{"id":29947,"date":"2017-08-03T17:47:23","date_gmt":"2017-08-03T17:47:23","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29947"},"modified":"2017-08-03T17:51:51","modified_gmt":"2017-08-03T17:51:51","slug":"como-se-expressa-a-sexualidade-em-tempos-de-big-data","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29947","title":{"rendered":"Como se expressa a sexualidade em tempos de Big Data?"},"content":{"rendered":"<p><em>Compreender como a internet pode servir para defesa ou viola\u00e7\u00e3o de direitos sexuais \u00e9 uma das tarefas para a emancipa\u00e7\u00e3o de mulheres e LGBTQI<\/em><\/p>\n<p><em>Por Marina Pita*<\/em><\/p>\n<p>Quando soube que a \u00cdndia se incumbiu da tarefa de proibir sites porn\u00f4s, um amigo disse: mas afinal, a web serve para qu\u00ea, se n\u00e3o para isso? A frase pode soar desrespeitosa para muita gente que realiza mil e uma atividades online, em um espa\u00e7o digital aberto. Mas o fato \u00e9 que um dos importantes usos da web \u00e9, sim, exercer a sexualidade \u2013\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/controle-de-agitacoes-civis-pelo-facebook-precisamos-falar-disso\" target=\"_blank\">e reivindicar direitos relacionados a ela<\/a>.<\/p>\n<p>Considerando, entretanto, que h\u00e1 padr\u00f5es normativos e que, em alguns pa\u00edses, qualquer diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a eles pode ser severamente punida, \u00e9 preciso se\u00a0debru\u00e7ar\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/blogs\/outras-palavras\/a-internet-tragada-pelo-capitalismo-de-vigilancia\" target=\"_blank\">sobre o impacto da vigil\u00e2ncia<\/a>\u00a0massiva na internet tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da sexualidade.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que a Associa\u00e7\u00e3o para o Progresso das Comunica\u00e7\u00f5es (Association for Progressive Communications, APC) quer entender agora, por meio da rec\u00e9m-lan\u00e7ada pesquisa sobre sexualidade online \u201cEroTICS\u201d.<\/p>\n<p>Historicamente, as pr\u00e1ticas de vigil\u00e2ncia foram desenvolvidas de forma majorit\u00e1ria ao lado do patriarcado e da coloniza\u00e7\u00e3o. Mesmo antes do advento da computa\u00e7\u00e3o, eram os corpos das mulheres, da popula\u00e7\u00e3o LGBTQI e das pessoas negras que estavam sob constante vigil\u00e2ncia e controle. Afinal, quando o contexto social j\u00e1 \u00e9 marcado por rela\u00e7\u00f5es sexistas, ent\u00e3o a tecnologia de vigil\u00e2ncia (e outras) tender\u00e1 a amplificar tais tens\u00f5es e desigualdades.<\/p>\n<p>O\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/blogs\/outras-palavras\/a-silenciosa-ditadura-do-algoritmo\" target=\"_blank\">Big Data<\/a>\u00a0(grande conjunto de dados armazenados) e a pr\u00e1tica de process\u00e1-los n\u00e3o podem, assim, ser pensados independentemente do contexto amplo em que foram criados e em que se desenvolveram.<\/p>\n<p>\u00c9 importante, neste sentido, ressaltar que a vigil\u00e2ncia n\u00e3o se d\u00e1 mais por alvos espec\u00edficos, mas por meio da coleta massiva, pela generaliza\u00e7\u00e3o do conceito de suspeito e pela pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o de suspeitos por meio de processos algor\u00edtmicos. Al\u00e9m disso, a nova coleta de dados se d\u00e1, em geral, de forma remota, praticamente invis\u00edvel aos cidad\u00e3os objeto da vigil\u00e2ncia. Ocorre, em geral, sem adequado consenso e com intensa transmiss\u00e3o de dados.<\/p>\n<p>Tudo isso tem uma implica\u00e7\u00e3o diferente para mulheres, LGBTQI e negros. \u201cA vigil\u00e2ncia de hoje enquadra as pessoas em categorias, designando riscos e valores, de forma que t\u00eam implica\u00e7\u00f5es reais em suas op\u00e7\u00f5es de vida. H\u00e1 profunda discrimina\u00e7\u00e3o, o que torna a vigil\u00e2ncia n\u00e3o apenas uma quest\u00e3o de privacidade, mas de justi\u00e7a social&#8221;, afirmou David Lyon no livro \u201cSurveillance as Social Sorting: Privacy, Risk and Digital Discrimination\u201d, citado no artigo de Nicole Shephard, \u201cBig Data and Sexual Surveillance\u201d.