{"id":28965,"date":"2015-06-18T21:06:17","date_gmt":"2015-06-18T21:06:17","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28965"},"modified":"2015-08-29T21:21:45","modified_gmt":"2015-08-29T21:21:45","slug":"juca-ferreira-a-tv-aberta-no-brasil-e-de-uma-pobreza-absoluta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28965","title":{"rendered":"Juca Ferreira: \u201cA TV aberta no Brasil \u00e9 de uma pobreza absoluta\u201d"},"content":{"rendered":"<p>O ministro da Cultura Juca Ferreira faz uma avalia\u00e7\u00e3o bastante cr\u00edtica quando o assunto \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o da grande m\u00eddia no pa\u00eds. Na segunda parte da entrevista concedida \u00e0 F\u00f3rum, ele afirma que a concentra\u00e7\u00e3o de poder dos meios de comunica\u00e7\u00e3o gera um monop\u00f3lio de opini\u00f5es bastante nocivo \u00e0 democracia. Segundo Ferreira, a baixa qualidade da programa\u00e7\u00e3o televisiva seria outro problema e isso pode ser percebido pelo afastamento dos espectadores, sobretudo os mais jovens.<\/p>\n<p>O ministro fala ainda sobre a necessidade de enfrentar a corrup\u00e7\u00e3o no Brasil, disseminada em diferentes \u00e1reas e partidos pol\u00edticos. Para ele, a imprensa deveria ter, nesse caso, uma participa\u00e7\u00e3o mais efetiva e menos \u201coportunista\u201d. \u201cA sociedade brasileira est\u00e1 precisando de uma comunica\u00e7\u00e3o que retrate essa complexidade do pa\u00eds e possibilite que a gente d\u00ea um passo adiante\u201d, sentencia.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff tamb\u00e9m foram debatidas durante a conversa, que abordou, entre outros assuntos, os pr\u00f3ximos passos do minist\u00e9rio, os direitos autorais em tempos de internet e o movimento pernambucano Ocupe Estelita.<\/p>\n<p>Confira abaixo.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013 O senhor \u00e9 simp\u00e1tico \u00e0 ideia de incorporar, nesse novo momento do minist\u00e9rio, a m\u00eddia independente. Poderia falar um pouco sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juca Ferreira \u2013<\/strong> Apoio plenamente. Acho que a gente precisa ampliar. N\u00e3o simpatizo com a ideia de \u201ccontrole social\u201d. Acho que s\u00e3o palavras d\u00fabias que podem ter uma conota\u00e7\u00e3o muito negativa. Acho que \u00e9 democratizar a m\u00eddia, colocar possibilidade de muitas opini\u00f5es em torno de todas as quest\u00f5es que s\u00e3o relevantes para a sociedade. Sou a favor de qualifica\u00e7\u00e3o do ambiente da comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 pobre.<\/p>\n<p>A TV aberta no Brasil \u00e9 de uma pobreza absoluta. E as novas gera\u00e7\u00f5es, inclusive, a est\u00e3o abandonando. Eu vejo pelos meus filhos. Tenho um de quatro anos e um de catorze. Eles quase n\u00e3o veem televis\u00e3o. O de catorze s\u00f3 liga quando o Real Madrid est\u00e1 jogando ou quando o Corinthians est\u00e1 jogando, que s\u00e3o os dois times da afetividade dele. Ele vai do Netflix em diante. N\u00e3o se interessa, n\u00e3o tem mais conex\u00e3o, n\u00e3o tem o que oferecer. O pequeno s\u00f3 assiste TV a cabo e Netflix. Na TV a cabo, \u00e9 [o desenho] \u201cPeppa Pig\u201d e outros, \u201cPeixonauta\u201d\u2026<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013 Sobre a quest\u00e3o do midialivrismo, que \u00e9 uma quebra de paradigmas muito forte, at\u00e9 porque no Brasil n\u00f3s temos uma concentra\u00e7\u00e3o total dos meios de comunica\u00e7\u00e3o tradicionais\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> E um monop\u00f3lio de opini\u00f5es impressionante! Editorializam a not\u00edcia de uma forma t\u00e3o grande\u2026<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013<\/strong> Que acaba virando uma verdade absoluta.<\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> \u00c9. Uma vez, eu tive vontade de escrever para aquele jornalista que conduz o Observat\u00f3rio da Imprensa, Alberto Dines, que \u00e9 uma pessoa inteligente, \u00edntegra. Queria que ele acrescentasse um elemento naquele programa dele, que seria \u201cos que s\u00e3o entrevistados\u201d. Tem o p\u00fablico leitor e os que fazem a comunica\u00e7\u00e3o. Mas pessoas como eu t\u00eam muito a dizer porque [jornalistas] mentem, sobredeterminam nossas opini\u00f5es, esquartejam trechos de uma opini\u00e3o para poder dar um significado diferente, editorializam. V\u00eam apenas na conversa coletar aspas para confirmar uma tese anterior, acrescentam palavras tipo \u201cadmite\u201d, criando um clima de suspei\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que a gente faz. \u00c9 um desastre.