{"id":25501,"date":"2011-04-08T16:15:56","date_gmt":"2011-04-08T16:15:56","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=25501"},"modified":"2011-04-08T16:15:56","modified_gmt":"2011-04-08T16:15:56","slug":"o-duplo-perfil-do-facebook","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=25501","title":{"rendered":"O Duplo Perfil do Facebook"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A internet mudou o mundo. Segue transformando-o. E a mais recente transforma&ccedil;&atilde;o &eacute; consequ&ecirc;ncia da inven&ccedil;&atilde;o do Facebook por Mark Zuckerberg. Seis anos atr&aacute;s, aos 19 anos, ele lan&ccedil;ou o mais bem sucedido e abrangente site de rede social. Porque, como a grande maioria dos garotos de sua gera&ccedil;&atilde;o, acreditou que uma id&eacute;ia na cabe&ccedil;a e alguns c&oacute;digos &agrave; m&atilde;o o fariam bilion&aacute;rio. Acertou. Isso o torna a express&atilde;o perfeita do fluido capitalismo contempor&acirc;neo, que vive de nos vender &ndash; o que somos e fazemos &ndash; produzindo uma inestim&aacute;vel sensa&ccedil;&atilde;o de liberdade.<\/p>\n<p>No ano que se encerrou, conforme registra o livro The Connector, lan&ccedil;ado recentemente nos Estados Unidos, a inven&ccedil;&atilde;o de Zuckerberg atingiu a marca de 550 milh&otilde;es de usu&aacute;rios. &ldquo;Uma em cada d&uacute;zia de seres humanos existentes no planeta usa a ferramenta. Elas falam 75 l&iacute;nguas e coletivamente gastam mais de 700 bilh&otilde;es de minutos no Facebook todos os meses. No &uacute;ltimo m&ecirc;s de 2010 o site angariou uma de cada quatro p&aacute;ginas de internet visitadas nos Estados Unidos. Essa comunidade tem crescido ao ritmo de cerca de 700 mil pessoas por dia&rdquo;.<\/p>\n<p>Por essa e outras raz&otilde;es &ndash; algumas delas vamos tentar descrever neste texto &ndash;, o Facebook passou a concentrar a aten&ccedil;&atilde;o dos homens e mulheres que dedicam suas vidas a pesquisar e avaliar os fen&ocirc;menos pol&iacute;ticos, econ&ocirc;micos, sociais e culturais que s&atilde;o reflexo da emerg&ecirc;ncia da rede mundial de computadores.<\/p>\n<p>&Eacute; bom alertar, estamos diante de um paradoxo que n&atilde;o compreenderemos por meio de leituras dicot&ocirc;micas. Para aquilo que &eacute; l&iacute;quido, busque-se o recipiente correto, sen&atilde;o a an&aacute;lise escorre pelas frestas. Esse paradoxo consiste em: por um lado, a rede social de Zuckerberg &eacute;, sem sombra de d&uacute;vida, um elemento fundamental para a explos&atilde;o do uso da web &ndash; inclusive proporcionando impactos pol&iacute;ticos inestim&aacute;veis, como na Tun&iacute;sia e no Egito; por outro, integra e aprofunda o movimento de cercamento &agrave;s reais liberdades que marcaram a internet desde a sua cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Esse cerco &agrave; internet livre &eacute; produzido por uma alian&ccedil;a entre governos conservadores, ind&uacute;stria da propriedade cultural, empresas de telefonia e algumas das emergentes corpora&ccedil;&otilde;es do mundo das redes, com diferentes n&iacute;veis de envolvimento de cada um desses atores.<\/p>\n<p>O papel do Facebook nessa epop&eacute;ia &eacute; o do monop&oacute;lio, que busca transformar uma parte (um site) em todo (a rede). A ambi&ccedil;&atilde;o de Zuckerberg &eacute; que todo cidad&atilde;o conectado &agrave; internet &ndash; atualmente cerca de 2 bilh&otilde;es de seres humanos -, tenha um perfil no Facebook e possa se relacionar lateralmente por meio da ferramenta. Diz fazer isso porque quer ver o mundo mais &ldquo;aberto e conectado&rdquo;. N&atilde;o &eacute; verdade.