{"id":28963,"date":"2015-07-28T19:39:50","date_gmt":"2015-07-28T19:39:50","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28963"},"modified":"2015-08-29T21:00:23","modified_gmt":"2015-08-29T21:00:23","slug":"telesur-permite-que-america-latina-seja-contada-de-outra-maneira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28963","title":{"rendered":"&#8220;Telesur permite que Am\u00e9rica Latina seja contada de outra maneira&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>No 10\u00ba anivers\u00e1rio da cadeia multiestatal Telesur, sua presidenta, Patricia Villegas, esmi\u00fa\u00e7a, nesta entrevista, o significado hist\u00f3rico dessa in\u00e9dita experi\u00eancia, que marcou a ferro e fogo o campo comunicacional na Am\u00e9rica Latina e Caribe. Villegas analisa tamb\u00e9m o cen\u00e1rio midi\u00e1tico na regi\u00e3o, caracterizado pela disputa de sentidos frente \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es, e destaca a transcend\u00eancia de &#8220;colocar as c\u00e2meras no lugar onde est\u00e3o as vitimas e n\u00e3o os vitimadores\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os principais aportes que tem feito a Telesur nesses 10 anos?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que a Telesur colocou, novamente, no cen\u00e1rio p\u00fablico uma discuss\u00e3o muito importante, que \u00e9 o direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, ou a informa\u00e7\u00e3o como um direito. V\u00ednhamos de uma Am\u00e9rica Latina e Caribe agredida pela d\u00e9cada neoliberal, os direitos fundamentais haviam sido privatizados, e assim como a sa\u00fade ou a educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o direitos, a informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9. E o fato de que a Telesur considere sua audi\u00eancia n\u00e3o como consumidores, mas como usu\u00e1rios \u00e9 uma mudan\u00e7a que corresponde a essa vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro tema n\u00e3o menor \u00e9 que, na Am\u00e9rica Latina, em meio a um forte desinvestimento por parte dos governos neoliberais, tinha sido entregue aos meios p\u00fablicos, fundamentalmente, o trabalho de contar a cultura, o folclore, mas havia desaparecido a not\u00edcia, a informa\u00e7\u00e3o, a opini\u00e3o. Isto havia sido entregue aos meios privados.<\/p>\n<p>Esses dois elementos s\u00e3o fundamentais dentro do que a Telesur instala no cen\u00e1rio midi\u00e1tico continental nestes 10 anos. Depois, h\u00e1 outra quantidade de coisas j\u00e1 a partir do concreto. Por exemplo, que os profissionais da Telesur contam com as mesmas ferramentas tecnol\u00f3gicas que nos meios privados. O desinvestimento nos meios p\u00fablicos tinha gerado uma grande diferen\u00e7a nas possibilidades de contar. A Telesur reverte esta tend\u00eancia, n\u00f3s podemos contar nossas historias tendo as mesmas oportunidades tecnol\u00f3gicas que os meios privados.<\/p>\n<p><strong>Que aspectos resgatam de experi\u00eancias anteriores de comunica\u00e7\u00e3o contra-hegem\u00f4nica e que gerou a irrup\u00e7\u00e3o da Telesur na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Em uma entrevista que fizemos com o comandante Ch\u00e1vez [ex-presidente venezuelano Hugo Ch\u00e1vez], em outubro de 2005, no in\u00edcio da Telesur, ele me disse: &#8220;estou muito feliz, Patricia. \u00c9 muito lindo ver a concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho, de um sonho de muita gente antes que voc\u00ea, inclusive, de muita gente antes de mim\u201d. Obviamente, que a Telesur tem alguns antecedentes, de uma comunica\u00e7\u00e3o diferente, uma comunica\u00e7\u00e3o que p\u00f5e as c\u00e2meras no lugar onde est\u00e3o as v\u00edtimas e n\u00e3o os vitimadores, h\u00e1 enormes antecedentes disso.<\/p>\n<p>De alguma maneira, a irrup\u00e7\u00e3o da Telesur, que \u00e9 filha dos processos de transforma\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina e Caribe, permite que a regi\u00e3o seja contada de outra maneira. Durante o golpe de Estado em Honduras, por exemplo, o relato teria sido outro se as c\u00e2meras da Telesur n\u00e3o tivessem estado l\u00e1, ao vivo. N\u00e3o era necess\u00e1rio nem sequer interpretar o que estava acontecendo, era quest\u00e3o de subir um sinal e mostr\u00e1-lo, ter a coragem e a capacidade t\u00e9cnica de fazer isso. N\u00e3o \u00e9 que acreditamos que temos a verdade revelada nem se trata de fazer coberturas espetaculares, mas de estar ali, do lado das v\u00edtimas, no lugar donde se origina a hist\u00f3ria, contando o que est\u00e1 acontecendo. Eu me pergunto, por exemplo, o que teria ocorrido durante o Plano Condor se existissem emissoras como a Telesur?