{"id":29567,"date":"2016-12-02T19:36:59","date_gmt":"2016-12-02T19:36:59","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29567"},"modified":"2017-03-14T19:39:02","modified_gmt":"2017-03-14T19:39:02","slug":"associacao-vai-exigir-acoes-afirmativas-para-negrosas-no-audiovisual","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29567","title":{"rendered":"Associa\u00e7\u00e3o vai exigir a\u00e7\u00f5es afirmativas para negros\/as no audiovisual"},"content":{"rendered":"<p><em>Homens negros representam menos de 2% das lideran\u00e7as profissionais em grandes produ\u00e7\u00f5es audiovisuais; as mulheres negras est\u00e3o completamente ausentes<\/em><\/p>\n<p><em>Por Marina Pita*<\/em><\/p>\n<p>\u201cA melhor resposta que poder\u00edamos dar a essa conjuntura de avan\u00e7o do conservadorismo nos n\u00edveis municipal, federal e internacional era essa\u201d, afirmou a advogada e cineasta Viviane Ferreira, ao analisar a cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o dos\/as Profissionais do Audiovisual Negro (Apan).<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 formalizada publicamente nesta sexta-feira 2, durante a realiza\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/programe-se\/agenda\/evento\/dialogos-ausentes-dezembro-de-2016\/\" target=\"_blank\">Di\u00e1logos Ausentes e 1\u00ba Semin\u00e1rio Audiovisual Negro<\/a>. A partir de ent\u00e3o, a Apan passar\u00e1 tamb\u00e9m a compor o Conselho Consultivo da <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/telatela.cartacapital.com.br\/para-democratizar-acesso-ao-cinema-spcine-inaugura-circuito-popular\/\" target=\"_blank\">SPCine <\/a>\u2013 empresa de cinema e audiovisual de S\u00e3o Paulo ligada \u00e0 Secretaria Municipal de Cultura \u2013, criando mais uma frente de reivindica\u00e7\u00e3o e demanda para pol\u00edticas de incentivo ao audiovisual negro.<\/p>\n<p>Em uma das mesas de debate do Encontro SPCine, realizado entre 16 e 18 de novembro, em S\u00e3o Paulo, a fala de Viviane e o an\u00fancio, tanto da cria\u00e7\u00e3o da Apan, quanto da nova composi\u00e7\u00e3o do Conselho Consultivo da SPCine, ganhou ares de momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Isso porque a participa\u00e7\u00e3o de profissionais negros e negras no audiovisual no Pa\u00eds \u00e9 baix\u00edssima, quase inexistente, apesar de o Brasil ser um pa\u00eds cuja popula\u00e7\u00e3o \u00e9 54% negra, conforme \u00faltimo dado dispon\u00edvel do IBGE.<\/p>\n<p>Pesquisa realizada pelo <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/gemaa.iesp.uerj.br\/\" target=\"_blank\">Grupo de Estudos Multidisciplinares da A\u00e7\u00e3o Afirmativa (Gemaa)<\/a>, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), com as vinte maiores bilheterias de cada ano, considerando 2002 a 2014, escancarou o racismo na produ\u00e7\u00e3o audiovisual brasileira: 84% dos cineastas s\u00e3o homens brancos; 14%, mulheres brancas; e 2%, homens negros.<\/p>\n<p>E nestes 13 anos analisados, nenhuma mulher negra esteve \u00e0 frente de uma produ\u00e7\u00e3o de grande bilheteria, tampouco assinou roteiros.\u00a0J\u00e1 os homens brancos foram respons\u00e1veis por 69% dos textos.<\/p>\n<p>Esta aus\u00eancia n\u00e3o \u00e9 sentida e questionada apenas no Brasil. Na edi\u00e7\u00e3o do Oscar de 2016, a <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/cultura\/oscar-2015-a-festa-do-homem-branco-6769.html\" target=\"_blank\">aus\u00eancia de negros e negras indicados<\/a> aos pr\u00eamios de atua\u00e7\u00e3o, roteiro e dire\u00e7\u00e3o, mesmo havendo filmes focados na tem\u00e1tica negra e com atores e diretores negros \u2013 caso de <em>Selma<\/em>, da diretora Ava DuVernay \u2013 repercutiu em cr\u00edticas severas \u00e0 academia norte-americana, que desde 2011 n\u00e3o mantinha negros de fora de suas indica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sendo o audiovisual um setor que, em geral, exige alto investimento e qualifica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e t\u00e9cnica, a revers\u00e3o deste cen\u00e1rio \u2013 que reflete a desigualdade racial do pa\u00eds \u2013 sem pol\u00edticas afirmativas \u00e9 invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cReconhecer a impossibilidade de abdicar do esfor\u00e7o em construir pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas no setor audiovisual \u00e9 um primeiro pressuposto, desmistificar o que vem a ser esse conjunto de pol\u00edticas \u00e9 o segundo\u201d, destacou Viviane Ferreira durante a abertura do evento.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 fundamental garantir aos protagonistas as condi\u00e7\u00f5es materiais e simb\u00f3licas para que as dificuldades ou desn\u00edveis possam ser superados e as escolhas possam ser feitas de maneira l\u00facida e, consequentemente, a m\u00e9dio e longo prazos\u201d, frisou, ainda.