<\/p>\n<p>Para entendermos porque essa declara&ccedil;&atilde;o &eacute; falsa, primeiramente precisamos compreender a qual campo fazemos refer&ecirc;ncia quando falamos do Facebook.<\/p>\n<p>Segundo danah boyd, estudiosa do tema e consultora de grandes empresas do mundo, um site de rede social tem tr&ecirc;s caracter&iacute;sticas: 1) permitir ao usu&aacute;rio construir um perfil; 2) articular uma lista de amigos e conhecidos; e 3) visualizar e cruzar sua lista de amigos com os seus associados e com outras pessoas dentro do sistema.<\/p>\n<p>O primeiro site com essas caracter&iacute;sticas foi lan&ccedil;ado em 1997, portanto apenas um ano depois de a internet se tornar comercial no Brasil. A explos&atilde;o desse modelo, no entanto, ocorreria a partir de 2002, com a cria&ccedil;&atilde;o do Friendster e, logo depois, do MySpace.<\/p>\n<p>No Brasil, diferentemente de outros pa&iacute;ses, a experi&ecirc;ncia foi singular. O que o mundo vem experimentando nos &uacute;ltimos dois anos com o crescimento do Facebook (todos os seus &ldquo;amigos&rdquo; trocando mensagens, fotos, v&iacute;deos, entre outras informa&ccedil;&otilde;es, em um mesmo ambiente controlado), os brasileiros experimentaram a partir de 2004 com a invas&atilde;o do Orkut, o site de relacionamento criado pelo Google que segue l&iacute;der de audi&ecirc;ncia por aqui.<\/p>\n<p>At&eacute; pouco tempo &ndash; e n&atilde;o seria impreciso demarcar que o Facebook tamb&eacute;m &eacute; respons&aacute;vel por isso &ndash; as redes sociais foram observadas apenas como fen&ocirc;meno adolescente, sem grande import&acirc;ncia ou impacto no ecossistema midi&aacute;tico. Nos &uacute;ltimos anos, no entanto, isso mudou, principalmente porque essas redes passaram a redefinir a forma como as pessoas consomem e circulam informa&ccedil;&otilde;es. Conforme escreve Grossman, um dos principais objetivos de Zuckerberg &eacute; mudar a &ldquo;forma como a m&iacute;dia &eacute; organizada, para reconstru&iacute;-la a partir da oligarquia benevolente de sua lista de amigos como princ&iacute;pio dessa reorganiza&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Quando isso ficou evidente, o tema redes sociais ganhou outro tratamento por parte dos detentores de poder.<\/p>\n<p><strong>Redes s&atilde;o pessoas<\/strong><\/p>\n<p>&ldquo;As pessoas fazem as redes sociais para al&eacute;m delas mesmas&rdquo;, explica Andr&eacute; Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia e autor, com Pierre L&eacute;vy, de O Futuro da Internet, lan&ccedil;ado no ano passado. &ldquo;A rede n&atilde;o &eacute; o canal por onde passam coisas, como pensamos comumente, mas algo fluido, movente: ela &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o que se estabelece, a cada momento, entre os diversos atores. Ela &eacute; o que agrega. Ela faz o social&rdquo;.<\/p>\n<p>Como outras &ndash; mas melhor que qualquer uma &ndash; a ferramenta de Zuckerberg se prop&otilde;e justamente facilitar a aproxima&ccedil;&atilde;o entre pessoas, o que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel porque as massas, de fato, aderiram &agrave; plataforma.