{"id":29549,"date":"2017-01-24T18:20:12","date_gmt":"2017-01-24T18:20:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29549"},"modified":"2017-03-14T18:22:41","modified_gmt":"2017-03-14T18:22:41","slug":"valorizar-quem-constroi-a-rede-no-pais-internet-como-agenda-nacional","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29549","title":{"rendered":"valorizar quem constr\u00f3i a rede no pa\u00eds internet como agenda nacional"},"content":{"rendered":"<p><em>Pesquisa revela que 55% dos brasileiros n\u00e3o percebem vida online fora da plataforma criada por Mark Zuckerberg<\/em><\/p>\n<p><em>Por Jonas Valente*<\/em><\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Mozilla publicou neste m\u00eas uma vers\u00e3o preliminar de um relat\u00f3rio anual sobre a <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/internethealthreport.org\/\" target=\"_blank\">\u201cSa\u00fade da Internet\u201d<\/a> (<em>Internet Health<\/em>, no termo empregado pela entidade). O conceito abarcaria a plena realiza\u00e7\u00e3o do potencial da rede, incluindo a \u201ccriatividade coletiva, a inven\u00e7\u00e3o e livre express\u00e3o\u201d. Essa condi\u00e7\u00e3o inclui cinco eixos: (1) o grau de abertura (capacidade de produzir e difundir sem barreiras ou impedimentos); (2) o qu\u00e3o a rede \u00e9 acess\u00edvel para todos; (3) quem controla e o qu\u00e3o centralizada \u00e9 a rede; (4) o n\u00edvel de seguran\u00e7a e privacidade; e (5) a apropria\u00e7\u00e3o e o empoderamento dos internautas para lidar com as tecnologias e usar os recursos disponibilizados pela <em>web<\/em>.<\/p>\n<p>O estudo traz um dado alarmante: 55% dos brasileiros consideraram que o Facebook \u00e9 a Internet. Ou seja, mais da metade dos entrevistados afirmou n\u00e3o perceber vida <i>online<\/i> fora da plataforma. O Pa\u00eds perde apenas para \u00cdndia, Indon\u00e9sia e Nig\u00e9ria nesta vis\u00e3o, que tiveram \u00edndices de resposta maiores. J\u00e1 nos Estados Unidos, apenas 5% dos entrevistados igualaram a <i>web<\/i> ao Facebook. O levantamento foi divulgado originalmente pelo site <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/qz.com\/333313\/milliions-of-facebook-users-have-no-idea-theyre-using-the-internet\/\" target=\"_blank\">Quartz<\/a>, especializado em economia digital.<\/p>\n<p>Embora o fen\u00f4meno n\u00e3o seja exclusividade tupiniquim, o alerta trazido pelo dado \u00e9 potencializado pelo crescente avan\u00e7o do Facebook no Brasil. <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.statista.com\/statistics\/268136\/top-15-countries-based-on-number-of-facebook-users\/\" target=\"_blank\">O pa\u00eds \u00e9 o terceiro em n\u00famero de usu\u00e1rios da plataforma (90 milh\u00f5es), atr\u00e1s apenas dos EUA (191 milh\u00f5es) e da \u00cdndia (195 milh\u00f5es)<\/a>.<\/p>\n<p>Se considerada a propor\u00e7\u00e3o entre o total da popula\u00e7\u00e3o, o Brasil sobe para a segunda coloca\u00e7\u00e3o com 45%, apenas atr\u00e1s dos EUA (59%), os dois muito acima da \u00cdndia (14%). Considerando a diferen\u00e7a entre a conectividade entre os dois \u2013 maior l\u00e1 (75%) do que aqui (59%) \u2013 e o fato de que a quest\u00e3o teve baix\u00edssimo \u00edndice de endosso na terra de Trump, o Brasil assume posi\u00e7\u00e3o de destaque neste assustador ranking: oito em cada 10 brasileiros conectados est\u00e3o na plataforma.<\/p>\n<p>A estat\u00edstica, contudo, n\u00e3o \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o desviante de internautas com baixa apropria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas reflete um objetivo almejado pela plataforma: ser A Internet ou, na impossibilidade disso, a principal porta de entrada para ela. A primeira estrat\u00e9gia, e mais ousada para isso, \u00e9 o projeto Free Basics, em que a empresa busca parceria com governos e operadoras para ofertar acesso \u00e0 \u201cInternet\u201d a pessoas de baixa renda (n\u00e3o \u00e0 toa o projeto era chamado originalmente de Internet.org). No entanto, n\u00e3o se trata de Internet, mas de um pacote que envolve o acesso ao Facebook e a determinados aplicativos e sites escolhidos por ele. Neste caso, a <i>web<\/i> seria literalmente o Facebook para bilh\u00f5es de pessoas, se confirmadas as inten\u00e7\u00f5es de Zuckerberg. <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/sis-publique.convergenciadigital.com.br\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?from_info_index=421&amp;infoid=39638&amp;sid=4\" target=\"_blank\">O projeto foi alvo de cr\u00edticas por entidades de todo o mundo<\/a>.