<\/p>\n<p>Eu, inclusive, n\u00e3o tenho grandes est\u00edmulos para conversar com a grande m\u00eddia. Vou dar um exemplo. Quando eu percebi que havia a possibilidade de a Dilma me chamar para ser ministro da Cultura, mesmo sem saber se seria\u2026 Eu fui chamado no dia 29 de dezembro, mas havia a possibilidade, \u00e0 medida em que me chamou para coordenar a parte da cultura da campanha. Eu comecei a preparar o meu discurso.<br \/>\nEra um discurso program\u00e1tico.<\/p>\n<p>A\u00ed, um dos grandes jornais, um dos que mais vendem no Brasil, pediu uma entrevista \u00e0 tarde. Eu fiz o discurso de manh\u00e3. Eu pensei que iam questionar, criticar. Ignoraram o discurso e fizeram duas perguntas sobre futricas: por que eu tinha trazido dois \u2013 depois passaram a tr\u00eas \u2013 jovens do Fora do Eixo, que \u00e9 uma rede social, uma organiza\u00e7\u00e3o que eles querem execrar porque s\u00e3o muito cr\u00edticos e tinha participado de um programa na TV Cultura que teve uma grande repercuss\u00e3o de cr\u00edticas aos limites da comunica\u00e7\u00e3o no Brasil. E a poss\u00edvel futrica entre eu e Marta [Suplicy]. N\u00e3o tinha interesse nenhum pelo destino da cultura brasileira. Tinha uma oportunidade enorme. Ent\u00e3o, quer dizer, isso \u00e9 decepcionante.<\/p>\n<p>Eu perguntei \u00e0 jornalista: \u201cA senhora n\u00e3o tem interesse por nenhum tema cultural?\u201d. Isso \u00e9 imprensa marrom. \u00c9 o que antigamente chamavam de imprensa marrom, uma imprensa que n\u00e3o lida com a realidade, n\u00e3o procura construir. Fa\u00e7am uma cr\u00edtica. Criem a possibilidade de eu responder \u00e0 cr\u00edtica, mas o interesse \u00e9 futrica. E isso \u00e9 para qu\u00ea? Para emoldurar negativamente algo que cresceu com a expectativa social alta, que \u00e9, no caso, a minha gest\u00e3o aqui. \u00c9 muito ruim para a sociedade em um momento em que o Brasil est\u00e1 diante de perplexidades. A democracia mostra limites.<\/p>\n<p>Produziram essa grande distribui\u00e7\u00e3o de renda no Brasil que, por mais prec\u00e1ria que seja, \u00e9 uma mudan\u00e7a de paradigmas na sociedade brasileira porque, at\u00e9 ent\u00e3o, a desigualdade, uma das maiores do mundo, era considerada natural. Cometeram erros, erros que est\u00e3o evidentes. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso discutir tudo isso.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso abrir o leque para compreender o fen\u00f4meno da corrup\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 o fen\u00f4meno de uma fam\u00edlia pol\u00edtica ou de um partido, mas na verdade \u00e9 o modus operandi da sociedade brasileira, que vai desde o indiv\u00edduo, o cidad\u00e3o individual diante do guarda de tr\u00e2nsito, at\u00e9 a CBF. Na verdade, a sociedade brasileira incorporou a corrup\u00e7\u00e3o quase como um mecanismo leg\u00edtimo e \u00e9 exercitado praticamente\u2026<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013 Por todas as \u00e1reas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> Por todas as \u00e1reas. Dentro da pol\u00edtica, por todas as fam\u00edlias pol\u00edticas. E j\u00e1 h\u00e1 muito tempo. Ent\u00e3o, o tratamento parcial impede de a gente chegar a uma solu\u00e7\u00e3o. Quantos \u201ccarnavais \u00e9ticos\u201d a gente j\u00e1 viveu nos \u00faltimos anos? Eu me lembro em torno dos \u201can\u00f5es do or\u00e7amento\u201d, que deu a impress\u00e3o que a gente ia dar um salto. Mas o tratamento \u00e9 sempre com um foco muito restrito. E os demais se aproveitam para execrar aqueles que foram pegos com a boca na botija.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m para manterem seu modus operandi como \u00e9. Depois veio o Collor, depois veio\u2026 Eu at\u00e9 me esque\u00e7o, mas tiveram uns dez \u201ccarnavais \u00e9ticos\u201d que passam essa sensa\u00e7\u00e3o para a sociedade de que h\u00e1, de fato, uma tentativa de superar esse n\u00edvel de corrup\u00e7\u00e3o. Mas, na verdade, \u00e9 um manuseio da corrup\u00e7\u00e3o para fins pol\u00edticos menores. A verdade \u00e9 essa. N\u00e3o h\u00e1, de fato, um compromisso.<\/p>\n<p>E a m\u00eddia teria uma responsabilidade grande, se abrisse o leque e mostrasse exatamente que \u00e9 um modo de operar as coisas p\u00fablicas generalizado. Eu sinto que a m\u00eddia est\u00e1 devendo ao pa\u00eds. A m\u00eddia participou como apoio ao regime militar. Hoje, os editoriais fingem que foram contra. Fazem uma corre\u00e7\u00e3o de rumos que tem uma dose de oportunismo porque n\u00e3o assumem os erros que cometeram. V\u00e1 em uma dessas emissoras e pe\u00e7a para ver editoriais de seus jornais no dia do Ato Institucional N\u00ba 5.