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, isso muda o cen\u00e1rio dos meios na Am\u00e9rica Latina, h\u00e1 propostas e estrat\u00e9gias comunicacionais que surgiram ap\u00f3s o nascimento de Telesur e depois de ver que n\u00f3s \u00edamos construindo esse outro relato, o dessa Am\u00e9rica Latina que estava mudando e que estava sendo amea\u00e7ada, como continua estando hoje.<\/p>\n<p>A Telesur, ademais, reivindica o jornalismo a partir do local, por isso temos a maior rede de colaboradores e correspondentes do que qualquer ag\u00eancia de not\u00edcias nesta parte do mundo. Tem a ver com a concep\u00e7\u00e3o, com a g\u00eanese do projeto, o que, al\u00e9m disso, nos permite estar na ofensiva e n\u00e3o na rea\u00e7\u00e3o do relato.<\/p>\n<p><strong>Como analisas o mapa comunicacional atual na Am\u00e9rica Latina e a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as frente \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas? Qual \u00e9 a estrat\u00e9gia da Telesur para enfrontar essa &#8220;batalha\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Certamente, que os grandes monop\u00f3lios continuam tendendo \u00e0 hegemonia e o desequil\u00edbrio segue sendo enorme. Dez anos s\u00e3o muitos para a vida dos seres humanos, mas para um projeto de transforma\u00e7\u00e3o, que tem que deixar para tr\u00e1s s\u00e9culos de exclus\u00e3o e de pobreza, s\u00e3o muito poucos. Obviamente, que o cen\u00e1rio dos meios na Am\u00e9rica Latina continua sendo hegem\u00f4nico para os monop\u00f3lios econ\u00f4micos, mas h\u00e1 10 anos n\u00e3o existiam meios p\u00fablicos como os que existem agora na Bol\u00edvia, no Equador ou na Argentina. H\u00e1 uma consolida\u00e7\u00e3o de meios p\u00fablicos. A sociedade tem direito de estar informada e a \u00fanica possibilidade de que isso seja real \u00e9 que o Estado participe disso, como com tantos outros direitos que temos conquistado.<\/p>\n<p>Obviamente, o panorama n\u00e3o \u00e9 de triunfo para n\u00f3s, mas, hoje, ocupamos um lugar. Quando voc\u00ea tem que contar a hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina e Caribe, hoje, necessariamente, tens que ver a Telesur, como tens que ler o Nodal. Mas a Telesur ou o Nodal s\u00e3o poss\u00edveis porque, hoje, em boa parte dos nossos pa\u00edses, h\u00e1 uma &#8220;inseguran\u00e7a\u201d sobre os meios \u2013 como diz Ignacio Ramonet \u2013, as pessoas duvidam do que est\u00e3o dizendo os meios privados, inclusive duvidam do que dizem os meios p\u00fablicos, o que \u00e9 muito bom, e consulta distintas fontes. Isso n\u00e3o acontecia h\u00e1 10 anos.<\/p>\n<p><strong>Em diferentes conjunturas pol\u00edticas, a direita midi\u00e1tica continental demonstra ter mecanismos muito eficazes de articula\u00e7\u00e3o em defesa dos seus interesses. Que leitura tens dos processos de integra\u00e7\u00e3o a partir dos meios p\u00fablicos e populares, e qual \u00e9 o aporte que vem fazendo a Telesur nesse caminho?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o nos dedicamos muito a ver o que est\u00e1 fazendo a concorr\u00eancia, n\u00e3o queremos ser a rea\u00e7\u00e3o a nada, mas fazer nossa pr\u00f3pria aposta. Mas a batalha est\u00e1 a\u00ed, certamente, \u00e9 uma batalha enorme e, hoje, as batalhas, em boa medida, s\u00e3o vividas nos meios. Nestes 10 anos, conseguimos apoiar a cria\u00e7\u00e3o de outros meios, fazemos alian\u00e7a com canais de outros continentes, como o R\u00fassia Today o Al-Mayadeen. Fazemos parte de diversas redes, trabalhamos com os movimentos sociais da Alba [Alian\u00e7a Bolivariana dos Povos da Nossa Am\u00e9rica], fazemos oficinas para jornalistas comunit\u00e1rios, articulamos com as televis\u00f5es p\u00fablicas, por exemplo, com o programa &#8220;De Zurda\u201d [algo como &#8220;De esquerda\u201d, em portugu\u00eas] durante o Mundial que era transmitido simultaneamente pela TV P\u00fablica argentina. Tamb\u00e9m temos conv\u00eanios com emissoras regionais, comunit\u00e1rias, universit\u00e1rias, constru\u00edmos uma enorme rede, que nos permite multiplicar a mensagem.