<\/p>\n<p>&ldquo;O sucesso do Facebook demonstra que as pessoas querem se relacionar&rdquo;, opina S&eacute;rgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e eleito em janeiro para uma das representa&ccedil;&otilde;es da sociedade civil no Comit&ecirc; Gestor da Internet no Brasil (CGI-Br). &ldquo;Ao contr&aacute;rio do que foi sentenciado pelos tecnof&oacute;bicos, a rede permite aproximar as pessoas e intensifica os relacionamentos. O Facebook e outras redes sociais s&atilde;o articuladores coletivos, por isso, canalizam os processos de convoca&ccedil;&atilde;o, mobiliza&ccedil;&atilde;o e solidariedade&rdquo;<\/p>\n<p>Para Giselle Beiguelman, artista multim&iacute;dia e professora da Universidade de S&atilde;o Paulo, &ldquo;&eacute; importante perceber, no entanto, que ao mesmo tempo em que redes sociais como o Facebook abrem possibilidades in&eacute;ditas de fomento do consumo e controle, tornam-se tamb&eacute;m dispositivos de uso cr&iacute;tico e criativo das m&iacute;dias existentes. Por isso, apontam para diferentes concep&ccedil;&otilde;es e tend&ecirc;ncias pol&iacute;ticas da ecologia midi&aacute;tica atual.&rdquo;<\/p>\n<p>Essa ambival&ecirc;ncia estrutura o paradoxo ao qual nos referimos anteriormente. Ao obcecadamente buscar fazer melhor aquilo que a web se prop&otilde;e a fazer, mimetizando-a em um ambiente controlado, Zuckerberg constr&oacute;i talvez a mais definitiva amea&ccedil;a &agrave;s liberdades que constitu&iacute;ram a estrutura inovadora da rede mundial de computadores.<\/p>\n<p>N&atilde;o &agrave; toa, Tim Berners Lee, o inventor da web, deixou de lado sua postura pouco beligerante, para se posicionar claramente contra esse movimento do Facebook em um artigo publicado no ano passado na Scientific American.<\/p>\n<p>Em &ldquo;Vida Longa a Web: um chamado pela continuidade dos padr&otilde;es abertos e da neutralidade de rede&rdquo;, Berners Lee faz duas cr&iacute;ticas ao invento de Zuckerberg: a) ao n&atilde;o permitir que informa&ccedil;&otilde;es produzidas e publicadas em sites de rede social circulem livremente (voc&ecirc; s&oacute; as acessa se estiver vinculado ao banco de dados da empresa) esses projetos trabalham pela destrui&ccedil;&atilde;o da universalidade da web, que &eacute; uma de suas caracter&iacute;sticas mais fundamentais; b) seu crescimento exagerado conforma um monop&oacute;lio que acabar&aacute; por limitar a inova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Para entender a cr&iacute;tica descrita no ponto &ldquo;a&rdquo;, &eacute; preciso desfazer uma confus&atilde;o comum entre dois termos que s&atilde;o comumente utilizados como sin&ocirc;nimos, mas n&atilde;o s&atilde;o: internet e web. Internet &eacute; uma rede de redes, evolu&ccedil;&atilde;o das pesquisas militares da segunda metade do s&eacute;culo 20 que desembocaram no desenvolvimento de protocolos de interoperabilidade que permitiram a conex&atilde;o entre diferentes redes f&iacute;sicas (como o Internet Protocol IP, criado por Vint Cerf).<\/p>\n<p>A world wide web (WWW) foi criada no in&iacute;cio dos anos 90 e pode ser explicada como uma camada visual da rede que para ser acessada necessita de um software de navega&ccedil;&atilde;o (um navegador, como o Firefox, o Chrome ou o Internet Explorer). Todos os protocolos criados s&atilde;o de livre uso e constituiu-se ent&atilde;o um Cons&oacute;rcio, chamado W3C, que se dedica a manter a abertura e a flexibilidade dessas aplica&ccedil;&otilde;es, melhorando-as.