{"id":26884,"date":"2012-05-17T16:18:31","date_gmt":"2012-05-17T16:18:31","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=26884"},"modified":"2012-05-17T16:18:31","modified_gmt":"2012-05-17T16:18:31","slug":"fhc-defende-regulacao-dos-meios-de-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=26884","title":{"rendered":"FHC defende regula\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O t&iacute;tulo, o ambiente e o programa sugeriam que o semin&aacute;rio &ldquo;Meios de comunica&ccedil;&atilde;o e democracia na Am&eacute;rica Latina&rdquo;, realizado no &uacute;ltimo dia 15 no Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), seria um palco para a cantilena contra a regula&ccedil;&atilde;o do setor e de cr&iacute;tica feroz &agrave;s iniciativas em curso em pa&iacute;ses da regi&atilde;o. Mas n&atilde;o foi esse o tom predominante. <\/p>\n<p>Com a participa&ccedil;&atilde;o de ex-presidentes da Bol&iacute;via e do Equador e um ex-porta voz da presid&ecirc;ncia do M&eacute;xico, al&eacute;m do jornalista brasileiro Eug&ecirc;nio Bucci, o debate foi marcado principalmente por duas preocupa&ccedil;&otilde;es. De um lado, o desafio de manter um jornalismo investigativo independente em um cen&aacute;rio de enfraquecimento dos meios tradicionais. De outro, uma afirma&ccedil;&atilde;o quase un&iacute;ssona sobre a necessidade de regula&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica do setor, resumida pelo ex-presidente Fernando Henrique, presente ao evento: &ldquo;n&atilde;o h&aacute; como regular adequadamente a democracia sem regular adequadamente os meios de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Regula&ccedil;&atilde;o em pauta<\/strong><\/p>\n<p>O semin&aacute;rio promoveu o lan&ccedil;amento do livro &ldquo;Meios de comunica&ccedil;&atilde;o e democracia: al&eacute;m do Estado e do Mercado&rdquo; uma publica&ccedil;&atilde;o conjunta do iFHC, Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e do projeto Plataforma Democr&aacute;tica. A publica&ccedil;&atilde;o &eacute; em boa parte pautada pela discuss&atilde;o sobre medidas de regula&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. O primeiro texto &eacute; de autoria dos argentinos Guillermo Mastrini e Martin Becerra, professores que estudam a concentra&ccedil;&atilde;o do setor na Am&eacute;rica Latina e que apoiaram a reda&ccedil;&atilde;o da lei de comunica&ccedil;&atilde;o audiovisual aprovada no pa&iacute;s em 2009.<\/p>\n<p>No livro, o organizador da publica&ccedil;&atilde;o, o soci&oacute;logo Bernardo Sorj, avalia que &ldquo;generaliza&ccedil;&otilde;es sobre a Am&eacute;rica Latina mascaram realidades muito diferentes&rdquo; e que &ldquo;n&atilde;o &eacute; demais lembrar que qualquer legisla&ccedil;&atilde;o dever&aacute; orientar-se em primeiro lugar pelo objetivo de garantir a liberdade de express&atilde;o dos cidad&atilde;os frente ao poder do Estado e ao poder econ&ocirc;mico&rdquo;.<\/p>\n<p>Na abertura do semin&aacute;rio, Sorj apresentou uma leitura dos contextos pol&iacute;tico e dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e listou algumas das a&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para alterar o quadro atual. No contexto pol&iacute;tico, o soci&oacute;logo identificou tr&ecirc;s elementos centrais: um sistema legal prec&aacute;rio, uma crise de representa&ccedil;&atilde;o dos partidos e das ideologias pol&iacute;ticas que valoriza o papel dos meios e a exig&ecirc;ncia de uma nova regula&ccedil;&atilde;o dos meios em fun&ccedil;&atilde;o da converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica. Em rela&ccedil;&atilde;o ao contexto dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, o soci&oacute;logo destacou a inexist&ecirc;ncia ou baixa audi&ecirc;ncia de emissoras p&uacute;blicas, sistemas regulat&oacute;rios ultrapassados e nem sempre aplicados e uma tend&ecirc;ncia &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o de propriedade.<\/p>\n<p>As propostas apresentadas por ele refor&ccedil;am a necessidade de regula&ccedil;&atilde;o do setor privado e da a&ccedil;&atilde;o do poder p&uacute;blico e se assemelham em boa parte &agrave;s apresentadas por setores que defendem a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. Entre elas, o enfrentamento &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o, o fortalecimento do sistema p&uacute;blico e o apoio a pequenas e m&eacute;dias empresas de comunica&ccedil;&atilde;o [ver lista completa ao final da&nbsp; mat&eacute;ria].