{"id":21417,"date":"2008-06-20T20:30:49","date_gmt":"2008-06-20T20:30:49","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21417"},"modified":"2008-06-20T20:30:49","modified_gmt":"2008-06-20T20:30:49","slug":"a-imprensa-nao-pode-ficar-imune-a-criticas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21417","title":{"rendered":"&#8220;A imprensa n\u00e3o pode ficar imune a cr\u00edticas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Casado com a psic&oacute;loga cl&iacute;nica Ivanisa Titelroit, pai de tr&ecirc;s filhos, vai completar 60 anos em outubro. Quarenta anos atr&aacute;s, ele iniciava sua milit&acirc;ncia pol&iacute;tica como presidente do Diret&oacute;rio Central dos Estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em setembro de 1969, j&aacute; na clandestinidade, integrou o grupo formado por militantes da A&ccedil;&atilde;o Libertadora Nacional e do Movimento Revolucion&aacute;rio 8 de Outubro, que seq&uuml;estrou o embaixador americano Charles Elbrick para obrigar o governo militar a soltar 15 presos pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>Exilado primeiro em Cuba, onde fez treinamento de guerrilha rural, de l&aacute; foi para o Chile e, depois, voltou para o Brasil, vivendo clandestinamente em S&atilde;o Paulo. No in&iacute;cio de 1974, quando v&aacute;rios companheiros seus foram presos, partiu para novo ex&iacute;lio, desta vez na Fran&ccedil;a, onde aproveitou para se formar na Ecole de Hautes &Eacute;tudes em Sciences Sociales, da Universidade de Paris. <\/p>\n<p>Passou boa parte da sua carreira de jornalista no &ldquo;Jornal do Brasil&rdquo; e em &ldquo;O Globo&rdquo;, no qual chegou a diretor da sucursal de Bras&iacute;lia. Ganhou fama como comentarista pol&iacute;tico da TV Globo &#8211; tamb&eacute;m ocupando o cargo de diretor da sucursal. Ap&oacute;s sua sa&iacute;da, que foi bastante traum&aacute;tica para ele, teve uma breve passagem pela TV Bandeirantes e pelo iG, de onde saiu para trabalhar no governo.<\/p>\n<p>Apesar desta vida, que n&atilde;o pode ser chamada de mon&oacute;tona, Franklin Martins tem observado o mundo, do alto dos seus dois metros de altura, com certa compreens&atilde;o. E confessa que tem acordado com o &ldquo;esp&iacute;rito de flor de laranjeira&rdquo;, mesmo sabendo que uma jornada de trabalho, nunca inferior a 13 horas por dia, espera por ele.<\/p>\n<p><strong>Como &eacute; trocar a carreira de jornalista por um cargo de ministro no governo e passar a trabalhar do outro lado do balc&atilde;o? O que mudou na sua percep&ccedil;&atilde;o do Brasil real, para o bem ou para o mal? <br \/><\/strong>A primeira coisa que mudou &eacute; que eu ganho muito menos do que eu ganhava antes. Muito, muito menos. Trabalho mais, se &eacute; que era poss&iacute;vel, porque eu j&aacute; trabalhava muito. Trabalho em m&eacute;dia 13 horas por dia. Eu entro &agrave;s 8h30 e saio &agrave;s 21h30 e, &agrave;s vezes, ainda tenho um jantar de trabalho. E o estresse &eacute; muito maior. A grande diferen&ccedil;a que existe, entre um jornalista e algu&eacute;m que est&aacute; na minha fun&ccedil;&atilde;o, &eacute; que o jornalista s&oacute; precisa falar ou escrever, n&atilde;o precisa fazer nada que v&aacute; muito al&eacute;m disso. Evidentemente que ele procura fazer bem o seu trabalho, mas eu tenho que falar: aqui voc&ecirc; tem que colher os resultados. Apesar disso, tem sido uma experi&ecirc;ncia extraordin&aacute;ria, riqu&iacute;ssima, eu estou aprendendo muita coisa, vendo muita coisa. Isso &eacute; muito interessante e, &agrave;s vezes, voc&ecirc; ajuda a fazer com que as coisas aconte&ccedil;am.<\/p>\n<p><strong>Por exemplo&#8230;<\/strong><br \/>Talvez a coisa mais gratificante que eu tenha ajudado, embora n&atilde;o tenha tido um papel decisivo, foi o processo de constru&ccedil;&atilde;o do projeto banda larga nas escolas, que vai colocar, at&eacute; 2010, acesso de banda larga em 55 mil escolas p&uacute;blicas. S&atilde;o todas as escolas p&uacute;blicas urbanas do pa&iacute;s, atingindo 37 milh&otilde;es de jovens adolescentes. Uma coisa extraordin&aacute;ria, a custo zero para o governo, com dura&ccedil;&atilde;o de 18 anos. Foi um processo complexo de negocia&ccedil;&atilde;o com as telef&ocirc;nicas fixas, etc. Momentos duros, de tens&atilde;o&#8230; <br \/>Muitas vezes voc&ecirc; ajuda com que algumas coisas aconte&ccedil;am; noutras, que elas n&atilde;o aconte&ccedil;am, mas isso n&atilde;o vou te citar&#8230; Voc&ecirc; pode evitar que certas coisas sejam feitas. Voc&ecirc; tem uma vis&atilde;o do conjunto do Pa&iacute;s, das possibilidades do governo que s&atilde;o maiores do que se imagina.<br \/>Estado &eacute; uma coisa muito forte, ent&atilde;o, voc&ecirc; pode fazer as coisas acontecerem. E h&aacute; tamb&eacute;m as limita&ccedil;&otilde;es da m&aacute;quina p&uacute;blica, que acredito serem maiores do que se imagina. Apesar de tudo, &eacute; uma experi&ecirc;ncia importante. <br \/>Eu vim para c&aacute; me propondo uma tarefa. A minha avalia&ccedil;&atilde;o &eacute; que as rela&ccedil;&otilde;es entre o governo e boa parte da imprensa estavam absolutamente intoxicadas. Eu achava que poderia contribuir para desintoxicar essas rela&ccedil;&otilde;es, a meu ver, cruciais para o Pa&iacute;s. Estas rela&ccedil;&otilde;es melhoraram. Nem tanto por m&eacute;rito meu. As circunst&acirc;ncias pol&iacute;ticas do Pa&iacute;s favoreceram este processo. Hoje estas rela&ccedil;&otilde;es com a imprensa s&atilde;o mais fluidas, mais civilizadas, mais rotineiras, t&ecirc;m um car&aacute;ter menos dram&aacute;tico.<br \/>A rela&ccedil;&atilde;o entre governo e imprensa deve ter caracter&iacute;stica de atividade cotidiana. &Eacute; como escovar os dentes, amarrar os sapatos, tomar banho. S&atilde;o coisas que voc&ecirc; tem que fazer porque s&atilde;o parte da comunica&ccedil;&atilde;o do governo com a sociedade. N&atilde;o &eacute; o &uacute;nico canal.<br \/>&Eacute; claro que existe a publicidade, temos as pesquisas de opini&atilde;o, as campanhas pol&iacute;ticas, os eventos p&uacute;blicos, os com&iacute;cios, mas a rela&ccedil;&atilde;o com a imprensa &eacute; a mais org&acirc;nica que existe com todas as suas contradi&ccedil;&otilde;es. Ent&atilde;o era fundamental que ela passasse por um processo de desintoxica&ccedil;&atilde;o. As rela&ccedil;&otilde;es s&atilde;o tensas mesmo e acho isso normal. Por defini&ccedil;&atilde;o, ela deve ser de tens&atilde;o, de cobran&ccedil;a, n&atilde;o &eacute; uma coisa para ser um passeio pelo Nirvana. Embora n&oacute;s tenhamos casos no Brasil recente onde as rela&ccedil;&otilde;es do governo com a imprensa eram um passeio pelo Nirvana. Mas a&iacute; cabe &agrave; imprensa refletir sobre isso. O importante &eacute; que dentro dessa tens&atilde;o sejamos profissionais. O que caracteriza o profissionalismo? O respeito pela sociedade, respeito &agrave;s diverg&ecirc;ncias, entender que as pessoas precisam de uma informa&ccedil;&atilde;o mais qualificada poss&iacute;vel para tomar suas decis&otilde;es, formular suas opini&otilde;es. Da parte do governo, o princ&iacute;pio b&aacute;sico &eacute; garantir a liberdade de imprensa. <\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; est&aacute; satisfeito com o seu trabalho?