{"id":29547,"date":"2017-01-26T16:42:05","date_gmt":"2017-01-26T16:42:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29547"},"modified":"2017-03-14T16:44:31","modified_gmt":"2017-03-14T16:44:31","slug":"massacre-nos-presidios-e-o-reforco-da-midia-a-cultura-da-violencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29547","title":{"rendered":"Massacre nos pres\u00eddios e o refor\u00e7o da m\u00eddia \u00e0 cultura da viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><em>Viol\u00eancia e medo s\u00e3o valores-not\u00edcia do jornalismo brasileiro e a economia criminal absorve estes elementos para desenvolver sua ind\u00fastria<\/em><\/p>\n<p><em>Por Tamara Terso*<\/em><\/p>\n<p>\u201cFoi m\u00eddia no mundo todo, arrancamos v\u00e1rias cabe\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Esta frase, que circulou nas redes sociais nas \u00faltimas semanas, faz parte de um funk supostamente composto pela fac\u00e7\u00e3o criminosa Fam\u00edlia do Norte (FDN).<\/p>\n<p>O grupo \u00e9 acusado, juntamente com o <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/blogs\/blog-do-serapiao\/crime-em-lugar-do-estado-como-o-pcc-pretende-dominar-o-brasil-3006.html\" target=\"_blank\">Primeiro Comando da Capital (PCC)<\/a> e o Comando Vermelho (CV), de ser respons\u00e1vel pelos massacres nos pres\u00eddios de Amazonas e Roraima (a agora Rio Grande do Norte).<\/p>\n<p>Ele \u00e9 chave para entender que o fen\u00f4meno da viol\u00eancia tem um circuito maior do que a <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/carnificina-em-presidios-deixou-mais-de-130-mortos-neste-ano\" target=\"_blank\">carnificina presenciada nos primeiros dias de 2017<\/a>, ponta do iceberg da crise vivida na pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira.<\/p>\n<p>Desde que os conflitos nos pres\u00eddios do Norte foram iniciados, a nacionaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia midi\u00e1tica comp\u00f4s a paisagem de viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos dos presidi\u00e1rios e familiares envolvidos ou n\u00e3o nos epis\u00f3dios de massacre.<\/p>\n<p>As viola\u00e7\u00f5es, que na maioria dos casos come\u00e7am com pris\u00f5es arbitr\u00e1rias e provis\u00f3rias, falta de acesso \u00e0 Justi\u00e7a, <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/brasil-encarcera-pessoas-como-animais-selvagens\" target=\"_blank\">estrutura desumanizada nas deten\u00e7\u00f5es<\/a>, invariavelmente tamb\u00e9m s\u00e3o encontradas nas coberturas realizadas em TVs e jornais.<\/p>\n<p>Na cobertura dos acontecimentos recentes sites e jornais impressos expuseram corpos sem vida. Foram cabe\u00e7as, pernas e bra\u00e7os por todos os lados \u201cdando m\u00eddia\u201d na primeira p\u00e1gina, galerias de fotos e v\u00eddeos sem cortes.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica de exibir muito sangue e identificar testemunhas se tornou padr\u00e3o na cobertura das chacinas pelo jornalismo de refer\u00eancia, como o do <em>Estado de S.Paulo<\/em>, e at\u00e9 mesmo da ala mais ou menos progressista como <em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0e <em>El Pa\u00eds Brasil<\/em>.<\/p>\n<p>Parece que na \u00e2nsia de noticiar em primeira m\u00e3o os acontecimentos, os jornais esqueceram-se das normas que orientam as pr\u00e1ticas jornal\u00edsticas (C\u00f3digo de \u00c9tica dos Jornalistas), o direito \u00e0 privacidade e \u00e0 imagem, garantidos pela Constitui\u00e7\u00e3o, e mesmo alguns marcos internacionais sobre a preserva\u00e7\u00e3o da dignidade humana.<\/p>\n<p>A Carta Magna brasileira diz em seu art. 5\u00ba, inciso X, que \u201cs\u00e3o inviol\u00e1veis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indeniza\u00e7\u00e3o pelo dano material ou moral decorrente de sua viola\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ainda em seu art. 5\u00ba, inciso III, a Constitui\u00e7\u00e3o assegura ao preso o respeito \u00e0 integridade f\u00edsica e moral e certifica que &#8220;ningu\u00e9m ser\u00e1 submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante&#8221;.<\/p>\n<p>O direito de informar \u00e0 sociedade, constitucionalmente garantido aos ve\u00edculos de imprensa, n\u00e3o pode, portanto, confrontar o direito \u00e0 privacidade. H\u00e1 que se promover o equil\u00edbrio entre ambos.<\/p>\n<p>Este equil\u00edbrio, no entanto, tem estado longe dos ve\u00edculos de m\u00eddia brasileiros. H\u00e1 alguns anos temos denunciado, por exemplo, <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/ponte.cartacapital.com.br\/policialescos-intervozes\/\" target=\"_blank\">a veicula\u00e7\u00e3o indevida em programas de televis\u00e3o<\/a> de pessoas que est\u00e3o sob a tutela do Estado e a incita\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Algo que ocorre principalmente nos programas policialescos, que entram nas delegacias com o aval das secretarias de seguran\u00e7a p\u00fablica, exp\u00f5em indevidamente v\u00edtimas e agressores e desrespeitam a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia dos acusados.<\/p>\n<p>Se levarmos em conta que <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/prende-primeiro-pergunta-depois-2548.html\" target=\"_blank\">40% dos detidos<\/a> hoje no sistema penitenci\u00e1rio brasileiro sequer foram julgados pelos crimes dos quais est\u00e3o sendo acusados (Relat\u00f3rio Uso da Pris\u00e3o Provis\u00f3ria nas Am\u00e9ricas CIDH\/OEA, 2014), implica dizer que parte significativa dos que est\u00e3o sendo expostos nos ve\u00edculos de m\u00eddia s\u00e3o suspeitos e n\u00e3o criminosos.