<\/p>\n<p>Para sustentar sua cr&iacute;tica de que o Facebook promove a fragmenta&ccedil;&atilde;o da web, Berners-Lee escreve: &ldquo;o isolamento ocorre porque cada peda&ccedil;o de informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem um endere&ccedil;o. (&hellip;) Conex&otilde;es entre os dados s&oacute; existem dentro de um site. Assim, quanto mais voc&ecirc; entra, mais voc&ecirc; se tranca em seu site de redes sociais tornando-o uma plataforma central, um silo fechado de conte&uacute;do, e que n&atilde;o lhe d&aacute; total controle sobre suas informa&ccedil;&otilde;es. Quanto mais esse tipo de arquitetura ganha uso generalizado, mais a web torna-se fragmentada, e menos temos um &uacute;nico espa&ccedil;o de informa&ccedil;&atilde;o universal.&rdquo;<br \/><strong><br \/>Um monop&oacute;lio e seu produto: n&oacute;s<\/strong><\/p>\n<p>&ldquo;O Facebook atua estranhamente como um concentrador de aten&ccedil;&otilde;es e uma &ldquo;draga&rdquo; de conte&uacute;dos. Nele tudo pode entrar, mas nada pode sair&rdquo;, refor&ccedil;a S&eacute;rgio Amadeu. &ldquo;O Facebook apaga postagens e elimina perfis sem nenhuma obriga&ccedil;&atilde;o de avisar os usu&aacute;rios. Atuou contra o Wikileaks atendendo os interesses do governo norte-americano. A democracia inexiste no conv&iacute;vio com os gestores do Facebook. Se o Facebook fosse um pa&iacute;s seria uma ditadura e Mark Zuckerberg um d&eacute;spota de novo tipo&rdquo;.<\/p>\n<p>Em entrevista publicada no livro The Connector, Zuckerberg admite o objetivo de constituir um gigantesco banco de dados sob seu controle. &ldquo;Estamos tentando mapear o que existe no mundo&rdquo;, diz ele. De acordo com Grossman, &ldquo;ser membro do Facebook &eacute; o equivalente a ter um passaporte. Ou seja, ele &eacute; uma ferramenta para verifica&ccedil;&atilde;o de sua identidade, n&atilde;o apenas no Facebook, mas onde quer que se esteja online&rdquo;.<\/p>\n<p>&ldquo;Ferramentas como o Facebook est&atilde;o no centro do chamado capitalismo cognitivo que precisam para existir mobilizar todas as for&ccedil;as afetivas, criativas, comunicacionais. Mobilizar a &lsquo;vida&rsquo; como um todo&rdquo;, escreve Ivana Bentes, coordenadora do curso de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. &ldquo;Esses dispositivos servem simult&acirc;neamente a cria&ccedil;&atilde;o e ao controle, que &eacute; a forma de operar do p&oacute;s-capitalismo, &eacute; a l&oacute;gica do Google e do Facebook. Modular a &lsquo;autonomia&rsquo; e a &lsquo;liberdade&rsquo; indispens&aacute;veis na produ&ccedil;&atilde;o atual imaterial (design, moda, estilos de vida, conhecimento, tudo que &eacute; inova&ccedil;&atilde;o).&rdquo;<\/p>\n<p>Tim Wu, ativista pela liberdade da rede, professor de direito da Universidade de Columbia, autor do livro The Master Switch &ndash; The Rise and Fall of Information Empires, ajuda-nos a explicar o que vem ocorrendo com a web com base naquilo que ele chama de o ciclo padr&atilde;o de desenvolvimento midi&aacute;tico. Ele apresentou essa sua interpreta&ccedil;&atilde;o no Semin&aacute;rio sobre Cidadania Digital organizado por Amadeu da Silveira em 2009. Para ele, ao surgir, uma m&iacute;dia se caracteriza por: abertura, amadorismo e competi&ccedil;&atilde;o. Depois, tende &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de monop&oacute;lios propriet&aacute;rios fechados. Isso estaria agora ocorrendo com a internet, a qual estaria deixando para tr&aacute;s o tempo da inova&ccedil;&atilde;o em dire&ccedil;&atilde;o ao dom&iacute;nio de grandes monop&oacute;lios (entre os quais o Facebook).