<\/strong><br \/>Eu estou satisfeito com o progresso que o governo fez e com os progressos da rela&ccedil;&atilde;o entre governo e imprensa experimentados nesse per&iacute;odo. Acredito que eu tenha contribu&iacute;do com isso.<\/p>\n<p><strong>Como &eacute; trabalhar tendo como chefe o presidente da Rep&uacute;blica? O senhor chega a sentir saudade dos seus antigos chefes e da vida nas reda&ccedil;&otilde;es?<br \/><\/strong>Acho que s&atilde;o coisas diferentes. Evidentemente, tenho saudades dos meus colegas das reda&ccedil;&otilde;es porque hoje n&atilde;o tenho muito tempo para ficar com eles. Jogar conversa fora em reda&ccedil;&atilde;o &eacute; uma coisa muito agrad&aacute;vel. Falar mal de jornalista. O esporte preferido de jornalista &eacute; falar mal de jornalista e do governo, que &eacute; o esporte preferido de todo mundo. N&atilde;o h&aacute; nisso nenhuma anomalia. O dos engenheiros &eacute; falar mal dos engenheiros. Dos bot&acirc;nicos, &eacute; falar mal dos bot&acirc;nicos; dos artistas, falar dos artistas. A gente fala de quem a gente conhece mais. Eu tenho saudade da reda&ccedil;&atilde;o.<br \/>A minha rela&ccedil;&atilde;o com o presidente &eacute; boa. Eu nunca tive maior intimidade com o Lula. Talvez, o mesmo tipo de intimidade que rep&oacute;rteres com 20 ou 30 anos de profiss&atilde;o tinham com o presidente. Eu o entrevistei v&aacute;rias vezes, conversei bastante com ele, mas n&atilde;o tive intimidade. Eu acho que o Lula &eacute; uma pessoa muito f&aacute;cil de trabalhar: ele fala o que pensa, ele &eacute; leve. Eu acho que ele possui hoje em dia uma percep&ccedil;&atilde;o muito profissional sobre o trabalho da imprensa, do papel que a imprensa joga e de qual deve ser o comportamento dele. E isso facilita muito. Minha rela&ccedil;&atilde;o de trabalho com o presidente &eacute; positiva e, mesmo pessoalmente, &eacute; muito boa, tranq&uuml;ila, seguramente melhor do que com os outros chefes que tive.<\/p>\n<p><strong>Eu levava muitas broncas. Voc&ecirc; costuma levar broncas?<\/strong><br \/>N&atilde;o. Talvez o presidente tenha mudado. Nem sempre concordamos na aprecia&ccedil;&atilde;o dos problemas, e a&iacute; prevalece a opini&atilde;o dele, &eacute; claro. De modo geral, as diverg&ecirc;ncias s&atilde;o muito pequenas. Trabalhar com ele &eacute; leve. As broncas foram no seu per&iacute;odo.<\/p>\n<p><strong>O presidente Lula faz cr&iacute;ticas quase di&aacute;rias ao comportamento da imprensa. Isso ajuda ou atrapalha o trabalho do ministro?<\/strong><br \/>N&atilde;o sei se atrapalha o trabalho do ministro. Acho que ajuda o trabalho da imprensa. A imprensa deve gozar de absoluta liberdade para noticiar o que quiser, dar opini&atilde;o sobre o que quiser. Isso &eacute; b&aacute;sico na democracia. N&atilde;o existe meia liberdade de imprensa. Existe liberdade de imprensa e ponto. Agora, a imprensa n&atilde;o est&aacute; imune &agrave;s cr&iacute;ticas. Ao contr&aacute;rio, para fazer bem o seu trabalho ela deve ser criticada. Ali&aacute;s, como qualquer um de n&oacute;s. Ao exercer o meu trabalho de pai, eu devo poder ser criticado pelos meus filhos; para exercer o meu trabalho de jornalista, eu devo ser criticado pelos meus leitores. Eu acho que ajuda a imprensa ser criticada. Uma imprensa que n&atilde;o &eacute; criticada &eacute; uma imprensa que n&atilde;o convive bem com a liberdade dos outros de darem opini&atilde;o. <br \/>N&atilde;o &eacute; o caso da nossa imprensa, evidentemente. Acho normal que, se o presidente tem uma critica a fazer, ele exprima essa opini&atilde;o de modo educado e razo&aacute;vel. Vamos ser claros: a imprensa, como institui&ccedil;&atilde;o, &eacute; um espa&ccedil;o de disputa pol&iacute;tica. Quem n&atilde;o entender isso n&atilde;o entende o papel da imprensa dentro de uma sociedade moderna, democr&aacute;tica e de massas. Ent&atilde;o, &eacute; normal que o presidente, ou mesmo a oposi&ccedil;&atilde;o, ou qualquer pessoa que participa da disputa pol&iacute;tica, possam criticar, fazer avalia&ccedil;&otilde;es do trabalho dos outros da mesma forma.<br \/>A imprensa pode fazer o trabalho de avalia&ccedil;&atilde;o do trabalho do presidente, mas o presidente ou o l&iacute;der da oposi&ccedil;&atilde;o pode fazer isso tamb&eacute;m. Em minha opini&atilde;o, o maior cr&iacute;tico do trabalho da imprensa n&atilde;o &eacute; o presidente da Rep&uacute;blica, n&atilde;o &eacute; o l&iacute;der da oposi&ccedil;&atilde;o, mas o leitor do jornal, o telespectador, o ouvinte que, ao contr&aacute;rio do que muita gente pensa no Brasil, &eacute; perfeitamente capaz de formular ju&iacute;zos e de fazer avalia&ccedil;&otilde;es do trabalho da imprensa.<br \/>Ele sabe avaliar a imprensa, sabe a import&acirc;ncia da liberdade da imprensa, aprendeu isso na sua experi&ecirc;ncia. Ao mesmo tempo, ele sabe se tem sido bem atendido ou mal atendido naquilo que &eacute; vital para ele, que &eacute;, basicamente, a not&iacute;cia. Quer ter not&iacute;cias confi&aacute;veis, fidedignas e, ao mesmo tempo, opini&otilde;es que contribuam para o debate p&uacute;blico qualificado, concorde ou n&atilde;o com aquelas opini&otilde;es. Desde que estas opini&otilde;es n&atilde;o estejam desqualificando &agrave;s outras, entendendo que a diverg&ecirc;ncia faz parte do processo, com toler&acirc;ncia para o contradit&oacute;rio, n&atilde;o tentando esmagar quem pensa diferente. <br \/>Acho que o leitor, o telespectador e o ouvinte, no Brasil, formam a sua opini&atilde;o e sabem distinguir o que &eacute; not&iacute;cia daquilo que &eacute; uma invencionice ou daquilo que &eacute; um erro normal no trabalho da imprensa. E a imprensa erra muito. Isso &eacute; normal e o leitor tem a vis&atilde;o disso, ele sabe diferenciar um erro normal de um erro de m&aacute; f&eacute;. O que &eacute; diverg&ecirc;ncia e o que &eacute; campanha. O que &eacute; uma coisa que &eacute; parte de um ambiente pol&iacute;tico e o que na verdade est&aacute; tentando conduzir o leitor ou o telespectador, puxando o leitor pelo nariz de um lado pro outro. Quando acontece, o leitor percebe isso. O leitor &eacute; muito cr&iacute;tico. Os &oacute;rg&atilde;os de imprensa que cometem esses erros, o leitor cobra. &Eacute; de forma implac&aacute;vel.