<\/p>\n<p><strong>Cen\u00e1rio de oportunidades<\/strong><\/p>\n<p>Para ela, se por um lado h\u00e1 o avan\u00e7o do conservadorismo na pol\u00edtica institucional, da perspectiva da audi\u00eancia h\u00e1 o esgotamento da narrativa cl\u00e1ssica. \u201cO p\u00fablico n\u00e3o aceita mais essa narrativa viciada proposta pelo homem branco, heterossexual e endinheirado. Ele n\u00e3o consegue mais fazer o seu capital render vendendo a narrativa viciada. E a\u00ed h\u00e1 o momento de transi\u00e7\u00e3o e precisamos pensar como reorganizar o di\u00e1logo e essas rela\u00e7\u00f5es no mercado audiovisual \u2013 um di\u00e1logo de desconstru\u00e7\u00e3o de desigualdades\u201d.<\/p>\n<p>Um exemplo de tentativa do mercado audiovisual de suprir a demanda por um audiovisual negro, mas sem superar a estrutura excludente, \u00e9 a s\u00e9rie <em>O Sexo e as Nega<\/em>. \u201cO audiovisual \u00e9, sobretudo, um retrato da realidade e cada um faz o retrato a partir de sua experi\u00eancia de vida. A experi\u00eancia de vida de um homem branco n\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia de vida de uma mulher negra. E a\u00ed a gente precisa entender que para conseguir avan\u00e7ar e sair desse jogo de manobra e apropria\u00e7\u00e3o cultural do que \u00e9 a nossa criatividade, nossa subjetividade negra, precisamos diversificar todos os espa\u00e7os do setor audiovisual\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para Viviane, o momento pode ser muito f\u00e9rtil para a democratiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o audiovisual porque al\u00e9m das exig\u00eancias da audi\u00eancia por conte\u00fado de qualidade e que retrate a realidade do Pa\u00eds, as produ\u00e7\u00f5es culturais provenientes de grupos sociais tradicionalmente marginalizados v\u00eam paulatinamente ganhando espa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cDentro da cultura, a marginalidade, embora permane\u00e7a perif\u00e9rica em rela\u00e7\u00e3o ao <em>mainstream<\/em>, nunca foi um espa\u00e7o t\u00e3o produtivo quanto \u00e9 agora. E isso n\u00e3o \u00e9 apenas uma abertura dos espa\u00e7os dominantes \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o dos de fora. \u00c9 tamb\u00e9m resultado de pol\u00edticas culturais da diferen\u00e7a, de lutas em torno da diferen\u00e7a, da produ\u00e7\u00e3o de novas identidades e do aparecimento de novos sujeitos no cen\u00e1rio pol\u00edtico cultural\u201d, destaca. \u201cE isto vale n\u00e3o apenas para ra\u00e7a como tamb\u00e9m para \u201coutras \u201cetnicidades, marginalidades, assim como para o feminismo e as pol\u00edticas sexuais e movimentos LGBTs\u201d, analisou a cineasta negra durante debate.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o e cautela da Apan em n\u00e3o deixar o espa\u00e7o de visibilidade e di\u00e1logo em torno do cinema negro se transformar em um cub\u00edculo cuidadosamente regulado e vigiado para impedir qualquer avan\u00e7o e fortalecer o racismo e suas pr\u00e1ticas nefastas e arraigadas.<\/p>\n<p>Dessa forma, a associa\u00e7\u00e3o mant\u00e9m como objetivo elaborar e pressionar pela implementa\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias culturais para o setor audiovisual capazes de construir uma teia para consolidar um conjunto de pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas para o setor que d\u00ea conta de aprimorar iniciativas existentes.<\/p>\n<p>Uma destas iniciativas \u00e9 o Curta Afirmativo, linha de financiamento audiovisual criada pela Ag\u00eancia Nacional de Cinema (Ancine) em 2014 \u2013 a primeira a\u00e7\u00e3o afirmativa com recorte racial do audiovisual no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 import\u00e2ncia de existir a Apan, em di\u00e1logo com a Ancine, em di\u00e1logo com a SPCine, em di\u00e1logo com o mercado, em di\u00e1logo com a sociedade civil para entendermos como cada uma das partes pode atuar para alterar essa ordem. O audiovisual \u00e9 uma brincadeira muito cara e n\u00e3o podemos continuar neste jogo de perde-perde apenas para garantir a continuidade do <em>status quo<\/em> racial&#8221;, afirmou a representante da Apan.