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a direita tem muita habilidade para publicizar suas a\u00e7\u00f5es e, sem d\u00favida, ainda tem a hegemonia comunicacional, sempre acredito que podemos fazer muito mais e \u00e9 uma das tarefas nas quais temos que seguir crescendo.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o projeto em que a Telesur vem colocando mais energias nesta etapa?<\/strong><\/p>\n<p>Nosso projeto mais importante, neste momento, \u00e9 a Telesur em ingl\u00eas, que est\u00e1 completando um ano. Nosso caminho \u00e9 converter a Telesur em uma plataforma multilingue, j\u00e1 estamos produzindo 29 programas em ingl\u00eas, h\u00e1 uma grande produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados em um idioma que \u00e9 transcendental. A ideia \u00e9 poder contar a todos que falam ingl\u00eas o que est\u00e1 ocorrendo na Am\u00e9rica Latina, que tenha outra fonte de informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m dar uma vis\u00e3o alternativa a partir do Norte, que as pessoas do Norte possam ver suas hist\u00f3rias contadas de outra forma. Este \u00e9 o grande desafio atual da Telesur. E, depois, temos em mente a Telesur em \u00e1rabe.<\/p>\n<p><strong>Que coisas teriam mudado ou teriam sido de outra maneira se n\u00e3o existisse a Telesur?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que o caso mais emblem\u00e1tico \u00e9 o que eu comentei sobre Honduras. Tamb\u00e9m durante a tentativa de golpe no Equador, em 2010, l\u00e1 os meios falavam de una &#8220;revolta policial\u201d, quando viv\u00edamos, inclusive, uma tentativa de assassinato do presidente Rafael Correa. E l\u00e1 estavam as c\u00e2meras da Telesur para mostrar os tiros sobre o carro de Correa. O que nos permite construir outro relato n\u00e3o tem a ver tanto com interpretar a realidade, mas com poder mostr\u00e1-la ao vivo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que tivesse sido diferente, mas quem contou, como o coronel n\u00e3o tem quem escreva\u2026 Quem teria contado isso?<\/p>\n<p>Outra situa\u00e7\u00e3o emblem\u00e1tica foi em Tr\u00edpoli [L\u00edbia], que, supostamente, estava sendo bombardeada pela avia\u00e7\u00e3o de Gaddafi [Muammar Al-Gaddafi, ex-presidente da L\u00edbia]. Quando nossas equipes chegaram l\u00e1 n\u00e3o havia nenhum rastro disso, eu mesma havia sido v\u00edtima da desinforma\u00e7\u00e3o dominante. E isso foi desmontado pela Telesur. Ent\u00e3o, h\u00e1 hist\u00f3rias em que o relato oficial e popular teria sido de outra maneira se n\u00e3o tivessem as c\u00e2meras da Telesur. Creio que esse \u00e9 o aporte maravilhoso deste projeto.<\/p>\n<p><strong>Qual voc\u00ea acredita que ser\u00e1 a marca que deixar\u00e1 a Telesur na hist\u00f3ria da comunica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma pergunta dif\u00edcil porque eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o muito amorosa com a Telesur, aprendi a ser uma cidad\u00e3 latino-americana e caribenha trabalhando nesse projeto. Sinto-me colombiana de nascimento e corre em mim sangue colombiano nas veias, mas me sinto tamb\u00e9m argentina, boliviana, profundamente venezuelana\u2026 Creio que temos conseguido que as audi\u00eancias sintam que atrav\u00e9s de experi\u00eancias como a Telesur lhes permite ter o registro de um novo direito, o direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 o mais transcendente: hoje, as pessoas est\u00e3o vendo e lendo os meios de outra maneira.<\/p>\n<p><em>Entrevista concedida a\u00a0Gerardo Szalkowicz, publicada em Marcha, reproduzida da Adital &#8211; www.adital.com.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos 10 anos da cadeia multiestatal Telesur, sua presidente Patricia Villegas esmiu\u00e7a o significado hist\u00f3rico dessa in\u00e9dita experi\u00eancia para a Am\u00e9rica Latina. <\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1835],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28963"}],"collection":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=28963"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28963\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28964,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28963\/revisions\/28964"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=28963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=28963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=28963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}