<\/p>\n<p><strong>Crise de valores dos meios<\/strong><\/p>\n<p>As apresenta&ccedil;&otilde;es trouxeram abordagens complementares da rela&ccedil;&atilde;o entre meios de comunica&ccedil;&atilde;o e democracia. Carlos Mesa, ex-presidente boliviano, salientou uma espiral de perda de valores que vivem os meios de comunica&ccedil;&atilde;o e seus dirigentes. Ele comparou a crise da m&iacute;dia com a crise do sistema financeiro, que descreveu como &ldquo;uma orgia obscena do capitalismo&rdquo;. Essa crise seria fruto de uma dificuldade de se situar em um cen&aacute;rio de organiza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o que tem a frivolidade como elemento central. &ldquo;A m&iacute;dia &eacute; protagonista e fiscalizadora, juiz e parte. Mas seu poder n&atilde;o vem acompanhado de responsabilidade&rdquo;, observou.<\/p>\n<p>Carlos Mesa repercutiu uma quest&atilde;o que atravessou todo o semin&aacute;rio, que &eacute; atual dificuldade financeira para sustentar o jornalismo investigativo. O problema, segundo ele, &eacute; que &ldquo;apesar de v&aacute;rios meios impressos tradicionais terem uma grande audi&ecirc;ncia na internet, essa audi&ecirc;ncia n&atilde;o se transforma em recursos financeiros&rdquo;. O desafio, portanto, seria garantir ao mesmo tempo credibilidade e capacidade de infraestrutura no novo cen&aacute;rio. <\/p>\n<p>Conhecido por defender os interesses das elites bolivianas, Mesa n&atilde;o deixou de expor suas convic&ccedil;&otilde;es. Ao discutir a necessidade de regula&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, o ex-presidente ressaltou que &eacute; preciso reconhecer que pode haver diferentes tipos de regula&ccedil;&atilde;o e criticou a reserva de espectro realizada na Argentina, Uruguai e Bol&iacute;via. &ldquo;Em meu pa&iacute;s, um ter&ccedil;o das frequ&ecirc;ncias de r&aacute;dio e TV est&aacute; reservado para povos ind&iacute;genas e origin&aacute;rios e setores comunit&aacute;rios. O que eles far&atilde;o com isso?&rdquo;, perguntou ironicamente. <\/p>\n<p>As observa&ccedil;&otilde;es do mexicano Rub&eacute;n Aguilar, ex-porta voz de Vicente Fox (presidente entre 2000 e 2006), focaram-se mais na promiscuidade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e do Estado em seu pa&iacute;s. Aguilar descreveu a rela&ccedil;&atilde;o entre as partes como sendo historicamente pautada pelas negocia&ccedil;&otilde;es financeiras, tendo mudado pouco nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. &ldquo;Antes o governo pagava, agora os meios cobram&rdquo;, observa Rub&eacute;n. <\/p>\n<p>Para ele, a marginalidade da imprensa escrita &ndash; o maior jornal da cidade do M&eacute;xico tem tiragem de 100 mil exemplares &ndash; concentra muito poder no r&aacute;dio e na televis&atilde;o, o que se agrava pelo fato de que dois grupos econ&ocirc;micos controlam a maioria dos meios eletr&ocirc;nicos. &ldquo;Vivemos uma situa&ccedil;&atilde;o hoje em que n&atilde;o h&aacute; conflitos entre poder e meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Isso &eacute; muito ruim para a democracia&rdquo;. Aguilar tamb&eacute;m defendeu abertamente a necessidade de regula&ccedil;&atilde;o do setor. <\/p>\n<p>A apresenta&ccedil;&atilde;o de Osvaldo Hurtado, ex-presidente do Equador, foi a &uacute;nica que se centrou no discurso recorrente que identifica amea&ccedil;as &agrave; liberdade de imprensa nas a&ccedil;&otilde;es de presidentes latino-americanos. Em sua mira, Rafael Correa, Evo Morales, Hugo Ch&aacute;vez e Daniel Ortega. Hurtado, que presidiu o Equador no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1980, focou-se especialmente nas cr&iacute;ticas &agrave;s a&ccedil;&otilde;es de Correa, sugerindo inclusive que a senten&ccedil;a que ordenou ao jornal El Universo o pagamento de US$ 40 milh&otilde;es de indeniza&ccedil;&atilde;o a Correa teria sido redigida dentro do pal&aacute;cio presidencial do Equador. <\/p>\n<p><strong>Problemas brasileiros<\/strong><\/p>\n<p>Ao tratar do caso brasileiro, o jornalista Eug&ecirc;nio Bucci avaliou que a discuss&atilde;o no pa&iacute;s est&aacute; dificultada por duas irracionalidades: uma de matriz de direita, que diz que nenhuma regula&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria; outra, de matriz de esquerda, que defende a regula&ccedil;&atilde;o por um desejo de censurar os meios. Para Bucci, a regula&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria, especialmente para enfrentar tr&ecirc;s gargalos: a confus&atilde;o entre religi&atilde;o, meios e partidos; a presen&ccedil;a poss&iacute;vel de monop&oacute;lios e oligop&oacute;lios e o abuso das verbas dedicadas &agrave; publicidade oficial. Em sua opini&atilde;o, os governos deveriam ser proibidos de anunciar, porque as verbas &ldquo;d&atilde;o espa&ccedil;o para proselitismo oficial com dinheiro p&uacute;blico&rdquo;.