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013 Na internet, inclusive, j\u00e1 circulam alguns desses editoriais.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> \u00c9 s\u00f3 ver os seus editoriais. E, depois, est\u00e3o corroendo a democracia diariamente, desconstruindo o pa\u00eds. A negatividade \u00e9 o t\u00f4nus desses meios de comunica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, os jornalistas que se rebelam e buscam construir \u2013 mesmo que de uma forma ainda rom\u00e2ntica, sem perspectiva de afirma\u00e7\u00e3o \u2013 certamente v\u00e3o encontrar o caminho porque, quando as coisas t\u00eam que acontecer, nada impede que aconte\u00e7am. E a sociedade brasileira est\u00e1 precisando de uma comunica\u00e7\u00e3o que retrate essa complexidade do pa\u00eds e possibilite que a gente d\u00ea um passo adiante.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013<\/strong> O senhor v\u00ea, por exemplo, a influ\u00eancia dessa m\u00eddia tradicional nos protestos a favor do impeachment?<\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> Claro. Eles s\u00e3o for\u00e7a auxiliar. Eles mobilizam, constroem legitimidade, eles dizem quem pode governar e quem n\u00e3o pode governar. Eles transformam em her\u00f3is pessoas que, quando voc\u00ea bota a lupa, percebe que \u00e9 mais corrupto que os que est\u00e3o sendo criticados. Esse neg\u00f3cio da CBF, se o Rom\u00e1rio levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias a CPI que est\u00e1 montando, isso vai dar o que falar. Isso vai at\u00e9 a dimens\u00e3o pol\u00edtica do manuseio do futebol, que \u00e9 um dos patrim\u00f4nios imateriais da sociedade brasileira, e que \u00e9 manipulado at\u00e9 a \u00faltima gota.<\/p>\n<p>Manipulado para enriquecimento e que impede que, no pa\u00eds do futebol, flores\u00e7a um futebol profissional e de qualidade.<\/p>\n<p>Depois que eu sa\u00ed do minist\u00e9rio, fui trabalhar na Espanha. Morei dois anos l\u00e1. E a Espanha n\u00e3o era um pa\u00eds do futebol. Eu n\u00e3o vou dizer que a Espanha era um pa\u00eds de pernas de pau, mas era um pa\u00eds de segundo n\u00edvel na constela\u00e7\u00e3o. E eles come\u00e7aram, prenderam os corruptos, desenvolveram uma pol\u00edtica para o futebol de base, profissionalizaram no sentido completo da palavra, possibilitando que, de fato, florescessem times com estruturas mais profissionais. Qualificaram os jogadores, os contratos. N\u00e3o adianta tr\u00eas ou quatro virarem estrelas e ganharem fortuna e o resto rapidamente se tornar pe\u00e7as obsoletas, sem nenhuma condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>O Brasil precisa fazer algo, mas vai ter que destampar completamente. Rom\u00e1rio est\u00e1 se propondo a isso, mas acho que ele tem que ter apoio da sociedade no sentido de levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias e n\u00e3o repetir esse tipo de \u201ccarnaval \u00e9tico\u201d que a gente tem feito com outros temas.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013<\/strong> E, voltando \u00e0 imprensa, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3, especificamente, a quest\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es, mas toda uma onda conservadora que est\u00e1 vindo com for\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> E foi a\u00ed que se mostrou a maior fragilidade porque foram com muita sede ao pote. Tentaram desconstruir a relev\u00e2ncia do que foi constru\u00eddo pelo presidente Lula e, ao fazer isso, se associaram imediatamente a setores golpistas da sociedade, que querem a ditadura militar de volta, setores racistas, setores que execram a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher, setores que pregam a viol\u00eancia, o exterm\u00ednio, a justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os, a intoler\u00e2ncia religiosa.