{"id":22193,"date":"2008-11-28T16:17:29","date_gmt":"2008-11-28T16:17:29","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22193"},"modified":"2008-11-28T16:17:29","modified_gmt":"2008-11-28T16:17:29","slug":"sobre-sindicatos-diplomas-e-ouvidorias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22193","title":{"rendered":"Sobre sindicatos, diplomas e ouvidorias"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">A discuss&atilde;o sobre a exig&ecirc;ncia do diploma para exercer a profiss&atilde;o de jornalista merece um outro ponto de vista, n&atilde;o longe dessa arenga, claro. Quero refletir sobre as mudan&ccedil;as da modernidade (ou p&oacute;s-isso) e o papel dos sindicatos e da sua federa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Um dos elementos-chaves das mudan&ccedil;as &eacute; o fato da era Gutenberg estar se extinguindo ou, pelo menos, deixando de ser o foco da comunica&ccedil;&atilde;o. Traduzindo: as not&iacute;cias j&aacute; n&atilde;o precisam de tinta e papel para circular. Desconfio (porque n&atilde;o tenho a numerologia) que a maior parte dos fatos ou acontecimentos (como diria Mouillaud) j&aacute; est&aacute; na internet; a not&iacute;cia j&aacute; n&atilde;o precisa virar jornal ou revista para ser not&iacute;cia. E tem mais &ndash; aten&ccedil;&atilde;o, irm&atilde;os de f&eacute;! &ndash; boa parte do que circula como informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; produzido por jornalistas.<\/p>\n<p>Enfim, estamos apenas no come&ccedil;o de algo que se avizinha maior que o tsunami. Todo mundo vai virar fonte, todo mundo vai produzir not&iacute;cia, todo mundo &eacute; not&iacute;cia. A &uacute;nica sa&iacute;da &eacute; fechar a internet e proibir as pessoas de falarem, fotografarem e escreverem. Ou ent&atilde;o, estabelecer: s&oacute; pode fazer not&iacute;cia, escrever not&iacute;cia, distribuir not&iacute;cia quem fizer um curso superior de Jornalismo. N&atilde;o vai ser f&aacute;cil estabelecer esta censura. Com a &aacute;gora cibern&eacute;tica mundial, misto de clube de amigos e espa&ccedil;o de xingamento planet&aacute;rio, lugar onde se pode saber o que ocorre na Eslov&ecirc;nia ou na Manch&uacute;ria antes dos jornais, todo mundo vai querer escrever, mostrar sua foto, fazer &quot;reportagens&quot;, fazer-se de jornalista, pelo menos.<\/p>\n<p><strong>Enunciadores se transformam em um s&oacute;<\/strong><\/p>\n<p>A internet est&aacute; pondo em xeque a imprensa. Como dizer o que j&aacute; foi dito? Como mostrar o que j&aacute; foi mostrado? E, do ponto de vista ideol&oacute;gico, como manter o pensamento &uacute;nico se todo mundo agora tem acesso a outras fontes, isto &eacute;, o &quot;pensamento &uacute;nico&quot; se tornou apenas o pensamento um? Hoje &eacute; corrente que qualquer pessoa tem acesso a v&aacute;rias vers&otilde;es do mesmo fato; s&atilde;o vers&otilde;es que se contrap&otilde;em ou se somam aquilo que foi dito em tom maior.<\/p>\n<p>E n&atilde;o &eacute; de agora. Quando os Estados Unidos resolveram invadir o Iraque, a grande imprensa mundial (e os clones nacionais) reproduziu os releases do Departamento de Estado norte-americano garantindo que Saddam Hussein tinha armas de destrui&ccedil;&atilde;o em massa. Mas quem tinha um computador e acesso &agrave; internet sabia que era mentira, tratava-se de um saque, um roubo. Quando os grandes ve&iacute;culos e seus pequeninos rep&oacute;rteres instalados em Nova York ou Bagd&aacute; disseram que n&atilde;o havia armas de destrui&ccedil;&atilde;o em massa, o sujeito l&aacute; em Quixeramobim, Cear&aacute;, no seu barraco, onde pega mui rudimentarmente a internet, falou baixinho: &quot;&Ocirc;xe, mas eu j&aacute; sabia disso&#8230;&quot; Ele e boa parte do mundo.<\/p>\n<p>Este &eacute; apenas um exemplo de como a grande imprensa (e nossos valores guerreiros da not&iacute;cia) deveria pensar duas vezes antes de espalhar uma mentira, ou pelo menos uma meia verdade (o que d&aacute; no mesmo). O que n&atilde;o est&aacute; acontecendo.