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" lazyloaded\" title=\"Web\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/internautas-brasileiros-acham-que-a-internet-se-resume-ao-facebook\/protestos-na-india\/image\" alt=\"Web\" width=\"750\" height=\"500\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/internautas-brasileiros-acham-que-a-internet-se-resume-ao-facebook\/protestos-na-india\/image\" \/>A Funda\u00e7\u00e3o Mozilla alerta para o perigo da concentra\u00e7\u00e3o de propriedade na Internet<\/strong><\/p>\n<p><strong>Imp\u00e9rio econ\u00f4mico<\/strong><br \/>\nA segunda estrat\u00e9gia \u00e9 no \u00e2mbito do mercado. Se por um lado a companhia n\u00e3o est\u00e1, ainda, avan\u00e7ando verticalmente (seja na produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado audiovisual pr\u00f3prio, como faz a Amazon, ou entrada no mercado de fabricantes de dispositivos, como fez a Microsoft e o Google), por outro, ela constituiu uma hegemonia no mundo das plataformas digitais. Atualmente s\u00e3o 1,79 bilh\u00e3o de usu\u00e1rios \u00fanicos, sendo mais de 1 bilh\u00e3o com uso frequente. Al\u00e9m disso, a empresa controla o segundo e o terceiro aplicativos mais usados do mundo, o Whatsapp e o Facebook Messenger, ambos na casa de 1 bilh\u00e3o de usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ela ainda adquiriu outro app na lista dos maiores do mundo: o Instagram, com 600 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, sendo 100 milh\u00f5es somente no segundo semestre de 2016. A exce\u00e7\u00e3o e o obst\u00e1culo ao imp\u00e9rio de Zuckerberg est\u00e3o na China, onde o aplicativo WeChat \u00e9 adotado por 90% dos internautas, segundo o relat\u00f3rio. Para al\u00e9m das mensagens instant\u00e2neas, ele \u00e9 usado para outros servi\u00e7os como transa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, agendamento de taxis e compras.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da Funda\u00e7\u00e3o Mozilla alerta para o perigo da concentra\u00e7\u00e3o de propriedade na Internet e apresenta uma defesa enf\u00e1tica de um ambiente mais descentralizado. \u201cDescentraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave para garantir que a Internet continue um recurso p\u00fablico que \u00e9 saud\u00e1vel e dispon\u00edvel para todos n\u00f3s e que n\u00e3o \u00e9 controlado por poucos governos ou conglomerados. Se conseguimos fazer isso, \u00e9 poss\u00edvel que a Internet permane\u00e7a a for\u00e7a para a liberdade e a criatividade humanas. Se n\u00e3o, o futuro dever\u00e1 ser mais dist\u00f3pico\u201d.<\/p>\n<p><strong>Filtros, algoritmos e &#8220;efeito bolha&#8221;<br \/>\n<\/strong>A terceira estrat\u00e9gia do Facebook est\u00e1 no controle da circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. Ela passa pela defini\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica de funcionamento do <i>feed<\/i> de not\u00edcias (denominado na empresa de <i>NewsFeed<\/i>), o mecanismo que seleciona os posts disponibilizados a cada usu\u00e1rio na sua <i>timeline<\/i>. Ele se baseia em um algoritmo no qual o Facebook define quem e o que deve ter mais peso. O dom\u00ednio deste fluxo n\u00e3o \u00e9 trivial. Segundo o <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.digitalnewsreport.org\/survey\/2016\/brazil-2016\/\" target=\"_blank\">relat\u00f3rio 2016 de Not\u00edcias