<\/p>\n<p>Quer dizer, o que esse movimento conservador \u2013 que a imprensa manipula e manuseia diariamente \u2013 revelou para o pa\u00eds \u00e9 o que \u00e9 inaceit\u00e1vel. \u00c9 inaceit\u00e1vel pelas mulheres, \u00e9 inaceit\u00e1vel pelos negros, \u00e9 inaceit\u00e1vel pela juventude, j\u00e1 que querem rebaixar a maioridade penal para culpabilizar a juventude pelo n\u00edvel de viol\u00eancia do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 inaceit\u00e1vel sob o ponto de vista das conquistas dos direitos individuais. Eles s\u00e3o contra at\u00e9 bicicletas nas cidades! Ent\u00e3o, quer dizer, esse Brasil que eles querem, foi bom at\u00e9 que tenha vindo \u00e0 tona porque est\u00e1 possibilitando que as pessoas reajam. E, mesmo tendo cr\u00edticas aos erros que foram cometidos nesses 12 anos, erros de pol\u00edtica econ\u00f4mica, erros na \u00e1rea da corrup\u00e7\u00e3o, erros na \u00e1rea de n\u00e3o ter desenvolvido pol\u00edticas para qualificar o Estado e seus servi\u00e7os\u2026<\/p>\n<p>Mas, mesmo assim, a grande maioria do pa\u00eds n\u00e3o quer retroceder, n\u00e3o quer ir para a Idade M\u00e9dia, nem para o per\u00edodo da ditadura militar. N\u00e3o quer jogar na lata do lixo as conquistas pela igualdade das mulheres, nem do combate ao racismo. Pelo contr\u00e1rio, a sociedade quer ir adiante. E a\u00ed \u00e9 que eles revelaram a debilidade deles. Por tr\u00e1s de todo o discurso moralista, na verdade vem uma amea\u00e7a a todas as conquistas do povo brasileiro e isso, em algum momento, a sociedade j\u00e1 come\u00e7ou a reagir. E acho que o ponto de revers\u00e3o vir\u00e1 por a\u00ed, com ou sem os partidos.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013<\/strong> E essa quest\u00e3o acaba fortalecendo a forma\u00e7\u00e3o de um Congresso que j\u00e1 \u00e9 muito conservador. Ali\u00e1s, o mais conservador desde 1964. E pudemos ver isso na discuss\u00e3o em torno da reforma pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> A reforma pol\u00edtica \u00e9 um aspecto importante do momento em que a gente est\u00e1 vivendo. A redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil j\u00e1 tem uma experi\u00eancia que \u00e9 preciso ser analisada e ser criticada; que as for\u00e7as pol\u00edticas criem mecanismos para que a sociedade produza a supera\u00e7\u00e3o dos limites e produza uma democracia mais densa, com um n\u00edvel maior de representatividade, com a qualidade melhor do sistema representativo, com n\u00edveis de participa\u00e7\u00e3o mais ampla.<\/p>\n<p>Acho que quem defende e quem compreende a import\u00e2ncia do Estado para uma sociedade democr\u00e1tica e para o Brasil avan\u00e7ar, n\u00e3o pode usar o Estado como motivo de guerra. O Estado precisa ser valorizado. Precisamos construir um Estado democr\u00e1tico no Brasil com mecanismos, com institui\u00e7\u00f5es fortes. N\u00e3o \u00e9 militarmente forte. Forte \u00e9 com alto grau de legitimidade, com capacidade de oferecer servi\u00e7os de qualidade, sa\u00fade de qualidade, educa\u00e7\u00e3o de qualidade. Incrementar pol\u00edticas culturais importantes. Ent\u00e3o, a gente est\u00e1 diante, est\u00e1 em um momento de perplexidade, mas est\u00e1 em um momento de muita possibilidade de construir o futuro do Brasil.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 a s\u00e9tima economia do mundo. \u00c9 um pa\u00eds que tem recursos naturais, que tem uma infraestrutura econ\u00f4mica instalada, temos uma capacidade criativa reconhecida no mundo inteiro. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 porque ficar pessimista. A gente est\u00e1 enfrentando um problema, foram cometidos erros, \u00e9 preciso que se assuma diante da sociedade com toda a transpar\u00eancia. E que a gente consiga alavancar um programa de continuidade das transforma\u00e7\u00f5es na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Esse programa reacion\u00e1rio que est\u00e1 a\u00ed tem que ser execrado. Est\u00e3o molestando pessoas que est\u00e3o lendo Carta Capital, por exemplo, no avi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013<\/strong> Ou porque est\u00e3o usando qualquer camisa vermelha.<\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> Correram atr\u00e1s de um cachorro porque tinha um coletezinho de cor vermelha. Isso se assemelha muito aos momentos que antecederam o Fascismo e o Nazismo. S\u00e3o irracionalidades sociais, s\u00e3o os medos, o \u00f3dio; a intoler\u00e2ncia religiosa faz parte desse pacote reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que o Brasil transforme em valor fundamental essa liberdade de cren\u00e7a ou de n\u00e3o cren\u00e7a. \u00c9 um pa\u00eds reconhecido no mundo inteiro com essas possibilidades de conviv\u00eancia de credos diferentes, e h\u00e1 uma constru\u00e7\u00e3o de um \u00f3dio, uma intoler\u00e2ncia, uma demoniza\u00e7\u00e3o de certas religi\u00f5es, principalmente as de matriz africana. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso que a sociedade reaja. E todo cidad\u00e3o tem que se engajar na constru\u00e7\u00e3o desse Brasil que a gente quer.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013<\/strong> Ministro, n\u00f3s abrimos a entrevista para sugest\u00f5es de alguns leitores e blogueiros. E a titular do blogue Voz em Rede, Lidiane de Souza Monteiro, do Recife, quer saber a sua opini\u00e3o sobre o movimento e a luta pelo tombamento do cais Jos\u00e9 Estelita.