{"id":29529,"date":"2017-02-14T14:36:07","date_gmt":"2017-02-14T14:36:07","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29529"},"modified":"2017-03-14T14:40:39","modified_gmt":"2017-03-14T14:40:39","slug":"conversem-com-suas-esposas-as-imagens-midiaticas-da-greve-dos-pms","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29529","title":{"rendered":"\u201cConversem com suas esposas\u201d: as imagens midi\u00e1ticas da greve dos PMs"},"content":{"rendered":"<p><em>Como o jornalismo legitimou o esvaziamento das imagens das \u201cmulheres\u201d e do debate pol\u00edtico na cobertura da greve de policiais do Esp\u00edrito Santo<\/em><\/p>\n<p><em>Por Andr\u00e9 Keiji Kunigami*<\/em><\/p>\n<p>Trata-se de uma cena familiar do cinema: a personagem feminina \u00e9 punida, mesmo que indiretamente, pela cat\u00e1strofe que se armou. O <em>serial killer<\/em> corre, arma nas m\u00e3os, seguido de perto por uma c\u00e2mera s\u00f4frega que nos envolve, espectadores, fisicamente na a\u00e7\u00e3o, eventualmente alcan\u00e7ando a menina que vai ser morta diante de nossos olhos.\u00a0No cinema de horror cl\u00e1ssico, a mocinha que possui alguma ag\u00eancia \u00e9 a primeira a ser morta pelo assassino, e o filme produz seu efeito pedag\u00f3gico a partir da elimina\u00e7\u00e3o dessa ag\u00eancia.<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos agora um corte para a semana passada no Brasil, quando, durante a <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/politica\/o-que-nos-ensina-o-caos-na-seguranca-do-espirito-santo\" target=\"_blank\">crise instaurada pela paralisa\u00e7\u00e3o da PM capixaba<\/a>, em 10 de fevereiro de 2017, podia-se ler na manchete do <em>El Pa\u00eds<\/em>: \u201cGoverno do Esp\u00edrito Santo endurece o tom e diz que as mulheres ser\u00e3o penalizadas\u201d. A rela\u00e7\u00e3o sem d\u00favida se d\u00e1 num n\u00edvel do imagin\u00e1rio midi\u00e1tico, e por isso mesmo revela complexidades, ambiguidades e n\u00f3s discursivos que valem a pena explorar.<\/p>\n<p>Dos muitos acontecimentos recentes no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro talvez um dos que tenham mobilizado mais a opini\u00e3o p\u00fablica foi a recente paralisa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar do Esp\u00edrito Santo. O evento se iniciou em 4 de fevereiro, quando oito mulheres, esposas de policiais, bloquearam a sa\u00edda da 2\u00aa companhia do 6\u00ba batalh\u00e3o da PM em Serra, regi\u00e3o metropolitana de Vit\u00f3ria, reivindicando aumento salarial e melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito Santo \u00e9 o estado que menos paga aos seus policiais militares. Em poucos dias, a situa\u00e7\u00e3o tomou <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/sem-policia-espirito-santo-vive-onda-de-violencia\" target=\"_blank\">propor\u00e7\u00f5es de calamidade p\u00fablica<\/a>, ocasionando mais de cem homic\u00eddios (n\u00e3o especificados at\u00e9 agora), fechamento de escolas, com\u00e9rcio e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, paralisa\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o de \u00f4nibus e uma atmosfera de medo generalizado por todo o estado, culminando com o envio das For\u00e7as Armadas e o clima de paranoia nacional com a possibilidade de a\u00e7\u00f5es similares em outros lugares do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ao fim, mais de setecentos policiais foram indiciados por \u201ccrime de revolta\u201d, e a narrativa que op\u00f5e uma categoria profissional contra a sociedade foi constru\u00edda pela m\u00eddia corporativa, especialmente no uso das imagens.