Digitais do Instituto Reuters<\/a>, 72% dos brasileiros entrevistados afirmaram usar as redes sociais como fontes de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma primeira quest\u00e3o a ser levantada diz respeito \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o das timelines por meio de algoritmos. Esses sistemas de processamento e decis\u00e3o automatizada em si s\u00e3o alvo de diversos questionamentos (como <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-entrevistas\/558843-os-algoritmos-e-a-politica-nem-bons-ou-ruins-os-algoritmos-tambem-nao-sao-neutros-entrevista-especial-com-andre-pasti-e-marina-pita\" target=\"_blank\">nessa entrevista dos integrantes do Intervozes, Marina Pita e Andr\u00e9 Pasti<\/a>). No caso espec\u00edfico do Facebook, o uso do <i>NewsFeed<\/i> tamb\u00e9m tem gerado fortes pol\u00eamicas. Uma delas s\u00e3o as cr\u00edticas <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/motherboard.vice.com\/pt_br\/read\/a-bolha-de-filtros-do-facebook-esta-piorando\" target=\"_blank\">ao chamado \u201cefeito bolha\u201d, segundo o qual a pessoa visualiza apenas o conte\u00fado relacionado \u00e0 sua ideologia<\/a>, em um claro preju\u00edzo ao debate democr\u00e1tico e \u00e0 diversidade de opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Outra pol\u00eamica s\u00e3o os casos de censura de determinados conte\u00fados, como a exposi\u00e7\u00e3o de seios ou outras partes do corpo de mulheres. O <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.revistaforum.com.br\/2015\/04\/17\/ministerio-da-cultura-vai-processar-o-facebook\/\" target=\"_blank\">Minist\u00e9rio da Cultura chegou a processar a plataforma por este motivo<\/a>. A empresa adotou em determinado momento uma \u201ccuradoria de conte\u00fados\u201d com jornalistas como forma de media\u00e7\u00e3o para a filtragem do <i>NewsFeed<\/i> e dos <em>Trending Topics<\/em> (assuntos mais comentados), mas <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/olhardigital.uol.com.br\/noticia\/-facebook-nos-tratou-como-lixo-critica-ex-funcionaria-que-checava-noticias\/64083\" target=\"_blank\">a experi\u00eancia tamb\u00e9m foi alvo de cr\u00edticas<\/a>. Em seguida, a companhia decidiu deixar o algoritmo funcionando sem esta supervis\u00e3o, <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/olhardigital.uol.com.br\/noticia\/facebook-e-enganado-por-noticia-falsa\/64931\" target=\"_blank\">mas se viu novamente envolta em forte questionamento ap\u00f3s ele favorecer not\u00edcias falsas<\/a>.<\/p>\n<p>O levantamento do relat\u00f3rio da Funda\u00e7\u00e3o Mozilla mostra como h\u00e1 uma parcela representativa de brasileiros totalmente ref\u00e9m dos filtros estabelecidos pelo Facebook. O controle das not\u00edcias d\u00e1 \u00e0 plataforma a condi\u00e7\u00e3o de decidir quem vai ter visibilidade e quem n\u00e3o ter\u00e1. Seja na escolha de um crit\u00e9rio ou em um veto deliberadamente pol\u00edtico, o Facebook tem o poder de \u201cporteiro\u201d (<i>gatekeeper<\/i>, termo usado para designar o comando das m\u00eddias tradicionais que definem o que \u00e9 publicado) junto a mais de 90 milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p><strong>Not\u00edcias falsas e parcerias<br \/>\n<\/strong>Outra quest\u00e3o \u00e9 a potencializa\u00e7\u00e3o das not\u00edcias falsas como consequ\u00eancia do \u201cefeito bolha\u201d.\u00a0 <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2016\/04\/160417_noticias_falsas_redes_brasil_fd\" target=\"_blank\">Levantamento do Grupo de Pesquisa em Pol\u00edticas P\u00fablicas de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o da USP<\/a> revelou que na semana do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, tr\u00eas das cinco not\u00edcias mais compartilhadas eram falsas. Tamb\u00e9m nos EUA <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/olhardigital.uol.com.br\/noticia\/google-e-facebook-fecham-o-cerco-contra-as-noticias-falsas\/63915\" target=\"_blank\">o Facebook foi questionado pela sua influ\u00eancia nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2016<\/a>. No Brasil, esse efeito bolha potencializa a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a ofensiva de criminaliza\u00e7\u00e3o da esquerda e dos direitos sociais em curso. As not\u00edcias falsas cumprem papel importante neste processo, sem um contraponto em outros tipos de m\u00eddia.