{"id":29523,"date":"2017-03-13T01:41:02","date_gmt":"2017-03-13T01:41:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29523"},"modified":"2017-03-13T01:41:02","modified_gmt":"2017-03-13T01:41:02","slug":"apropriacao-tecnologica-e-essencial-para-protecao-de-mulheres-na-rede","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29523","title":{"rendered":"Apropria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u00e9 essencial para prote\u00e7\u00e3o de mulheres na rede"},"content":{"rendered":"<p><em>Orienta\u00e7\u00f5es restritivas \u00e0s mulheres limitam o uso das redes e da tecnologia, desencorajando a participa\u00e7\u00e3o e o empoderamento feminino<\/em><\/p>\n<p><strong>Marina Pita*<\/strong><\/p>\n<p>Um grande amigo tem uma camisa com os dizeres: &#8220;c\u00f3digo \u00e9 poesia&#8221;. Acho lindo e sempre sorrio pensando que, sim, \u00e9 mesmo, a depender do uso que se faz da programa\u00e7\u00e3o \u2013 como mudar o mundo, por exemplo. Mas, convenhamos, antes de ser poesia, c\u00f3digo \u00e9 poder.<\/p>\n<p>As habilidades tecnol\u00f3gicas \u2013 incluindo a capacidade de compreender e escrever as linguagens de programa\u00e7\u00e3o \u2013 s\u00e3o cada vez mais relevantes \u00e0 medida que a tecnologia da informa\u00e7\u00e3o ganha crescente espa\u00e7o como mediadora de todas as esferas da vida.<\/p>\n<p>Preocupa, portanto, o resultado da pesquisa <em><a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/blogs.lse.ac.uk\/parenting4digitalfuture\/2017\/02\/07\/digital-skills-matter-in-the-quest-for-the-holy-grail\/\" target=\"_blank\">Parenting for a Digital Future<\/a><\/em> do Departamento de M\u00eddia e Comunica\u00e7\u00e3o da Escola de Economia e Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de Londres que investigou como os pais lidam, gerenciam e educam seus filhos para o uso da internet. Foram consideradas duas formas de orienta\u00e7\u00f5es dos pais, as restritivas e as mediadoras, e identificado que meninas t\u00eam mais chance de receber as orienta\u00e7\u00f5es restritivas como educa\u00e7\u00e3o para o uso da internet.<\/p>\n<p>A media\u00e7\u00e3o restritiva \u00e9 composta por lista de proibi\u00e7\u00f5es, banimento de algumas pr\u00e1ticas e obriga\u00e7\u00e3o de supervis\u00e3o. J\u00e1 a media\u00e7\u00e3o \u201chabilitadora\u201d inclui di\u00e1logo, est\u00edmulo ao uso de tecnologia ao mesmo tempo em que discute riscos, com algumas restri\u00e7\u00f5es, mas sempre considerando que, em geral, a web pode oferecer mais oportunidades que riscos.<\/p>\n<p>A pesquisa \u00e9 interessante porque nos ajuda a explicar porque muitas de n\u00f3s mulheres ainda prefere dist\u00e2ncia da tecnologia e da web. No Brasil, de cerca de 520 mil pessoas que trabalham no setor de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, apenas 20% s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>A culpabiliza\u00e7\u00e3o de meninas, adolescentes e mulheres pelo comportamento machista da sociedade tamb\u00e9m por meio da rede mundial de computadores precisa ser olhada com muita aten\u00e7\u00e3o e combatida se quisermos que mais mulheres se apropriem da poesia e do poder que as habilidades t\u00e9cnicas podem propiciar.<\/p>\n<p>Os pais n\u00e3o educam as meninas para temerem as tecnologias e a Internet desejando sua exclus\u00e3o do mundo digital ou que n\u00e3o tenham acesso \u00e0s oportunidades que a web oferece. Trata-se de uma tentativa de proteg\u00ea-las.<\/p>\n<p>Tampouco h\u00e1 m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o (assim imaginamos) em campanhas sobre privacidade direcionada a adolescentes. Por outro lado, n\u00e3o d\u00e1 pra negar que, recorrentemente, estas campanhas colocam as meninas e mulheres em posi\u00e7\u00e3o de respons\u00e1veis pela viol\u00eancia que sofrem, j\u00e1 que foram elas que escolheram a exposi\u00e7\u00e3o na internet. Em ambas as perspectivas h\u00e1 uma enorme culpabiliza\u00e7\u00e3o da mulher.