<\/p>\n<p>Vamos considerar, como Nelson Traquina, que a &quot;teoria conspirat&oacute;ria&quot; de Noam Chomsky seja uma esp&eacute;cie de teoria hipod&eacute;rmica ideol&oacute;gica sobre os profissionais. Isto &eacute;, a tese de Chomsky de que os jornalistas obedecem aos patr&otilde;es que, por sua vez, imp&otilde;em interesses ideol&oacute;gicos e de Estado, estaria furada. Acontece, por&eacute;m, que h&aacute; algo na not&iacute;cia e em quem traz a not&iacute;cia &ndash; o jornalista &ndash; que nos sugere Chomsky. Quando os enunciadores se transformam em um s&oacute; &ndash; pelo querer ou n&atilde;o do patr&atilde;o &ndash; &eacute; porque tem algo muito troncho na categoria dos jornalistas. E isto &eacute; assunto para os sindicatos. Qual a posi&ccedil;&atilde;o do sindicato, ou da Fenaj, quando o jornalista mente, engana a sociedade? Parece que nenhuma.<\/p>\n<p><strong>Objeto de uso restrito<\/strong><\/p>\n<p>Com a multiplica&ccedil;&atilde;o das fontes, &eacute; sabido que a grande imprensa (burguesa, capitalista, cada vez mais um partido pol&iacute;tico, como quiserem tratar) continua cometendo seus grandes crimes; fazendo suas grandes bobagens; distribuindo seus grandes xingamentos&#8230; E a sociedade n&atilde;o tem muitas op&ccedil;&otilde;es para reagir. Conta-se nos dedos da m&atilde;o esquerda os poucos espa&ccedil;os de an&aacute;lise e cr&iacute;tica da m&iacute;dia. Aqui tem o <em>Observat&oacute;rio da Imprensa<\/em>, e acol&aacute; o recifense Fopecom, mais adiante alguns s&iacute;tios acad&ecirc;micos, mais uma ou outra ONG&#8230; e pronto. Acabou. Por que os sindicatos n&atilde;o entram nessa? Corporativismo?<\/p>\n<p>Os sindicatos t&ecirc;m grandes desafios neste momento. Desafios do lado de fora e do lado de dentro.<\/p>\n<p>O que far&atilde;o os sindicatos dos jornalistas e a Fenaj diante do fato de que pedreiros e marceneiros, motoristas de caminh&atilde;o, garis, est&atilde;o fazendo r&aacute;diojornalismo em r&aacute;dios comunit&aacute;rias? V&atilde;o denunciar &agrave; Pol&iacute;cia Federal? &Agrave; KGB? &Agrave; CIA? Ou apenas ao Minist&eacute;rio do Trabalho? Em todas as boas r&aacute;dios comunit&aacute;rias h&aacute; essa realidade: o r&aacute;diojornalismo, ou seja l&aacute; o que for, acontece. Isto &eacute; crime? Se for, a quadrilha hoje deve superar 50 mil meliantes. Dentro de um ano esse n&uacute;mero vai dobrar. E vai sempre aumentar. Haja pres&iacute;dios para botar tanta gente.<\/p>\n<p>Ironias a parte, se a Fenaj e os sindicatos defendem tanto a liberdade de express&atilde;o e a democracia na comunica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podem limitar o direito a liberdade de express&atilde;o ou o fazimento da democracia (como diria Darcy Ribeiro) a uns poucos, aos da entidade, aos da corpora&ccedil;&atilde;o, aos ricos e belos que conseguiram obter um diploma. Isto &eacute;, a democracia ou a comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o podem ser objeto de uso restrito daqueles que dominam determinado campo (Bourdieu).<\/p>\n<p><strong>Governador sem cr&iacute;tica alguma<\/strong><\/p>\n<p>O jornalismo comunit&aacute;rio est&aacute; crescendo apesar das botinadas estatais, da legisla&ccedil;&atilde;o, do governo Lula. E ele n&atilde;o descarta o jornalista formado. &Eacute; isso que os sindicatos (incluindo alguns de radialistas que desprezam quem faz r&aacute;dio comunit&aacute;ria e defendem o patr&atilde;o) dos jornalistas n&atilde;o perceberam. O jornalismo no Brasil dar&aacute; um grande salto quando jornalistas formados se unirem aos jornalistas (ou rep&oacute;rteres) n&atilde;o formados para fazer comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Esta &eacute; a primeira sugest&atilde;o.<\/p>\n<p>A segunda &eacute;: os sindicatos e a Fenaj n&atilde;o podem ficar omissos diante das barbaridades cometidas contra a sociedade pela grande imprensa. Minha proposta &eacute; de que cada sindicato de jornalistas tenha uma ouvidoria para avaliar a atua&ccedil;&atilde;o dos jornalistas. E que essa ouvidoria aja de forma honesta e objetiva em defesa dos interesses maiores, com ampla divulga&ccedil;&atilde;o dos erros e acertos da categoria. Devemos ser corporativos com os interesses maiores da sociedade, e n&atilde;o dos coleguinhas que abusam do seu poder e do crach&aacute; de jornalista para defender patr&atilde;o, seu dinheiro, sua arma&ccedil;&otilde;es e at&eacute; sua m&aacute;-f&eacute; &ndash; coisas, ali&aacute;s, que acontecem em todas as categorias.