<\/p>\n<p>Mas a profus\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es sem lastro na realidade tamb\u00e9m gerou questionamentos e levou o Facebook a abrir outra frente para tentar realizar o controle do fluxo de informa\u00e7\u00f5es. A dire\u00e7\u00e3o da empresa anunciou no fim de 2016 a cria\u00e7\u00e3o de um mecanismo de classifica\u00e7\u00e3o de not\u00edcias como falsas ou verdadeiras. Ent\u00e3o, al\u00e9m do controle da circula\u00e7\u00e3o, a plataforma ter\u00e1 o poder de atestar o que \u00e9 verdade e o que n\u00e3o \u00e9, podendo elevar a hegemonia da mesma de forma preocupante.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, lan\u00e7ou neste ano o \u201cProjeto Jornalismo\u201d, em que vai firmar parcerias com organiza\u00e7\u00f5es de m\u00eddia. A medida \u00e9 uma jogada para tentar se posicionar pr\u00f3ximo \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es que disp\u00f5em de alguma imagem de credibilidade. Mas \u00e9 tamb\u00e9m o aprofundamento de outra t\u00e1tica de ambiente de circula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias: o Instant Articles.<\/p>\n<p>Pelo projeto, empresas de m\u00eddia podem fechar parcerias para que suas mat\u00e9rias apare\u00e7am diretamente na plataforma, sem ter que direcionar o leitor para o site do ve\u00edculo. Segundo o Facebook, o recurso acelera em 10 vezes a velocidade de carregamento de um texto, aumenta em 20% a leitura e diminui em 70% a chance de abandono antes do fim. Em 2016, o servi\u00e7o passou a ser usado por ve\u00edculos brasileiros como Estad\u00e3o, Exame e outros. Ou seja, o usu\u00e1rio passar\u00e1 a consumir not\u00edcias sem sair da plataforma. Esta medida refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o registrada no levantamento da Funda\u00e7\u00e3o Mozilla e pode contribuir para que o quadro de concentra\u00e7\u00e3o na Internet n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se altere como se aprofunde.<\/p>\n<p><strong>\u201cEfeito antolho\u201d<br \/>\n<\/strong>Esse mundo confinado do Facebook consiste, em \u00faltima inst\u00e2ncia, em um fen\u00f4meno apelidado aqui de \u201cefeito antolho\u201d (viseira colocada nos cavalos para que olhem somente para frente). Para al\u00e9m do controle e enviezamento interno da plataforma j\u00e1 abordados, esse efeito tem implica\u00e7\u00f5es ainda mais graves quando usu\u00e1rios ignoram todo o mundo de possibilidades presente na Internet com fontes de informa\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os e aplicativos e resume sua experi\u00eancia ao Facebook.<\/p>\n<p>Isso diminui em muito o potencial da <i>web<\/i> para os mais diversos campos. Estudantes, acad\u00eamicos ou todo tipo de interessado em uma tem\u00e1tica podem estar deixando de usar a Rede para pesquisar um mundo de fontes (a \u201cbiblioteca online\u201d Wikipedia, por exemplo, tem 16 bilh\u00f5es de acessos mensais). Artistas e criadores podem estar deixando de produzir imagens, v\u00eddeos e \u00e1udios em distintos reposit\u00f3rios e dentro de in\u00fameros circuitos de troca. Cidad\u00e3os podem estar deixando de acompanhar as a\u00e7\u00f5es e os gastos de governos e pol\u00edticos por meio de espa\u00e7os como o Portal da Transpar\u00eancia, pr\u00e1tica que deveria ser cotidiana em uma conjuntura em que se fala tanto de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal cen\u00e1rio sinaliza um retrocesso preocupante. Nos debates sobre inclus\u00e3o digital, ganhou for\u00e7a a preocupa\u00e7\u00e3o com o que ficou conhecido como \u201calfabetiza\u00e7\u00e3o digital\u201d: n\u00e3o bastava garantir acesso, era necess\u00e1rio fazer com que os internautas se apropriassem das tecnologias e dos recursos para a plena participa\u00e7\u00e3o no mundo <i>online<\/i>. A percep\u00e7\u00e3o evidenciada na pesquisa d\u00e1 um passo atr\u00e1s nesse movimento, levantando a quest\u00e3o de que n\u00e3o se trata apenas de aprender a lidar com os recursos tecnol\u00f3gicos, mas de conhecimento do que \u00e9 a Internet e da cria\u00e7\u00e3o de uma cultura de frui\u00e7\u00e3o deste meio que v\u00e1 al\u00e9m da <i>timeline<\/i> do Facebook.