<\/p>\n<p><strong>At&eacute; algum tempo atr&aacute;s, o Brasil tinha meia d&uacute;zia de formadores de opini&atilde;o. Hoje, s&atilde;o milhares. Quem forma os formadores de opini&atilde;o? De que forma &eacute; formada a opini&atilde;o dos formadores de opini&atilde;o?<br \/><\/strong>Acho que isso se multiplicou muito. Estamos assistindo a um processo extremamente importante que tem a ver com as mudan&ccedil;as que vem ocorrendo no Brasil nos &uacute;ltimos anos. Acho que aquela &eacute;poca da teoria da &ldquo;pedra no lago&rdquo; acabou. Voc&ecirc; joga uma pedra, ela cai na classe m&eacute;dia e nos chamados formadores de opini&atilde;o, e vai provocando ondas conc&ecirc;ntricas que v&atilde;o at&eacute; a margem. Voc&ecirc; tinha um centro formador ativo e uma sociedade passiva que recebe aquilo. Isso de certa forma existiu no Brasil at&eacute; algum tempo atr&aacute;s e &eacute; fruto de uma sociedade que se dividia entre um centro ativo e uma periferia passiva. <br \/>Eu acho que isso mudou no Brasil, e mudou porque o Brasil est&aacute; mudando. Voc&ecirc; passou a ter a emerg&ecirc;ncia da classe C, e os n&uacute;meros mostram que isso &eacute; uma coisa fort&iacute;ssima, &eacute; a principal classe em termos num&eacute;ricos no pa&iacute;s, que n&atilde;o se reconhece exatamente na classe A\/B, na classe m&eacute;dia. Ela at&eacute; tem aspira&ccedil;&otilde;es de chegar l&aacute;, mas ela sabe que tem trajet&oacute;ria diferente, interesses diferentes, e est&aacute; em um momento diferente nesse percurso, e que olha e diz: &ldquo;Eu sei pensar com a minha pr&oacute;pria cabe&ccedil;a, eu sei defender meus interesses&rdquo;.<br \/>Por exemplo, no processo da crise pol&iacute;tica de 2005, os formadores cl&aacute;ssicos de opini&atilde;o da classe A\/B davam sua opini&atilde;o sobre o governo Lula e isso chegava na classe C e voltava. Batia e voltava. Isso &eacute; sinal que o Brasil est&aacute; ficando mais complexo, mais heterog&ecirc;neo, mais sofisticado e mais moderno. Porque isso &eacute; caracter&iacute;stica da sociedade moderna. Nos Estados Unidos, n&atilde;o existe essa coisa de centro formador de opini&atilde;o e a massa amorfa. Na Inglaterra, na Fran&ccedil;a, isso tamb&eacute;m n&atilde;o existe. Em alguns outros pa&iacute;ses, ainda existe. Mas acho que mudamos de patamar e isso tem impacto na pol&iacute;tica, na imprensa, na televis&atilde;o. O crescimento de outros canais de televis&atilde;o, em compara&ccedil;&atilde;o com a TV Globo, tem um pouco a ver com isso.<br \/>A Globo fez um modelo altamente bem-sucedido que falava para a classe A e a Z ao mesmo tempo. E fez isso durante 40 anos. Hoje em dia, est&aacute; sendo obrigada a fazer flex&otilde;es e se segmentar porque a Record entra aqui e outra entra ali com um programa mais popular que d&aacute; audi&ecirc;ncia. <\/p>\n<p><strong>Que mudan&ccedil;as voc&ecirc; nota na imprensa brasileira desde que assumiu o cargo?<\/strong><br \/>Na imprensa escrita, por exemplo, os jornal&otilde;es est&atilde;o com a circula&ccedil;&atilde;o estagnada h&aacute; v&aacute;rios anos. A venda dos grandes jornais e revistas de hoje e a de tr&ecirc;s anos atr&aacute;s &eacute; mais ou menos a mesma coisa. A&iacute; voc&ecirc; pega os jornais populares, que s&atilde;o muitas vezes da mesma empresa dos jornal&otilde;es, mas t&ecirc;m um crescimento espetacular. S&atilde;o jornais que custam um real ou menos at&eacute;, com muitos servi&ccedil;os, vendidos nas ruas e sem assinaturas. S&atilde;o jornais mais vibrantes, que n&atilde;o est&atilde;o preocupados em fazer a cabe&ccedil;a das pessoas, mas s&oacute; em contar o que est&aacute; acontecendo. <br \/>Dos 15 principais jornais, em termos de circula&ccedil;&atilde;o no Pa&iacute;s, sete s&atilde;o populares. O jornal de maior circula&ccedil;&atilde;o hoje no Brasil &eacute; um jornal popular, o Super Not&iacute;cias, de Belo Horizonte. Tem uma vendagem em bancas de 300 e poucos mil exemplares. &Eacute; um fen&ocirc;meno que come&ccedil;a a se estender para todas as capitais. <br \/>E voc&ecirc; tem a internet. N&atilde;o acho que v&aacute; acabar com os jornais de papel. O homem sempre vai necessitar do papel que os jornais cumprem &#8211; que &eacute; algu&eacute;m, em um oceano de not&iacute;cias, coletar as informa&ccedil;&otilde;es, hierarquizar, editar e te entregar pronto: isso &eacute; importante. O papel do editor n&atilde;o &eacute; botar mat&eacute;ria na p&aacute;gina, &eacute; jogar mat&eacute;ria sem import&acirc;ncia fora. No fundo, &eacute; dizer o que n&atilde;o &eacute; t&atilde;o importante e o que &eacute; muito importante. Selecionar, editar. Isso &eacute; o papel do jornal. <br \/>A internet, por sua vez, torna mais viva a cr&iacute;tica sobre os jornais. Os jornais saem do limbo. Os jornais n&atilde;o podem mais ficar como se fossem os donos absolutos da not&iacute;cia. Os leitores est&atilde;o criticando e trocando informa&ccedil;&otilde;es sobre eles, dizendo &ldquo;isso aqui n&atilde;o foi bom&rdquo;, &ldquo;isso aqui est&aacute; errado&rdquo;. &Agrave;s vezes, isso &eacute; feito de uma maneira muito selvagem, meio agressiva, o que &eacute; muito ruim. Dever&iacute;amos encontrar mecanismos para tornar isso mais civilizado. Ao mesmo tempo, significa que existe um debate e isso funciona como um fiscal sobre jornais, revistas e televis&atilde;o. For&ccedil;a a grande m&iacute;dia a ser mais humilde, o que muitas vezes &eacute; positivo.<\/p>\n<p><strong>Sob tiroteio cerrado, desde que seu nome surgiu como candidata &agrave; sucess&atilde;o do presidente Lula, at&eacute; onde a ministra Dilma ag&uuml;enta? Foi prematuro o lan&ccedil;amento de seu nome? O governo j&aacute; pensaria em alternativas? Como est&aacute; a candidatura do governo &agrave; sucess&atilde;o do presidente Lula?