<\/p>\n<p>A arquitetura de padr&otilde;es abertos e distribu&iacute;dos da internet permitiu que a inova&ccedil;&atilde;o brotasse no quintal de casa. No Vale do Sil&iacute;cio garagens viraram museus, onde est&atilde;o registrados os prim&oacute;rdios dos objetos e interfaces que hoje todos utilizamos. A principal contradi&ccedil;&atilde;o no caso do Facebook &eacute; a de ter se beneficiado desse ambiente inovador para agora tra&iacute;-los, em um movimento que ningu&eacute;m &eacute; capaz de definir onde desembocar&aacute;, uma vez que sobram d&uacute;vidas sobre qual ser&aacute; o destino que Zuckerberg dar&aacute; para todo esse arsenal informa&ccedil;&atilde;o que ele passou a comandar.<\/p>\n<p>Giselle, para quem todas essas cr&iacute;ticas s&atilde;o essenciais, soma mais alguns elementos a esse paradoxo que estamos descrevendo: &ldquo;a vulnerabilidade das informa&ccedil;&otilde;es pessoais no Facebook &eacute; constantemente apontada como um dos seus problemas. Contudo, &eacute; bom lembrar, que num mundo mediado por bancos de dados de toda sorte &ndash; de programas de busca a redes sociais, passando pelas &lsquo;Amazons&rsquo; da vida e as catracas da empresa e da escola &ndash;, somos uma esp&eacute;cie de plataforma que disponibiliza informa&ccedil;&otilde;es e h&aacute;bitos conforme constru&iacute;mos nossas identidades p&uacute;blicas nos diversos servi&ccedil;os relacionados ao nosso consumo, lazer e trabalho&rdquo;.<\/p>\n<p>O caso do Egito<\/p>\n<p>Em meio a cr&iacute;ticas e desconfian&ccedil;as, o Facebook segue avan&ccedil;ando. Uma das raz&otilde;es para isso, segundo Grossman, &eacute; que o &ldquo;Facebook faz mais o ciberespa&ccedil;o como o mundo real: ma&ccedil;ante, mas civilizado. Considerando que as pessoas levavam uma vida dupla, o real eo virtual, agora eles levam como uma s&oacute; novamente.&rdquo;<\/p>\n<p>Outra raz&atilde;o que ajuda a explicar o sucesso da ferramenta &eacute; a crescente utiliza&ccedil;&atilde;o da plataforma para fins pol&iacute;ticos, como no caso dos protestos contra o ditador eg&iacute;picio Hosni Mubarak. No per&iacute;odo em que as manifesta&ccedil;&otilde;es tiveram in&iacute;cio (e antes de o governo &ldquo;desligar&rdquo; a internet como forma de reprimir as movimenta&ccedil;&otilde;es) o Facebook chegou a concentrar 40% de todo o tr&aacute;fego de dados daquele pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Isso demonstra que os bancos de dados que nos espreitam tamb&eacute;m s&atilde;o instrumentos que servem &agrave; desobedi&ecirc;ncia. &ldquo;Facebook e Google oferecem ferramentas de express&atilde;o, de ativismo, de cria&ccedil;&atilde;o (os dispositivos como pot&ecirc;ncia s&atilde;o incr&iacute;veis!) e ao mesmo tempo &lsquo;capturam&rsquo; essa pot&ecirc;ncia, monetizam&rdquo;, descreve Ivana. &ldquo;A batalha do p&oacute;s-capitalismo, a mat&eacute;ria do Facebook s&atilde;o os&nbsp; fluxos da pr&oacute;pria vida. N&oacute;s somos o produto, mas n&oacute;s somos os sujeitos da colabora&ccedil;&atilde;o, das trocas, da coopera&ccedil;&atilde;o social. O desespero do capital hoje &eacute; ser t&atilde;o n&ocirc;made e fluido quanto a vida, da&iacute; as ferramentas de colabora&ccedil;&atilde;o serem hoje as mesmas do comando e do controle.