<\/p>\n<p>No debate ao final das apresenta&ccedil;&otilde;es, o cientista pol&iacute;tico S&eacute;rgio Fausto lamentou que o Brasil n&atilde;o tenha a cultura do debate racional e prefira a confronta&ccedil;&atilde;o de opini&otilde;es dogm&aacute;ticas fechadas. Fausto avalia que essa seria a dificuldade de a internet substituir o papel dos meios tradicionais. &ldquo;A democracia do acesso gera tamb&eacute;m a corros&atilde;o de valores fundamentais sem os quais poderemos ter mais vozes e menos democracia&rdquo;, disse Fausto, que &eacute; tamb&eacute;m diretor executivo do instituto FHC.<\/p>\n<p>A cr&iacute;tica mais contundente ao sistema de comunica&ccedil;&otilde;es brasileiro veio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em seus coment&aacute;rios, FHC criticou especialmente a aus&ecirc;ncia de pluralismo. &ldquo;Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil n&atilde;o trazem o outro lado. Isso n&atilde;o se d&aacute; por press&atilde;o de governo, mas por uma complexidade de nossa cultura institucional&rdquo;, disse FHC. &ldquo;N&oacute;s temos toda a arquitetura democr&aacute;tica, menos a alma&rdquo;.<\/p>\n<p>FHC afirmou ainda que &eacute; preciso lutar pelos mecanismos de regula&ccedil;&atilde;o que permitam a diversidade. Para ele, &ldquo;n&atilde;o h&aacute; como regular adequadamente a democracia sem regular adequadamente os meios de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p><em><br \/><strong>Sum&aacute;rio das propostas apresentadas na introdu&ccedil;&atilde;o do livro &ldquo;Meios de comunica&ccedil;&atilde;o e Democracia: al&eacute;m do Estado e do Mercado&rdquo;, organizado por Bernardo Sorj, publicado pelo Instituto FHC, Centro Eldenstein e Plataforma Democr&aacute;tica:<\/strong><\/p>\n<p>Regula&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o do poder p&uacute;blico<br \/>1. A distribui&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o deve passar pela cria&ccedil;&atilde;o de uma ag&ecirc;ncia reguladora que aja com transpar&ecirc;ncia e cujas decis&otilde;es sejam abertas ao debate e escrut&iacute;nio p&uacute;blico.<br \/>2. Garantir a autonomia dos canais ou emissoras p&uacute;blicas direta ou indiretamente dependentes de recurso p&uacute;blico.<br \/>3. O uso e a distribui&ccedil;&atilde;o da dota&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica para publicidade oficial devem ser transparentes e politicamente neutros.<br \/>4. O favorecimento de certos meios, quando realizado em nome do apoio a pequenas e m&eacute;dias empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, deve ser realizado com crit&eacute;rios transparentes e universais, abertos ao debate e ao escrut&iacute;nio p&uacute;blico.<br \/>5. A liberdade de informa&ccedil;&atilde;o inclui a obriga&ccedil;&atilde;o dos governos de informar.<br \/>6. Garantir o acesso p&uacute;blico aos conte&uacute;dos sem que eles sejam parasitados por sites comerciais e garantir a neutralidade da Rede. <\/p>\n<p>Regula&ccedil;&atilde;o do setor privado<br \/>1. Combater a concentra&ccedil;&atilde;o de propriedade dos meios privados, pela a&ccedil;&atilde;o de ag&ecirc;ncias reguladoras aut&ocirc;nomas do poder governamental (n&atilde;o confundir a extrema concentra&ccedil;&atilde;o com a exist&ecirc;ncia de grupos de m&iacute;dia economicamente s&oacute;lidos). <br \/>2. Garantir a sustentabilidade do jornalismo investigativo, pela sua import&acirc;ncia para o sistema democr&aacute;tico. <br \/>3. Pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para favorecer o pluralismo, com pol&iacute;tica de apoio universal ao surgimento de novos jornais e subs&iacute;dios que diminuam os custos de entrada no setor.<br \/>4. Conscientizar a sociedade sobre a import&acirc;ncia de ter acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e ser capaz de realizar uma leitura cr&iacute;tica da informa&ccedil;&atilde;o recebida. <\/em><br \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em evento de lan&ccedil;amento do livro <span class=\"padrao\">&ldquo;Meios de comunica&ccedil;&atilde;o e democracia: al&eacute;m do Estado e do Mercado&rdquo;, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu uma regulamenta&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia que garanta diversidade e pluralidade. <\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[90],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26884"}],"collection":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26884"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26884\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}