<\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es mais marcantes desse evento t\u00e3o pol\u00edtico quanto midi\u00e1tico foi justamente o que chamarei de seu dispositivo: as \u201cesposas\u201d ou \u201cmulheres\u201d dos policiais \u2013 palavra muito utilizada pela grande m\u00eddia para descrever e personalizar as iniciadoras do processo em que culminou a crise. Digo um dispositivo porque o simples fato de terem sido aquelas mulheres das fam\u00edlias dos policiais a iniciarem a paralisa\u00e7\u00e3o tornou-se um mecanismo sutil de distra\u00e7\u00e3o ativado pela m\u00eddia: n\u00e3o \u00e9 o Estado, s\u00e3o os policiais; n\u00e3o s\u00e3o os policiais, s\u00e3o as fam\u00edlias; n\u00e3o s\u00e3o as fam\u00edlias, s\u00e3o as mulheres.<\/p>\n<p>Um dispositivo que n\u00e3o apenas personaliza um problema de ordem estrutural e sist\u00eamica, mas tamb\u00e9m se arrisca a reproduzir uma penaliza\u00e7\u00e3o dos corpos femininos no exato momento que eles se tornam agentes pol\u00edticos \u2013 ou dos pr\u00f3prios policiais, quando se enfatiza hip\u00f3tese de ser tudo uma \u201carma\u00e7\u00e3o\u201d, um subterf\u00fagio que se utiliza das fam\u00edlias para produzir uma falsa paralisa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, uma vez que a greve n\u00e3o \u00e9 um direito militar.<\/p>\n<p>Ou seja, o dispositivo, que \u00e9 possibilitado pela presen\u00e7a f\u00edsica daquelas mulheres diante dos batalh\u00f5es e das c\u00e2meras, tamb\u00e9m inclui os pr\u00f3prios policiais: todos saem perdendo. Mas em qualquer uma das hip\u00f3teses, o fato \u00e9 que aquelas mulheres s\u00e3o desprovidas de sua a\u00e7\u00e3o como sujeitos para se tornarem um instrumento que permite o esvaziamento \u2013 legitimado pela m\u00eddia \u2013 do debate pol\u00edtico que deveria ali se instalar: a <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/por-uma-policia-desmilitarizada-1509.html\" target=\"_blank\">desmilitariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia<\/a> e a viol\u00eancia do Estado.<\/p>\n<p>Um dispositivo que organiza as for\u00e7as que est\u00e3o ali em confronto de forma a <em>desloc\u00e1-lo<\/em>: n\u00e3o se trata mais dessas pautas, mas sim da prote\u00e7\u00e3o da sociedade \u201cde bem\u201d. Em vez de mudan\u00e7a, manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, o grande n\u00f3 da narrativa discursiva constru\u00edda pela m\u00eddia trata-se justamente da rela\u00e7\u00e3o entre PM e esposas, tra\u00e7ando conjecturas sobre a poss\u00edvel a\u00e7\u00e3o conjunta entre as duas partes. O p\u00eandulo oscila entre afirmar a a\u00e7\u00e3o das mulheres ou represent\u00e1-las como apenas parte do plano de greve dos policiais. Por exemplo, no dia 6 de fevereiro, a <em>BBC<\/em> publicou uma das primeiras abordagens focadas nas mulheres, relatando que os pr\u00f3prios policiais n\u00e3o sabiam da articula\u00e7\u00e3o, feita por redes sociais.<\/p>\n<p>Na reportagem da <em>M\u00eddia Ninja<\/em> de 8 de fevereiro, a voz \u00e9 dada especificamente \u00e0s familiares que se organizaram para protestar. Por outro lado, o portal <em>G1<\/em> no dia 11 do mesmo m\u00eas anuncia que \u201ccoordenadores das for\u00e7as militares e autoridades governamentais n\u00e3o d\u00e3o credibilidade a isso pois acreditam que os PMs usam os familiares para tentar escapar de puni\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O <em>G1<\/em> volta a suspeitar no dia 13: \u201cAs mulheres sempre alegam que s\u00e3o elas que est\u00e3o no comando da paralisa\u00e7\u00e3o. Mas, para as autoridades, essa \u00e9 uma tentativa de encobrir o que, na verdade, seria um motim dos PMs\u201d. Logo em seguida, o texto nos relembra: \u201cSem policiamento nas ruas, uma onda de viol\u00eancia se instaurou\u201d.