<\/strong><br \/>Eu n&atilde;o acho que a Dilma esteja lan&ccedil;ada. Acho que &eacute; um nome que aos poucos vai emergindo como possibilidade. Eu nunca vi um coment&aacute;rio do Lula em p&uacute;blico dizendo: a minha candidata &eacute; a Dilma. O que eu vi nos jornais hoje &eacute; que houve um almo&ccedil;o e ele teria falado. O que acontece hoje &eacute; que voc&ecirc; tem um governo muito bem avaliado, que n&atilde;o tem um candidato natural. Eu acho que hoje, que j&aacute; diminu&iacute;ram aquelas especula&ccedil;&otilde;es meio sem sentido sobre terceiro mandato, sempre repelidas pelo Lula, mas que boa parte da imprensa e dos analistas pol&iacute;ticos consideravam que era apenas um jogo de cena, que isso seria uma possibilidade. Eu digo, revelo que n&atilde;o vejo a menor possibilidade depois de conversas que tive com o presidente. <br \/>Um governo muito bem avaliado que n&atilde;o tem um candidato natural que haver&aacute; de ser constru&iacute;do durante esse per&iacute;odo. A&iacute; existem nomes que come&ccedil;am a despontar. O nome da Dilma &eacute; um deles. Eu acho que dentro do PT existem nomes poss&iacute;veis e &eacute; normal que o PT aspire a ter candidato. Acho que o nome do Patrus &eacute; um nome poss&iacute;vel, o nome do Jacques Wagner &eacute; um nome poss&iacute;vel, o nome do Tarso Genro &eacute; um nome poss&iacute;vel, o nome do Fernando Haddad. Todos esses nomes precisam se viabilizar. Eu acho que, at&eacute; o momento, o nome da Dilma &eacute; que tem ganhado mais consist&ecirc;ncia. Ela parece assim, vamos dizer, como a primeira da fila. <\/p>\n<p><strong>E fora do PT o governo poderia apoiar outros nomes?<\/strong><br \/>Temos outros nomes tamb&eacute;m no campo do governo. O Ciro &eacute; um candidato natural. Embora n&atilde;o sendo do principal partido da base de sustenta&ccedil;&atilde;o do governo, j&aacute; foi candidato duas vezes, j&aacute; foi ministro, o Lula tem enorme apre&ccedil;o por ele e &eacute; uma pessoa com qualifica&ccedil;&atilde;o. O S&eacute;rgio Cabral &eacute; um nome poss&iacute;vel, se o PMDB vier a construir as condi&ccedil;&otilde;es para lan&ccedil;ar um nome. Tudo isso s&atilde;o possibilidades. <\/p>\n<p><strong>E como ela ag&uuml;enta essa pancadaria que j&aacute; dura meses?<\/strong><br \/>Essa pancadaria tem a ver com o fato, eu n&atilde;o tenho muita d&uacute;vida, dos advers&aacute;rios da oposi&ccedil;&atilde;o perceberem que ela &eacute; a primeira da fila no PT, que ela re&uacute;ne qualidade pol&iacute;ticas e pessoais para vir a se viabilizar. A Dilma tem uma rela&ccedil;&atilde;o muito forte com o Lula e o Lula ser&aacute; um grande eleitor. Neste nosso estilo de fazer pol&iacute;tica no Brasil, as pessoas acham que desqualificar o advers&aacute;rio &eacute; parte do processo para se credenciar para alguma coisa. &Eacute; algo que tem a ver com a velha pol&iacute;tica. O Brasil &eacute; mais moderno do que isso e a Dilma j&aacute; passou por coisas na vida muito dif&iacute;ceis. Foi presa, torturada, sobreviveu &agrave; pris&atilde;o e &agrave; tortura e depois reconstruiu a sua vida. Possui condi&ccedil;&otilde;es para ag&uuml;entar o tranco. Agora, ningu&eacute;m &eacute; atacado de forma injusta, ningu&eacute;m passa por processo destrutivo desse tipo sem se ferir e carregar cicatrizes depois. Agora, o que se vai fazer? Ceder &agrave;quilo que no fundo &eacute; um certo tipo de chantagem pol&iacute;tica, ou seja, &ldquo;n&atilde;o fa&ccedil;a pol&iacute;tica, n&atilde;o aspire a determinados cargos, se n&atilde;o n&oacute;s o liquidamos&rdquo;? Essa tentativa de destrui&ccedil;&atilde;o de reputa&ccedil;&otilde;es &eacute; uma forma totalmente abjeta de se fazer pol&iacute;tica.<\/p>\n<p><strong>Com a democracia consolidada e um crescimento econ&ocirc;mico como h&aacute; muito tempo n&atilde;o havia, acompanhado de estabilidade com distribui&ccedil;&atilde;o de renda, qual ser&aacute; o principal legado do governo Lula e qual deve ser a prioridade em um projeto para o Brasil a ser defendido pelo pr&oacute;ximo presidente? O que fica do governo Lula e qual deve ser a proposta do pr&oacute;ximo?<\/strong><br \/>O principal legado do governo Lula &eacute; que a quest&atilde;o da inclus&atilde;o social entrou definitivamente na agenda do Pa&iacute;s. E isso n&atilde;o &eacute; uma coisa pequena em um Pa&iacute;s extremamente injusto e excludente. Eu acho que o Brasil era um Pa&iacute;s pretensamente arrumado para 40, 50 milh&otilde;es de pessoas. Como ele tem quase 200 milh&otilde;es, quiseram fazer com que ele fosse um Pa&iacute;s desarrumado na verdade. Acho que o grande legado do Lula &eacute; criar um processo para que o Pa&iacute;s se arrume para 200 milh&otilde;es de pessoas. Isso n&atilde;o se faz de estalo, imediatamente, mas voc&ecirc; tem uma perspectiva de que o Pa&iacute;s s&oacute; se arruma quando se arrumar para todo mundo. Esse processo a meu ver n&atilde;o tem volta. Porque as pessoas come&ccedil;aram a experimentar mudan&ccedil;as, a melhorar de vida. Eu n&atilde;o sei quem ser&aacute; o pr&oacute;ximo presidente, mas ele n&atilde;o conseguir&aacute;, seja qual for o partido dele, fazer com que a quest&atilde;o da inclus&atilde;o social deixe de ser prioridade. <br \/>Existe um segundo legado do governo Lula extremamente importante: o Pa&iacute;s voltou a confiar em si mesmo. Acho isso de enorme import&acirc;ncia. Se o Pa&iacute;s continuasse a ter o complexo de vira-lata &#8211; para usar a express&atilde;o do Nelson Rodrigues -, que ele tinha, ele n&atilde;o chegaria ao atual patamar. Um Pa&iacute;s s&oacute; chega a algum lugar se ele aprende a confiar em si mesmo e entende que &eacute; capaz de resolver os problemas que est&atilde;o em seu caminho. Isso vale para qualquer pessoa, mas vale para o Pa&iacute;s tamb&eacute;m. Acho que isso &eacute; uma coisa positiva. Acho que o Brasil voltou a gostar de ser brasileiro. <\/p>\n<p><strong>Qual ser&aacute; a marca deste governo no plano internacional, que mudan&ccedil;as voc&ecirc; tem observado nas viagens que faz com o presidente ao exterior?<\/strong><br \/>O Brasil tem uma inser&ccedil;&atilde;o nova no mundo. &Eacute; uma inser&ccedil;&atilde;o que vem se dando de forma paulatina, suave, n&atilde;o arrogante. Mas o Brasil tem um peso maior nas discuss&otilde;es do mundo e tem um peso maior na &Aacute;frica e na Am&eacute;rica Latina. O Brasil est&aacute; com um peso maior para organizar o Sul e isso &eacute; algo que ter&aacute; impacto. Estamos mudando de patamar e isso &eacute; o desafio para os pr&oacute;ximos governantes, ou seja, n&atilde;o s&oacute; para o pr&oacute;ximo presidente. Para os pr&oacute;ximos 15, 20 anos, &eacute; preciso ter projeto para esta mudan&ccedil;a, quer dizer, para um Pa&iacute;s de 200 milh&otilde;es e n&atilde;o de 40. Para um Pa&iacute;s que gosta de si mesmo e que n&atilde;o quer ser colonizado e n&atilde;o quer mandar em ningu&eacute;m, mas que tem um peso pr&oacute;prio e acredita na sua capacidade de se projetar em fun&ccedil;&atilde;o disso. E &eacute; um Pa&iacute;s que