<\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> Olha, eu fui procurado pelo movimento, pelo prefeito, e eu vou ampliar o meu di\u00e1logo porque \u00e9 o seguinte\u2026 O cais Estelita, a \u00e1rea em quest\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 relevante sob o ponto de vista de patrim\u00f4nio hist\u00f3rico-cultural. E n\u00e3o \u00e9 relevante do ponto de vista do patrim\u00f4nio ferrovi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por mais simpatia que eu tenha com a luta, eu n\u00e3o me proponho a colocar, a vulgarizar o IPHAN [Instituto Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico Art\u00edstico Nacional], para dar um parecer que n\u00e3o seja correto dentro do que a legisla\u00e7\u00e3o prev\u00ea. Agora, ali \u00e9 relevante sob o ponto de vista de reserva para a cidade retomar um processo de planejamento e de conten\u00e7\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Isso a legisla\u00e7\u00e3o prev\u00ea. Aquela \u00e1rea tamb\u00e9m \u00e9 importante como patrim\u00f4nio paisag\u00edstico.<\/p>\n<p>Mas o ordenamento e o uso do solo \u00e9 uma quest\u00e3o de \u00e2mbito local. E \u00e9 preciso que as institui\u00e7\u00f5es locais ou\u00e7am a popula\u00e7\u00e3o. A cidadania est\u00e1 indignada com a possibilidade de aprova\u00e7\u00e3o daquele projeto e o que eles demandam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 de que aquilo \u00e9 uma \u00e1rea estrat\u00e9gica, talvez uma das \u00faltimas. N\u00e3o uma \u00e1rea restrita, onde vai ser levado o projeto, mas uma \u00e1rea mais ampla, que j\u00e1 tem outros projetos imobili\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o minist\u00e9rio est\u00e1 fazendo estudos t\u00e9cnicos. Dentro de pouco tempo, n\u00f3s vamos nos posicionar. Agora, minha posi\u00e7\u00e3o pessoal \u00e9 de muita simpatia pelo movimento. No Brasil inteiro est\u00e3o explodindo manifesta\u00e7\u00f5es. J\u00e1 tivemos um n\u00edvel de manifesta\u00e7\u00e3o sobre a mobilidade urbana, que \u00e9 produto desse crescimento desordenado e pela op\u00e7\u00e3o do carro individual como meio de transporte. Temos manifesta\u00e7\u00f5es contra a baixa qualidade dos servi\u00e7os de sa\u00fade. Temos uma consci\u00eancia social e acredito que precisamos melhorar o padr\u00e3o, hoje, da educa\u00e7\u00e3o no Brasil. Ent\u00e3o, as pol\u00edticas p\u00fablicas est\u00e3o sendo criticadas pela popula\u00e7\u00e3o e h\u00e1 uma demanda pela melhor qualidade.<\/p>\n<p>Agora, n\u00f3s estamos vivendo uma demanda de pol\u00edticas urbanas. Com maior profundidade, enfrentando os problemas da cidade. Tem d\u00e9cadas. Se n\u00e3o me engano, no primeiro censo da d\u00e9cada de 1960, s\u00f3 20% da popula\u00e7\u00e3o brasileira viviam em algum tipo de cidade. Houve uma migra\u00e7\u00e3o e hoje n\u00f3s temos mais de 80% vivendo em cidades. E esse crescimento, esse incha\u00e7o da sociedade brasileira, n\u00e3o foi acompanhado de pol\u00edticas p\u00fablicas no sentido de minorar os impactos ambientais, sociais e urban\u00edsticos, com raras exce\u00e7\u00f5es. A especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e a ocupa\u00e7\u00e3o desordenada do solo se instalou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, temos quase uma inviabilidade dessas cidades brasileiras. S\u00e3o Paulo, Rio, Recife, quase todas as cidades. At\u00e9 cidades planejadas como Bras\u00edlia e Belo Horizonte sofrem o impacto desse crescimento desordenado, acompanhado \u00e0s vezes de falta absoluta de presen\u00e7a do poder p\u00fablico, no sentido de regular e de racionalizar esse crescimento em um n\u00edvel do poss\u00edvel, pelo menos.<\/p>\n<p>E esses movimentos por uma corre\u00e7\u00e3o de rumos, sob o ponto de vista das cidades, \u00e9 fundamental para o futuro do Brasil. Eu tenho muita simpatia n\u00e3o s\u00f3 por ele, mas por outros movimentos urbanos que est\u00e3o se produzindo nas grandes cidades brasileiras e que, de alguma maneira, as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas t\u00eam que ouvir, dialogar, n\u00e3o pode ignorar. A tend\u00eancia em Recife \u00e9 que as institui\u00e7\u00f5es ignoram essa demanda. Tratam como se fosse algo ex\u00f3tico, esdr\u00faxulo e externo \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 bom lembrar que, na democracia, o poder \u00e9 exercido em nome do povo, pelo povo e para o povo. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 como escapar de se relacionar. \u00c9 importante que se considere a for\u00e7a desses movimentos, antes que a gente gere um impasse e uma descren\u00e7a absoluta na democracia por parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Eu, pessoalmente, vejo com muito bons olhos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o posso \u00e9 transferir para c\u00e1 a decis\u00e3o porque existe o pacto federativo, existe a responsabilidade do munic\u00edpio. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 nivelou a responsabilidade e a import\u00e2ncia das tr\u00eas inst\u00e2ncias: federal, estadual e municipal. E essa inst\u00e2ncia do ordenamento e uso do solo \u00e9 do \u00e2mbito dos poderes locais, da prefeitura, da c\u00e2mara de vereadores, de outras institui\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a estrutura do Estado.<br \/>\nE acho que \u00e9 preciso assumir a responsabilidade de dialogar e de dar uma resposta \u00e0 demanda do movimento em torno do cais Estelita.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013 Para encerrar, qual sua avalia\u00e7\u00e3o desses primeiros meses de gest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ferreira \u2013<\/strong> Eu encontrei um minist\u00e9rio enfraquecido. Um medo de assinar, por exemplo. Ent\u00e3o, a transfer\u00eancia para os artistas e para a \u00e1rea cultural de responsabilidades onde n\u00e3o h\u00e1 uma clareza aritm\u00e9tica, em que se pede a devolu\u00e7\u00e3o de dinheiro, misturando quem fez corretamente as coisas com quem n\u00e3o fez. Eu disse \u00e0 presidenta, na primeira reuni\u00e3o que eu tive com ela, que tinha encontrado um minist\u00e9rio enfraquecido e que ia fazer todo o esfor\u00e7o para recuperar padr\u00f5es de qualidade no exerc\u00edcio do trabalho aqui dentro das nossas fun\u00e7\u00f5es. Mas acreditava que em tr\u00eas meses e meio ou quatro a gente teria recuperado.<\/p>\n<p>Estamos construindo isso, a realidade interna j\u00e1 \u00e9 outra. N\u00f3s estamos requalificando as pol\u00edticas porque o significado da minha volta, em parte, \u00e9 para retomar pol\u00edticas, programas e projetos que foram enfraquecidos ou abandonados. Mas em parte eu tenho que reconstituir porque a realidade anda, o Brasil anda muito r\u00e1pido. Muita coisa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma da minha \u00e9poca. Por exemplo, quando n\u00f3s chegamos ao minist\u00e9rio, pouco mais de 1 milh\u00e3o de brasileiros tinham acesso a internet. Hoje, mais de 53% dos brasileiros est\u00e3o conectados.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, s\u00f3 isso a\u00ed j\u00e1 mostra. Os pr\u00f3prios Pontos de Cultura j\u00e1 exigiam da gente uma moderniza\u00e7\u00e3o. Contamos hoje com a lei do Cultura Viva, que n\u00f3s regulamentamos. Em todos os aspectos, n\u00f3s temos que trabalhar daqui para a frente. Recuperar o que de positivo foi abandonado, mas principalmente formular. N\u00f3s estamos formulando as pol\u00edticas. Acabamos de fechar o primeiro ciclo do planejamento estrat\u00e9gico para os pr\u00f3ximos dez anos. Estamos detalhando agora o Plano Plurianual e mecanismos de planejamento. Estamos nos preparando para o or\u00e7amento para o ano para formular os projetos porque, no primeiro ano, voc\u00ea herda um or\u00e7amento e um planejamento feito no governo anterior. Eu sou muito insatisfeito com o que eu herdei, mas isso n\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o relevante. Na verdade, relevante \u00e9 o que a gente est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013 \u00c9 poss\u00edvel adiantar para n\u00f3s o que vem pela frente?<\/strong><\/p>\n<p>Ferreira \u2013 Assim, de novidades, primeiro \u00e9 a pol\u00edtica para as artes. Eu j\u00e1 fiz a autocr\u00edtica no pr\u00f3prio discurso de posse. N\u00f3s conseguimos ampliar o conceito de cultura, dar um atendimento a uma \u00e1rea sociocultural importante no pa\u00eds. Chegamos at\u00e9 os povos ind\u00edgenas, que, estranhamente no Brasil, a cultura dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o era considerada como parte do trabalho do Minist\u00e9rio da Cultura. Ent\u00e3o, constitu\u00edmos um alargamento do conceito e da dimens\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio, mas as artes ficaram secundarizadas.