<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o para o uso das redes deveria ser em outro sentido, mostrando a elas que existe machismo no mundo, mesmo em pleno s\u00e9culo XXI, e que elas precisam, sim, se proteger. Por\u00e9m esta prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser se ausentando das redes e das tecnologias e sim se apropriando delas.<\/p>\n<p><strong>Cen\u00e1rio de desigualdades<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, hoje ainda sabemos pouco sobre a desigualdade de g\u00eanero no acesso \u00e0 web e em termos de conhecimento tecnol\u00f3gico, principalmente porque h\u00e1 diversas interseccionalidades que precisam entrar na an\u00e1lise: renda, ra\u00e7a, local de moradia e etc.<\/p>\n<p>Uma pesquisa da <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/webfoundation.org\/about\/research\/womens-rights-online-2015\/\" target=\"_blank\">Women\u2019s Right Foundation<\/a>\u00a0World Wide Web Foundation, de 2015, em \u00e1reas pobres urbanas do mundo em desenvolvimento, aponta que as mulheres t\u00eam 50% menos chance de se conectar \u00e0 internet do que homens da mesma comunidade.<\/p>\n<p>As mulheres t\u00eam, ainda, 30% a 50% menos chance de usar a Internet para empoderamento econ\u00f4mico e pol\u00edtico; 25% menos chance de fazer uso da Internet para procurar emprego do que homens, 52% menos chance de compartilhar opini\u00e3o controversa online do que homens.<\/p>\n<p>E, um dos dados mais importantes, as mulheres t\u00eam 1,6 vezes mais chance de relatar falta de conhecimento como barreira para uso da internet do que os homens.<\/p>\n<p><strong>\u00d3dio e viol\u00eancia nas redes<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso esclarecer que a viol\u00eancia de g\u00eanero cometida contra mulheres \u2013 hoje presente nas redes sociais \u2013 n\u00e3o nasceu com o advento da internet.<\/p>\n<p>Se ainda convivemos com o machismo e com a viol\u00eancia \u00e9 porque nossa sociedade n\u00e3o foi capaz de produzir equidade de g\u00eanero e respeito \u00e0s mulheres na vida fora das redes tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o mesmo respeito que cobramos garantir no mundo \u201creal\u201d deve ser buscado no mundo virtual \u2013 se \u00e9 que ainda faz sentido distinguir um do outro.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o medo de mulheres \u2013 e de seus familiares \u2013 sobre os riscos a que est\u00e3o submetidas no mundo virtual n\u00e3o \u00e9 desprovido de embasamento real. S\u00e3o in\u00fameros os casos j\u00e1 registrados no Brasil e no mundo de pornografia de vingan\u00e7a, por exemplo. O termo \u00e9 usado quando um ex-marido ou namorado posta v\u00eddeos ou fotos \u00edntimas com a inten\u00e7\u00e3o e punir a mulher pelo fim do relacionamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, mesmo quando est\u00e3o exercendo atividades moralmente aceit\u00e1veis como escrever uma opini\u00e3o ou cr\u00edtica nas redes \u2013 e n\u00e3o compartilhando &#8220;nudes&#8221; de seus corpos \u2013 as mulheres s\u00e3o criticadas e expostas de forma diferenciada e ter\u00e3o mais chances de sofrer algum tipo de viol\u00eancia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"image-inline lazyloaded\" title=\"restricao_self.png\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/apropriacao-tecnologica-e-essencial-para-protecao-de-mulheres-na-rede\/restricao_self.png\" alt=\"Campanha de ONG sugere \u00e0s pessoas, especialmente \u00e0s mulheres n\u00e3o enviar nudes. \" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/apropriacao-tecnologica-e-essencial-para-protecao-de-mulheres-na-rede\/restricao_self.png\" \/><\/p>\n<p>Uma pesquisa do jornal ingl\u00eas<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/technology\/2016\/apr\/12\/the-dark-side-of-guardian-comments\" target=\"_blank\"> The Guardian<\/a> acerca dos coment\u00e1rios nos artigos que publica mostrou que dos 10 articulistas mais ofendidos, oito s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>Das oito, quatro s\u00e3o brancas, uma \u00e9 judia, duas s\u00e3o homossexuais e uma \u00e9 mu\u00e7ulmana. E, enquanto afastamos as mulheres do conhecimento sobre a internet e a tecnologia as amedrontando, cresce o registro de ataques de misocrackers (mis\u00f3ginos que se dedicam a ataques na web), que derrubam sites feministas e invadem contas de mulheres que ousam se posicionar publicamente.