{"id":29527,"date":"2017-02-16T14:18:17","date_gmt":"2017-02-16T14:18:17","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29527"},"modified":"2017-03-14T14:29:42","modified_gmt":"2017-03-14T14:29:42","slug":"informacoes-mal-apuradas-contribuem-para-sensacao-de-caos-no-es","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29527","title":{"rendered":"INFORMA\u00c7\u00d5ES MAL APURADAS CONTRIBUEM PARA SENSA\u00c7\u00c3O DE CAOS NO ES"},"content":{"rendered":"<p><em>Rela\u00e7\u00f5es entre a m\u00eddia e governos locais ainda s\u00e3o entrave ao direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o; viol\u00eancia no Esp\u00edrito Santo \u00e9 caso singular desta situa\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Por Cinthya Paiva e Augusto Cesar Brand\u00e3o*<\/em><\/p>\n<p>O Esp\u00edrito Santo vive uma de suas maiores crises de seguran\u00e7a p\u00fablica. Embora boa parte dos policiais militares que estava aquartelada tenha retornado aos postos de trabalho no in\u00edcio desta semana, as informa\u00e7\u00f5es sobre o fim da paralisa\u00e7\u00e3o e sobre os acordos feitos entre os policiais militares e o governo estadual ainda s\u00e3o desencontradas e confusas.<\/p>\n<p>Desencontro e confus\u00e3o na apura\u00e7\u00e3o e publiciza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, ali\u00e1s, marcaram todo o per\u00edodo, mostrando mais uma vez a incapacidade da imprensa capixaba em produzir informa\u00e7\u00f5es contundentes sobre o que estava acontecendo de fato no Estado.<\/p>\n<p>Muito do que chegou ao conhecimento do p\u00fablico nacional foram boatos, a maioria divulgados via redes sociais como Facebook e Whatsapp e sem muita garantia de proced\u00eancia. N\u00e3o se sabe, por exemplo, se alguns v\u00eddeos postados foram produzidos pelos pr\u00f3prios policiais para difundir o clima de inseguran\u00e7a e pressionar o governo a abrir negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta falta de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre por acaso. Assim como na maioria dos estados do Pa\u00eds, no Esp\u00edrito Santo grupos de m\u00eddia possuem rela\u00e7\u00e3o muito estreita com o poder institucionalizado, ora em fun\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es interpessoais constru\u00eddas, ora porque os governos estaduais s\u00e3o grandes financiadores da imprensa local, por meio de an\u00fancios publicit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Tudo isto acaba dificultando processos de apura\u00e7\u00e3o da not\u00edcia quando esta envolve den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o ou press\u00e3o de grupos sobre governos. Basta lembrar que, no in\u00edcio dos anos 2000, quando acontecia a CPI do Narcotr\u00e1fico \u2013 que acabou na pris\u00e3o do presidente da Assembleia Legislativa do Estado, Jos\u00e9 Carlos Gratz \u2013 os primeiros ve\u00edculos de imprensa a repercutir o assunto foram os nacionais como <i>Veja<\/i>, <i>\u00c9poca<\/i> e <i>Isto\u00c9<\/i>, sendo seguidas depois pela imprensa local.<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio recente do aquartelamento dos PMs, as informa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m foram pouco apuradas.\u00a0 Para se ter uma ideia, na sexta-feira 10, o <i>Jornal Nacional<\/i> noticiou que o governo estadual havia realizado um acordo com as Associa\u00e7\u00f5es de Policiais Militares para encerrar a suposta \u201cgreve\u201d. Informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi confirmada minutos depois pelo Secret\u00e1rio Estadual de Direitos Humanos, Julio Pompeu, em entrevista coletiva transmitida ao vivo por algumas cadeias de TV.<\/p>\n<p>Vale lembrar que um dos principais grupos de m\u00eddia capixaba, a Rede Gazeta, \u00e9 afiliada da <i>TV Globo<\/i>, logo, deve ter sido a origem da informa\u00e7\u00e3o equivocada emitida pelo <i>JN<\/i>.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse isto, logo ap\u00f3s a entrevista coletiva do representante do governo, foi iniciada outra entrevista coletiva, desta vez com as Associa\u00e7\u00f5es dos Policiais Militares, interlocutores do acordo que encerrou a suposta \u201cgreve\u201d.