<\/p>\n<p>A gente quer recuperar a Funarte e as pol\u00edticas para as artes. Que pol\u00edticas para a m\u00fasica s\u00e3o importantes? Qual o papel do Estado junto \u00e0 m\u00fasica? Na \u00e1rea da economia da m\u00fasica, que est\u00e1 destro\u00e7ada pela crise da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, pelo pr\u00f3prio desenvolvimento tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Precisamos regular a internet para que eles paguem direito autoral. Na \u00e1rea da m\u00fasica, temos muitas tarefas. Na \u00e1rea do teatro tamb\u00e9m; na \u00e1rea da dan\u00e7a, na \u00e1rea do circo. Vamos revitalizar as pol\u00edticas. Vamos fazer um processo aberto. Estou prevendo que, de julho at\u00e9 o fim do ano, n\u00f3s vamos estar concentrados nisso. Essa vai ser uma das novidades. Sair com um programa e com uma perspectiva de trabalhar as artes e o papel do Estado dentro disso, que d\u00ea conta dos desafios do s\u00e9culo XXI nessa \u00e1rea.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea de cultura digital, vamos retomar o papel que n\u00f3s temos. Inclusive, j\u00e1 estamos planejando interven\u00e7\u00f5es nos f\u00f3runs mundiais, na OMPI (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Propriedade Intelectual), na Unesco, defendendo que a Conven\u00e7\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o da Diversidade, que n\u00f3s fomos quando \u00e9ramos daqui. Gilberto Gil foi o principal articulador para viabilizar essa conven\u00e7\u00e3o porque ela j\u00e1 era uma proposta de muitos anos e o governo americano conseguia impedir a sua aprova\u00e7\u00e3o. E n\u00f3s fizemos uma articula\u00e7\u00e3o com a \u00c1frica, com os pa\u00edses latinoamericanos, com os pa\u00edses asi\u00e1ticos, e esse reconhecimento \u00e9 internacional. Gil vai ser homenageado nas celebra\u00e7\u00f5es dos dez anos da Conven\u00e7\u00e3o. N\u00f3s vamos retomar, atualizando a conven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se n\u00f3s n\u00e3o regulamentarmos democraticamente a internet, garantindo a sua neutralidade, garantindo regras para a interven\u00e7\u00e3o, essas megaempresas que a operam\u2026 Vai se estabelecer uma ordem colonial a\u00ed de novo tipo, uma ordem colonial digital. N\u00f3s tivemos um incidente agora porque o Facebook censurou uma foto do Estado brasileiro. E eu achei que era um erro, podia ter sido uma quest\u00e3o de automaticidade nessa censura. Liguei e eles disseram: \u201cN\u00e3o, n\u00f3s estamos submetidos ao tribunal da Calif\u00f3rnia. N\u00f3s n\u00e3o nos submetemos \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>Depois, publicamente, ele corrigiu um pouco o que disse para mim, mas na verdade eles se comportam de uma maneira imperial. Eles \u00e9 que dizem o que pode e o que n\u00e3o pode, trazendo para o Brasil o puritanismo americano. N\u00e3o pode aparecer os seios de uma pessoa. Ele chegou a me dizer que se for um seio canceroso, em uma campanha contra o c\u00e2ncer, se for corpo mutilado por uma viol\u00eancia, pode. Quer dizer, a gente j\u00e1 tem muito problema no Brasil para importar o puritanismo americano. Basta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a diversidade cultural demanda um olhar sobre a internet que possibilite que os povos sejam protagonistas das op\u00e7\u00f5es e que a internet expresse isso. Foi um desrespeito aos ind\u00edgenas. Se para o ind\u00edgena aparecer na internet precisa se travestir de n\u00e3o-ind\u00edgena, isso \u00e9 um etnoc\u00eddio simb\u00f3lico de dimens\u00f5es importantes. \u00c9 um desafio. Tem uma parte da nossa pauta que eu chamo de \u201ca pauta do s\u00e9culo XXI\u201d. O s\u00e9culo XXI traz uma s\u00e9rie de quest\u00f5es na \u00e1rea da Cultura.<\/p>\n<p>Essa da prote\u00e7\u00e3o da diversidade, de exerc\u00edcio dessa diversidade fundamental para a soberania, para o desenvolvimento, e inclusive porque em alguns aspectos n\u00f3s somos superiores, por exemplo, \u00e0 sociedade americana. L\u00e1, o moralismo chega a tal ponto que tem crian\u00e7a de nove anos processada criminalmente porque encostou na fila da merenda na menina \u00e0 frente dele. Isso \u00e9 um caso real.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quer dizer, a gente n\u00e3o pode importar as mazelas e as dificuldades de outro povo, em uma mentalidade, como dizia Nelson Rodrigues, de vira-lata. A gente tem que ter consci\u00eancia da import\u00e2ncia de n\u00f3s construirmos e termos uma determina\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 com xenofobia, nem com isolamento, mas, pelo contr\u00e1rio, com regras civilizadas das rela\u00e7\u00f5es culturais no mundo. E o Brasil tem uma import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O Marco Civil repercute no mundo inteiro. O Marco Civil da Internet. \u00c9 preciso desdobr\u00e1-lo, garantindo essa neutralidade, garantir que n\u00e3o haja privatiza\u00e7\u00e3o de estruturas. Eu n\u00e3o vejo com bons olhos a proposta que o Facebook fez para o governo brasileiro. Aquilo ali \u00e9 um bombom que eles d\u00e3o para garantir essa privatiza\u00e7\u00e3o dentro da estrutura da internet. A gente n\u00e3o pode cair nessa cilada.