<\/p>\n<p>Recentemente, em busca de coletivos hackers do Brasil, me deparei com um coletivo que dizia ser contra as pr\u00e1ticas da Cryptorave \u2013 evento de 24hs sobre privacidade que o Intervozes ajuda a organizar e que conta com uma trilha apenas para discutir quest\u00f5es de g\u00eanero e empoderar mais mulheres no universo da seguran\u00e7a digital.<\/p>\n<p>Ao tentar entender as diferen\u00e7as, a resposta curta e grossa: \u201cn\u00f3s n\u00e3o acreditamos em g\u00eanero, n\u00f3s somos hackers\u201d. E a\u00ed ficou claro que \u00e9 preciso disputar o imagin\u00e1rio do hacker \u2013 usualmente relacionado a homens que n\u00e3o conseguem\/querem se relacionar com mulheres.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos permitir que se formem mais misocrackers do que hackers feministas. Acabar com a cultura do medo das mulheres \u00e0 tecnologia \u00e9 urgente.<\/p>\n<p><strong>Rotas a navegar<\/strong><\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o para o Progresso das Comunica\u00e7\u00f5es (APC), que tem feito um trabalho muito interessante (vale conhecer) no que diz respeito a g\u00eanero e tecnologia\/web, listou algumas sugest\u00f5es para acabarmos com os abusos: informar as mulheres sobre o que fazer em caso de abuso, ensinar as mulheres quais as acusa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e criar servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o adequados.<\/p>\n<p>\u00c9 essencial que passemos a monitorar, criar evid\u00eancias, documentar e analisar a viol\u00eancia contra as mulheres na web. Tamb\u00e9m \u00e9 fundamental construir alternativas que permitam discutir e falar sobre obre a viol\u00eancia, o \u00f3dio, a persegui\u00e7\u00e3o a mulheres na web sem cair na culpabiliza\u00e7\u00e3o ou afastar as mulheres do universo tecnol\u00f3gico\/digital. \u201cMeu corpo, minhas regras\u201d tamb\u00e9m precisa valer para o mundo virtual.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de denunciar o machismo e a viol\u00eancia nas redes sociais, \u00e9 preciso seguir fomentando a constru\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as femininas, que sejam capazes de incidir sobre a legisla\u00e7\u00e3o da rede e das aplica\u00e7\u00f5es, de atuar nos servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas, de influenciar na forma como os neg\u00f3cios na internet funcionam.<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 preciso construir outras rotas de navega\u00e7\u00e3o para o empoderamento feminino nas redes. Um deles \u00e9 justamente a apropria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. As mulheres precisam entender e conhecer mais os c\u00f3digos e as tecnologias que atuam por tr\u00e1s das plataformas digitais.<\/p>\n<p>O uso da criptografia no envio de mensagens pessoais \u00e9 apenas uma das infinitas possibilidades existentes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 urgente que ampliemos a forma\u00e7\u00e3o em tecnologia para mulheres e introduzamos a forma\u00e7\u00e3o em direitos humanos nos cursos de tecnologia do pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>*\u00c9 jornalista e membro do Conselho Diretor do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social.<\/em><\/p>\n<p><em>Publicado originalmente no blog do Intervozes na Carta Capital em 10 de mar\u00e7o de 2017<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Orienta\u00e7\u00f5es restritivas \u00e0s mulheres limitam o uso das redes e da tecnologia, desencorajando a participa\u00e7\u00e3o e o empoderamento feminino Marina Pita* Um grande amigo tem uma camisa com os dizeres: &#8220;c\u00f3digo \u00e9 poesia&#8221;. 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