ter&aacute; um peso pr&oacute;prio na economia mundial. Isso vale na agricultura, na ind&uacute;stria, no servi&ccedil;o, na energia. Ter&aacute; um peso muito maior que hoje. As tarefas dos &uacute;ltimos 25 anos foram tarefas de arrumar a casa. <br \/>Eu sempre digo o seguinte: o Brasil tem cinco pontos de agenda que s&atilde;o defendidos por 85% da popula&ccedil;&atilde;o e das for&ccedil;as pol&iacute;ticas. Primeiro: democracia. Custou muito para conquistar. Hoje, o Brasil voltou a ser um Pa&iacute;s democr&aacute;tico. Segundo: infla&ccedil;&atilde;o. Ter moeda, voltar a ter moeda. Terceiro: responsabilidade fiscal. Quarto: crescimento econ&ocirc;mico. Isso tudo &eacute; muito bom, mas a gente precisa crescer. E quinto: inclus&atilde;o social. Essa agenda, hoje em dia, n&atilde;o tem como fugir. Com base nela, temos que resolver como &eacute; a educa&ccedil;&atilde;o de um Pa&iacute;s que n&atilde;o ser&aacute; perif&eacute;rico, mas com papel relevante no mundo. Como ser&atilde;o as For&ccedil;as Armadas, que n&atilde;o podem mais ficar no acostamento, como nos &uacute;ltimos 25 anos. Elas t&ecirc;m um papel institucional important&iacute;ssimo; papel pol&iacute;tico, a meu ver, zero. E que precisam estar a&iacute; preparadas para defender o Pa&iacute;s, ser capazes de ter uma capacidade de dissuas&atilde;o que n&atilde;o permitam aventuras contra o Pa&iacute;s no futuro. <br \/>A gente fala em pr&eacute;-sal. Evidente que o pr&eacute;-sal, colocando o Brasil entre os maiores produtores de petr&oacute;leo no mundo, tem enormes oportunidades, mas tamb&eacute;m tem riscos. Basta ver as disputas e as guerras pelas &aacute;reas que concentram essa energia. Precisamos ter uma pol&iacute;tica de ci&ecirc;ncia e tecnologia que seja capaz de fazer com que o Brasil acompanhe esta mudan&ccedil;a que estamos observando. Por exemplo, o petr&oacute;leo: n&oacute;s n&atilde;o precisamos ser um Pa&iacute;s produtor e exportador como tantos pa&iacute;ses do mundo. O Brasil n&atilde;o precisa ser um Pa&iacute;s de Sheiks&#8230; O Brasil precisa ter um modelo como o da Noruega ou dos Estados Unidos que usaram o petr&oacute;leo para se alavancar economicamente, sofisticar-se, e n&atilde;o para ser um comprador de coisas fora trocadas por petr&oacute;leo. Precisamos desenvolver a ci&ecirc;ncia e a tecnologia. O Brasil mudou de patamar. Ele n&atilde;o vai ser um Pa&iacute;s m&eacute;dio, um Pa&iacute;s do futuro. Ele ser&aacute; um Pa&iacute;s de 200 milh&otilde;es de habitantes com um peso muito importante no mundo e tem que se preparar para isso. <\/p>\n<p><strong>Com essa for&ccedil;a toda que est&aacute; mostrando para defender o governo e o Brasil at&eacute; parece que voc&ecirc; &eacute; o candidato.<\/strong><br \/>N&atilde;o sou candidato a nada. Sou candidato a voltar para casa.<\/p>\n<p><strong>Sai a CPI dos Cart&otilde;es, entra o caso Varig. De crise em crise, a aprova&ccedil;&atilde;o do presidente sobe nas pesquisas. Entre uma e outra, a imprensa volta falar no terceiro mandato. Como &eacute; viver nessa gangorra com boas not&iacute;cias na economia e sempre com o fim do mundo sendo anunciado para amanh&atilde;?<br \/><\/strong>Acho que talvez a coisa mais dram&aacute;tica que estejamos assistindo no Brasil &eacute; a incapacidade, revelada pelo menos at&eacute; o momento, e espero que isso mude, da oposi&ccedil;&atilde;o e de alguns setores com influ&ecirc;ncia na m&iacute;dia de botar o p&eacute; no ch&atilde;o e olhar para a realidade. Por que n&oacute;s temos essa sucess&atilde;o de falsos esc&acirc;ndalos? M&ecirc;s de janeiro, eu olhei e pensei: &ldquo;vou ter um pouco de tranq&uuml;ilidade porque o Congresso est&aacute; de recesso&rdquo;. V&atilde; ilus&atilde;o. Veio um neg&oacute;cio que era um apag&atilde;o iminente de energia. O Brasil ia ter uma crise de energia. Ningu&eacute;m mais fala nisso, os reservat&oacute;rios est&atilde;o cheios. A febre amarela tomaria conta do Pa&iacute;s. A coisa da imprensa foi tamanha que teve gente morrendo por tomar mais de uma dose da vacina, por rea&ccedil;&atilde;o. Por qu&ecirc;? Porque fizeram um sensacionalismo em torno daquilo.<br \/>Depois, veio o neg&oacute;cio dos cart&otilde;es corporativos. Parecia que era um esc&acirc;ndalo monumental. Sempre disse que o cart&atilde;o corporativo era um esc&acirc;ndalo de titica. Porque ele era coisa da miudeza. A CPI era CPI da miudeza porque, por defini&ccedil;&atilde;o, cart&atilde;o corporativo e conta tipo B s&atilde;o para pequenos gastos. Ningu&eacute;m ia fazer caixa de campanha, desviar dinheiro para ficar rico. Podia ter uma determinada irregularidade de um coordenador de despesa, podia ter uma despesa feita que n&atilde;o tivesse cobertura legal, erros cont&aacute;beis. Ali&aacute;s, como qualquer grande empresa tem nas pequenas despesas, qualquer um sabe disso. Quem j&aacute; dirigiu uma Reda&ccedil;&atilde;o sabe que na presta&ccedil;&atilde;o de contas, nas notas de viagem, h&aacute; de tudo, aceitam tudo. Nesse sentido os cart&otilde;es corporativos s&atilde;o um enorme avan&ccedil;o sobre as contas tipo B que aceitam tudo. Parecia que o mundo vinha abaixo e n&atilde;o tinha nada acontecendo. A&iacute; veio um esc&acirc;ndalo atr&aacute;s do outro.<\/p>\n<p><strong>E esse mais recente da Varig preocupa o governo?<\/strong><br \/>Isso &eacute; uma brincadeira. As decis&otilde;es foram todas tomadas pelo juiz da 8&ordf; Vara Empresarial do Rio de Janeiro e confirmadas pelo STJ depois. N&atilde;o tem ato do poder executivo fazendo aquilo. Eu n&atilde;o sei por que essa senhora, doutora Denise Abreu, fez isso. O que me espanta &eacute; que a imprensa d&ecirc; o tipo de tratamento que deu &agrave;s declara&ccedil;&otilde;es dela. At&eacute; poucas semanas atr&aacute;s, eu s&oacute; tinha visto foto da doutora Denise Abreu de charuto na boca. De repente, vejo a doutora Denise posando e escolhendo qual o lado do rosto melhor para fotografar. Tudo bem, mas o que tem de concreto? N&atilde;o tem nada nas den&uacute;ncias. <br \/>Sinceramente, acho que os filtros da imprensa ca&iacute;ram muito. Tudo bem que dessem a entrevista, ela est&aacute; fazendo acusa&ccedil;&otilde;es, que d&ecirc;em as acusa&ccedil;&otilde;es, mas vamos atr&aacute;s para ver o que existe de real, de poss&iacute;vel. A&iacute; se esbarraria em uma coisa que &eacute; a seguinte: as decis&otilde;es s&atilde;o tomadas pelo juiz. Hoje [quinta-feira passada] mesmo tem uma entrevista dele longa no &ldquo;O Globo&rdquo;, mais curta no &ldquo;O Estado de S. Paulo&rdquo;, e ela j&aacute; havia dito isso antes, e ningu&eacute;m tinha ido atr&aacute;s, desde o primeiro dia. &ldquo;As decis&otilde;es foram tomadas por mim e eu n&atilde;o sofri press&atilde;o&rdquo;, disse ele. Ent&atilde;o, sinceramente, esses s&atilde;o assuntos para se trazer &agrave; tona, fazer essa ebuli&ccedil;&atilde;o, esse burburinho e que n&atilde;o se sustentam. Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p><strong>A que voc&ecirc; atribui esta sucess&atilde;o de esc&acirc;ndalos sem fim desde a grande crise pol&iacute;tica de 2005?<\/strong><br \/>Eu acho que a oposi&ccedil;&atilde;o tem uma enorme dificuldade para travar o debate pol&iacute;tico, que precisa ser travado por uma raz&atilde;o simples: a oposi&ccedil;&atilde;o tem vergonha de defender o que ela pensa. Ela sabe que o que ela pensa n&atilde;o tem respaldo da maioria do Pa&iacute;s. Um exemplo disso foi a campanha do Alckmin. Ele era a favor das privatiza&ccedil;&otilde;es e foi posar com um jaleco, que parecia macac&atilde;o de piloto de F&oacute;rmula-1, cheio de adesivos de Banco do Brasil e n&atilde;o sei mais o qu&ecirc;. A oposi&ccedil;&atilde;o era contra o Bolsa-Fam&iacute;lia, achava que era Bolsa-Esmola e n&atilde;o teve coragem de afirmar isso claramente na campanha. Porque, se afirmar, se defender seus pontos de vista, perde a elei&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, ela se sente mal em defender os pontos de vista com os quais ela n&atilde;o concorda. Ent&atilde;o, o que ela faz? Dribla a disputa em torno das quest&otilde;es essenciais para o Pa&iacute;s e parte para uma quest&atilde;o perif&eacute;rica.<br \/>Isso n&atilde;o &eacute; um problema novo no Brasil. As d&eacute;cadas de 50 e 60 s&atilde;o marcadas por esta pol&iacute;tica. A UDN, em especial o Carlos Lacerda, fez isso o tempo todo. J&aacute; que n&atilde;o conseguiam ganhar as elei&ccedil;&otilde;es, faziam uma campanha com um moralismo exacerbado, como se fossem cat&otilde;es de um lado e, do outro lado, um bando de ladr&otilde;es. Botavam a quest&atilde;o moral com uma &ecirc;nfase que enraivecia suas bases pol&iacute;ticas, a ponto de se tornarem prisioneiros delas, e n&atilde;o ganhavam a elei&ccedil;&atilde;o. S&oacute; que, naquela &eacute;poca&#8230;( toc toc toc, bate na madeira], batiam &agrave; porta dos quart&eacute;is. Bateram em 54, no suic&iacute;dio de Get&uacute;lio. Bateram em 55 para negar a posse a JK. Bateram em 61 para negar a posse a Jango. E olha que eu pulei Aragar&ccedil;as, Jacareacanga, epis&oacute;dios menores. Eu estou s&oacute; falando de coisas grandes at&eacute; que, em 1964, conseguiram. Naquela &eacute;poca, batiam na porta dos quart&eacute;is e iam pedir ajuda dos Estados Unidos para interromper o processo democr&aacute;tico porque sabiam que n&atilde;o ganhariam a elei&ccedil;&atilde;o.<br \/>Hoje em dia, no Brasil, n&atilde;o tem mais isso. As For&ccedil;as Armadas n&atilde;o entrariam mais numa aventura dessas e o ambiente internacional n&atilde;o permitira isso. Ent&atilde;o elas ficam fazendo uma coisa que n&atilde;o vai dar em nada. Porque n&atilde;o conseguem defender o que pensam. Acho que a cada esc&acirc;ndalo desses se produz um processo muito desagrad&aacute;vel para o Pa&iacute;s. Um mal-estar, um clima ruim que para o governo &eacute; ruim. O governo &eacute; obrigado a gastar energia para estar respondendo a coisas menores e coisas que n&atilde;o tem nem p&eacute; nem cabe&ccedil;a, como no caso da Varig agora. Quem &eacute; o maior prejudicado com isso &eacute; a oposi&ccedil;&atilde;o. Os caras falaram em cart&atilde;o corporativo. Perderam quatro meses e o fato &eacute; que as elei&ccedil;&otilde;es de 2010 est&atilde;o se aproximando. A areia da ampulheta est&aacute; caindo e a oposi&ccedil;&atilde;o continua sem discurso, sem saber o que fazer, sem saber o que prop&otilde;e, sem saber como disputa o eleitorado. E com uma agravante: o Lula teve 62% de votos nas duas elei&ccedil;&otilde;es e, segundo pesquisas, ele teria hoje uma aprova&ccedil;&atilde;o maior do que isso. Mas fiquemos no 62%. A oposi&ccedil;&atilde;o, a menos que o governo viva um processo pol&iacute;tico de um desgaste monumental, uma crise na economia &#8211; e eu n&atilde;o vejo nenhum cen&aacute;rio apontando para isso &#8211; como &eacute; que a oposi&ccedil;&atilde;o pode aspirar a conquistar a maioria do eleitorado, fazendo com que parte do eleitorado que votou no Lula se desloque dessa posi&ccedil;&atilde;o e passe a apoiar as bandeiras da oposi&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Quais seriam estas bandeiras?<\/strong><br \/>A primeira provid&ecirc;ncia: a oposi&ccedil;&atilde;o precisa tratar os apoiadores do Lula com respeito. &ldquo;Voc&ecirc;s votaram no Lula porque receberam a esmola do Bolsa-Fam&iacute;lia, porque voc&ecirc;s foram corrompidos, &eacute; um novo coronelismo&rdquo;. Quando entra com o discurso &ldquo;esse sujeito &eacute; um ladr&atilde;o&rdquo;, &ldquo;esse governo &eacute; um governo de patifes&rdquo;, ela n&atilde;o estabelece pontos de contato para ser ouvida. O apoiador do Lula vai dizer: &ldquo;&eacute; a oposi&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o se conforma de n&atilde;o mandar mais no Pa&iacute;s&rdquo;. Ent&atilde;o ela n&atilde;o consegue dialogar, conversar com a fatia de eleitorado do Lula, e assim n&atilde;o consegue sequer promover um inicio de deslocamento do lado de l&aacute; para poder ganhar.<br \/>Por isso, a oposi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o sabe o que dizer, n&atilde;o tem programa, n&atilde;o tem acordo e agride ou pelo menos trata de forma pejorativa o eleitor do outro lado. Eu n&atilde;o entendo onde ela quer chegar. Eu n&atilde;o falo isso com jubilo, falo isso chateado. Seria &oacute;timo ter uma oposi&ccedil;&atilde;o forte no Pa&iacute;s. Mas uma oposi&ccedil;&atilde;o forte precisa ser uma oposi&ccedil;&atilde;o s&eacute;ria, uma oposi&ccedil;&atilde;o que pega os erros do governo, aponta, critica e for&ccedil;a o governo a ser melhor, a se aproximar dos pontos de vista dela. Ela n&atilde;o prop&otilde;e uma a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica que constr&oacute;i politicamente para fazer disputa pol&iacute;tica na sociedade. Para isso, teria que defender o que ela pensa. Ela n&atilde;o pode esconder o que ela pensa e querer com esse artif&iacute;cio introduzir um elemento que &eacute; artificial na pol&iacute;tica hoje. E a popula&ccedil;&atilde;o percebe isso.