<\/p>\n<p>Esta tem sido uma pr\u00e1tica institucionalizada pelas reda\u00e7\u00f5es brasileiras, sejam de jornais impressos ou programas de TV.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos direitos individuais da pessoa humana, h\u00e1 algo nestas coberturas que deve ser levado em conta, e que se expressa pela frase que abre este texto.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto noticiar intensamente a a\u00e7\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es criminosas, dando visibilidade aos atos de viol\u00eancia extrema, contribui para uma discuss\u00e3o aprofundada sobre o sistema carcer\u00e1rio brasileiro?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a espetaculariza\u00e7\u00e3o da not\u00edcia n\u00e3o serve apenas para refor\u00e7ar uma cultura de viol\u00eancia, dando ao crime organizado, inclusive, maior poder de barganha junto aos poderes institucionalizados?<\/p>\n<p>Infelizmente, viol\u00eancia e medo se consolidaram como valores-not\u00edcia do jornalismo brasileiro e a economia criminal absorve estes elementos para desenvolver sua ind\u00fastria, que cresce a passos largos e tem tent\u00e1culos no sistema pol\u00edtico, econ\u00f4mico, judici\u00e1rio e tamb\u00e9m nos meios de comunica\u00e7\u00e3o (ou n\u00e3o \u00e9 comum pol\u00edticos eleitos serem apresentadores de programas policialescos que violam os diretos humanos ao mesmo tempo em que s\u00e3o financiados por empresas administradoras de pres\u00eddios, que por sua vez convivem harmoniosamente com o crime organizado?).<\/p>\n<p>Est\u00e1 liga\u00e7\u00e3o perigosa \u00e9 um prato cheio para o refor\u00e7o da pol\u00edtica de guerra \u00e0s drogas e encarceramento em massa, rent\u00e1vel para poucos e \u00e0 custa de vidas pobres, jovens e negras.<\/p>\n<p>O discurso da viol\u00eancia \u00e9 um fator determinante para que esta economia se mantenha em pleno desenvolvimento e reforce a afirma\u00e7\u00e3o genocida de que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que v\u00e1rios estados com grandes \u00edndices de viol\u00eancia, encarceramento e mortes \u2013 S\u00e3o Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Distrito Federal \u2013 s\u00e3o os que t\u00eam os programas que mais violam direitos humanos, com recorde de den\u00fancias na <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.midiasemviolacoes.com.br\/\" target=\"_blank\">plataforma \u201cM\u00eddia sem Viola\u00e7\u00e3o de Direitos\u201d<\/a>, organizada pelo <em><strong>Intervozes,<\/strong><\/em> em parceria com a ANDI Comunica\u00e7\u00e3o e Direitos e apoio da Funda\u00e7\u00e3o Rosa Luxemburgo.<\/p>\n<p>Da\u00ed, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que a ader\u00eancia de 57% dos entrevistados \u00e0 frase \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d (pesquisa encomendada pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica em 2016), n\u00e3o vem apenas da viol\u00eancia concreta vivida por homens e mulheres das grandes e pequenas cidades, <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/programas-policialescos-a-legitimacao-da-barbarie-1735.html\" target=\"_self\">mas do refor\u00e7o cotidiano narrativo-simb\u00f3lico de sangue, cabe\u00e7as e corpos dando m\u00eddia nas TVs, PCs e r\u00e1dios pa\u00eds afora<\/a>.<\/p>\n<p>Para estancar o sangue nos pres\u00eddios, o governo de Michel Temer anunciou a constru\u00e7\u00e3o de cinco novas pris\u00f5es federais e um conjunto de outras medidas de cunho estritamente punitivista e b\u00e9lico.<\/p>\n<p>Parece que as a\u00e7\u00f5es, um tanto quanto (des)governadas, continuar\u00e3o, contudo,\u00a0apostando em tapa-buracos que n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o a macro-organiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, no qual a m\u00eddia tem um papel fundamental no refor\u00e7o ou desconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><i>*\u00c9 jornalista e integrante do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viol\u00eancia e medo s\u00e3o valores-not\u00edcia do jornalismo brasileiro e a economia criminal absorve estes elementos para desenvolver sua ind\u00fastria Por Tamara Terso* \u201cFoi m\u00eddia no mundo todo, arrancamos v\u00e1rias cabe\u00e7as\u201d. Esta frase, que circulou nas redes sociais nas \u00faltimas semanas, faz parte de um funk supostamente composto pela fac\u00e7\u00e3o criminosa Fam\u00edlia do Norte (FDN). O &hellip; <a href=\"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29547\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Massacre nos pres\u00eddios e o refor\u00e7o da m\u00eddia \u00e0 cultura da viol\u00eancia<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1834,1833],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29547"}],"collection":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=29547"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29547\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29548,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29547\/revisions\/29548"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=29547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=29547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=29547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}