<\/p>\n<p>Numa disputa marcada por p\u00e2nico, incertezas e imagens de viol\u00eancia, um dispositivo emerge a partir das flutua\u00e7\u00f5es de posi\u00e7\u00f5es que o evento pode ter \u2013 quem fere, quem \u00e9 ferido: os policiais militares, em sua estrutura de trabalho precarizada, ou a sociedade que deve ser defendida?<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia que se solidifica \u00e9, obviamente, aquela que coloca os dois grupos como antagonistas. \u201cOs empres\u00e1rios precisam de paz\u201d, anunciava-se na caminhada das fam\u00edlias pela paz na capital Vit\u00f3ria, segundo relatos, deixando claro a favor de que &#8220;sociedade&#8221; se fala.<\/p>\n<p>Nas imagens, a constru\u00e7\u00e3o desse dispositivo torna-se ainda mais clara, mesmo que talvez de forma obl\u00edqua. Primeiro, em v\u00eddeo de 7 de fevereiro, quando a situa\u00e7\u00e3o havia rec\u00e9m-adquirido contornos de calamidade, <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/extra.globo.com\/noticias\/brasil\/pm-pede-autorizacao-para-sair-de-quartel-no-es-mulheres-negam-video-20886163.html\" target=\"_blank\">o jornal Extra, do grupo Globo, publica um v\u00eddeo<\/a> no qual, de maneira bastante ensaiada e artificializada, um policial militar negocia com \u201cum grupo de mulheres\u201d que se encontra do outro lado do port\u00e3o do 8\u00ba Batalh\u00e3o, em Colatina.<\/p>\n<p>Em segundo plano, outro policial filma a cena com seu celular. As falas s\u00e3o hesitantes e teatralizadas, como um <em>script<\/em> mal praticado que ainda n\u00e3o se fixou na mem\u00f3ria do seu ator. O grupo de menos de dez mulheres responde, e uma delas discorre sobre a lista de condi\u00e7\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es para a c\u00e2mera. Em coment\u00e1rio de um leitor, l\u00ea-se: \u201cEncena\u00e7\u00e3o rid\u00edcula&#8230;\u201d. Nesse v\u00eddeo, o espet\u00e1culo \u00e9 uma farsa, orquestrada pela PM e executada pelas \u201cmulheres\u201d.<\/p>\n<dl class=\"image-inline captioned\">\n<dt><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/201cconversem-com-suas-esposas201d-as-imagens-midiaticas-da-greve-dos-pms\/as-mulheres-dos-policiais-militares\" rel=\"lightbox\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" lazyloaded\" title=\"As &quot;mulheres&quot; dos policiais militares\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/201cconversem-com-suas-esposas201d-as-imagens-midiaticas-da-greve-dos-pms\/as-mulheres-dos-policiais-militares\/@@images\/888a2f8e-1a2a-4f70-b69e-4063dd92f0da.jpeg\" alt=\"As &quot;mulheres&quot; dos policiais militares\" width=\"768\" height=\"431\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/201cconversem-com-suas-esposas201d-as-imagens-midiaticas-da-greve-dos-pms\/as-mulheres-dos-policiais-militares\/@@images\/888a2f8e-1a2a-4f70-b69e-4063dd92f0da.jpeg\" \/><\/a><\/dt>\n<dd class=\"image-caption\"><\/dd>\n<\/dl>\n<p>Em <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/g1.globo.com\/espirito-santo\/noticia\/2017\/02\/mulheres-de-pms-seguem-ocupacao-das-portas-de-batalhoes-no-es.html\" target=\"_blank\">outro v\u00eddeo, de 11 de fevereiro, agora da GloboNews<\/a>, o rep\u00f3rter narra, por telefone, o acordo assinado entre PM e governo do estado, e a resist\u00eancia por parte delas de acatar a negocia\u00e7\u00e3o da qual n\u00e3o participaram.