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o pode parecer trivial para o leitor deste texto que disp\u00f5e desta consci\u00eancia, mas se justifica pela for\u00e7a do dado indicado pelo levantamento e deve ser tratada como um dado alarmante. Al\u00e9m disso, ela deve ser percebida no contexto das estrat\u00e9gias listadas componentes de um perigoso movimento do Facebook para de fato fazer com que a percep\u00e7\u00e3o limitada se torne realidade de fato com a tentativa de \u201ccercar\u201d a Internet e fazer da navega\u00e7\u00e3o uma experi\u00eancia limitada \u00e0 plataforma. Em um momento em que se discutem os riscos reais \u00e0 democracia no Brasil, e por que n\u00e3o dizer do mundo, colocar o debate sobre a relev\u00e2ncia do Facebook e desses impactos \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><strong>Outros dados do relat\u00f3rio:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 hoje 1,1 bilh\u00e3o de sites na web;<br \/>\n&#8211; H\u00e1 1 bilh\u00e3o de obras com licen\u00e7as Creative Commons, que permitem a reprodu\u00e7\u00e3o, altera\u00e7\u00e3o e reuso;<br \/>\n&#8211; 27% dos sites s\u00e3o feitos na plataforma wordpress, baseada em tecnologia de c\u00f3digo aberto;<br \/>\n&#8211; H\u00e1 um avan\u00e7o de medidas de prote\u00e7\u00e3o de copyright que amea\u00e7a a inova\u00e7\u00e3o e \u00e9 anacr\u00f4nica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida digital atual;<br \/>\n&#8211; Em 2016, ocorreram 51 derrubadas da Internet em 18 pa\u00edses;<br \/>\n&#8211; 3,3 bilh\u00f5es de pessoas possuem acesso \u00e0 Internet, 50% da popula\u00e7\u00e3o;<br \/>\n&#8211; 58% da popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o tem dinheiro para pagar por um servi\u00e7o de banda larga;<br \/>\n&#8211; A China \u00e9 o pa\u00eds com o segundo maior n\u00famero de internautas, mas somente 2% do conte\u00fado circulante na web \u00e9 em mandarim;<br \/>\n&#8211; 52% dos sites s\u00e3o em ingl\u00eas, embora somente 25% da popula\u00e7\u00e3o mundial compreenda o idioma;<br \/>\n&#8211; A estimativa \u00e9 que somente 16% da popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses mais pobres esteja conectada em 2020;<br \/>\n&#8211; O ranking existente sobre liberdade na rede ainda lista 65 pa\u00edses classificados nos quais a web n\u00e3o \u00e9 livre ou \u00e9 parcialmente livre;<br \/>\n&#8211; Os 10 pa\u00edses mais ricos embolsam 95% da renda obtida com aplicativos. Economias emergentes ficam apenas com 1% desse valor;<br \/>\n&#8211; 94% das buscas em smartphones s\u00e3o feitas no Google;<br \/>\n&#8211; Somente 50% dos estadunidenses se preocupam com a quantidade de dados sobre eles dispon\u00edvel na web;<br \/>\n&#8211; Somente um vazamento de dados, relatado pelo Yahoo, atingiu 1 bilh\u00e3o de pessoas.<i><br \/>\n<\/i><\/p>\n<p><i>*Jonas Valente \u00e9 jornalista, doutorando em Sociologia da Tecnologia na UnB e membro do Conselho Diretor do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa revela que 55% dos brasileiros n\u00e3o percebem vida online fora da plataforma criada por Mark Zuckerberg Por Jonas Valente* A Funda\u00e7\u00e3o Mozilla publicou neste m\u00eas uma vers\u00e3o preliminar de um relat\u00f3rio anual sobre a \u201cSa\u00fade da Internet\u201d (Internet Health, no termo empregado pela entidade). 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