{"id":25590,"date":"2011-05-13T11:50:13","date_gmt":"2011-05-13T11:50:13","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25590"},"modified":"2011-05-13T11:50:13","modified_gmt":"2011-05-13T11:50:13","slug":"o-13-de-maio-e-o-mito-da-liberdade-de-expressao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25590","title":{"rendered":"O 13 de maio e o mito da liberdade de express\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Neste dia 13 de maio a sociedade brasileira tem motivo especial para debater os limites da no&ccedil;&atilde;o de liberdade. Est&aacute; em curso no pa&iacute;s um embate sobre a liberdade de express&atilde;o versus liberdade de imprensa que tende ser o balizador da reforma no marco legal das comunica&ccedil;&otilde;es. Por&eacute;m, antes de garantir as condi&ccedil;&otilde;es para todos os setores pol&iacute;ticos, culturais e econ&ocirc;micos terem o mesmo empoderamento nas tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o, a liberdade continua um mito para os descendentes dos escravos africanos no pa&iacute;s.<\/p>\n<p>O dia da aboli&ccedil;&atilde;o deixou paulatinamente sua face de comemora&ccedil;&atilde;o em prol da reflex&atilde;o sobre os limites da liberdade dos ex-escravos no Brasil. A Lei &Aacute;urea (1888), uma das mais curtas da hist&oacute;ria nacional, extinguiu propriedade sob os africanos e seus descendentes que a partir de ent&atilde;o obtiveram, na teoria, o livre arb&iacute;trio. Por&eacute;m, na pr&aacute;tica, o que se verificou foi a perpetua&ccedil;&atilde;o das distin&ccedil;&otilde;es sociais entre brancos e afrodescendentes, impelindo o direito as liberdades numa abordagem mais ampla.<\/p>\n<p>O caso dos ex-escravos estimula expandir a no&ccedil;&atilde;o da liberdade &agrave; necessidade de condi&ccedil;&otilde;es materiais (moradia, renda e transporte) e imateriais (educa&ccedil;&atilde;o, seguran&ccedil;a, participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica) para circular as demandas dos indiv&iacute;duos e grupos sociais, assim como ado&ccedil;&atilde;o de restri&ccedil;&otilde;es as pr&aacute;ticas que retardem as liberdades de conjunto mais amplo da sociedade.<\/p>\n<p><strong>Liberdade de express&atilde;o x imprensa<\/strong><\/p>\n<p>Al&eacute;m dos pressupostos tradicionais, nas sociedades modernas a necessidade de aprofundar as no&ccedil;&otilde;es de liberdade se faz, em grande medida, pela rela&ccedil;&atilde;o com as tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o, onde as ideias e gostos s&atilde;o majoritariamente mediadas. Nesse contexto se intensificam as diverg&ecirc;ncias conceituais entre a liberdade de express&atilde;o x liberdade de imprensa no Brasil.<\/p>\n<p>A liberdade de express&atilde;o &eacute; defendida pelo seu cunho universalista, mais pr&oacute;ximo das formula&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas das liberdades. J&aacute; a liberdade de imprensa &eacute; aproximada aos direitos empresariais de determinada classe e ao agir sem limites coloca em risco a liberdade de express&atilde;o, por cercear ou discriminar pontos de vistas de outras classes sem o mesmo poder econ&ocirc;mico.<\/p>\n<p>No caso brasileiro os maiores defensores da liberdade de imprensa s&atilde;o identificados por um seleto grupo familiar, herdeiros de tradi&ccedil;&atilde;o olig&aacute;rquica e por que n&atilde;o, escravocrata?!<\/p>\n<p><strong>Indicadores<\/strong><\/p>\n<p>A fim de construir refer&ecirc;ncias objetivas sobre os limites impostos a liberdade de express&atilde;o a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a educa&ccedil;&atilde;o, a ci&ecirc;ncia e a cultura (Unesco) ao lado de entidades dos movimentos sociais e universidade t&ecirc;m desenvolvido no Brasil os indicadores do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Esses indicadores tendem a se tornar base de sustenta&ccedil;&atilde;o para o Estado nacional avan&ccedil;ar em reformas pela democratiza&ccedil;&atilde;o do setor.<\/p>\n<p>Quanto o car&aacute;ter racista no empoderamento das tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel chegar a conclus&otilde;es mais contundentes na radiodifus&atilde;o, telecomunica&ccedil;&otilde;es e imprensa no pa&iacute;s se inclu&iacute;ssem este recorte &eacute;tnico nas suas estat&iacute;sticas. Ao ter tais dados em m&atilde;os os organismos internacionais e entidades do movimento social passariam a ter na sua agenda n&atilde;o apenas a democratiza&ccedil;&atilde;o nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, mas possivelmente um racismo institucional que impele valores costumeiramente precedentes a democracia ou mesmo a forma&ccedil;&atilde;o de uma na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, quantos radiodifusores s&atilde;o autodeclarados negros ou pardos no pa&iacute;s? A resposta nos entraves se resume aos problemas no sistema de partilha de outorgas, balizado pelo clientelismo pol&iacute;tico e barreiras econ&ocirc;micas.<\/p>\n<p>J&aacute; a banda larga, qual o percentual da popula&ccedil;&atilde;o afrodescendente que t&ecirc;m acesso a esse servi&ccedil;o no pa&iacute;s? A pauta universalista enfatiza a necessidade de um regime p&uacute;blico mas n&atilde;o toca no car&aacute;ter racial da exclus&atilde;o digital.