<\/p>\n<p>Shepard lembra que a coleta de dados comercial para enquadramento em tipos sociais, tradicionalmente n\u00e3o entendida como vigil\u00e2ncia, tamb\u00e9m tem implic\u00e2ncia no desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade, entre outros. \u201cO corpo e suas intera\u00e7\u00f5es virtuais t\u00eam o potencial de ser reconstitu\u00eddo, controlado, \u2018merketizado\u2019 e quase literalmente vendido para maior oferta\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Assim, mais do que nunca se faz necess\u00e1rio questionar como o cen\u00e1rio digital de coleta e processamento de dados afeta a sexualidade e a identidade de g\u00eanero, bem como aqueles que utilizam a internet como ferramenta para se expressar nestes \u00e2mbitos. \u00c9 o que busca a terceira pesquisa global EroTICs.<\/p>\n<p>Em suas edi\u00e7\u00f5es anteriores, realizadas em 2013 e 2014, a pesquisa apurou, por exemplo, que 98% dos ativistas de direitos sexuais consideram que a internet \u00e9 crucial para o seu trabalho. Por outro lado, 51% j\u00e1 receberam mensagens violentas ou amea\u00e7adoras em decorr\u00eancia de sua\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/a-bolha-do-facebook-e-a-astucia-do-capitalismo\" target=\"_blank\">atua\u00e7\u00e3o nas redes.<\/a><\/p>\n<p>Esses e outros dados levantados pela EroTICs levaram \u00e0 inclus\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero no relat\u00f3rio sobre criptografia, anonimato e direitos humanos nas comunica\u00e7\u00f5es digitais do Relator Especial da ONU para Liberdade de Opini\u00e3o e de Express\u00e3o, em 2015.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio faz uma s\u00e9ria de recomenda\u00e7\u00f5es aos Estados que fazem parte da ONU, como treinamento sobre quest\u00f5es de g\u00eanero para policiais e funcion\u00e1rios respons\u00e1veis pela aplica\u00e7\u00e3o das leis e a exclus\u00e3o de crimes de viol\u00eancia sexual de disposi\u00e7\u00f5es de anistia no contexto dos processos de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 prevenir viola\u00e7\u00f5es e abusos contra defensores \u2013 e principalmente defensoras \u2013 de direitos humanos, a partir da compreens\u00e3o de que h\u00e1 uma discrimina\u00e7\u00e3o sist\u00eamica e estrutural enfrentada por mulheres ativistas.<\/p>\n<p>Para esta edi\u00e7\u00e3o, a pesquisa d\u00e1 prefer\u00eancia a militantes de direitos sexuais menos contemplados nos anos anteriores, como migrantes, refugiados, jovens, idosos, pessoas com defici\u00eancia e pessoas que enfrentam discrimina\u00e7\u00f5es adicionais baseadas em ra\u00e7a, casta ou religi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel responder ao question\u00e1rio at\u00e9 17 de agosto,\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/bit.ly\/2u0Ffuc\" target=\"_blank\">em ingl\u00eas<\/a>\u00a0ou\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/bit.ly\/2ur62Rq\" target=\"_blank\">em espanhol<\/a>, e ajudar a colocar o g\u00eanero e a sexualidade no mapa das pesquisas sobre usos e riscos da internet. Essas dimens\u00f5es da vida humana tamb\u00e9m precisam ser consideradas e problematizadas num momento de profundas transforma\u00e7\u00f5es que o desenvolvimento traz.<\/p>\n<p><em>*Marina Pita \u00e9 jornalista e integra a Coordena\u00e7\u00e3o Executiva do Intervozes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compreender como a internet pode servir para defesa ou viola\u00e7\u00e3o de direitos sexuais \u00e9 uma das tarefas para a emancipa\u00e7\u00e3o de mulheres e LGBTQI Por Marina Pita* Quando soube que a \u00cdndia se incumbiu da tarefa de proibir sites porn\u00f4s, um amigo disse: mas afinal, a web serve para qu\u00ea, se n\u00e3o para isso? 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