{"id":29821,"date":"2017-05-05T17:43:31","date_gmt":"2017-05-05T17:43:31","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29821"},"modified":"2017-05-05T17:43:31","modified_gmt":"2017-05-05T17:43:31","slug":"facebook-negocia-dados-de-milhoes-de-jovens-emocionalmente-vulneraveis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29821","title":{"rendered":"Facebook negocia dados de milh\u00f5es de jovens emocionalmente vulner\u00e1veis"},"content":{"rendered":"<p><em>Uso de informa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as e jovens pela rede social comprova urg\u00eancia da prote\u00e7\u00e3o dos dados pessoais<\/em><\/p>\n<p><strong>Por Marina Pita*<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de dois anos, eu e minha fam\u00edlia recebemos a not\u00edcia de que minha m\u00e3e teria de enfrentar um tratamento para <a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/a-pec-55-pode-comprometer-o-tratamento-do-cancer-no-pais\" target=\"_blank\">c\u00e2ncer<\/a>. Dias depois de ter recebido a not\u00edcia, resolvi compartilhar pelo WhatsApp, com uma amiga querida que estava longe, o estado de ansiedade e apreens\u00e3o pelo qual passava.<\/p>\n<p>No dia seguinte, um e-mail na minha caixa de entrada informava sobre um rem\u00e9dio milagroso para a doen\u00e7a. Respirei fundo e apaguei. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, o fato que \u00e9 que a informa\u00e7\u00e3o de que o assunto &#8220;c\u00e2ncer&#8221; estava no meu espectro de interesse poderia, sim, ser usada para fins de publicidade. A fragilidade, a vulnerabilidade, a inseguran\u00e7a, j\u00e1 descobriram os publicit\u00e1rios h\u00e1 alguns anos, s\u00e3o importantes impulsionadores de vendas.<\/p>\n<p>Agora, se o caso ocorreu j\u00e1 h\u00e1 dois anos, por que compartilh\u00e1-lo agora?<\/p>\n<p>Porque um documento interno do<a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/tecnologia\/nao-devemos-esperar-que-o-facebook-se-comporte-eticamente-8316.html\" target=\"_blank\"> Facebook<\/a>, que acaba de ser <a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/tecnologia\/grandes-dados-transformaram-sua-privacidade-em-coisa-do-passado-5935.html\" target=\"_blank\">vazado<\/a> pelo jornal <i>Australian<\/i>, revelou a capacidade da companhia de identificar quando um adolescente ou um jovem trabalhador se sente \u201cinseguro\u201d, \u201cin\u00fatil\u201d e precisa de um \u201cimpulso de autoestima\u201d \u2013 tudo baseado num banco de dados de 1,9 milh\u00e3o de estudantes de Ensino Fundamental, 1,5 milh\u00e3o do Ensino M\u00e9dio e 3 milh\u00f5es de jovens trabalhadores.<\/p>\n<p>Quem acompanhou, no Dia Mundial da Sa\u00fade, os diversos alertas sobre depress\u00e3o e como a doen\u00e7a \u00e9 hoje a principal causa de problemas de sa\u00fade e invalidez no mundo, pode pensar: que \u00f3timo! Esta informa\u00e7\u00e3o pode ser usada para gerar algum tipo de acompanhamento, indica\u00e7\u00e3o de profissional, sugerir que o adolescente busque ajuda.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Veja bem.<\/p>\n<p>O documento em que a maior rede social do mundo se gabava de poder monitorar posts e fotos em tempo real para determinar quando um jovem se sente \u201cestressado\u201d, \u201cderrotado\u201d, \u201cansioso\u201d, \u201cnervoso\u201d, \u201cest\u00fapido\u201d, \u201cfracassado\u201d, \u201cidiota\u201d ou \u201cum fracasso\u201d era, na realidade, uma apresenta\u00e7\u00e3o feita para um dos maiores bancos da Austr\u00e1lia.<\/p>\n<p>Isso mesmo, um banco.<\/p>\n<p>Ou seja, a informa\u00e7\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o emocional de adolescentes e jovens est\u00e1 sendo usada para fins econ\u00f4micos, para o lucro de corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Neste sentido, o vazamento do documento do Facebook e a <a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/internet\" target=\"_blank\">exposi\u00e7\u00e3o dos dados<\/a> nele contidos n\u00e3o \u00e9 apenas mais um alerta sobre a capacidade de coleta e processamento de dados na era moderna. \u00c9 um importante indicador de que todo mundo precisa de privacidade se n\u00e3o quiser que suas maiores vulnerabilidades sejam exploradas para o \u00fanico fim de vender.<\/p>\n<p>Em um momento em que muitos alardeiam a era do fim da privacidade, como se fosse algo trivial, em que se ouve a cada roda de conversa que algu\u00e9m n\u00e3o teme a coleta massiva de dados e a vigil\u00e2ncia \u201cporque n\u00e3o tem nada a esconder\u201d, talvez esta not\u00edcia fa\u00e7a com que todos passem a entender que a privacidade n\u00e3o \u00e9 importante apenas para os corruptos, bandidos ou ditos subversivos, mas para que qualquer cidad\u00e3o esteja protegido do modelo de consumo atual: a qualquer custo, sem limites e sem \u00e9tica, ao qual todos estamos sujeitos.