{"id":25512,"date":"2011-04-14T12:49:12","date_gmt":"2011-04-14T12:49:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25512"},"modified":"2011-04-14T12:49:12","modified_gmt":"2011-04-14T12:49:12","slug":"a-foxconn-e-os-direitos-trabalhistas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25512","title":{"rendered":"A Foxconn e os direitos trabalhistas no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A Foxconn, empresa de origem taiwanesa respons&aacute;vel pela fabrica&ccedil;&atilde;o de produtos como iPad, PlayStation, Wii e Xbox, al&eacute;m de celulares para diversas marcas, planeja investir US$ 12 bilh&otilde;es no Brasil nos pr&oacute;ximos cinco anos para produzir telas de computador e tablets. A montagem de iPads come&ccedil;aria, por aqui, at&eacute; o final do ano. O projeto envolveria 100 mil empregos.<\/p>\n<p>A not&iacute;cia de gera&ccedil;&atilde;o de postos de trabalho, claro, sempre &eacute; positiva. Mas estava matutando, procurando saber como o senhor Terry Gou, dono da empresa, e seu parceiro Steve Jobs, pretendem fazer dinheiro por aqui. Nossa legisla&ccedil;&atilde;o ambiental &eacute; bem mais rigorosa (no que pesem os esfor&ccedil;os do Congresso Nacional de pod&aacute;-la com motosserra), ou seja, um projeto dessa monta vai ter impactos e, consequentemente, condicionantes e passivos. Isso sem contar que a for&ccedil;a de trabalho por aqui &eacute; melhor remunerada, com sindicatos mais fortes e uma fiscaliza&ccedil;&atilde;o do trabalho mais atuante. Por fim, mas n&atilde;o menos importante, nosso c&acirc;mbio est&aacute; valorizado, ao contr&aacute;rio da China &ndash; onde a Foxconn tem cerca de um milh&atilde;o de empregados e uma gigantesca plataforma de exporta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A entrada de investimentos &eacute; alvissareira desde que os parceiros de fora (e seus poss&iacute;veis parceiros locais &ndash; n&eacute;, Eike?) n&atilde;o pressionem por mudan&ccedil;as nas leis que garantem qualidade de vida aos que moram por aqui. E, acima de tudo, que as respeitem. O Brasil tem conseguido tratar algumas importantes conven&ccedil;&otilde;es da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho como piso e n&atilde;o como teto, em outras palavras, leis nacionais protegem o trabalhador al&eacute;m do m&iacute;nimo acordado nas Na&ccedil;&otilde;es Unidas &ndash; enquanto a China, entre outros exemplos de crescimento, usam como teto e olhe l&aacute;.<\/p>\n<p>No ano passado, a Foxconn, teve &ndash; pelo menos &ndash; oito casos de suic&iacute;dio de empregados em territ&oacute;rio chin&ecirc;s. Por exemplo, um jovem de 21 anos se jogou de um pr&eacute;dio da empresa em Shenzen, um dos p&oacute;los tecnol&oacute;gicos do pa&iacute;s, por exemplo. Os que defendem a empresa dizem que isso est&aacute; dentro das taxas de suic&iacute;dio da sociedade, haja vista o tamanho da gigante de tecnologia. Nada relacionado a longas jornadas de trabalho, pouco descanso, muita cobran&ccedil;a, baixa qualidade de vida, enfim, tudo o que nos enlouquece no dia-a-dia.<\/p>\n<p>Neste ano, o concurso &ldquo;Public Eye Awards&rdquo; (algo como o &ldquo;Pr&ecirc;mio Vigilante P&uacute;blico&rdquo;) trouxe seis finalistas para serem escolhidas a pior empresa do mundo em se tratando de respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente. A Foxconn foi uma delas. De acordo com o concurso, &ldquo;a ind&uacute;stria de eletr&ocirc;nicos taiwan&ecirc;s Foxconn produz equipamentos de alto tecnologia para marcas como Apple, Dell e Nokia, pagando sal&aacute;rios miser&aacute;veis. Devido ao controle da for&ccedil;a de trabalho ao estilo militar adotado nas instala&ccedil;&otilde;es da empresa na China, ao menos 18 empregados tentaram suic&iacute;dio no ano passado&rdquo;.<\/p>\n<p>A realidade de l&aacute; &eacute; diferente da daqui, &eacute; claro. Mas na toada em que vamos, em que o modelo chin&ecirc;s de desenvolvimento vem se tornando um mantra (nessa hora, ningu&eacute;m lembra do regime pol&iacute;tica de l&aacute;, n&eacute;? Uma gra&ccedil;a!), &eacute; sempre bom manter os olhos naquele m&iacute;nimo de prote&ccedil;&atilde;o que a nossa sociedade conseguiu em um s&eacute;culo de di&aacute;logos e enfrentamentos. Crescer &eacute; importante, mas nunca esquecendo para qu&ecirc;.