<\/p>\n<p>E a imprensa negra no Brasil, o que a torna inst&aacute;vel e agora sobrevivente basicamente nas p&aacute;ginas eletr&ocirc;nicas na internet? A demanda pela produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do &eacute; balizada por ideia vaga de pluralidade e diversidade que pouco atinge o gargalho racista do pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>Nabuco e Florestan<\/strong><\/p>\n<p>J&aacute; que o motivador deste texto &eacute; o 13 de maio, vale ressaltar duas perspectivas importantes que t&ecirc;m sua contribui&ccedil;&atilde;o incompleta no pa&iacute;s. Ambas podem ser classificadas nos embates raciais como posi&ccedil;&otilde;es etnoc&ecirc;ntricas, mas se forem ao menos adotadas por setores progressistas podem dar um grande impulso ao pa&iacute;s e aos movimentos sociais.<\/p>\n<p>A primeira perspectiva &eacute; do movimento abolicionista que teve no aristocr&aacute;tico Joaquim Nabuco sua principal lideran&ccedil;a. Nabuco compreendeu o regime escravista brasileiro como mais penoso e complexo que o dos Estados Unidos, por expandir as divis&otilde;es raciais por todas as classes. A vis&atilde;o humanista de Joaquim Nabuco se mesclava com o patriotismo para defender que a liberta&ccedil;&atilde;o dos cativos era fundamental para o desenvolvimento do pa&iacute;s. Dessa forma, analisava que a economia e pol&iacute;tica nacional poderiam se erguer ao renovar as rela&ccedil;&otilde;es mercantis e de trabalho, seja p&uacute;blica ou privada.<\/p>\n<p>A segunda perspectiva, a socialista, teve na figura de Florestan Fernandes uma reconhecida interconex&atilde;o entre luta de classes e racial no Brasil. Fernandes parte do pressuposto que o caminhar para o socialismo no pa&iacute;s deve passar obrigatoriamente pelo protagonismo dos movimentos negros e seu reconhecimento enquanto classe trabalhadora. Por&eacute;m, Fernandes deixa o alerta que a participa&ccedil;&atilde;o negra no processo revolucion&aacute;rio &eacute; mais &aacute;rduo pelo fato dos indiv&iacute;duos terem que superar duas for&ccedil;as poderosas: o racismo e o capitalismo.<\/p>\n<p>Entretanto os herdeiros desses dois exemplos continuam a negar tais legados. No caso das elites tradicionais, insistem em retardar a participa&ccedil;&atilde;o dos afrodescendentes no mercado como consumidor, produtor ou comerciante. J&aacute; as organiza&ccedil;&otilde;es influenciadas pelo pensamento marxista continuam a tratar o racismo como aspecto secund&aacute;rio da agenda pol&iacute;tica.<\/p>\n<p><strong>Enegrecer<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo se forem seguidos a risca, a ideias de Nabuco e Florestan t&ecirc;m limites para supera&ccedil;&atilde;o do racismo no Brasil. As poucas respostas de ambos aos embates civilizat&oacute;rios tamb&eacute;m foram e s&atilde;o barreiras para Jos&eacute; do Patroc&iacute;nio e Lu&iacute;s Gama n&atilde;o ocuparem papel de maior destaque no processo abolicionista; ou para o combativo Movimento Negro Unificado (MNU) n&atilde;o consolidar suas id&eacute;ias na linha de frente na esquerda nacional na luta da redemocratiza&ccedil;&atilde;o at&eacute; os dias atuais.<\/p>\n<p>No caso do alargamento do conceito de liberdade de express&atilde;o, o pensamento de Milton Santos apresenta complementariedade pouco utilizada pelos defensores do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. O geografo deixou o legado de enfrentar o globalitarismo e um dos seus tent&aacute;culos, a tirania da informa&ccedil;&atilde;o, a partir de nova consci&ecirc;ncia universal inspirada dos espa&ccedil;os perif&eacute;ricos.<\/p>\n<p>Dessa forma, estariam nos pequenos provedores de internet nas negras periferias um modelo de apropria&ccedil;&atilde;o e distribui&ccedil;&atilde;o das tecnologias para enfrentar as grandes teles? E a reserva do espectro da radiodifus&atilde;o para comunidades quilombolas rurais ou urbanas, seria uma alternativa para o &ldquo;coronelismo&rdquo; midi&aacute;tico e o poderio neo pentecostal?<\/p>\n<p>Durante a I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o a articula&ccedil;&atilde;o Enegrecer a Confecom iniciou longo processo de responder a essas perguntas e construir uma plataforma. Se por uma lado o contexto do 13 de maio limita aprofundar essa agenda,&nbsp; no pr&oacute;ximo dia 20 de novembro ser&aacute; poss&iacute;vel amadurecer a no&ccedil;&atilde;o da liberdade de express&atilde;o aos brasileiros, afinal 2011 &eacute; declarado o ano dos afrodescendentes pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU).<\/p>\n<p><em>* <strong>Pedro Carib&eacute; <\/strong>&eacute; jornalista, militante do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, rep&oacute;rter do Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o, pesquisador do Centro de Comunica&ccedil;&atilde;o, Democracia e Cidadania da UFBA e integrante da articula&ccedil;&atilde;o Enegrecer a Confecom.<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Os maiores defensores da liberdade de imprensa no Brasil s&atilde;o  identificados por um seleto grupo familiar, herdeiros de tradi&ccedil;&atilde;o  olig&aacute;rquica e, por que n&atilde;o, escravocrata<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25590"}],"collection":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25590"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25590\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}