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres continuam impedido a sa\u00edda [dos policiais]\u201d, diz o rep\u00f3rter, enquanto vemos em <em>looping<\/em> repetido por in\u00fameras vezes uma sequ\u00eancia de imagens: um grupo de policiais em um batalh\u00e3o, mulheres protestando, homens das For\u00e7as Armadas com fuzis e tanques de guerra nas ruas, um carro fugindo pela praia, pessoas saqueando lojas, um carro da guarda municipal atr\u00e1s de algu\u00e9m em uma rua deserta.<\/p>\n<p>Uma montagem de imagens \u201camadoras\u201d que, na necessidade da televis\u00e3o de <em>sempre ter imagens<\/em>, \u00e9 repetida muitas vezes enquanto a \u00e2ncora e o rep\u00f3rter debatem o porqu\u00ea da insist\u00eancia das mulheres em manter o protesto: \u201cQuando o acordo come\u00e7a a avan\u00e7ar essas mulheres saem, e quando elas retornam, retornam com outra proposta\u201d, explica o rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>Uma montagem mostrando um estado de caos que, na sua repeti\u00e7\u00e3o incessante sob as falas dos jornalistas da GloboNews, torna-se produto das pr\u00f3prias mulheres, que no discurso s\u00e3o referidas como empecilhos \u00e0 paz.<\/p>\n<p>Numa imagem, trata-se de uma encena\u00e7\u00e3o. Na outra, trata-se de teimosia daquelas mulheres. Falta ou excesso de verdade. Em ambos os casos, diz-se \u201c<em>as imagens n\u00e3o mentem<\/em>\u201d, mesmo quando mostrando a sua pr\u00f3pria mentira (como no caso do <em>Extra).<\/em><\/p>\n<p>Acima de tudo, em ambos, essas \u201cmulheres\u201d s\u00e3o utilizadas pela m\u00eddia como mecanismo discursivo \u2013 e est\u00e9tico \u2013 que, seja como um coro ensaiado ou como agentes da desordem, funcionam como um dispositivo que regula for\u00e7as que se recusam a ceder.<\/p>\n<p>Do seu lugar de desejo por transforma\u00e7\u00e3o, elas s\u00e3o capturadas por um dispositivo constru\u00eddo em imagens e discursos que logram cindir a sociedade em partes \u2013 a que deve ser defendida, e aquela que deve ser exterminada (juventude negra, pobre e perif\u00e9rica).<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o mais as mulheres dos policiais, s\u00e3o um dispositivo-\u201cmulheres\u201d que reorganiza reivindica\u00e7\u00f5es e revoltas, transformando-as em perigo \u00e0 sociedade de bem e englobando o outro lado fr\u00e1gil da rela\u00e7\u00e3o institucional que s\u00e3o os pr\u00f3prios policiais, trabalhadores precarizados.<\/p>\n<p>Para a m\u00eddia, um espet\u00e1culo transmitido nacionalmente em tempo real, que garante a <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/o-peso-do-ajuste-fiscal-no-caos-do-espirito-santo\" target=\"_blank\">vitimiza\u00e7\u00e3o do governo estadual (Paulo Hartung<\/a>, sem partido, e seu vice C\u00e9sar Colnago, PSDB) e que se constr\u00f3i a partir do sutil esvaziamento do debate pol\u00edtico e da mobiliza\u00e7\u00e3o de sentimentos conservadores e tradicionalistas. \u201cConversem com suas esposas\u201d, n\u00e3o \u00e0 toa, foi sugerido pelo governo como solu\u00e7\u00e3o ao impasse.<\/p>\n<p><em>*Andr\u00e9 Keiji Kunigami \u00e9 pesquisador, mestre em Comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal Fluminense e cursa doutorado em Literatura e Cinema na Universidade de Cornell (EUA)<\/em><\/p>\n<p><em>Publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\" target=\"_blank\">blog do Intervozes na Carta Capital<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como o jornalismo legitimou o esvaziamento das imagens das \u201cmulheres\u201d e do debate pol\u00edtico na cobertura da greve de policiais do Esp\u00edrito Santo Por Andr\u00e9 Keiji Kunigami* Trata-se de uma cena familiar do cinema: a personagem feminina \u00e9 punida, mesmo que indiretamente, pela cat\u00e1strofe que se armou. 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