&rdquo;<\/p>\n<p>O caso do Egito &eacute; emblem&aacute;tico n&atilde;o s&oacute; do uso da internet para movimenta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, mas em especial do uso feito do Facebook. Foi por meio do site de rede social o Movimento Jovem 6 de Abril organizou suas primeiras manifesta&ccedil;&otilde;es. Conforme descrito em mat&eacute;ria publicada pelo The New York Times, os organizadores reuniram mais de 90 mil assinaturas online e com isso conseguiram encorajar as pessoas a irem para a rua.<\/p>\n<p>&Agrave; internet, sem d&uacute;vida, coube um papel fundamental, mas &eacute; preciso tamb&eacute;m relativiz&aacute;-lo. &ldquo;No caso do conflito no Egito, a rede de atores &eacute; composta por inst&acirc;ncias diversas: pessoas, discursos, redes sociais (Facebook e Twitter, os mais usados), SMS e telefones celulares, cartazes em pra&ccedil;a p&uacute;blica, repercuss&atilde;o na m&iacute;dia internacional, debates televisivos, luta corporal etc&rdquo;, explica Lemos. &ldquo;Nesse sentido, acho excelente que o Facebook seja usado para articular pessoas para a causa eg&iacute;pcia. Isso para al&eacute;m do Facebook. As redes sociais s&atilde;o um elemento importante de publiciza&ccedil;&atilde;o do descontentamento eg&iacute;pcio, mas elas n&atilde;o fazem, sozinhas, a revolu&ccedil;&atilde;o&rdquo;<\/p>\n<p>Para Ivana Bentes, &ldquo;o decisivo &eacute; que o desejo, a cria&ccedil;&atilde;o, a colabora&ccedil;&atilde;o vem antes e n&atilde;o se reduzem ao comando, transbordam os dispositivos, mesmo quando s&atilde;o capturadas, rastreadas, monetizadas. Para ser mais brutal eu diria que por enquanto precisamos tamb&eacute;m dos Facebooks e Googles para fazer a insurrei&ccedil;&atilde;o digital que ser&aacute; decisiva para inventarmos uma nova pol&iacute;tica para o s&eacute;culo XXI. P&oacute;s-Google e P&oacute;s-Face&rdquo;.<\/p>\n<p>* Este texto foi constru&iacute;do a partir do di&aacute;logo com os professores Andr&eacute; Lemos (Universidade Federal da Bahia &ndash; UFBA), Gisele Beiguelman (Universidade de S&atilde;o Paulo &ndash; USP), Ivana Bentes (Universidade Federal do Rio de Janeiro &ndash; UFRJ) e S&eacute;rgio Amadeu da Silveira (Universidade Federal do ABC &ndash; UFABC).<\/p>\n<p><\/span><em><strong>Rodrigo Savazoni<\/strong> &eacute; Webproducer e realizador multim&iacute;dia. Diretor do  Laborat&oacute;rio Brasileiro de Cultura Digital e um dos criadores da Casa da  Cultura Digital. Co-organizou os livros &ldquo;Vozes da Democracia&rdquo; (Imprensa  Oficial, 2007) e &ldquo;Cultura Digital.BR&rdquo; (Azougue, 2009). Tamb&eacute;m foi  professor do curso de p&oacute;s-gradu&ccedil;&atilde;o de jornalismo on-line da PUC-SP. Em  2008, foi editor especial do estadao.com.br, respons&aacute;vel pelo  desenvolvimento do projeto Vereador Digital, entre outros. Entre 2004 e  2007 conduziu a reformula&ccedil;&atilde;o da Ag&ecirc;ncia Brasil como chefe de reda&ccedil;&atilde;o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Estamos diante de um paradoxo que por um lado &eacute; um elemento fundamental para a  explos&atilde;o do uso da web e por outro integra e aprofunda  o movimento de cercamento &agrave;s reais liberdades da <\/span><span class=\"padrao\"> internet.<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1516],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25501"}],"collection":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25501"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25501\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25501"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25501"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25501"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}