<\/p>\n<dl class=\"image-inline captioned\">\n<dt><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" lazyloaded\" title=\"FilmeSelma.jpg\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/nova-associacao-vai-exigir-acoes-afirmativas-para-negros-e-negras-no-audiovisual\/FilmeSelma.jpg\/image\" alt=\"FilmeSelma.jpg\" width=\"615\" height=\"387\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/nova-associacao-vai-exigir-acoes-afirmativas-para-negros-e-negras-no-audiovisual\/FilmeSelma.jpg\/image\" \/><\/dt>\n<dd class=\"image-caption\">Cena de Selma, de Ava DuVernay (EUA\/2015)<\/dd>\n<\/dl>\n<p>&#8220;Ou a gente avan\u00e7a e entra no jogo de ganha-ganha, tanto materialmente quanto subjetivamente, ou a gente precisa endurecer o jogo. O conjunto identificado como massa mostra que n\u00e3o est\u00e1 mais disposto a ser manobrado e a\u00ed, a partir deste ponto, podemos alterar a ordem e resolver essa quest\u00e3o\u201d, completou.<\/p>\n<p>Em momento de transi\u00e7\u00e3o tanto no governo municipal de S\u00e3o Paulo quanto na esfera federal, Viviane n\u00e3o titubeia diante da possibilidade de portas se fecharem para este di\u00e1logo t\u00e3o necess\u00e1rio em um futuro breve.<\/p>\n<p>\u201cComo fazer para ter continuidade nas pol\u00edticas afirmativas? Da perspectiva da sociedade civil, o nosso di\u00e1logo \u00e9 com o Estado e seja qual for o Estado, ele precisa dialogar com a sociedade civil. Se n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para isso, a gente mete o p\u00e9 na porta e adentra a estrutura do Estado para garantir o di\u00e1logo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 importante n\u00e3o perder isso de perspectiva porque a estrutura do Estado n\u00e3o \u00e9 o condom\u00ednio, o <em>play<\/em>, o apartamento de indiv\u00edduos. Posso assegurar que uma popula\u00e7\u00e3o que conseguiu sobreviver \u00e0s pol\u00edticas genocidas de um Estado durante 500 anos, n\u00e3o est\u00e1 disposta a deixar de combater as posturas racistas, seja l\u00e1 qual for o governo\u201d.<\/p>\n<p>A seguir, algumas das propostas iniciais para pol\u00edticas afirmativas:<\/p>\n<p>&#8211; Garantir a presen\u00e7a de profissionais negros em comiss\u00f5es de sele\u00e7\u00f5es de projetos audiovisuais tanto na iniciativa p\u00fablica quanto na iniciativa privada;<\/p>\n<p>&#8211; Garantir a presen\u00e7a de profissionais negros nas inst\u00e2ncias decis\u00f3rias dos \u00f3rg\u00e3os e empresas p\u00fablicas e privadas do setor audiovisual;<\/p>\n<p>&#8211; Fortalecer os espa\u00e7os espec\u00edficos dentro dos grandes festivais e no circuito alternativo para exibi\u00e7\u00e3o do cinema negro, como pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico;<\/p>\n<p>&#8211; Garantir a representa\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00f5es e realizadores negros nos espa\u00e7os principais \u2013 nas telas e nos debates \u2013 dos grandes festivais como pol\u00edtica de reconhecimento da excel\u00eancia das obras e de seus profissionais;<\/p>\n<p>&#8211; Programa de fortalecimento institucional de pequenas e m\u00e9dias empresas geridas por pessoas negras e com forte produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de conte\u00fado voltada para essa parcela da popula\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; Reserva de espa\u00e7o pelas programadoras e distribuidoras para aquisi\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de conte\u00fado produzido por empresas geridas por pessoas negras com foco em produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado voltada para a popula\u00e7\u00e3o negra;<\/p>\n<p>&#8211; Estrutura\u00e7\u00e3o de uma resolu\u00e7\u00e3o por parte da Ancine que olhe para o princ\u00edpio da isonomia alinhada com o princ\u00edpio da equidade e estabele\u00e7a regras reguladoras iguais entre os iguais e diferentes para os diferentes;<\/p>\n<p>&#8211; Fortalecer uma pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o que oferte laborat\u00f3rios para que pareceristas, cr\u00edticos, dramaturgos, curadores, exibidores, programadores, distribuidores e realizadores para que possam compreender a diversidade de temas e possibilidades de abordagem e reconhecimento da subjetividade negra por meio da linguagem audiovisual;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*Marina Pita \u00e9 jornalista, branca e comp\u00f5e o Conselho do Coletivo Intervozes. \u00c9 prima-tia de duas meninas negras e espera que as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es possam se ver nas telas \u2013 e possam estar atr\u00e1s delas \u2013 e que o momento de identifica\u00e7\u00e3o das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as negras com o conte\u00fado audiovisual brasileiro n\u00e3o seja na repercuss\u00e3o de trag\u00e9dias como a do terremoto do Haiti, que tanto chamou a aten\u00e7\u00e3o das pequenas j\u00e1 citadas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homens negros representam menos de 2% das lideran\u00e7as profissionais em grandes produ\u00e7\u00f5es audiovisuais; 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