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos vistos coma admira\u00e7\u00e3o e respeito inclusive pelos pa\u00edses europeus que deflagraram processos semelhantes a partir do Marco Civil e do discurso da presidenta Dilma na ONU sobre a espionagem, sobre a necessidade de preservar a internet como um espa\u00e7o p\u00fablico importante da humanidade. A gente n\u00e3o pode retroceder e aceitar espelhinho que venham nos oferecer aqui para manter uma ordem colonial digital. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o vejo com bons olhos a proposta.<\/p>\n<p>Acho que a gente tem que avan\u00e7ar em outra dire\u00e7\u00e3o, na dire\u00e7\u00e3o da afirma\u00e7\u00e3o de algo que o Brasil est\u00e1 preparado para fazer. N\u00f3s somos um dos pa\u00edses mais conectados do mundo. E j\u00e1 com uma experi\u00eancia, um discernimento da import\u00e2ncia p\u00fablica dessa esfera, que \u00e9 preciso tratar.<\/p>\n<p>E, nas \u00e1reas das artes, os pontos de cultura v\u00e3o ser revalorizados. Estamos dando um novo tratamento, mais amplo. Vamos regulamentar o que \u00e9 Pont\u00e3o de Cultura, que estava meio solto o conceito. Ou seja, em todas as \u00e1reas, n\u00f3s estamos construindo. O planejamento estrat\u00e9gico n\u00f3s estamos fechando agora. N\u00e3o sei se voc\u00ea reparou, n\u00f3s revitalizamos a comunica\u00e7\u00e3o no minist\u00e9rio. A gente n\u00e3o pode ficar dependendo da honestidade de um jornalista ou de outro na rela\u00e7\u00e3o com a sociedade.<\/p>\n<p>A gente precisa criar mecanismos tamb\u00e9m de rela\u00e7\u00e3o direta. Ent\u00e3o, a\u00ed entra a m\u00eddia livre, os jornalistas que est\u00e3o buscando criar o embri\u00e3o de uma nova comunica\u00e7\u00e3o no Brasil, mas n\u00f3s tamb\u00e9m temos que ter uma intelig\u00eancia, uma leveza, uma agilidade na \u00e1rea da comunica\u00e7\u00e3o. E a gente est\u00e1 construindo isso. J\u00e1 d\u00e1 para sentir que a gente trata a comunica\u00e7\u00e3o como uma das pol\u00edticas culturais e n\u00e3o como algo auxiliar, como uma linha auxiliar.<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum \u2013 E sobre os direitos autorais?<\/strong><\/p>\n<p>Sobre os direitos autorais, estamos numa luta para garantir os direitos em um ambiente criado pela internet, pela digitaliza\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m quer pagar os direitos autorais para os artistas brasileiros. Proporcionalmente, \u00e9 o maior desequil\u00edbrio da balan\u00e7a de pagamentos. O Brasil paga todos os direitos autorais estrangeiros e n\u00e3o recebe quase nenhum. Os artistas est\u00e3o sendo prejudicados e a maior economia, a maior escala de direito autoral \u00e9 no mundo digital.<\/p>\n<p>E a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 direito autoral no ambiente digital e no s\u00e9culo XXI sem o Estado regulador que obrigue que se realize. N\u00f3s vamos falar com os artistas. Eu j\u00e1 fiz reuni\u00e3o com o Procure Saber e com o GAP (Grupo de Apoio Parlamentar), s\u00e3o as duas maiores estruturas representativas dos m\u00fasicos. A gente quer ampliar isso para que possa ir, inclusive, para os f\u00f3runs internacionais fundamentados numa legisla\u00e7\u00e3o brasileira. Eu tenho procurado trabalhar com o Congresso \u2013 o Senado e a C\u00e2mara \u2013 e vamos avan\u00e7ar. E a mudan\u00e7a na Lei Rouanet tamb\u00e9m, que \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><em>Entrevista concedida a Ma\u00edra Streit, publicada no Portal F\u00f3rum &#8211; www.revistaforum.com.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ministro da Cultura avalia a atua\u00e7\u00e3o da grande m\u00eddia no pa\u00eds e alerta para o \u201cmonop\u00f3lio de opini\u00f5es\u201d dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[542,1836],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28965"}],"collection":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=28965"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28965\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28966,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28965\/revisions\/28966"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=28965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=28965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=28965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}