<\/p>\n<p>Se j&aacute; tiv&eacute;ssemos ouvidorias funcionando no Brasil, certamente alguns jornalistas de proje&ccedil;&atilde;o nacional n&atilde;o estariam cometendo as baixarias que cometem hoje. E melhor ainda seria seu efeito nas localidades.<\/p>\n<p>Por exemplo, 99% dos jornais (e jornalistas) do Distrito Federal n&atilde;o conseguem publicar uma linha de cr&iacute;tica ao atual governador Jos&eacute; Roberto Arruda. N&atilde;o se trata do autor deste artigo ser contra ou a favor de Arruda, mas de defender o jornalismo. Porque n&atilde;o &eacute; preciso ser cr&iacute;tico de jornalismo para perceber que Arruda ainda n&atilde;o chegou &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o divina e, portanto, deve cometer seus erros. O que aparece nos jornais de Bras&iacute;lia, por&eacute;m, &eacute; coisa de outro mundo: &eacute; Arruda inaugurando obras, Arruda obtendo recursos, Arruda defendendo a cidade. <\/p>\n<p>Isto &eacute; jornalismo? Qual a opini&atilde;o da sociedade sobre esse jornalismo? Talvez o jornalista esteja sendo pressionado. Talvez seja uma op&ccedil;&atilde;o sua. Mas caberia ao sindicato denunciar a verdade.<\/p>\n<p><strong>Arrog&acirc;ncia &eacute; ardil dos medrosos<\/strong><\/p>\n<p>No interior do pa&iacute;s, as coisas s&atilde;o mais dantescas. L&aacute;, o poder local (executivo, judici&aacute;rio, legislativo) muitas vezes n&atilde;o aceita uma imprensa cr&iacute;tica; pelo contr&aacute;rio, &eacute; comum o executivo financiar uma imprensa servil. O que o sindicato diz disso? Nada? Pois a sociedade precisa exatamente &eacute; de uma institui&ccedil;&atilde;o que receba as suas cr&iacute;ticas ao mau jornalismo, &agrave;s falcatruas, &agrave;s aberra&ccedil;&otilde;es da profiss&atilde;o.<\/p>\n<p>Com as ouvidorias nos sindicatos, a sociedade poderia questionar o papel do jornalismo e do jornalista, tornando-se um apoio para o cidad&atilde;o e para a cidad&atilde;, hoje desprotegidos, &agrave; merc&ecirc; do poder local que domina a imprensa.<\/p>\n<p>Por princ&iacute;pio um ente aut&ocirc;nomo, o sindicato dos jornalistas tem todas as condi&ccedil;&otilde;es de exercer esta fun&ccedil;&atilde;o. Na verdade, em alguns sindicatos existe um &quot;comit&ecirc; de &eacute;tica&quot; ou de &quot;liberdade de express&atilde;o&quot;. Mas &eacute; um ap&ecirc;ndice limitado do sindicato, ele n&atilde;o supre a car&ecirc;ncia da sociedade de aliados na luta contra o jornalismo de m&aacute; qualidade, que n&atilde;o &eacute; quest&atilde;o de ter ou n&atilde;o diploma.<\/p>\n<p>A cria&ccedil;&atilde;o de ouvidorias nos sindicatos dos jornalistas romperia as barreiras estabelecidas entre os pretensos arautos da verdade e da dec&ecirc;ncia, colocaria no seu devido lugar o jornalismo ruim, faria com que n&oacute;s, jornalistas, nos aproxim&aacute;ssemos mais do nosso p&uacute;blico (Wolton revela que poucos jornalistas est&atilde;o interessados em saber como &eacute; seu p&uacute;blico), aprendendo sobre realidade, gente, povo, sociedade, pessoas, seres humanos, cidadania&#8230; Essas coisas que uma boa parte da categoria despreza. Com as ouvidorias em funcionamento, estar&iacute;amos abrindo um debate com a sociedade sobre o jornalismo e os jornalistas. Ah, sim, poucos t&ecirc;m coragem de fazer isso. Entendo: a arrog&acirc;ncia &eacute; o ardil maior dos medrosos.<\/p>\n<p><em>* Diocl&eacute;cio Luz &eacute; jornalista, escritor, autor de livros sobre r&aacute;dios comunit&aacute;rias e diversos artigos sobre democracia na comunica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A discuss&atilde;o sobre a exig&ecirc;ncia do diploma para exercer a profiss&atilde;o de jornalista merece um outro ponto de vista, n&atilde;o longe dessa arenga, claro. Quero refletir sobre as mudan&ccedil;as da modernidade (ou p&oacute;s-isso) e o papel dos sindicatos e da sua federa&ccedil;&atilde;o. 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