{"id":21888,"date":"2008-10-01T19:25:29","date_gmt":"2008-10-01T19:25:29","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21888"},"modified":"2008-10-01T19:25:29","modified_gmt":"2008-10-01T19:25:29","slug":"em-manaus-e-o-censor-se-desfez-em-lagrimas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21888","title":{"rendered":"Em Manaus: E o censor se desfez em l\u00e1grimas&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t    <\/p>\n<p class=\"western padrao\">A afirma&ccedil;&atilde;o acima mais parece o trecho de uma pe&ccedil;a liter&aacute;ria que nos remete aos per&iacute;odos obscuros da ditadura militar brasileira. Seria uma comovente cena em que um dos &quot;homens-dedo&quot; se d&aacute; conta de seu verdadeiro papel na trama e busca sua pr&oacute;pria reden&ccedil;&atilde;o? N&atilde;o, n&atilde;o se trata disso. A afirma&ccedil;&atilde;o acima se refere a um fato real e, diga-se de passagem, grotesco, pobre e digno das interpreta&ccedil;&otilde;es c&ecirc;nicas dos tele-dramas mexicanos de quinta categoria. O fato a que me refiro descreve exatamente o que aconteceu no in&iacute;cio da tarde do &uacute;ltimo dia 25 de setembro, em rede regional de televis&atilde;o.<\/p>\n<p>O personagem principal &ndash; n&atilde;o o &uacute;nico &ndash; da trama chama-se Eduardo Braga (PMDB), governador do Amazonas, que, diante das c&acirc;meras da TV A Cr&iacute;tica (mais recente afiliada da emissora do bispo), se derramou em l&aacute;grimas quando de sua &quot;oportunidade de defesa&quot; junto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o amazonense em rela&ccedil;&atilde;o a certo &quot;dossi&ecirc;&quot; que andou circulando nas caixas de e-mail dos poucos que t&ecirc;m acesso &agrave; internet por estas bandas (indicadores de 2006 do Cetic apontam que apenas 6,15% das pessoas t&ecirc;m acesso &agrave; grande rede em toda a regi&atilde;o Norte). &quot;Em tempos de guerra, a primeira v&iacute;tima &eacute; a verdade&quot;, j&aacute; diziam. E &eacute; isso o que o Amazonas &ndash; e, sobretudo Manaus, a capital do estado &ndash; vive nesse momento.<\/p>\n<p>N&atilde;o se trata de uma guerra declarada, armada e com lados definidos. O que se v&ecirc; por aqui pode ser taxado de &quot;guerra midi&aacute;tica&quot;, sendo os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o da imprensa bar&eacute; os grandes escudos de infantaria dos ex&eacute;rcitos comandados, em cada lado, por generais sem nome. Ali&aacute;s, n&atilde;o uma guerra. Sejamos precisos: guerrilha. As estrat&eacute;gias n&atilde;o s&atilde;o convencionais. Ou s&atilde;o? Perdoem a confus&atilde;o nos termos, mas a esta altura j&aacute; n&atilde;o sei dizer se o uso de r&aacute;dios, TVs e impressos por parte de pol&iacute;ticos com s&eacute;rias pretens&otilde;es de poder ainda pode ser encarada como &quot;estrat&eacute;gia n&atilde;o convencional&quot;.<\/p>\n<p>Antes de ir direto ao assunto, permitam-se uma breve contextualiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Fact&oacute;ides &quot;plantados?&quot;<\/p>\n<p><\/strong>Vamos aos fatos. Estamos em reta final da campanha municipal e, h&aacute; algum tempo, o jornal <em>Amazonas Em Tempo<\/em>, que at&eacute; pouco tempo atr&aacute;s estava prestes a falir, passou a usar suas capas matinais e agora bem desenhadas e enfeitadas para, supostamente, denunciar o que seriam mentiras de campanha do ent&atilde;o prefeito e candidato &agrave; reelei&ccedil;&atilde;o Serafim Correa (PSB). S&atilde;o coisas do tipo: &quot;a verdade sobre isso&quot;, &quot;a verdade sobre aquilo&quot;. Tudo muito bem escrito por jornalistas sem nome e devidamente acompanhados de artigos, editoriais e charges. Ou seja, toda a m&aacute;quina &quot;jornal&iacute;stica&quot; do <em>Em Tempo<\/em> est&aacute; debru&ccedil;ada sobre o que Ot&aacute;vio Raman, empres&aacute;rio dono do ve&iacute;culo (assim como da retransmissora local R&aacute;dio Transam&eacute;rica Hits e da TV Manauara, repetidora do SBT em Manaus), acredita ser uma cruzada santa para &quot;desmentir&quot; o que o atual prefeito chama de &quot;realiza&ccedil;&otilde;es da administra&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Isso poderia ser considerado apenas como &quot;oposi&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica&quot; do jornal, n&atilde;o fosse sua postura t&atilde;o afinada com um segundo candidato &agrave; prefeitura manauense, Omar Aziz (PMN), que n&atilde;o por acaso &eacute; vice-governador de Braga e, portanto, o protegido &quot;n&uacute;mero um&quot; da m&aacute;quina administrativa do Estado. Para quem n&atilde;o lembra ou n&atilde;o sabe, o Omar Aziz deste artigo &eacute; o mesmo Omar Aziz que ficou conhecido nacionalmente por pressionar parlamentares da Assembl&eacute;ia Legislativa do Amazonas a aprovar, na calada da noite, uma emenda constitucional que lhe garantiria aposentadoria vital&iacute;cia por apenas quatro anos de trabalho. Quando o caso foi divulgado (em notinhas) pelo jornal <em>A Cr&iacute;tica<\/em>, Omar logo tratou de usar de suas &quot;boas rela&ccedil;&otilde;es&quot; com a m&iacute;dia e buscou abafar o caso. S&oacute; n&atilde;o obteve &ecirc;xito completo porque foi grampeado pela Pol&iacute;cia Federal, que fazia a investiga&ccedil;&atilde;o de outro caso. O <em>Em Tempo<\/em>, vale ressaltar, parece ter esquecido de tudo.<\/p>\n<p>Para se ter uma id&eacute;ia do que hoje se tornou o <em>Amazonas Em Tempo<\/em>, basta refletir sobre a presen&ccedil;a de um capit&atilde;o da Pol&iacute;cia Militar no cargo de diretor-executivo do jornal (quaisquer semelhan&ccedil;as com pe&ccedil;as liter&aacute;rias que nos remetem aos per&iacute;odos obscuros da ditadura militar brasileira s&atilde;o apenas mera coincid&ecirc;ncia). N&atilde;o seria &oacute;bvio imaginar que fact&oacute;ides pr&eacute;-fabricados com objetivos espec&iacute;ficos seriam &quot;plantados&quot; no jornal? Pois bem, isto parece ter acontecido tamb&eacute;m. H&aacute; poucos dias, o jornalista M&aacute;rio Adolfo, que h&aacute; anos trabalhou no referido jornal, teve um pequeno desentendimento com o editor, a chefe de reportagem e o PM. Em entrevista concedida ao meu blog, ele mesmo afirmou que passou anos para construir seu nome, e que n&atilde;o iria &quot;p&ocirc;r tudo a perder por causa de vinte dias de campanha&quot;.<\/p>\n<p><strong>Sil&ecirc;ncio &quot;estrat&eacute;gico?&quot;<\/p>\n<p><\/strong>Mas nem tudo parece perdido neste circo da not&iacute;cia. O jornal <em>Di&aacute;rio do Amazonas<\/em>, por sua vez, permanece irredut&iacute;vel em sua postura de enfrentar corajosamente o governo Braga. S&atilde;o capas e capas di&aacute;rias com esc&acirc;ndalos, den&uacute;ncias, transcri&ccedil;&otilde;es de grava&ccedil;&otilde;es e &quot;c&oacute;pias&quot; de documentos que atestam Eduardo Braga disso e daquilo. Apesar de tudo, tal posi&ccedil;&atilde;o &eacute; de desconfiar tamb&eacute;m. E muito. Qual a explica&ccedil;&atilde;o mais plaus&iacute;vel e sensata poss&iacute;vel para que o vice-presidente do <em>Di&aacute;rio<\/em>, Cirilo Anuncia&ccedil;&atilde;o, e o ilustre senador tucano Arthur Virg&iacute;lio Neto (PSDB) apare&ccedil;am &agrave; 1h30 da manh&atilde; na casa de Omar Aziz &ndash; candidato a prefeito apoiado por Braga e que por sua vez &eacute; alvo predileto do jornal &ndash; portando um disco DVD com certo dossi&ecirc; que acusa o governador de corrup&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Omar disse que n&atilde;o houve tentativa alguma de extors&atilde;o. Arthur Virg&iacute;lio e Cirilo Anuncia&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m garantiram isso. Seria discurso afinado? Seria sil&ecirc;ncio &quot;estrat&eacute;gico&quot; para as pr&oacute;ximas jogadas? O que h&aacute; de fato por tr&aacute;s de toda esta estranha hist&oacute;ria? Talvez as pr&oacute;ximas capas &quot;espetaculosas&quot; do <em>Di&aacute;rio do Amazonas<\/em> nos d&ecirc;em algumas pistas. O mesmo do reacion&aacute;rio <em>Em Tempo<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Acusa&ccedil;&otilde;es s&eacute;rias e agressivas<\/p>\n<p><\/strong>Voltando ao dossi&ecirc; enviado por e-mail para menos (bem menos) de 6,15% de toda a popula&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o Norte.