<\/p>\n<p>Apesar do interesse p\u00fablico desta entrevista, que poderia esclarecer parte do que estava acontecendo no estado, ela n\u00e3o teve transmiss\u00e3o ao vivo pela grande imprensa local, nem tampouco apareceu como informe em plant\u00f5es de not\u00edcia, sendo acess\u00edvel apenas por um link no Facebook, colocado pelos pr\u00f3prios PMs e reproduzido nas p\u00e1ginas da imprensa na internet.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que as Associa\u00e7\u00f5es dos Policiais Militares, que supostamente entraram em acordo com o governo, n\u00e3o eram, at\u00e9 ent\u00e3o, protagonistas do movimento de reivindica\u00e7\u00f5es de ajuste salarial e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho \u2013 que estava sendo protagonizado por mulheres, amigos e familiares dos PMs, que cercaram os port\u00f5es dos quart\u00e9is.<\/p>\n<p>E n\u00e3o houve, por parte da imprensa local, qualquer questionamento sobre esta nova interlocu\u00e7\u00e3o, nem sobre o fato de ela ter gerado o \u201cacordo\u201d firmado com a categoria \u2013 o que coloca o pr\u00f3prio acordo em cheque. Tamb\u00e9m n\u00e3o foi questionado o uso de helic\u00f3pteros da Pol\u00edcia Militar para retirar dos quart\u00e9is os policiais que aparentemente queriam voltar ao trabalho, mas estavam sendo impedidos de sair.<\/p>\n<p><b>Aumento da criminalidade<\/b><\/p>\n<p>Outro ponto-chave em toda a crise capixaba foi a cobertura sobre o aumento da criminalidade. \u00c9 claro que a maior parte dos v\u00eddeos divulgados com cenas de assaltos \u00e0 m\u00e3o armada, saques e tiroteios n\u00e3o teve os grandes meios como principais divulgadores.<\/p>\n<p>A maior parte circulou pelas redes sociais, especialmente, o Whatsapp. Por\u00e9m, \u00e9 question\u00e1vel o papel da imprensa tradicional de n\u00e3o apurar a origem destes v\u00eddeos e apenas reproduzi-los em suas reportagens, o que, certamente, contribuiu para o aumento da sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a e de falta de ordem.<\/p>\n<p>Todos os dias, a imprensa local divulgava os dados \u201cextraoficiais\u201d dos assassinatos de pessoas \u2013 que passou de 140 em 10 dias de paralisa\u00e7\u00e3o \u2013, tendo como fonte o Sindicato da Pol\u00edcia Civil.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos questionaram estes n\u00fameros e denunciaram poss\u00edvel participa\u00e7\u00e3o de PMs nestas mortes chamadas, at\u00e9 ent\u00e3o, de \u201cacertos de contas\u201d entre bandidos. Esta possibilidade encontra eco no hist\u00f3rico <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.carosamigos.com.br\/index.php\/cotidiano\/9200-mortes-no-es-podem-estar-relacionadas-a-grupo-de-exterminio-da-ditadura\" target=\"_blank\">comprometimento da PM capixaba com grupos paramilitares<\/a> e esquadr\u00f5es de exterm\u00ednio, mas quase nada se apurou sobre isto.<\/p>\n<p>Depois de muita cobran\u00e7a da sociedade, os ve\u00edculos de imprensa locais come\u00e7aram a <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/g1.globo.com\/espirito-santo\/noticia\/2017\/02\/veja-perfil-de-mortos-durante-onda-de-violencia-no-es.html\" target=\"_blank\">destacar rep\u00f3rteres para apurar quem eram os mortos<\/a>. Ainda assim, \u00e9 preciso pesquisar com maior profundidade as circunstancias de cada morte e acompanhar os inqu\u00e9ritos que ser\u00e3o abertos pela Pol\u00edcia Civil para investigar os casos.