagem de uma pessoa com inten\u00e7\u00e3o de voto) e da que falava dos riscos para a economia caso Lula seja eleito presidente em 2018. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m na cobertura antiPT se viu a artimanha de \u201cesconder\u201d a informa\u00e7\u00e3o principal da not\u00edcia. No caso, o destaque dado a um aspecto dos acontecimentos, e n\u00e3o a outros, colocava como mais importante algo que seria desdito adiante. (Pela pr\u00f3pria mat\u00e9ria, a candidatura de Luciano Huck n\u00e3o tinha tanta for\u00e7a quanto a manchete afirmava). Al\u00e9m da ordem das informa\u00e7\u00f5es no texto, a organiza\u00e7\u00e3o das imagens (e a rela\u00e7\u00e3o imagem-texto) foi outra armadilha narrativa usada pela imprensa, como na j\u00e1 cl\u00e1ssica capa d\u2019O Globo com as malas de dinheiro de Geddel. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As opini\u00f5es de especialistas tamb\u00e9m s\u00e3o usadas para legitimar uma \u201cverdade\u201d. Essa foi a estrat\u00e9gia-mor das mat\u00e9rias sobre as reformas: como duvidar do que diz um economista, que estaria apresentando uma ideia embasada na \u201cisen\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cneutralidade\u201d cient\u00edficas? Embora haja exce\u00e7\u00f5es (o Est\u00fadio I, da GloboNews, \u00e9 um o\u00e1sis de pluralidade de ideias em meio ao deserto midi\u00e1tico), os \u201cisentos\u201d especialistas s\u00e3o escolhidos a dedo para n\u00e3o falar nada que destoe da linha editorial do ve\u00edculo que o procurou. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quem \u00e9 ouvido nas mat\u00e9rias, ali\u00e1s, segue sendo uma grande t\u00e1tica para mostrar apenas um lado das quest\u00f5es, invisibilizando ou minimizando atores e atrizes sociais fundamentais para um olhar mais abrangente sobre os temas. Chega a ser inacredit\u00e1vel quando se pensa nos preceitos b\u00e1sicos do jornalismo, mas \u00e9 muito comum \u2013 e escapa ao leitor\/telespectador que n\u00e3o est\u00e1 atento \u2013 a veicula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias sobre manifesta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o ouvem manifestantes, sobre reformas trabalhistas que n\u00e3o ouvem trabalhadores, sobre o protesto de senadoras de oposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o ouvem as senadoras etc. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sem contar na sele\u00e7\u00e3o de quem fala e em que momento fala. De acordo com a an\u00e1lise de enquadramento, as primeiras fontes ouvidas d\u00e3o o tom da mat\u00e9ria; as demais entram na sequ\u00eancia na condi\u00e7\u00e3o de dar uma resposta a elas, uma posi\u00e7\u00e3o defensiva que aparece na narrativa, mas n\u00e3o necessariamente condiz com as disputas pol\u00edticas extratexto. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por fim, a grande reclama\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais \u00e9 de fato uma estrat\u00e9gia eficaz: a simples aus\u00eancia de certas pautas, fontes e pontos de vista na grande imprensa. Silenciar na m\u00eddia \u00e9 trabalhar para que algo n\u00e3o exista na esfera p\u00fablica. \u00c9 diminuir drasticamente as condi\u00e7\u00f5es de convencimento de boa parte da popula\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de certos problemas e das diferentes maneiras de enfrent\u00e1-los. Entre brechas e disputas, a m\u00eddia hegem\u00f4nica segue sendo muito eficiente em excluir do debate p\u00fablico a pluralidade e diversidade que poderiam colaborar de fato com mudan\u00e7as estruturais na sociedade. <\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">M\u00f4nica Mour\u00e3o \u00e9 jornalista e integrante do Coletivo Intervozes<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">* A an\u00e1lise das coberturas s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as aos textos produzidos por diferentes militantes do Intervozes ao longo do ano, todos devidamente creditados nos links. A refer\u00eancia a um post na nossa p\u00e1gina de Facebook \u00e9 de um texto de autoria de Iara Moura.<\/span><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: M\u00f4nica Mour\u00e3o Dizer que os jornalistas n\u00e3o devem mentir, inventar, distorcer, caluniar, etc, \u00e9 como afirmar que as pessoas devem ser honestas. O problema, aqui, \u00e9 ultrapassar o \u00f3bvio, obter um consenso sobre o conceito de honestidade. 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