<\/p>\n<p>Algu&eacute;m vai dizer: &ldquo;deixa de ser chato, japon&ecirc;s!&rdquo; Mas para ironizar a Gloriosa: o pre&ccedil;o da liberdade &eacute; a eterna vigil&acirc;ncia (sabia que, um dia, eu usaria essa frase para alguma coisa&hellip;)<\/p>\n<p>Gosto de uma hist&oacute;ria que j&aacute; contei aqui: H&aacute; mais de 50 anos, o &ldquo;dem&ocirc;nio&rdquo; apareceu para um grupo de oper&aacute;rias que trabalhavam em uma linha de produ&ccedil;&atilde;o de uma f&aacute;brica de cer&acirc;mica em S&atilde;o Caetano do Sul. A&ccedil;&otilde;es modernizadoras aceleraram o ritmo industrial da produ&ccedil;&atilde;o de ladrilhos, sem que isso fosse devidamente informado &agrave;s trabalhadoras. Com a atualiza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, a se&ccedil;&atilde;o que escolhia os ladrilhos, exclu&iacute;da das decis&otilde;es que levaram &agrave;s mudan&ccedil;as, continuou manual, mas subjugada &agrave; nova velocidade do maquin&aacute;rio. Muitos ladrilhos come&ccedil;aram a sair defeituosos, levando tens&atilde;o &agrave;s oper&aacute;rias dessa se&ccedil;&atilde;o, que tiveram dificuldade para cumprir seu servi&ccedil;o. Oriundas de uma comunidade cat&oacute;lica, as trabalhadoras creditaram tal fato &agrave; presen&ccedil;a do diabo na f&aacute;brica: o Coisa Ruim teria o jeit&atilde;o e o sorriso dos engenheiros, que controlavam tudo de cima. Foi demandada uma missa no local e que a m&aacute;quina de ladrilhos fosse benzida. O diabo desapareceu. N&atilde;o apenas por conta daquele ato simb&oacute;lico, mas tamb&eacute;m pelo fato da m&aacute;quina ser ajustada para n&atilde;o causar mais problemas&hellip;<\/p>\n<p>Essa hist&oacute;ria foi analisada pelo professor Jos&eacute; de Souza Martins em um artigo que se tornou famoso por tratar das conseq&uuml;&ecirc;ncias da moderniza&ccedil;&atilde;o industrial. Segundo ele, quando se separa radicalmente o pensar e o fazer no processo de trabalho, o imagin&aacute;rio pode preencher esse vazio para lhe dar sentido. O dem&ocirc;nio apareceu como a figura&ccedil;&atilde;o da amea&ccedil;a &agrave; humanidade do ser humano pela racionaliza&ccedil;&atilde;o do trabalho. Para enfrentar o problema dos suic&iacute;dios, a Foxconn chegou a chamar monges budistas para realizar cerim&ocirc;nias a fim de mandar os maus esp&iacute;ritos para longe.<\/p>\n<p>Adaptando o professor Martins, chamar monges na China ou padres em S&atilde;o Caetano do Sul tem o mesmo objetivo de tentar restituir as f&aacute;bricas ao &ldquo;tempo c&oacute;smico e qualitativo que fora banido com a completa sujei&ccedil;&atilde;o de todo o processo de trabalho ao tempo linear, quantitativo, repetitivo da produ&ccedil;&atilde;o automatizada&rdquo;.<\/p>\n<p>E quando somos n&oacute;s mesmos, nosso modelo de desenvolvimento e nossa forma de fazer neg&oacute;cios globalmente que trazem sistematicamente os &ldquo;maus esp&iacute;ritos&rdquo;? O que fazer?<br \/><\/span><\/p>\n<p><span class=\"padrao\"><br \/><\/span><span class=\"padrao\"><em><strong>Leonardo Sakamoto<\/strong> &eacute; jornalista e doutor em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica. Cobriu  conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste,  Angola e no Paquist&atilde;o. J&aacute; foi professor de jornalismo na USP e, hoje,  ministra aulas na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o da PUC-SP. Trabalhou em diversos  ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o, cobrindo os problemas sociais brasileiros. &Eacute;  coordenador da ONG Rep&oacute;rter Brasil e seu representante na Comiss&atilde;o  Nacional para a Erradica&ccedil;&atilde;o do Trabalho Escravo.<\/em><br \/><\/span> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A not&iacute;cia de gera&ccedil;&atilde;o de postos de trabalho, claro, sempre &eacute; positiva.  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