<\/p>\n<p><b>Criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento<\/b><\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0veda aos policiais militares o direito de fazer greve, uma vez que a fun\u00e7\u00e3o da manuten\u00e7\u00e3o da ordem e seguran\u00e7a p\u00fablica por meio de armas de poder letal \u00e9 indeleg\u00e1vel, motivo pelo qual a categoria optou por fazer um movimento de aquartelamento amparado nos familiares, que impediam a entrada e a sa\u00edda de viaturas e dos pr\u00f3prios PMs dos quart\u00e9is. As reivindica\u00e7\u00f5es do movimento eram melhores sal\u00e1rios, bonifica\u00e7\u00f5es e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>O enfoque maior da imprensa, no entanto, <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/201cconversem-com-suas-esposas201d-as-imagens-midiaticas-da-greve-dos-pms\" target=\"_self\">foi na ilegitimidade do papel das mulheres dos policiais aquartelados<\/a> e a responsabiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria PM pela inseguran\u00e7a nas ruas. Em nenhum momento o governador do estado, Paulo Hartung, foi questionado por n\u00e3o ter aberto di\u00e1logo imediato com a categoria de policiais \u2013 como se n\u00e3o houvesse responsabilidade da gest\u00e3o estadual no atual estado de caos pelo qual passou o Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o governo tamb\u00e9m j\u00e1 declarou que vai abrir processo administrativo disciplinar contra mais de 700 PMs para apurar se houve crime de motim e j\u00e1 foram indiciados 155 policiais, que ap\u00f3s passarem por um processo administrativo disciplinar, poder\u00e3o ser demitidos.<\/p>\n<p>Valeria questionar ao governador e secret\u00e1rios estaduais \u2013 papel da imprensa fazer tais questionamentos \u2013 se, na conjuntura de suposto aumento da criminalidade e de falta de recursos para o reajuste de sal\u00e1rio (justificativa do Governo para n\u00e3o fazer negocia\u00e7\u00e3o), \u00e9 acertada a decis\u00e3o de punir os insurgentes. Mas, at\u00e9 agora, sobre isto, segue prevalecendo o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O suposto acordo firmado previa que os policiais militares deveriam comparecer ao trabalho \u00e0s 07 horas da manh\u00e3 seguinte (s\u00e1bado, dia 11). Ainda assim, na segunda-feira, dia 13, \u00f4nibus de algumas linhas n\u00e3o passaram por certos bairros e outras linhas ficaram desativadas.<\/p>\n<p>As atividades de \u00f4nibus e shoppings foram suspensas \u00e0s 21h. Algumas escolas n\u00e3o tiveram atividades regulares como anunciado. Ainda, tr\u00eas \u00f4nibus foram queimados e em Vila Velha, cidade da Grande Vit\u00f3ria, e o Convento da Penha, ponto tur\u00edstico da cidade, foi assaltado.<\/p>\n<p>Com o fim da paralisa\u00e7\u00e3o noticiada na \u00faltima sexta-feira, aos poucos policiais militares est\u00e3o retornando \u00e0s ruas. Informe da assessoria da Secretaria de Estado da Seguran\u00e7a (Sesp) disse na ter\u00e7a, dia 14, que 2.351 policiais militares responderam ao chamado operacional feito pelo comando geral da PMES em todo o Estado. E que o policiamento ostensivo durante aquele dia contou com 157 viaturas. O chamado operacional come\u00e7ou no \u00faltimo s\u00e1bado com cerca de 600 policiais retornando aos seus pontos de trabalho.<\/p>\n<p>A m\u00eddia noticiou a volta das atividades normais ap\u00f3s o acordo, mais uma vez, cumprindo o papel de correia de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es oficiais do governo. O que se tem observado, no entanto, \u00e9 que algumas mulheres de PMs ainda seguem movimentando as portas dos quart\u00e9is. N\u00e3o se sabe ao certo se houve um acordo de fato com a categoria ou se o pr\u00f3prio movimento foi minado por dentro. Pode ser que o \u201cacordo\u201d feito com a categoria n\u00e3o esteja t\u00e3o selado assim.<\/p>\n<p><i>Cinthya Andrade de Paiva Gon\u00e7alves \u00e9 advogada e membro do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social. Augusto Cesar Coutinho Brand\u00e3o \u00e9 gestor de projetos e neurolinguista.<\/i><\/p>\n<p><em>Publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\" target=\"_blank\">blog do Intervozes na Carta Capital<\/a> em 16 de fevereiro de 2017<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rela\u00e7\u00f5es entre a m\u00eddia e governos locais ainda s\u00e3o entrave ao direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o; viol\u00eancia no Esp\u00edrito Santo \u00e9 caso singular desta situa\u00e7\u00e3o Por Cinthya Paiva e Augusto Cesar Brand\u00e3o* O Esp\u00edrito Santo vive uma de suas maiores crises de seguran\u00e7a p\u00fablica. 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