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de pararmos para questionar as maravilhas que os sistemas de <a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/tecnologia\/a-google-e-a-gripe-como-os-grandes-dados-vao-nos-ajudar-a-cometer-erros-gigantescos-5873.html\" target=\"_blank\">\u201cBig Data\u201d<\/a> far\u00e3o pela humanidade, usando os nossos dados para nos entregar o que h\u00e1 de mais perfeito para nossa personalidade ou para encontrar a origem de nossas doen\u00e7as, e come\u00e7armos a entender que uma sociedade orientada para o lucro obviamente usar\u00e1 os recursos tecnol\u00f3gicos em vasta medida para este \u00fanico e exclusivo fim.<\/p>\n<p>E isso \u00e9 verdade, apesar do que dizem os \u201cevangelistas\u201d de tecnologia, profissionais altamente qualificados, pagos por grande empresas do setor de \u201ccoleta de dados e softwares de intelig\u00eancia\u201d para apregoar, com apoio de potente m\u00e1quina de influ\u00eancia de m\u00eddia, as benesses que ser\u00e3o um dia obtidas com o modelo em que n\u00f3s entregamos nossas informa\u00e7\u00f5es mais pessoais sem nem sequer entrar na l\u00f3gica do lucro e cobrar por isso.<\/p>\n<p><b>Explora\u00e7\u00e3o comercial de crian\u00e7as e adolescentes<\/b><\/p>\n<p>O mais incr\u00edvel \u00e9 que a explora\u00e7\u00e3o de dados para fins de lucro n\u00e3o encontra limites nem para com crian\u00e7as e adolescentes, que devem ser tratados como prioridade absoluta \u2013 como estabelece a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Pouco importa se pelo menos eles deveriam ser poupados de determinadas pr\u00e1ticas mercadol\u00f3gicas at\u00e9 que tenham maturidade para compreender as implica\u00e7\u00f5es de terem seus dados dispon\u00edveis para as \u00e1reas de publicidade e marketing (no m\u00ednimo) das companhias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da sanha do mercado, essa falta de limites est\u00e1 relacionada tamb\u00e9m com a fragilidade regulat\u00f3ria sobre a coleta, processamento, uso e, claro, prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais. No Brasil, por exemplo, e apesar dos esfor\u00e7os de diversas entidades, especialistas, acad\u00eamicos e juristas (muitos deles reunidos na <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.direitosnarede.org.br\/\" target=\"_blank\">Coaliz\u00e3o Direitos na Rede<\/a>) de ver aprovada uma Lei de Prote\u00e7\u00e3o de Dados Pessoais, a agenda pol\u00edtica do pa\u00eds e alguns interesses escusos t\u00eam impedido que o tema se torne prioridade no Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, o que mais se v\u00ea s\u00e3o projetos de lei baseados na viola\u00e7\u00e3o da nossa privacidade para, supostamente, nos proteger dos males contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Uma legisla\u00e7\u00e3o adequada \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de dados dos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s \u2013 em especial, dos mais vulner\u00e1veis \u2013 \u00e9 necess\u00e1ria e mais do que bem-vinda. Mas o debate ainda encontra os limites na cultura, nas tecnologias dispon\u00edveis e no conhecimento dos brasileiros sobre o assunto.<\/p>\n<p>Para tentar sustentar este outro pilar para a t\u00e3o necess\u00e1ria garantia do direito \u00e0 privacidade e \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o em dados pessoais, organiza\u00e7\u00f5es como o Intervozes, Sarav\u00e1, Actantes, Encripta Tudo e Escola de Ativismo organizam anualmente um evento aberto para discutir, neste contexto de coleta massiva de dados e vigil\u00e2ncia constante por Estados e empresas, temas como seguran\u00e7a, privacidade, criptografia, t\u00e9cnicas e solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para a prote\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os e organiza\u00e7\u00f5es. Trata-se da <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.cryptorave.org\/\" target=\"_blank\">CryptoRave<\/a>.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o deste ano come\u00e7a nesta sexta-feira, 5 de maio, e segue at\u00e9 o s\u00e1bado 6, \u00e0s 19hs, na Casa do Povo, em S\u00e3o Paulo. Ser\u00e3o 24 horas diretas de palestras, debates, oficinas, jogos e apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas para todos os perfis de pessoas \u2013 desde os mais geeks at\u00e9 o cidad\u00e3o comum, que acaba de descobrir que tem muito a perder se n\u00e3o come\u00e7ar a se atentar para o tema.<\/p>\n<p>Nosso lema deste ano \u00e9: &#8220;Dance como se ningu\u00e9m estivesse olhando, porque ningu\u00e9m precisa de mais depress\u00e3o no mundo. Mas criptografe, porque todos est\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><em>* Marina Pita \u00e9 jornalista, membro do Intervozes e uma das organizadoras da CryptoRave. \u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uso de informa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as e jovens pela rede social comprova urg\u00eancia da prote\u00e7\u00e3o dos dados pessoais Por Marina Pita* H\u00e1 cerca de dois anos, eu e minha fam\u00edlia recebemos a not\u00edcia de que minha m\u00e3e teria de enfrentar um tratamento para c\u00e2ncer. 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