<\/p>\n<p>Tudo come&ccedil;ou h&aacute; cerca de um m&ecirc;s. Certo e-mail, supostamente assinado por Alexandre Fleming Neves de Melo, come&ccedil;ou a circular nos correios eletr&ocirc;nicos de algumas pessoas na cidade de Manaus (eu mesmo recebi este <em>spam<\/em> umas tr&ecirc;s vezes). O conte&uacute;do, bem hil&aacute;rio. Para ser sucinto, tudo n&atilde;o passa de insultos e &quot;apelidos&quot; nada amistosos a todos os candidatos a prefeito de Manaus e mais o governador do Estado: Serafim Correa (PSB), Francisco Praciano (PT), Ricardo Bessa (PSOL), Luiz Navarro (PCB), Amazonino Mendes (PTB) e Omar Aziz (PMN).<\/p>\n<p>Com exce&ccedil;&atilde;o de Braga, o governador, nenhuma das potenciais v&iacute;timas da mensagem se manifestou, pelo menos n&atilde;o publicamente. J&aacute; o governador, em uma atitude que j&aacute; se tornou t&iacute;pica, conclamou uma coletiva de imprensa na manh&atilde; no dia 24 de setembro (o <em>Di&aacute;rio do Amazonas<\/em>, misteriosamente, n&atilde;o foi chamado) e, em tom dram&aacute;tico e com direito a vistosas l&aacute;grimas, leu a mensagem e as ofensas contra si, sua esposa (que estava ao seu lado) e sua filhas. Desnecess&aacute;rio? Sim. Inapropriado? Certamente. Inoportuno? Absolutamente!<\/p>\n<p>Ora, o pr&iacute;ncipe maquiav&eacute;lico das terras das amazonas deve ter ficado realmente ofendido. Afinal, s&atilde;o acusa&ccedil;&otilde;es s&eacute;rias e agressivas. Entretanto, n&atilde;o h&aacute; nada ali que um &quot;bom pol&iacute;tico&quot; como Braga n&atilde;o possa usar em seu favor e em benef&iacute;cio eleitoral de seu candidato, Omar Aziz. E n&atilde;o demorou a que Braga se aproveitasse desse &quot;presente&quot;.<\/p>\n<p><strong>Teriam mudado de id&eacute;ia?<\/p>\n<p><\/strong>No dia seguinte, a Rede Calderaro de Comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; TV A Cr&iacute;tica e jornal <em>A Cr&iacute;tica<\/em> &ndash; abriram um espa&ccedil;o formid&aacute;vel para que o governador &quot;respondesse&quot; &agrave;s acusa&ccedil;&otilde;es. Dessa forma, o ofendido governador p&ocirc;de, diante das c&acirc;meras, usar todo o seu latim para fazer estardalha&ccedil;o maior do que o do dia anterior e mais: &quot;olho a olho&quot;, como ele mesmo fez quest&atilde;o de dizer, prometeu diante de todos que o &quot;verdadeiro respons&aacute;vel pelo e-mail logo ser&aacute; descoberto&quot;. A pergunta que n&atilde;o quer calar agora &eacute;: e depois?<\/p>\n<p>N&atilde;o d&aacute; para negar, portanto, que Braga n&atilde;o seja inteligente. Longe disso. A intelig&ecirc;ncia dos censores da imprensa de hoje &eacute; maior &ndash; e muito &ndash; dos da &eacute;poca da ditadura. Al&eacute;m de ter a seus p&eacute;s o <em>Amazonas Em Tempo<\/em>, Braga conseguiu o que, para os mais c&eacute;ticos, seria bem dif&iacute;cil: um espa&ccedil;o muito bem aproveitado em um programa da Rede Calderaro de Comunica&ccedil;&atilde;o. Por que dif&iacute;cil? Porque foi exatamente esta emissora que, em 2006, foi literalmente fechada (censurada) pelo governador durante 24 horas, durante sua campanha &agrave; reelei&ccedil;&atilde;o em resposta &agrave;s cr&iacute;ticas a sua administra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E hoje? O que houve com a oposi&ccedil;&atilde;o declarada do grupo de comunica&ccedil;&atilde;o que hoje abre espa&ccedil;o irrestrito para o &quot;pobre e ofendido&quot; governador? Eles teriam mudado de id&eacute;ia? N&atilde;o. N&atilde;o sem raz&otilde;es, digamos concretas.<\/p>\n<p>E mais uma vez, a meretriz vende seu corpo. Algu&eacute;m j&aacute; imagina o nome do cafet&atilde;o?<\/p>\n<p><em>* M&aacute;rio Bentes &eacute; estudante do 6&ordm; per&iacute;odo de Jornalismo em Manaus.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A afirma&ccedil;&atilde;o acima mais parece o trecho de uma pe&ccedil;a liter&aacute;ria que nos remete aos per&iacute;odos obscuros da ditadura militar brasileira. 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