<\/p>\n<p><strong>No in&iacute;cio do seu primeiro governo, o presidente Lula fez um apelo &agrave; sua equipe: &ldquo;n&oacute;s s&oacute; n&atilde;o podemos errar na pol&iacute;tica&rdquo;. A imprensa e a oposi&ccedil;&atilde;o temiam o caos na economia. Aconteceu exatamente o contr&aacute;rio: com indicadores favor&aacute;veis na economia e nas &aacute;reas sociais, &eacute; na pol&iacute;tica que se concentram as maiores dificuldades do governo, mesmo tendo maioria nas duas casas do Congresso. Como o senhor explica essa contradi&ccedil;&atilde;o? H&aacute; uma solu&ccedil;&atilde;o &agrave; vista?<br \/><\/strong>Eu concordo que, no primeiro mandato do Lula, os principais problemas do governo estavam na pol&iacute;tica. Embora ele vivesse um momento muito tenso na quest&atilde;o econ&ocirc;mica, pelo ajuste que teve que fazer e pela incompreens&atilde;o que isso gerou na base dele. Do primeiro para o segundo mandato, o governo reequacionou os instrumentos de a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dele. A rela&ccedil;&atilde;o com a imprensa, que &eacute; parte disso, tornou-se mais profissional, embora permane&ccedil;a com um grau de tens&atilde;o grande. Mas ela &eacute; administrada de forma mais profissional. Acho que a rela&ccedil;&atilde;o com os partidos e o Congresso melhorou. Hoje em dia voc&ecirc; tem um Conselho Pol&iacute;tico, tem 14 partidos na base aliada, o governo entendeu a import&acirc;ncia de um partido como o PMDB na sua base e isso d&aacute; condi&ccedil;&otilde;es ao governo de um trabalho parlamentar menos tumultuado que o do mandato anterior. <\/p>\n<p><strong>Mas recentemente o governo sofreu uma dura derrota na vota&ccedil;&atilde;o da CPMF.<\/strong><br \/>Na CPMF n&atilde;o me surpreendeu. Nunca achei que o governo tinha os 60% dos votos no Senado. Mas acho normal. Vai ganhar algumas vota&ccedil;&otilde;es, vai perder outras, e isso faz parte do processo pol&iacute;tico. Acho, no entanto, que essas dificuldades n&atilde;o t&ecirc;m a ver com o governo, t&ecirc;m a ver com o nosso sistema pol&iacute;tico. Eu continuo com a avalia&ccedil;&atilde;o que tinha antes de vir para o governo e apenas se consolidou de que o Brasil precisa desesperadamente de uma Reforma Pol&iacute;tica.<\/p>\n<p><strong>Por que ent&atilde;o o governo n&atilde;o toma esta iniciativa?<\/strong><br \/>Porque quem vota a Reforma Pol&iacute;tica s&atilde;o os pol&iacute;ticos. A Reforma Pol&iacute;tica tem que ser aprovada no Congresso. Em determinadas circunst&acirc;ncias, ela tem que ser aprovada por 3\/5 do Congresso, da C&acirc;mara e do Senado duas vezes. Vamos pegar o in&iacute;cio desse governo: come&ccedil;ou-se a discutir a necessidade da Reforma Pol&iacute;tica. Apareceram as propostas de voto em lista fechada. Porque daria condi&ccedil;&atilde;o de fortalecer os partidos, embora com o risco de fortalecer excessivamente a burocracia dos partidos. Tenderia em m&eacute;dio prazo a ter um processo de consolida&ccedil;&atilde;o de alguns partidos e permitiria uma coisa muito importante, o financiamento p&uacute;blico. Porque a&iacute; voc&ecirc; financiaria o partido, e n&atilde;o os candidatos. Se voc&ecirc; financia individualmente o candidato, daqui a pouco, vira profiss&atilde;o. A pessoa se candidata para receber dinheiro. Come&ccedil;a a discuss&atilde;o e, nesse caso, n&atilde;o se precisaria 3\/5, n&atilde;o alteraria a Constitui&ccedil;&atilde;o. <br \/>Setores da oposi&ccedil;&atilde;o fazem a seguinte avalia&ccedil;&atilde;o: isso favorece principalmente o PT. Porque &eacute; o partido com identifica&ccedil;&atilde;o com o presidente e como a sigla mais forte isso fortaleceria o PT. &ldquo;Ent&atilde;o n&oacute;s somos contra&rdquo;, disse a oposi&ccedil;&atilde;o. O PSDB respondeu o seguinte: s&oacute; aceito reforma com o voto distrital. Voto distrital precisa reforma da Constitui&ccedil;&atilde;o, precisa dos 3\/5. Ent&atilde;o, quer dizer: n&atilde;o haver&aacute; reforma alguma. Chegamos a um emparedamento nessa quest&atilde;o. O que eu defendo como sistema adequado seria um sistema misto, mais ou menos como o que existe na Alemanha, onde a C&acirc;mara &eacute; formada com base no voto proporcional. O eleitor vota duas vezes, no distrito e num partido nacionalmente. A C&acirc;mara &eacute; formada proporcionalmente pelos votos no partido. Uma parte dela &eacute; formada pelos distritais e uma parte por lista fechada. Eu acho que &eacute; o melhor sistema.<\/p>\n<p><strong>Com uma oposi&ccedil;&atilde;o fraca e sem rumo e uma m&iacute;dia forte, alguns setores da imprensa e jornalistas acabam assumindo o papel de partidos pol&iacute;ticos. Como &eacute; lidar no dia-a-dia com essa anomalia institucional?<\/strong><br \/>Com humildade. Eu sei que n&atilde;o est&aacute; sob meu poder mudar isso. Se existe um determinado jornalista ou &oacute;rg&atilde;o de imprensa querendo ir al&eacute;m de suas chinelas, eu n&atilde;o posso evitar isso. O que posso fazer &eacute; tratar todos de forma profissional e respeitosa e confiar nos leitores, telespectadores e ouvintes. Eu estou absolutamente convencido que o Brasil n&atilde;o &eacute; um Pa&iacute;s de coiotes, de jacus, que acreditam em qualquer coisa que falam para ele. A popula&ccedil;&atilde;o pode se confundir, ser objeto de algum tipo de manipula&ccedil;&atilde;o, por um per&iacute;odo curto, mas em um per&iacute;odo hist&oacute;rico mais amplo os fatos aparecem, a verdade aparece. Como no caso da TAM. Nunca vi tanto especialista em grooving como naquela &eacute;poca e hoje em dia as pessoas sabem que n&atilde;o teve problema de grooving, as pessoas sabem que houve uma falha mec&acirc;nica combinada com uma falha humana. <\/p>\n<p><strong>E como ficou o governo nesta hist&oacute;ria do caos a&eacute;reo?<\/strong><br \/>Isso quer dizer que n&atilde;o houve erros do governo na administra&ccedil;&atilde;o do setor a&eacute;reo? Claro que houve, mas isso n&atilde;o quer dizer que aqueles erros provocaram o acidente. A popula&ccedil;&atilde;o forma sua avalia&ccedil;&atilde;o quando consegue debater, discutir, por isso que a democracia &eacute; importante. Ela acaba formulando avalia&ccedil;&otilde;es muito mais equilibradas. Eu sou muito tranq&uuml;ilo quanto a isso. &Agrave;s vezes, eu ponho em d&uacute;vida essa cren&ccedil;a porque voc&ecirc; olha e diz: &ldquo;de novo? Ser&aacute; que nunca aprendem?&rdquo;. A vida &eacute; assim mesmo e vamos em frente.<\/p>\n<p><strong>Nas muitas viagens que o senhor j&aacute; fez com o presidente Lula pelo Brasil, quais foram as cenas que mais o marcaram e que simbolizam o atual momento vivido pelo Pa&iacute;s?