{"id":25586,"date":"2011-05-11T15:30:02","date_gmt":"2011-05-11T15:30:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25586"},"modified":"2011-05-11T15:30:02","modified_gmt":"2011-05-11T15:30:02","slug":"e-se-falarmos-de-eticamente-correto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25586","title":{"rendered":"E se falarmos de \u201ceticamente correto\u201d?"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"padrao\">Rafinha Bastos, humorista e apresentador do programa CQC, fez uma piada  em um dos seus shows que logo repercutiu por toda a internet: mulher  feia que &eacute; estuprada n&atilde;o tem que reclamar, tem que agradecer. O relato  est&aacute; no perfil do comediante publicado na <a href=\"http:\/\/www.rollingstone.com.br\/edicoes\/56\/textos\/a-graca-de-um-herege\/\" target=\"_blank\">edi&ccedil;&atilde;o de maio<\/a>  da revista  Rolling-Stone.<\/p>\n<p>Auto-denominado politicamente incorreto, Rafinha insiste na pertin&ecirc;ncia  da sua piada e diz que a fun&ccedil;&atilde;o do humor &eacute; provocar. Ali&aacute;s, ouve-se de  praticamente todas as bocas dos atuais comediantes brasileiros (e com  ecos significativos no conjunto da sociedade) a necessidade de se  combater o &ldquo;politicamente correto&rdquo; pelo humor. Mas, afinal, do que se  trata esse combate?<\/p>\n<p>&Eacute; constituinte do humor a transgress&atilde;o. Ele se estabelece por uma  ruptura, um estranhamento, num &ldquo;esfor&ccedil;o inaudito de desmascarar o real&rdquo;,  nas palavras do historiador Elias Thom&eacute; Saliba em seu livro Ra&iacute;zes do  riso. E existe toda uma longa tradi&ccedil;&atilde;o humor&iacute;stica que relaciona o riso &agrave;  liberdade, &agrave; infra&ccedil;&atilde;o das normas que sufocam os sujeitos em  determinados contextos hist&oacute;ricos, &agrave; revela&ccedil;&atilde;o do inaceit&aacute;vel frente ao  aceit&aacute;vel imposto, etc.<\/p>\n<p>Mas tamb&eacute;m existe a tradi&ccedil;&atilde;o que relaciona o humor ao preconceito, &agrave;s  generaliza&ccedil;&otilde;es e &agrave;s ofensas. As piadas, por esta tradi&ccedil;&atilde;o, refletem,  cristalizam, e alimentam um universo simb&oacute;lico calcado na desigualdade,  na rela&ccedil;&atilde;o hier&aacute;rquica com o Outro pelo vetor da  superioridade\/inferioridade, no desprezo e na segrega&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; certo, por sua vez, que o que se denominou de &ldquo;politicamente correto&rdquo;  tamb&eacute;m carrega certos excessos que atuam como normas sufocantes aos  sujeitos, mas n&atilde;o se pode ignorar que o seu n&uacute;cleo s&oacute;lido &eacute; resultado de  tens&otilde;es, conflitos e lutas hist&oacute;ricas e sociais daqueles agentes que  antes eram alvos da segrega&ccedil;&atilde;o e preconceito manifestado pelo riso de  outros agentes hegem&ocirc;nicos. E h&aacute; de se ter claro tamb&eacute;m que a linguagem &eacute;  um palco privilegiado onde se manifestam esses conflitos.<\/p>\n<p>Sendo assim, o que se percebe atualmente no combate ao dito  &ldquo;politicamente correto&rdquo; &eacute; uma confus&atilde;o relacionada a qual caminho seguir  pela transgress&atilde;o: transgride rumo &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o libert&aacute;ria do humor ou  transgride rumo &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o preconceituosa e segregante? Cruza-se a  fronteira do &ldquo;politicamente correto&rdquo; rumo ao progresso ou rumo ao  atraso?<\/p>\n<p>Nota-se ainda que muitos humoristas atualmente, sob a premissa de ser  contra o &ldquo;politicamente correto&rdquo;, marcham para tr&aacute;s: acreditando estarem  avan&ccedil;ando em dire&ccedil;&atilde;o ao car&aacute;ter libert&aacute;rio do humor, recuam e refor&ccedil;am  justamente o car&aacute;ter conservador e perverso do riso. Sob a bandeira do  combate &agrave; hipocrisia tornam-se hip&oacute;critas.<\/p>\n<p>Ironicamente, a batalha desses humoristas contra o &ldquo;politicamente  correto&rdquo; s&oacute; explicita a necessidade de sua exist&ecirc;ncia. E se a express&atilde;o  est&aacute; desgastada e pode soar para alguns como normas impostas que os  sufocam, normas estas externas e que minam sua liberdade, pensemos,  ent&atilde;o, em &ldquo;eticamente correto&rdquo; (que &eacute; redundante: ou algo &eacute; &eacute;tico ou  anti-&eacute;tico). A &eacute;tica, por sua vez, &eacute; constitu&iacute;da por valores que devem  nortear a rela&ccedil;&atilde;o de um indiv&iacute;duo com os outros, implica  responsabilidade e tem seus princ&iacute;pios fundamentais &ndash; e deve permear  todas as esferas da pr&aacute;tica individual.<\/p>\n<p>O riso n&atilde;o pode servir de &aacute;libi para uma a&ccedil;&atilde;o eticamente conden&aacute;vel. E  como escreveu Wittgenstein em um dos seus Aforismos, &ldquo;o humor n&atilde;o &eacute; um  estado de esp&iacute;rito, mas uma vis&atilde;o de mundo&rdquo;, h&aacute; de ser contra toda vis&atilde;o  de mundo preconceituosa, que segrega e inferioriza. A hist&oacute;ria deve  marchar para frente, avan&ccedil;ar guiada pelo princ&iacute;pio &eacute;tico da igualdade, e  em hip&oacute;tese alguma retroceder &ndash; nem se for de &ldquo;brincadeira&rdquo;.<\/span><\/p>\n<p><em><span class=\"padrao\">*<strong>Rodolfo Vianna<\/strong> &eacute; jornalista e membro do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns humoristas, ao ser contra o &ldquo;politicamente correto&rdquo;,  refor&ccedil;am o car&aacute;ter conservador e perverso do riso<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25586"}],"collection":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25586"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25586\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25586"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25586"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25586"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}