{"id":21690,"date":"2008-08-25T16:32:47","date_gmt":"2008-08-25T16:32:47","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21690"},"modified":"2008-08-25T16:32:47","modified_gmt":"2008-08-25T16:32:47","slug":"rio-de-janeiro-agosto-de-2008","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21690","title":{"rendered":"Rio de Janeiro, agosto de 2008"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\">Agosto ofereceu dois exemplos claros de como o autoritarismo ainda d&aacute; as cartas no Rio de Janeiro. No dia 5, ter&ccedil;a-feira, foram destru&iacute;dos dois outdoors com cr&iacute;ticas &agrave; pol&iacute;tica de exterm&iacute;nio do governador S&eacute;rgio Cabral (PMDB), cuja pol&iacute;cia matou 1.330 pessoas em 2007, &iacute;ndice que a coloca como a pol&iacute;cia que mais mata do mundo. Dois dias depois, 7 de agosto, militares da ativa e da reserva, ao lado de civis, reuniram cerca de mil pessoas no Clube Militar para recha&ccedil;ar o debate sobre a puni&ccedil;&atilde;o contra os torturadores da ditadura de 1964 &ndash; orientada pela CIA para garantir os interesses das corpora&ccedil;&otilde;es dos EUA no Brasil.<\/p>\n<p>Os outdoors censurados continham um desenho assinado pelo artista gr&aacute;fico Carlos Latuff, que retrata uma m&atilde;e negra, a segurar o filho morto no colo. Ela chora, desesperada. Seu filho &eacute; uma crian&ccedil;a negra, vestida com uniforme da escola e, atr&aacute;s dos dois, est&aacute; um policial branco com um fuzil rec&eacute;m-disparado. Ao fundo, um caveir&atilde;o, carro blindado da pol&iacute;cia, invade uma favela e dispara a esmo. A ilustra&ccedil;&atilde;o vinha acompanhada de duas frases: &ldquo;Candel&aacute;ria, Vig&aacute;rio Geral, Baixada, Alem&atilde;o, Acari, Provid&ecirc;ncia&#8230; Estamos mais seguros?&rdquo; e &ldquo;Infeliz &eacute; a sociedade que assiste passivamente sua juventude ser assassinada&rdquo;.<\/p>\n<p>Essa imagem foi caprichosamente pintada com tinta branca at&eacute; desaparecer. E n&atilde;o foi uma a&ccedil;&atilde;o simples. Devido &agrave; altura do outdoor, foi preciso mobilizar pelo menos um ve&iacute;culo com carroceria e uma escada de grande porte. Como h&aacute; uma c&acirc;mera de vigil&acirc;ncia da CET-Rio em frente ao cartaz atacado na Av. Presidente Vargas, basta a pol&iacute;cia querer para que os criminosos sejam identificados.<\/p>\n<p>Apesar de ineg&aacute;vel, o fato jornal&iacute;stico foi deliberadamente ignorado pelas corpora&ccedil;&otilde;es de m&iacute;dia. Entre os ve&iacute;culos de papel, apenas uma colunista deu a noticia num jornal&atilde;o. Na televis&atilde;o, s&oacute; o jornalismo da TV Brasil se interessou. Uma das caracter&iacute;sticas do fascismo, como se sabe, &eacute; o emprego de modernos aparatos de propaganda e censura para suprimir a oposi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e promover seus pr&oacute;prios valores.<\/p>\n<p>Exatamente assim funcionou a ditadura civil-militar no Brasil, entre 1964 e 1985. Com o apoio entusiasmado da Rede Globo e os mesmos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o que hoje silenciam diante da censura aos outdoors, o Estado autorit&aacute;rio p&ocirc;de encobrir seq&uuml;estros, torturas, homic&iacute;dios e oculta&ccedil;&otilde;es de cad&aacute;ver. Um clima revivido neste cinzento 7 de agosto, durante semin&aacute;rio promovido pelo Clube Militar.