<\/strong><br \/>Foram duas coisas que me marcaram muito. Elas ocorreram em abril deste ano. A primeira aconteceu no dia em que o presidente foi dar a autoriza&ccedil;&atilde;o para o in&iacute;cio das obras, assinar a autoriza&ccedil;&atilde;o do in&iacute;cio das obras nas favelas do Alem&atilde;o, da Rocinha, de Manguinhos. A descida da favela da Rocinha me deixou arrepiado porque eu sou do Rio, conhe&ccedil;o bem a Rocinha. O ato foi no alto da Rocinha, onde tem uma esp&eacute;cie de campo de futebol, uma quadra onde ser&aacute; constru&iacute;do um hospital, as obras j&aacute; est&atilde;o avan&ccedil;adas. Na descida pela antiga estrada da G&aacute;vea, a popula&ccedil;&atilde;o ocupou a rua e formou assim um corredor dos dois lados ao longo de 1,5km, 2km, que &eacute; o que tem aquele trecho. <br \/>Uma coisa absolutamente espont&acirc;nea e com uma enorme alegria. E ent&atilde;o voc&ecirc; via os acenos, ouvia aplausos das pessoas nos pequenos pr&eacute;dios e apartamentos que tem ali. A Rocinha tem muitos sobrados de tr&ecirc;s andares&#8230; As pessoas foram chegando nas janelas, algumas com bandeiras do Brasil. E voc&ecirc; sentia o seguinte: havia uma enorme alegria na favela porque ela estava sendo tratada com respeito. Isso para mim foi uma coisa que marcou. <br \/>Duas semanas depois, o presidente foi ao Rio Grande do Sul. Na cidade de Rio Grande, visitou as obras do dique seco, que a Petrobras est&aacute; construindo l&aacute;, que vai ser uma f&aacute;brica de cascos de navio, de plataformas, etc. E l&aacute; que est&atilde;o construindo a P-53 que est&aacute; quase finalizada. Ou seja, um local em que a ind&uacute;stria naval hoje em &eacute; uma ind&uacute;stria de peso. E ela praticamente n&atilde;o existia antes. A P-53 &eacute; uma coisa que impressiona, &eacute; do tamanho de um Maracan&atilde;. Ela est&aacute; fundeada junto ao cais e na chegada voc&ecirc; tinha ali, provavelmente, uns 5 mil oper&aacute;rios. A rea&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores foi de uma for&ccedil;a, tamb&eacute;m absolutamente espont&acirc;nea. Foram gritos de entusiasmo, de alegria, v&aacute;rios dizendo coisas positivas para o Lula. &ldquo;Lula, voc&ecirc; &eacute; um oper&aacute;rio que chegou l&aacute;&rdquo;, &ldquo;Voc&ecirc; &eacute; um como a gente que est&aacute; aqui&rdquo;, &ldquo;A nossa dignidade voc&ecirc; restituiu, hoje em dia n&oacute;s temos emprego&rdquo;. <\/p>\n<p><strong>&ldquo;Voc&ecirc; &eacute; um como a gente&rdquo;, parece que resume tudo&#8230;<\/strong><br \/>&Eacute; uma coisa fort&iacute;ssima, pessoas chorando ali e at&eacute; na comitiva do presidente. Ent&atilde;o voc&ecirc; sente o seguinte: pessoas que h&aacute; dois, tr&ecirc;s anos n&atilde;o tinham emprego, agora acham que est&aacute; dando certo e confiam que vai dar certo. O clima que existe &eacute; o seguinte: o Brasil tem jeito, o Brasil pode ser o que a gente acha que ele deveria ser. As pessoas voltaram a confiar no Pa&iacute;s e na sua capacidade. E isso n&atilde;o tem pre&ccedil;o. Como no an&uacute;ncio do cart&atilde;o de cr&eacute;dito: isso n&atilde;o tem pre&ccedil;o.<\/p>\n<p><strong>Quais s&atilde;o seus planos para o final do seu trabalho no governo Lula em 31 de dezembro de 2010: voltar para as reda&ccedil;&otilde;es, entrar na carreira pol&iacute;tica ou pendurar as chuteiras?<br \/><\/strong>Entrar na carreira pol&iacute;tica n&atilde;o est&aacute; nos meus planos. Eu n&atilde;o sei o que eu vou fazer. Eu sei o que eu n&atilde;o vou fazer. Eu n&atilde;o vou mais ler jornal ruim. S&oacute; vou ler jornal que eu acho que &eacute; bom. <\/p>\n<p><strong>Quais?<\/strong><br \/>A&iacute; n&atilde;o posso ir t&atilde;o longe. Eu quero terminar um trabalho que eu tive de interromper sobre m&uacute;sica brasileira que estava quase pronto. De 1902 para c&aacute;, tenho as grava&ccedil;&otilde;es, desde a primeira do Isto &eacute; bom.<\/p>\n<p><strong>H&aacute; quanto tempo voc&ecirc; trabalha nisso?<\/strong><br \/>Pesquiso h&aacute; sete anos. Eu tenho 600 m&uacute;sicas levantadas desde 1902 para c&aacute;. Tenho os cap&iacute;tulos escritos at&eacute; quase o golpe, at&eacute; 1964. Precisaria ainda de mais ou menos quatro meses de trabalho, porque a pesquisa, que era o mais importante, falta pouco para terminar. Quando sair do governo, vou fazer isso. Primeiro, porque eu gosto; segundo, acho que far&aacute; bem ao Pa&iacute;s, terceiro, &eacute; uma coisa que pode ser uma contribui&ccedil;&atilde;o para a hist&oacute;ria da nossa m&uacute;sica. O que eu vou fazer depois eu n&atilde;o sei, eu quero dar um tempo para mim. A id&eacute;ia &eacute; que seja um livro e que tenha uma cole&ccedil;&atilde;o de m&uacute;sicas que est&aacute; tudo em mp3. Eu n&atilde;o quero fazer uma coisa com 600 m&uacute;sicas, mas algo com 350, 400&#8230; Eu tenho uma sele&ccedil;&atilde;o j&aacute; feita, o resto eu boto em um site e quem quiser vai l&aacute;. A id&eacute;ia do t&iacute;tulo seria &ldquo;A m&uacute;sica e a Rep&uacute;blica: 1902 &ndash; 2002&rdquo; porque iria at&eacute; a primeira elei&ccedil;&atilde;o do Lula. Depois que eu terminar quero dar um tempo pra mim pra ficar um pouco mais &agrave; vontade.<\/p>\n<p><strong>Onde voc&ecirc; pretende morar depois que sair do governo?<\/strong><br \/>H&aacute; 21 anos estou em Bras&iacute;lia. Eu quero continuar aqui. Eu gosto muito de Bras&iacute;lia.<\/p>\n<p><strong>&Eacute; raro algu&eacute;m falar isso.<\/strong><br \/>Em geral, &eacute; gente que n&atilde;o mora em Bras&iacute;lia. &Eacute; quem vem de fora e fica em hotel. Quem mora h&aacute; muito tempo aqui, gosta de Bras&iacute;lia. Meu ideal de felicidade &eacute; comer peixe frito na beira do mar&#8230; andar na praia de manh&atilde;&#8230; pescar&#8230; Pescar, n&atilde;o, n&atilde;o gosto de pescar. N&atilde;o d&aacute;.<\/p>\n<p><em>* Esta entrevista foi originalmente publicada em quatro partes pelo jornalista Ricardo Kotscho, em sua <a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/ricardo_kotscho\/veja_mais\/noticias.html?ini=0\">coluna para o &Uacute;ltimo Segundo.<\/a> <br \/><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ministro fala sobre a rela\u00e7\u00e3o m\u00eddia e governo no segundo mandato de Lula<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[793],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21417"}],"collection":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21417"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21417\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21417"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21417"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21417"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}