<\/p>\n<p>Em sua interven&ccedil;&atilde;o, o general da reserva S&eacute;rgio Augusto de Avelar Coutinho afirmou que os militares evitaram, em 1964, &ldquo;um golpe populista de inspira&ccedil;&atilde;o desconhecida, liderado pelo presidente de ent&atilde;o e seu cunhado, governador do Rio Grande do Sul&rdquo;. E concluiu como quem faz um alerta: &ldquo;H&aacute; um processo socialista revolucion&aacute;rio em curso&rdquo;. Os militares consideram o general Coutinho o maior especialista em Gramsci do Brasil e um grande conhecedor de Marx. Ele &eacute; assessor de uma empresa privada chamada Teixeira Nunes Com&eacute;rcio Exterior e Ind&uacute;stria e j&aacute; foi agraciado com a medalha Legi&atilde;o de Honra, dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em seguida foi a vez de Antonio Jos&eacute; Ribas Paiva, diretor da UDR, conferencista do Ex&eacute;rcito e pecuarista, criador de gado nelore. Foi o mais hist&eacute;rico dos tr&ecirc;s palestrantes. Sua fala exacerbou a paran&oacute;ia do general Coutinho, tanto pelo conte&uacute;do quanto pelos gestos agressivos. &ldquo;Nos meus 59 anos nunca vi ditadura do crime como essa. N&oacute;s n&atilde;o temos seguran&ccedil;a do direito. Portanto, o Brasil n&atilde;o &eacute; um pa&iacute;s democr&aacute;tico&rdquo;, disse. <\/p>\n<p>Sobre a iniciativa de punir os torturadores, comentou: &ldquo;Est&atilde;o trabalhando para que a sociedade volte a se dividir, contra a paz social. Dividir a sociedade para explorar seus recursos e manter a sociedade na pobreza.&rdquo; Disse ainda, sem citar a fonte, que &ldquo;esses senhores [do governo Lula] foram desvelados pela imprensa internacional por associa&ccedil;&atilde;o ao tr&aacute;fico. N&oacute;s temos um governo que ap&oacute;ia as Farc e 80% da coca&iacute;na tem proced&ecirc;ncia nas Farc. E n&atilde;o adianta o primeiro mandat&aacute;rio negar (aplausos) porque ele fundou o Foro de S&atilde;o Paulo, organizado por 48 movimentos terroristas&rdquo;. Em seguida, passou a descrever que S&atilde;o Paulo teve um dia de ataques terroristas do ETA e do IRA, porque &ldquo;a esquerda radical se sentiu amea&ccedil;ada por algum motivo&rdquo;. Nesse momento, alguns ouvintes palpitavam &ldquo;o impeachment do Lula, claro&rdquo;, numa refer&ecirc;ncia &agrave; tentativa frustrada da OAB-SP de depor o presidente da Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p>Por fim, quando os &acirc;nimos j&aacute; estavam bem exaltados, falou o ministro do STF durante a ditadura, Waldemar Zveiter: &ldquo;Que o senhor ministro da Justi&ccedil;a ou desapeie do cavalo ou monte direito, porque, sen&atilde;o, n&oacute;s vamos tir&aacute;-lo de l&aacute;!&rdquo;, uma clara amea&ccedil;a ao ministro da Justi&ccedil;a Tarso Genro (PT), poucos dias depois que este proclamou o &oacute;bvio: quem torturou deve ser punido. E por temer pela correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as, o presidente da Rep&uacute;blica o desautorizou.<\/p>\n<p>Os dois exemplos de agosto mostram que a trucul&ecirc;ncia ainda manda no Rio de Janeiro. A pol&iacute;cia do governador mata mais de mil pessoas num ano e n&atilde;o h&aacute; liberdade para cr&iacute;tica nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Agentes do Estado torturam e n&atilde;o se pode levantar o debate sobre suas puni&ccedil;&otilde;es. Se &eacute; assim, ent&atilde;o que sejam coerentes e reivindiquem claramente o Estado de Exce&ccedil;&atilde;o! E depois enfrentem as conseq&uuml;&ecirc;ncias.<\/p>\n<p><em>* Marcelo Salles &eacute; jornalista, <font class=\"padrao\"><em>editor do blog <a href=\"http:\/\/www.fazendomedia.com\/\">Fazendo Media<\/a> e membro do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social<\/em><\/font><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agosto ofereceu dois exemplos claros de como o autoritarismo ainda d&aacute; as cartas no Rio de Janeiro. 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